Mirrors
3 Mirrors
Notas iniciais
“Porque eu não quero perder você agora
Estou olhando bem para a minha outra metade.
O vazio que se instalou em meu coração é um espaço que
Agora você guarda. Mostre-me como lutar pelo nosso momento
E eu vou dizer baby que foi fácil voltar para você uma vez que
Entendi que você estava aqui o tempo todo.
É como se você fosse meu espelho olhando de volta pra mim.
Nunca poderei mudar sem você, você me reflete e amo isso em você”
Hoje conheci Marco Túlio. E a Ruby não foi realmente sincera... Esse rato é muito, muito, mas muito grande, tanto para os lados como para cima. Um gato sairia correndo traumatizado com medo dele. Tivemos nosso ilustre encontro no banheiro essa manhã. Entrei distraída com o cheiro desagradável daquele lugar, e então o vi em cima da pia olhando pra mim.
Aqueles olhos amendoados me olhavam com desdém,como se EU fosse a intrusa ali. E por algum motivo que só Deus sabe o porquê ele cismou de se aproximar de mim. Só posso ter algum cheiro que atraia os bichos que odeio.
E eu odeio ratos vivos.
Gritei o mais alto que meus pulmões conseguiram expulsar o ar enquanto eu sapateava (Ou botinava, já que trajo botas ridículas) tentando afastar aquele bicho marrom-cinza o mais longe possível de mim. Mas Marco Túlio ficou desnorteado com meus gritos e ao invés de se afastar veio para o meu lado. Preciso nem dizer que fiquei mais histérica ainda, mais histérica do que eu esperei ser, mais histérica do que pensei que alguém pudesse ser. Esse lugar ainda vai me levar à loucura.
Ruby ainda tentando vestir a calça e outras detentas que não sei o nome, mas que também dividem cela com a gente, chegaram correndo no lado do banheiro que eu estava. E riram de mim! RIRAM!! Ao invés de me socorrerem daquela situação constrangedora e horrenda elas apenas riram de mim. Onde está meu bisturi quando preciso dele?
Elas gargalhavam sem parar. Até que Ruby se abaixou e fez um simples “xô” para Marco Túlio. E Marco Túlio saiu calmo indo em direção aos sanitários, não antes de me dar uma olhada de vitória é claro! E por que estou chamando aquele mamífero nocivo cheio de doenças com o nome ridículo de Marco Túlio?! Só pode ser a água desse lugar que esta me deixando assim.
– Doc, calma. – disse Ruby ao se levantar e olhar pra mim – Você assustou mais o Marco Túlio do que ele te assustou. – Discordo, estou traumatizada.
– Não gosto de ratos. Eles transmitem doenças. – afirmei após me recompor
– Ah nada ver. Tipo, se passa doença mesmo a gente não teria aqueles branquinhos lá que fica rodando numa roda dentro da gaiola lá.
– Hamister e porquinho-da-índia não andam pelos esgotos da cidade.
– Só da banho ué. – Essa menina é tão inocente tadinha – Lavou tá novo né não?
– Não! – Disse sem paciência – Nunca ouviu falar de leptospirose não?
– Lep, lepitus... quem? – Chega! Minha manhã já começou horrível com a visita do Marco Túlio, não quero piorar mais nada.
– Olha menina! Ratos e baratas vivem nos esgotos e saem de lá atrás de coisas nojentas...
– Mas no esgoto já não tem coisa nojenta o bastante?
Respira fundo antes de prosseguir Maura, matar não é uma opção – O que quero dizer é que esses bichos entram na casa da gente e transmitem doenças por onde passam.
– Mas se eles saem do esgoto atrás de coisas nojentas e vão PRA SUA CASA... então, tipo, sua casa não é assim tão limpinha né. Você não tem moral pra reclamar do tadinho.
– Ah chega! Vou tomar um banho. – dei as costas indo em direção aos chuveiros
– Tomar banho de botas doc? – Ela apontou meus pés, chamando minha atenção.
– Meu dinheiro ainda não caiu e esse lugar decadente não fornece uma coisa básica como um calçado para banho.
– Usa o meu chinelo – Ela me estendeu um par de chinelos branco – Depois compro outros pra mim.
– Eu vou te pagar por eles – ela concordou com a cabeça enquanto eu pegava o calçado – Por que você está me ajudando desse jeito Ruby?
– Eu já disse. Porque uma amiga pediu que eu cuidasse de você.
– E o que você ganha com isso?
– Ela está cuidando de uma pessoa muito importante pra mim.Uma pessoa que faço todas as merdas que faço por ela – Por um centésimo de segundos vi lágrimas se formando nos olhos azuis, a tristeza era grande ali, mas logo ela desviou o olhar. – Vá! Vai para seu banho antes que uma fila comece a se formar.
Apenas balancei a cabeça e concordei indo em direção ao banho gelado que me esperava.
Se eu não morrer congelada nos meus banhos matinais, ou nos encontros com Marco Túlio, tenho certeza que morrerei intoxicada com os cafés da manhã desse lugar. Banana mais preta que o prato. Pão com algo verde em cima, que rezo a Deus para não ser o que estou pensando. Uma coisa meio cinza que deveria ser panqueca e um chá com gosto indefinido. Acho que essa é uma boa oportunidade de virar monge e abdicar da comida.
Mirrors – Justin Timbarlake
– Ah, isso sim é um café da manhã! Arrasei ou arrasei com certeza?!
– Tenho uma terceira opção de resposta? – Falei diante daquela bandeja cheia de carboidratos que Jane colocou sobre meu colo.– Você que fez?
– Sim! Fiz tudo com muito carinho e dedicação! – disse minha amiga ao sentar do meu lado na cama
– Uau! Você se superou! Tem croissant, cereal, iorgute... Ah! Olha o tanto de coisa! Que linda ter todo esse trabalho… Espera aí! Você fez minha vitamina especial? O que você quer?
– Como disse? – se fez de boba
– Isso mesmo que ouviu! O que você quer em troca Jane? – Nada é por acaso, sei disso.
– Enquanto você fica aí de enrolação, seu croissant está esfriando.
– Não gosto de carboidrato branco, você sabe.
– Então eu como por você. – Jane pegou um dos croissant que ela trouxe PRA MIM e enfiou metade na boca. – Então come essa salada aqui, é de frutas e adoçada com mel, como sei que você gosta. – disse ao limpar a boca com a mão.
– Estou começando a ficar apavorada.
– Não fique. Só estou querendo fazer um agrado para minha melhor amiga antes de viajarmos para Vegas, a cidade que nunca dorme! – disse enquanto farelos voavam da sua boca
– Sei.
–E por falar em viagem...
– Sabia! O que você quer?
– Você vai arrumar sua mala pra viagem hoje né? Roupas e bolsa e coisas chatas não é? – apenas concordei com a cabeça enquanto tomava minha vitamina especial – Então... quem sabe você... sabe...
– Fazer a sua também?
– Como você sabia? – Ela falou surpresa, me fazendo revirar os olhos.
– Jane, você é desorganizada. Tenho certeza que se fizer, vai levar só uma mochila com duas calças e duas blusas igual fez na nossa viagem a Los Angeles.
– Arrumei na pressa. – tentou se justificar. – E não vou pedir pra minha mãe fazer minha mala dessa vez.
– Nem me lembre da nossa viagem pro Egito, tivemos que pagar extra por suas bagagens.
– Mah é exagerada né? Por isso só levo uma mochila.
– E empanturra com revistas esportivas e em quadrinhos!
– Foi só uma vez e não foram tantas revistas assim. –Tentou se justificar de novo, fazendo um bico engraçado com a boca, enquanto devorava outro croissant que ela COMPROU PRA MIM!
– Jane, você parece uma criança.
– Mentira!
– Ah, é? E o escândalo no supermercado por causa das batatas em forma de rostinho?
– Custava comprar?
– Custava não ficar me atormentando porque preferi comprar as em forma de palito?
– Você reclama demais! Deveria ser mais relax. – passava novamente a mão pela boca, limpando os farelos da bomba de carboidrato que acabou de comer, já se preparando pra pegar outro croissant que deveria SER MEU!
– Sim Jane. E você deveria ser mais organizada. Assim eu… NÃO COMA MEU CROISSANT!
Croissant, Ah só Deus sabe como eu queria um agora ao invés dessa coisa estranha com gosto mais estranho ainda que eles chamam de café da manhã.
– Doc, hoje você vai conhecer seu orientador, e se prepara porque ele é tipo muito dos chatos. – Ruby me alertou ao me fazer companhia à mesa de café.- E adorei a forma como você arrumou minha cama. Muito obrigada
– Você está no beliche abaixo do meu, doía meus olhos ver aquela bagunça ao descer a escadinha
– Da próxima vez vou esconder minha bagunça.
– Seria melhor arrumar ao invés de esconder – aconselhei enquanto ela enfiava tranquila a coisa cinza que deveria ser panqueca na boca... E acreditem, ela comeu toda a pseudo panqueca sem fazer cara feia
– Ruby, como você conseguiu ficar na mesma cela que eu? – finalmente perguntei algo que me incomodava desde a noite anterior que eu tinha chegado.
– Chupei o vice diretor e ele deixou.
–Que?! – engasguei com o chá-sem-gosto-definido. A resposta direta da menina de cabelos negros com mechas vermelhas a minha frente me fez derramar tudo pela mesa.
– Calma doc! Tô brincando, enfarta não – Ruby ria de mim, DE NOVO – Você tem pessoas importantes lá fora. Um tenente da homicídios exigiu isso, acho que ele é um amigo seu lá do mundo real. – Korsak, ela está falando do Korsak! – Tipo, então aqui eu sou sua guarda costas!
Ela falou tão orgulhosa que fiquei até sem graça de dizer que ela era pequena e desnutrida demais pra me proteger de alguma coisa além do Marco Túlio.
– Ruby, como faço uma ligação aqui? Preciso falar com alguém.
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