Mirrors
4 Qual é?
Notas iniciais
“...Olhando o mundo lá fora vai perceber que você nunca soube quem é..
...o preconceito, esse nunca atrasou. Vestindo um dolce gabana um
Político vota contra nosso amor.
Ai ja é tarde, sem lei, rodou de pai pra filho o mesmo que é,
Ensinou a chacina, não gay, babaquice, passou de mané pra mané. Qual é?
Zera seus traumas, enganos, é dor que dói anos e não se desfaz.
Pedaços de vida, lembranças, a gente não escolhe o que a memória trás.
...Na espera de ser quem eu era não espero do mundo um futuro sem mim...
Sou quem eu quiser, no meu, seu abismo, cinismo eu mando meu tchau, meu
adeus, meu até “
Não consegui fazer uma ligação, uma simples ligação! Preciso de crédito para ligar e meu dinheiro ainda não caiu. Depois dizem que na cadeia é lugar de ligação fácil. Não quero pedir a Ruby, ela já está me ajudando demais.
Novamente pensei sobre ela, ela disse que uma amiga pediu para ela cuidar de mim, porém sempre foge quando pergunto que amiga é essa. Penso que não pode ser o Korsak, pois ele é homem, seria amigo. Porém essa “amiga” conhece o Korsak, já que Ruby foi colocada na mesma cela que eu. E esse alguém gosta de mim, pois quando pisei nesse lugar a primeira coisa que escutei era que eu deveria procurar pela Ruby, e não é a Jane. É claro que não seria a Jane! Por que a Jane me ajudaria depois de tudo? Não! Definitivamente não é a Jane.
– Helo! Helo! Sangue azul. Hora do seu encontro com o orientador – não pude deixar de rolar os olhos ao ouvir a voz do guarda-mal-humor.
– Eu tenho nome sabia?
– Não me interessa seu nome. ANDA! PELO CORREDOR DETENTA! – precisa gritar bem no meu ouvido? Esse guarda abusa muito do poder. A voz dele entrou no meu ouvido esquerdo e tive a impressão que saiu no direito até cantando pneu.
– Sente se. – Um homem que se Jane o visse falaria que ele esteve na arca de Noé pediu educadamente que eu sentasse. Acho que a Ruby se enganou, meu orientador não é tão “tipo muito dos chatos” como ela disse. – Qual seu nome, por favor?
– Maura Isles. – Ele procurou em uma pilha de papéis minha ficha. E a leu devagar, devagar demais, eu estava quase me perguntando se ele havia dormido sentado. Tossi para ter certeza que ele não havia dormido e ele levantou os olhos sobre os óculos, me encarando, corei.
– Maura Isles, eu prefiro chamar as detentas pelo primeiro nome, já que temos famílias aqui, e fica um pouco confuso chamando apenas pelo sobrenome. Então você é médica né. Bom, muito bom. – não sou de rezar, mas nesse momento rezei a santos, monges, budas, deuses e sei lá mais o que, que esse homem não me coloca-se naquela enfermaria cheia de tétano.
– Acredito que nesse lugar ser médica não é tão bom assim. – ele me encarou, aqueles olhos pequenos me estudavam.
– Não. Realmente não é. E te aconselho a não falar isso para as outras detentas, você já terá problemas demais com o seu jeito e beleza, e você tem beleza de sobra. – espero que esse homem não esteja me cantando. Só espero. Espero muito.
Ele colocou os magros cotovelos na mesa, se aproximando e me encarando sobre as pilhas de papéis. – Maura, aqui não é OZ, mas também não é igual aquela série de prisioneiras, Orange is the new Black. – deu na mesma pra mim camarada, desconheço essas referências, nunca me interessei em assinar Netflix – Então não se preocupe em apanhar igual no OZ, claro a menos que você procure por isso. – segurei a vontade de rolar os olhos.
– Não pretendo fazer isso senhor. – Não sou lutadora de MMA meu filho. Será que Jane está vendo aquelas lutas com aqueles trogloditas agora? Com certeza deve estar. Deve estar no sofá com uma cerveja no colo e gritando com a TV.
– Assim espero. E aqui também não é Orange, então não espere encontrar cigarros, namoradas sapatão gostosinhas e toda aquela liberdade. Você está afastada da sociedade, não espere gozar das mesmas coisas das pessoas que não cometeram crimes como você. – ele falou tudo olhando nos meus olhos, parecia ter raiva na voz dele. Me senti intimidada.
– Eu não fumo senhor, e nem pretendo criar relacionamentos aqui.
– Assim espero. – ele repetiu, novamente controlei a vontade quase incontrolável de rolar os olhos e dei razão a Ruby, ele é “tipo muito dos chato”.
– Recebi um comunicado da diretoria mais cedo. – finalmente minhas cartas foram ouvidas, ou melhor, lidas– E você tem amigos muito poderosos lá fora, Maura. Incluindo um tenente da policia de Boston, o governador e mais um monte de Dolce & Gabana que adoram exibir o poder.
– Trabalhei muitos anos com a policia daqui senhor. Também trabalhei com o governador, e minha é família muito respeitada em Boston.
– Isso não me interessa nem um pouco Srta riquinha. Aqui você é uma delinquente como todas as outras mulheres desse lugar, entendeu? – ele retirou algumas folhas de dentro de uma gaveta e a jogou bruscamente sobre a mesa. – E não adianta mandar cartinhas para o diretor.
– Elas foram enviadas para o diretor, não deveriam estar sobre seu poder.
– Só chega às mãos do diretor através das minhas mãos, queridinha. – sim, rolei os olhos, não pude segurar a vontade, e ele ficou muito, mas muito irritado com meu gesto.
– Mais alguma coisa senhor?
– Tem algo importante pra fazer agora detenta? – perguntou ironicamente e de novo revirei os olhos o fazendo bufar.
– Matar baratas e ratos talvez. Afinal isso aqui tem de sobra. – desculpe, não aguentei, tive que provocar, foi mais forte que eu, e vi o rosto dele ficar vermelho.
– Ok então. Fique a vontade matando os ratos e baratas na cozinha. – o que?!
– Como assim?
– Você vai para a cozinha. Vai ser auxiliar de cozinha. – gelei, se eu já não tinha vontade de comer a comida de lá, imagina vendo como ela é feita?
Observei o meu orientador gritar chamando pelo guarda-mal-humor.
– DETENTA! LEVANTA E ANDA! RÁPIDO! – nem preciso dizer quem me gritou isso né.
– Senhor, — me virei para o orientador – desculpe, mas você não me falou seu nome.
Ele sorriu – Noah, meu nome é Noah Reese. [em português seria Noé]
Ah claro! Claro que tinha que ser Noah! Bem que eu me senti na Arca, cercada por animais, incluindo esse cavalo que adora apertar meu pobre braço enquanto me arrasta para a cozinha.
Qual é? – Ana Carolina
Estava deitada no meu beliche estudando as ranhuras do teto quando vi pelo canto do olho alguém entrar sorrateiramente na cela em que eu estava. Pelo cabelo preto com mechas ruivas só podia ser uma pessoa.
– Você não devia estar trabalhando mocinha? – a “mocinha”, também chamada de Ruby quicou e deu um pequeno grito de susto.
– Ai nossa! Quase enfartei! — E o que você tá fazendo aqui? Já não devia, tipo, sei lá, tá fazendo alguma coisa em algum lugar? – ela escondia algo na mão, me sentei curiosa na beirada do meu beliche, balançando as pernas no ar.
– Hoje não. Hoje é dia de inventariar o estoque na cozinha, não me querem lá hoje. Então acho que estou de folga.
– Que jeito estranho de aproveitar a folga. – parece que o que ela esta escondendo na mão tentou escapar, a fazendo agir rápido, tentando segurar a tal coisa.
– E você não respondeu a pergunta que eu te fiz. – novamente esse algo na mão dela tentou escapar, já me deixando desesperada. – O que é isso que você tá escondendo Ruby?!
– Não surta Doc. – me pediu com olhos pidões, como uma criança que pede por balão colorido, essa menina é uma criança. – Eu tipo... peguei ela na lavanderia.
Ela? Quem é essa ela? Oh Senhor! E ela abriu a mão, adivinha só! Era uma barata gigante! Se fosse um rato, seria irmã do Marco Túlio! Senti minha pressão cair, até parei de balançar as pernas.
– Ela não é linda?! Olha como as asinhas dela brilham, olha. – disse ao levantar a mão e me mostrar aquele bicho nojento, e estava tão empolgada, como se estivesse me apresentando seu poodle branco e pompom... Deixa! Não quero gritar agora, prometi que não faria mais escândalos por causa de animais ou bichos nojentos como aquele na mão daquela louca.
Jamais apertarei a mão de Ruby na vida! Então falei pausadamente para ela escutar e entender.
– Ruby. Por. Que. Você. Trouxe. Esse. Bicho. Asqueroso. Para. Nossa. Cela? – e ela me olhou confusa . Só posso ter dançado Pole Dance na cruz, não tem condição tanto azar para uma Maura só.
– Quero pregar uma peça na ursa. – quem?
– Quem é ursa? – por que esse povo aqui da apelido pra tudo meu Deus? Só pode ser doença!
– É a mulher da beliche aqui de frente a nossa. Esqueci o nome dela. Mas vou colocar essa lindeza debaixo do travesseiro dela.
– Quantos anos você tem? – ela só pode ser uma criança, uma criança muito louca.
– 19. Por que? Pareço ter menos? – Oh sim muito menos, CINCO ANOS TALVEZ – Ah qual é Doc? Vai ser divertido!
– Pra você! Se fosse comigo eu teria um aneurisma! – já disse que ficarei louca nesse lugar?
– Você não sabe se divertir. Será que essa baratinha é um menino ou uma menina?
– E isso importa? – louca! Ela é louca! E vou ficar louca igual a ela!
– Claro que sim! Como vou dar um nome pra ela se não sei o sexo? – disse preocupada
– Você quer dar nome a uma barata? – por que ainda estou aqui perguntando?
– Nunca teve um animal exótico de estimação não Doc? São como filhos especiais tá.
E a louca, vulgo Ruby, sentou na cama da tal Urso e começou a CONVERSAR COM A BARATA! Isso mesmo que você leu! Ela conversava com a barata, e tinha muitos assuntos por sinal. E como não sabia o sexo da nova amiga, colocou dois nomes, um masculino e ou outro feminino em homenagem a dois cantores que ela gosta.
Agora divido a cela com Katy Bieber. Ah! E também com uma criança de cinco anos chamada Ruby.
– Eu quero conversar! Dá pra me dar atenção? Talvez essa seja nossa última conversa sabia?
– Pára de ser dramática Jane. – sorri com o medo de voar da minha amiga.
– Estamos prestes a entrar em um caixão de ferro, que só Deus sabe como aquele troço pesado demais voa. Então, não estou sendo dramática. Estou sendo realista.
– Pessoas morrem mais em acidentes de carro do que de avião.
– Mas ao menos em acidentes de carro tenho mais chance de sobreviver. Me fala quantas pessoas sobreviveram a queda de avião.
– Bom, se cair na água...
– Não! Esquece! Não me conta! – disse fechando os olhos em um claro sinal de não imaginar a cena. – Vamos falar de outra coisa. Que tal nosso próximo bicho de estimação? Não temos mais nenhum mesmo. Então será como um filho para nós, vamos dividir a guarda dele e tudo. Que tal um labrador? Podemos até chamar ele de Marley e rezar pra ele não comer e destruir tudo.
– São grandes e bagunceiros. E você já teve um cachorro e até aonde sei ele comeu seu sofá.
– Verdade, um grande comeria meu apart. Que tal uma calopsita?
– Aves precisam ficar soltas, vivem de liberdade. Fora que na minha casa a sua mãe surtaria com o barulho de manhã e você mora em um apartamento, não dá.
– Tem isso né. Um gato?
– Gato transmite toxiplasmose e eu não quero ser conhecida como a tia dos gatos, já basta eu estar solteira.
– É... Também estou encalhada. Pega mal. Tartaruga você já teve. – Jane juntou as sobrancelhas e parecia estar concentrada. – Que tal uma iguana ou camaleão? É exótico.
– Camaleão Jane? - perguntei incrédula. Depois ela ainda fala que sou eu quem gosto de ter animal de estimação estranho, olha aí o que ela está oferecendo para dividir a guarda comigo.
– Sim camaleão. Você vai amar quando ele mudar de cor. Aposto que vendem isso em Vegas. Lá vende tudo que é coisa estranha mesmo.
– Tá bom, e como será o nome desse “nosso filho camaleão”?
– Que tal Taylor Swift? Ou Lady Gaga? Se for macho... Deixa eu pensar... Se for macho você escolhe o nome. — Que nomes estranhos são esses meu Deus?! Jane precisa urgente parar de andar com a aquela oficial novata, é sério! Já tá afetando o cérebro dela! Qualquer dia terei que levá-la a algum show com faxetaria de 14 anos.
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