Mirrors
15 Love Me Like You Do
Notas iniciais
Você é a luz, você é a noite
Você é a cor do meu sangue
Você é cura, você é a dor
Você é a única coisa que quero tocar
Eu nunca soube que poderia significar tanto, tanto
Você é o medo, eu não ligo
Porque nunca estive tão fora de mim
Me siga até a escuridão
Me deixe te levar além dos nossos satélites
Você pode ver o mundo que trouxe à vida, à vida
Então me ame como você ama, me ame como você ama
Me ame como você ama, me ame como você ama
Acordei com o enfermeiro negro entrando, pisando duro na enfermaria. Olhei em volta e sorri ao ver Jane sentada em uma cadeira ao meu lado. E ela me sorriu de volta.
O enfermeiro se aproximou de mim. Jogou o soro em minha barriga como se tivesse sido condenado por um juiz corrupto a servir café-da-manhã para assassinos de bebês. Tirou o outro soro do suporte.
— Jane?! Por que você está aqui? Jane?! Você não deveria estar aqui. - Me virei para o enfermeiro trocando meu soro— Por que Jane está aqui? — Ele deu de ombros e saiu da sala.
— Porque Jane se preocupa com Maura — Jane imitou meu tom e me respondeu séria.— Ruby me ligou assim que ela saiu da enfermaria. Você ficou TRÊS DIAS naquela maldita solitária e eu nem fiquei sabendo! Que merda Maura! Três dias! Enlouqueci o governador de Massachusetts por isso sabia?
Sorri ao pensar em Jane importunando o governador por mim.
— Não ria Maura. É sério. Fiquei muito preocupada. Movi meio mundo pra estar aqui.
— Desculpa te preocupar assim.
— Desculpa nada, seu bem que me importa. Realmente senti sua falta Maur. – me sorriu
— Eu também senti sua falta. Senti falta das suas piadas bobas, do seu sarcasmo, do seu beij...
Coloquei a minha mão na boca e o braço que não estava o cateter eu coloquei sobre meus olhos. Meu Deus que vergonha! !!! Minha vontade era pular da cama e arrebentar minha cara no chão. Como pude dizer isso?????
E Jane ficou lá em silêncio, acho que nem se moveu, certamente estava aterrorizada. Minha vontade era sair dali e matar Ruby por ter me dado essas ideias loucas. Será que eu conseguiria andar? Qualquer coisa eu poderia inventar que iria ao banheiro e sei lá! Me afogar na privada, me enforcar com o papel higiênico, me espancar com a comadre, qualquer coisa! Qualquer coisa era melhor que encarar a cara de horror de Jane agora.
Senti uma palma de mão quente acariciar minha bochecha.
— Maur - um hálito de café e canela tocou meu rosto.
Senti Jane tirar minha mão lentamente da minha boca e fazer o mesmo processo com meu braço. Mas permaneci de olhos fechados, não queria ver raiva, nojo ou pena naqueles olhos que eu tanto amava. Alguns segundos passaram e resolvi encarar os pensamentos que martelam em minha mente, abri meus olhos...
Abri meus olhos e encontrei aquele rosto tão perto do meu, nossos narizes quase se tocavam.
Ela me sorriu e se aproximou de mim, me dando um selinho terno. Fechei meus olhos ao sentir aqueles lábios colados aos meus. Mais um selinho e outro logo em seguida.
Os lábios saíram dos meus e finalmente percebi uma batida ao longe e notei que era meu coração me lembrando de que eu precisava respirar. Então inspirei, fechei os olhos de novo e dei ao oxigênio um momento para subir até meu cérebro e perceber que tinha recebido um beijo da minha novamente melhor amiga, e dessa vez sem gosto de whisky, choconhaque e vodka com energético.
Ellie Goulding — Love Me Like You Do
Em algum lugar do corredor, ouvi uma porta se fechar com força. Duas vozes falaram uma com a outra, mas não consegui ouvir as palavras, nem teria entendido se ouvisse, pois só havia uma coisa no mundo que importava: ela me beijou de novo, e de novo. E de novo... Aquilo era viciante.
O pessoal que fica no porão do meu cérebro cantou alto demais para eu conseguir ouvir meu riso orgulhoso, então aprofundei nossos beijos . A minha porção inteligente estava batendo na porta do meu cérebro e berrando “Ai Meu Deus! É bom demais para ser verdade!” e a parte irracional estava ocupada demais se excitando com aquele beijo.
— O que é isso aqui?! - ouvi um guarda gritar. E se eu tivesse força, teria jogado a cama nele por ter interrompido aquele momento.
— Se preciso explicar isso a você, talvez seja melhor você pedir transferência para a guarda municipal.— Jane respondeu ironicamente
O guarda monocelha(duas sobrancelhas unidas que dão a impressão de uma só) ficou estático, enquanto a guarda loira parada ao seu lado soltou um som engasgado como se tivesse segurando o riso. Por alguma razão o guarda monocelha não achou nem um pouco de graça e limpou a garganta pra começar a tentar revidar com sua voz agressivamente sarcástica.
— Senhora policial, estou aqui para ajudar a detenta.
Jane o encarava sem expressão.
— Agora é tarde demais. - e se virou voltando para mim, com aceno de desdém ela mandou o guarda sair dali.
— Não conheço esses guardas. – falei confusa
— São novos. Não consegui tirar aquele guardinha FDP que agrediu você, ele parece ser chefe dos carcereiros aqui. Mas consegui com muita persuasão que contratassem mais guardas.
— Alguém ficou ferido com essa sua gentil persuasão?
— Não. Mas acho que colaborei para alguns psicólogos ficarem ricos. Até parece que eu deixarei alguém encostar em você e sair ileso né. — afagou meus cabelos
— Eu não esperaria menos de você Jane. Mas e a Ursa?
— Está na segurança máxima. Ela agrediu um guarda, Maura.
— Tira ela de lá! Ela não pode ficar lá! Ela me protegeu. – Jane me olhou confusa
Vi Pereba andar em minha direção, quase fiquei comovida "será que ele percebeu minha ausência e se preocupou vindo a enfermaria me dar uma conferida? Que ratinho fofo" pensei. E não fiquei nem um pouco surpresa com o grito que ouvi.
Jane tinha realmente um grito horrível. Era um grunhido rouco e embargado, parecia que estava passando muito mal. Jane não dava um toque musical na coisa.
— Que porra é essa?! — recuperou do grito
— Não é porra, é rato. Respeite Peraba.
— O rato do Ronald? Não seria mais bonito a coruja do Harry? Ou o gato da Hermione sei lá.
— Entendo agora porque você tem tanto assunto com a Ruby.
Jane despregou da parede e veio a meu lado novamente, com todo o cuidado para não chegar nem perto de Pereba.
— Você não vai gritar? É um rato enorme.
— Já vi maiores. Esse é um filhote perto do Marco Túlio.
— QUE DIABOS FIZERAM COM VOCÊ NESSE LUGAR?!
Jane falou/berrou tão alto que até o enfermeiro colocou a cabeça para dentro da porta para nos olhar.
— Algum problema aqui? – o enfermeiro perguntou,
— Sim. Ratos. Há ratos aqui! – Jane parecia nervosa. O enfermeiro entrou na sala e encarou Pereba.
— Ah... Isso? – Apontou Pereba— Na cozinha há maiores. É bem provável que haja baratas maiores que esse rato por ai.
Assisti Jane perder a cor e sentar ao lado da cadeira. Vi o enfermeiro a olhar e sorrir, voltando ao seu posto.
— Me lembre de nunca matar ninguém. O inferno parece um paraíso comparado a esse lugar.
— Aqui é meu lugar então.
— Maura, você não matou ninguém. Não que aqueles caras não mereciam, mas você não matou ninguém.
— Mas eu atirei Jane. Atirei muito.
— Sim. Atirou muito, e muito mal. Acertou um cara de leve no rosto e o outro recebeu um tiro na perna.
— Mas dois caras morreram. Eu lembro disso no tribunal.
— Morreram no hospital. De alguma forma a gang decidiu fazer uma queima de arquivo e acabou com eles na enfermaria. Inclusive mataram os policiais que os acompanhavam. Era isso que você enfrentou Maura! Você entrou no covil desses monstros!
— Shark nunca atendia o telefone e Marlon deu a entender que iria pessoalmente prender o assassino, assim que terminasse de tomar seu café e passar na academia. Os reforços não chegavam nunca, então eu...
— Então você queria chegar naquela casa e olhar lá dentro, ah, e pôr a mão na porta, abrir, olhar lá dentro... E depois? Prendê-lo sozinha? Levá-lo pela mão até o querido detetive Marlon? “Veja o que eu consegui? Posso ficar com ele?”
— Não é bem assim Jane.
— Então como é? Me explica que ainda não consegui entender. Eu quase tive que assistir minha amiga morrer! Você pensou em mim? Pensou em como ficaria minha cabeça se você morresse?
— No hospital falaram que a culpa foi minha. Sua mãe até brigou comigo.
— Eu soube e posso te garantir que não há um único dia em que ela não se arrependa disso. Maura, a culpa não foi sua. Eu entrei na frente daquela bala pra te proteger e entraria até na frente de um caminhão por você. Eu não sei mais viver sem você, você consegue entender isso?
Tudo que se ouvia na enfermaria era o farfalhar das folhas que o ventilador assoprava. Jane encarava o chão enquanto eu brincava com meu cateter. Não esperávamos aquela explosão de sentimentos.
— Do que você se lembra Maura? – Jane ainda encarava o chão
— Não lembro de quase anda. São como pedaços de um quebra cabeça de mil peças. Nem lembro de você, em como você foi ajudada.
— Você me ajudou - ela passou a mão delicadamente pelos meus cabelos. — Você me ajudou Maura. Você salvou minha vida. Você tentou de todas as formas possíveis parar minha hemorragia, e foi isso que me deu tempo de chegar no hospital com vida. Por isso sua roupa estava cheia de sangue e por isso algumas pessoas idiotas te culparam. Quando Shark chegou, você nem o reconheceu, você estava em estado de choque.
— Tenho flashs de um homem de terno me fazendo perguntas. Mas não lembro de muitas coisas.
— Não lembra também da conversa que tivemos? Do que você me prometeu?
— Não. - ela beijou minha testa com tanta ternura que senti meu peito se aquecer.
— Então não vou te lembrar agora, mas vou te cobrar, viu?
— Você não pode me cobrar algo que não lembro.
— Mas você irá lembrar. Tenho certeza. E farei questão de refrescar sua memória.— beijou meus lábios.
— Jane... — segurei sua mão, e ela segurou minha mão com mais firmeza e ficou acariciando-a. — Achei que tinha te perdido. Achei que você me odiasse.
— Nem por um segundo. Quando acordei do coma e escutei que você tinha me colocado em risco, desmenti tudo, porque sei que era mentira. Então soube que você estava presa aqui por invasão, danos ao patrimônio privado... E vamos dizer que você colocou algumas vidas em risco quando encarnou Velozes e Furiosos em Vegas. Você era ré primaria, foi burrice se declarar culpada de tudo.
— Mas foi isso que falaram. E foi isso que eu fiz Jane. Eu estava tão confusa que acreditei ou simplesmente queria fugir daquela situação toda fugindo pra cá, sei lá.
— Você não pensou em mim nessa hora, né? Eu acordei perdida, preocupada com você e escutei aquelas mentiras todas. Assim como escutei que você tinha se entregado. Não me apavore mais Maura. Você não tem ideia do que tenho passado. – Segurou minhas mãos
Foi gostoso me perder naqueles olhos castanhos tão ternos, como senti falta de me perder ali. Ela me beijou outra vez, nada mais que um leve roçar de lábios, mas foi o suficiente para me fazer sorrir. Senti a presença de uma outra pessoa na sala.
O guarda-mal-humor fez um som que era uma mistura de latido e gargalhada, mas não falou nada, nem olhou para nós.
Acho que a paciência de Jane estava se esgotando, e não a culpei.
— Só mais cinco minutos, Tenho algo importante a dizer para a doutora Isles.
— E não disse nessa última meia hora que ficou aqui? – resmungou o homem.
Jane o olhou de uma forma que tenho certeza que até a quinta geração do guarda terá pesadelos.
— Não. Não disse. Mas o farei se você sair daqui, ou prefere que eu te mostre a saída pessoalmente?
— A senhora está tentando me impedir de fazer meu trabalho?
— O seu trabalho é proteger e servir – disse Jane.— Neste caso, isso significa proteger a sala e me servir.
— Isso é ridículo! – disse o guarda-mal-humor subindo seu tom em uma oitava.
— Pouco me importa que seja ridículo – tornou Jane — É o que vai fazer.
— E quem é você para me dizer isso?
— Sou a pessoa que te fará rondar parquinho comunitário se você não me obedecer — a voz de Jane era fria, carregada com uma raiva que era quase tangível— Eu ainda não me esqueci do que você fez a minha amiga, e você ainda receberá o troco disso. Agora dê o fora daqui.
O guarda olhou para ela, e sua animosidade amainou um pouco. Virou-se em direção a porta com uma cara que parecia ter servido de modelo para Steven Segal e saiu pisando duro como Godzilla a caminho de Tóquio.
— Maura é o senguinte, tenho que falar rápido – Jane se virou para mim seurando minas mãos – A gang que enfrentamos em Vegas, de alguma forma, está aqui na nossa cidade. Eu não vi nenhum dos comparsas, com exceção daqueles que estão mortos. Você deu boas ideias para o caso daquela vez, e viu os caras. Precisamos de você no caso.
— Não posso fazer nada, estou presa lembra? E até onde sei, não posso usar computadores aqui. O máximo que tenho é um orelhão que cheira a queijo velho.
— Informações demais, informações demais. Então... – Jane coçou a cabeça – Já foram muitas vítimas aqui Maura, o governador conseguiu uma licença de 48 horas para você. Sem celular, sem carro, você ficará na minha casa, eu serei sua responsável e será casa DP com uma caneleira a tira colo.
— E qual a parte que me amarram ao tronco com as chibatadas? Isso é aproveitar. Estão aproveitando de mim. Não quero isso.
— Achei que você iria gostar de passar 48 horas comigo. Só achei. – Jane falou maliciosa.
— Tudo bem, eu vou. Mas com uma condição.
— Não posso conseguir sua soltura definitiva.
— Mas pode conseguir outra coisa e eu não aceito ajudar o DP sem essa condição.
Jane soltou o ar e concordou com a cabeça.
— Pelo jeito que o governador tá, não duvido que ele acate. Qual sua condição?
— Que Ursa saia da máxima.
— Mil coisas que você pode pedir e você pede isso?
— Ela me ajudou, farei o mesmo por ela. É pegar ou largar
Enquanto espera a resposta de Jane, não pude deixar de me perguntar por que a “gang” veio a Boston. Com certeza não foi devido a nossa arquitetura. Por milésimos de segundos uma resposta pairou em minha mente “E se eles estiverem atrás de Jane ou de mim? Talvez a ida a Vegas não foi coincidência”... Balancei a cabeça algumas vezes para afastar essa ideia idiota.

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