Mirrors
5 Helo
Notas iniciais
“Olá do outro lado!
Eu devo ter ligado mil vezes para contar que
Eu sinto muito por tudo que eu fiz.
Mas quando eu ligo parece que você nunca está em casa.
Ola do lado de fora
Pelo menos eu posso dizer que tentei te dizer
Me desculpe por partir seu coração.
Mas não importa, isso claramente não te machuca mais.”
– Jane, essas cantoras teens que você cismou ouvir agora, falam demais de ex namorados ou namoros que não vão dar certo. Tem alguma coisa que você quer me contar?
– Maura, você disse que queria ouvir música durante nosso voo. Quer ou não ouvir minha playlist?
– Mas você não vai colocar aquela cantora que só fala de ex namorado não né? Sério, ela deve ter uns 15 ex — namorados. E muito menos aquela lá que adora uma festa e fala coisas esquisitas.
– Não, sem Taylor Swift ou Katy Perry. E a Katy não fala coisas esquisitas, fala gírias.
– São palavras sem sentido Jane. E você também não vai colocar aquela que só fala de dança, sexo e apelo religioso não né. Ela me assusta.
– Sem Gaga também. – Jane ainda procurava por uma música para ser a nossa trilha sonora do avião
– E nem aquela depressiva. Estou alegre e não quero entornar um litro de álcool no meu sangue não.
– Sem Lana Del Rey também. O que na minha opinião é um exagero seu.
– E pelo amor de Deus! Nem aquela que a gente escuta e quer chorar pelos ex. É sério! Eu não quero chorar.
– Maura, a Adele está acima do bem e do mal. Não fale dela assim.
– Ela me da vontade chorar Jane. E confesso que depois da sua amizade com a oficial novata... você está me assustando.
– Por que?
– Sei lá, depois vai querer me arrastar para algum sofá e ter uma maratona de crepúsculo. Ou me levar há algum show dessas teens ai. E se você começar a ler 50 tons de cinza eu vou te recomendar um amigo que formou comigo, ele é um ótimo psiquiatra...
– Maura, se eu chegar ao ponto de fazer alguma dessas coisas, pega minha arma e atira em mim. Bem aqui no meio da testa, por favor.
– Prometo.
– E como você sabe dessas coisas? Tá sabendo demais sobre o filme do lobinho e os livros da deusa interior.
– Sua mãe. Ela gosta de filmes de vampiro.
– Aquilo não são vampiro, são vagalumes afeminados.
– E ela também leu a trilogia dos 50 tons e comentou comigo. Ela ficou bem empolgada.
– Pior do que imaginar minha mãe transando é imaginar ela lendo esses livros estúpidos para adolescentes virgens.
– Pelo amor de Deus, já estou presa, piora meu inferno com essa sabe-tudo não! – A cozinheira do presídio entrou na sala do orientador quase derrubando a porta no peito, gritando para quem quisesse e não quisesse ouvir. – Ela fala de tudo! Reclama de tudo! Reclama que as carnes não estão “devidamente armazenadas”, que as facas de madeira “não são apropriadas”. Isso sem contar as estatísticas de tudo que ela faz questão de contar! Prefiro ir pra segurança máxima a trabalhar com essa mulher!
– Samara, vamos com calma. Ela só está em sua cozinha há três dias. O que aconteceu? – Noah tentou apaziguar. Boa sorte. Tentei acalma-la, mas quanto mais eu falava, mais ela ficava vermelha e gritava
– O QUE ACONTECEU? Você quer dizer o que não aconteceu, né? – Essa senhora está muito vermelha, está me assustando, é sério. – O que não aconteceu é eu ainda não ter caído dentro dessa loira sabichona! ISSO QUE AINDA NÃO ACONTECEU!
– Desculpe interromper, mas o que significa essa expressão “cair pra dentro”? – pensei mil coisas, mas é melhor perguntar antes de criar teorias errôneas. E os dois me olharam incrédulos, como se eu tivesse matado alguém.
– VIU? Viu só?! É ISSO O DIA TODO DE DEUS!! – acho melhor essa senhora se acalmar antes de passar mal, já está ficando mais vermelha que o pimentão que ela cortava, e que eu fui cortês em dizer que eles estavam grandes demais, tadinha.
Antes que eu pudesse enumerar os problemas que o estresse causa, o Noah, pseudo tipo-muito-dos-chatos nos interrompeu mandando a senhora da cozinha sair. E ela obedeceu, claro que antes sussurrou alguma coisa pra mim, mas não fiz questão de escutar pois havia raiva na voz dela. As pessoas aqui adoram sussurrar, principalmente quando passo pelos corredores, não entendo isso. E também adoram falar rispidamente comigo, não entendo o que posso ter feito de errado.
– Sente–se senhorita Maura Isles. –Me chamou pelo nome e sobrenome, vou levar bronca. Porém não entendo o porquê, já que fiz um serviço social ao informar todos os defeitos daquela cozinha que não deveria ser transitada, dá pra pegar uma intoxicação séria só por passear por lá.
O tipo-muito-dos-chatos tirou os óculos e começou a massagear os olhos e depois as têmporas, parecia cansado coitado. Pensei em lhe indicar um ótimo chá relaxante, mas achei melhor não piorar minha situação, apenas fiquei calada, coluna ereta, mãos no colo e pernas cruzadas, como uma boa menina deve ser.
O sapinho faz hum ha hummm, comecei a cantarolar mentalmente enquanto esperava o ilustre orientador falar, eu já estava começando a ficar nervosa.
– Senhorita Isles, realmente não sei o que devo fazer com você. – recolocou os óculos e remexeu na cadeira. – Ainda não completou uma semana que você está aqui e você já me causou mais problemas do que as piores detentas violentas que já tive.
– Quais problemas senhor?
– Tenho mesmo que repetir? – Claro né! Por que então eu me daria ao trabalho de perguntar?
– Por favor, senhor.
– Olha senhorita – respirou fundo, tirando um papel da pilha e uma caneta. – Vou te transferir de serviço, prefiro que você abarrote outro lugar a irritar nossa cozinheira, afinal eu também almoço lá. – tadinho, por isso está tão desnutrido. Se eles seguissem as indicações alimentares que recomendei....
– Senhor — o chamei levantando o indicador – Já dei muitas aulas, posso ser útil nas aulas noturnas.
– Nós não temos aulas noturnas senhorita Isles.
– Mas no vídeo de boas vindas dizia que essa instituição fornecia aulas noturnas – olha a propaganda enganosa ai gente! Vou colocar isso na minha próxima carta – E as detentas que não sabem ler bem? Como ficam?
– AQUI NÃO É UMA COLÔNIA DE FÉRIAS queridinha. Se elas quisessem ser educadas deveriam procurar uma escola, não crimes. – acho melhor eu ficar calada, ele está realmente bravo. – Vá para sua cela, amanhã te reposiciono, não estou com cabeça agora.
– Ruby?! – entrei na área de serviço procurando por minha companheira de cela – Você está aí?
– Tô! Pode entrar Doc. – Entrei naquele depósito enorme onde eram guardados os produtos de limpeza, cozinha, entre outras coisas. Pensei em reclamar que alimentos não podem ficar perto de produtos fortes, mas acho melhor não fazer isso agora, acho que ninguém irá me ouvir além de Ruby... Deixarei essa reclamação para minhas cartas.
– Onde você está? – perguntei e após alguns passos a encontrei deitada sobre alguns papelões no chão. Pelos olhos inchados e pequenos, ela estava com certeza dormindo. – Você estava dormindo Ruby?
– Eu? Dormir em trabalho? Jamais! Estava pensando um pouco na vida.
– Sei – e isso é o mais próximo de uma amiga que eu posso ter aqui. – Queria pedir um favor.
Ela sentou de prontidão, olhos curiosos em mim – Ao seu dispor Doc. – sorri com a forma carinhosa que ela me falou. Sim, tenho uma amiga aqui.
– Quero muito fazer uma ligação, porém meu dinheiro ainda não caiu. Posso usar seus créditos? Prometo pagar tudo!
– Meu código é 19383, só informar ele para a atendente que ela libera sua ligação. E não preocupe em pagar, uma pessoa lá do mundo real está colocando esses créditos pra mim.
– Sim, obrigada . – Ruby ainda me olhava curiosa.
– Doc, chama essa pessoa que você vai ligar pra vir te visitar amanhã. É sempre bom ver rostos conhecidos.
O telefone chamava e a cada tom que ele dava, sentia meu coração bater um pouco mais forte, mais rápido. Após a gravação chata, ouvi uma das vozes conhecida que eu tanto sentia falta.
– Finalmente Maura! – senti meus olhos encherem de lágrimas.
– Saudade ouvir sua voz. – foi tudo que consegui dizer, minha voz ameaçava ficar embargada.
– E eu estou com saudades de você Maura. Não só eu, ouviu? – fiquei em silêncio – Ainda está aí?
– Sim, estou aqui Korsak. Desculpa. É que já faz seis dias que não converso com alguém conhecido, é um pouco estranho. – quis dizer que estou um pouco emocionada, mas preferi guardar para mim
– Tudo bem. Você já colocou meu nome na lista de visitantes?
– Você irá vir me visitar? – senti meu coração acelerar, se ele fosse uma pessoa, estaria dando cambalhotas agora.
– Mas é claro! Estou contando os dias para esse sábado. – novamente fiquei em silêncio, era uma situação muito estranha – Maura, a Ruby está cuidando bem de você ai?
– Sim, está. – lembrei-me daquela garota maluquinha – ela é muito engraçada. – senti minha garganta secar – Korsak... – fiquei receosa em continuar.
– Pode perguntar Maura. – creio que ele já sabia o que eu queria perguntar... Sobre ela.
– Como a Jane está? – falei rápido, sem pensar muito ou desistiria. Um silêncio do outro lado me incomodou um pouco.
– Maura... – ele abaixou o tom de voz – Ela ainda está no hospital, mas está bem.
– Quando ela sai Korsak? – Estava realmente preocupada
– Semana que vem. Você a conhece, por ela teria saído no dia que acordou.
– Isso é bem Jane.
– Demais! Maura... Estou indeciso sobre qual livro levar. Você tem alguma preferência? – ele mudou de assunto, não vou insistir então.
– Estou em abstinência de livro, qualquer coisa que você trouxer ficarei feliz em ler. – novamente silêncio – Então te aguardo amanhã, é que tem uma fila grande aqui querendo usar o telefone. – menti.
– Sim, entendo. E Maura? É temporário tá. Esse tempo aí vai acabar e você logo retoma sua vida como ela era antes – impossível ser como era antes, amigo.
– Sim, obrigada. Posso te pedir um favor?
– Quantos você quiser. — o tom de voz dele voltou ao normal, como estava no começo da ligação.
– Amanha quando você vier, você pode me trazer uma foto que esta no porta retratos ao lado da minha cama, por favor?
– Claro. Até amanhã Maura.
Novamente... Mais um dia volto para minha cela, e aqui estou eu de novo assistindo o teto. Como o tempo passa devagar nesse lugar. Tenho a impressão de ter envelhecido 10 anos nesses últimos 6 dias.
– Que foi Maur? Fica assim não, foi só uma turbulência.
– Não estou preocupada. Só estou calada, pensativa. – falei enquanto olhava a paisagem branca de nuvens através da janela.
– Pensando no que? – Jane retirou os fones se virando para mim, ela sempre fez isso, sempre me deu total atenção quando o assunto era sobre mim.
– Só estou pensando no que vamos enfrentar em Vegas. Uma filha do chefão da máfia colocando outro chefão da máfia atrás das grades. Irônico não?
– Um pouco. – olhei incrédula para ela, afinal era para ela me consolar, não concordar.
– E no que você está pensando? – resolvi mudar de assunto.
– Em uma piada, quer ouvir? – disse empolgada, me olhando atentamente com um sorriso largo no rosto enquanto Janis Joplin cantava em seus fones.
– Suas piadas nunca são boas Jane. Desiste. – neguei com a cabeça.
– Vou contar assim mesmo porque sou legal. Um viciado em ectasy morava com a avó, chegou em casa louco por um comprimido. Ai procurou em toda a casa e não achou os alucinógenos, aí então perguntou pra avó “vó, cadê meus comprimidos?” e a avó apareceu na sala apavorada falando “Por que você tá preocupado com comprimido menino, com esse tanto de zebra voando no teto?”
Gargalhei alto, fazendo algumas pessoas me olharem de cara feia.
– Jane, você é uma idiota! Que piada ridícula é essa?! Estou rindo de você, não da piada.
– Não importa se está rindo de mim ou sobre o que falei, o que importa é que está rindo. –sorria para mim – E isso já me deixa feliz. Gosto de você sorrindo Maura, já te falei isso. E se eu sou o motivo, nossa! Ganho meu dia.
– Jane... Eu... Eu
– Fala nada não, vem cá escutar Rock n´ Roll comigo, vem. – ela me abraçou e trocou de música. Ficamos assim ao som de solos do Pink Floyd, queria muito morar nesse abraço que me conforta tanto.
Tudo aqui é mais devagar. Mais intenso. Lembro do rádio que a Ruby tem guardado debaixo do travesseiro, ela disse que posso pegar quando quiser. Melhor escutar alguma música qualquer do que começar a chorar de novo. Já chorei demais.
Desço do meu beliche e enfio a mão debaixo do travesseiro da Ruby, pego o rádio pequeno e os fones. Volto para minha minúscula cama e abraço meu travesseiro. Sinto-me triste. E tudo piora quando começa a tocar Sirens do Pearl Jam, uma das bandas favoritas de Jane.
Não consigo mais ouvir Pearl Jam, Ambrosia, Led Zepplin, Pink Floyd, Air Surply, teen music, sem me lembrar daquela morena que sempre me fazia rir, que me entendia acima de tudo.
Não posso mais ouvir uma piada ou Rock n´ Roll... Cervejas e Red Sox me deixam para baixo e a culpa é toda minha.
Então estou aqui sentindo pena de mim mesma, resolvo mudar de estação... Como não há nada excessivamente triste que Adele não consiga piorar, começa a tocar Hello e a minha represa arrebenta. Lágrimas saem sem meu consentimento, e após segurar por tanto tempo, me deixo ser lavada.
Hello — Adele
Odeio essa prisão!
Odeio Jane!
Odeio Adele!
Odeio ser eu!
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