Mirrors

21 Give Your Heart A Break


Não quero quebrar seu coração, quero dar um tempo ao seu coração.

Eu sei que você está com medo que dê errado,

Como se você fosse cometer um erro.

Mas há apenas uma vida para viver, e não há tempo a perder.

Você não precisa aguentar tudo sozinho.

Me deixe dar um tempo ao seu coração.

Sempre considerei um grande problema mental algumas pessoas acharem que é perfeitamente seguro dirigir a velocidades muito altas enquanto falam ao celular. Mas Jane era uma dessas pessoas, e noiva é noiva, então não disse nada quando ela pegou seu telefone. Enquanto voávamos pela I-95, ela segurava o volante com uma mão e atendia o telefone com a outra e eu tinha uma boa ideia de quem seria, o que se confirmou quando ela falou

— Sou eu. Por que demorou tanto pra me ligar? Isso, para o norte. Certo, me encontre na principal com a 40, o mais rápido que puder. E traga alguns equipamentos. Não demora — Falou e desligou me fazendo voltar a respirar de novo e soltar o painel do carro. Um dia esse painel ainda vai sair na minha mão.



— Novidades? – Perguntei não muito ansiosa, preferia ter ficado em casa com ela namorando mais um pouco do que encontrar pessoas que não querem ser encontradas.

— Marlon achou uma pista quente. Parece que uma das vitimas tinha uma casa vazia. A gang pode estar lá. – Parou no farol – E Shark também.

— Vivo ao seu lado há seis anos, e uma coisa que aprendi nesse tempo, é que se seguir o dinheiro tem mais chance do que se seguirem as vitimas. Casas hipotecadas são as preferências dessa gente, você me ensinou isso.

— MERDA!! – Ela bateu no volante com força, o que acionou a buzina e fez um moço que estava mexendo no celular enquanto atravessava a rua dar um pulo tão alto que eu iria gargalhar se Jane já não estivesse pegando o celular de novo e fazendo uma nova ligação e acelerando como se tivéssemos acabado de roubar um banco... Por que inventei de namorar uma piloto de fuga Senhor?

E novamente estava eu olhando desesperada a estrada enquanto ela conversava com Nina ao telefone.
Após meia hora de conversa e quase cinco paradas cardíacas minha, seguimos na rota 41 rumo ao sul.

— Maura, tem certeza que é essa casa? Esse é um bairro nobre. – dizia enquanto passávamos pela casa branca abandonada.

— Os outros são bairros latinos, os latinos são curiosos, com certeza saberiam se um vizinho gostasse de picar pessoas. E aqui é bem perto do porto, dá pra fugir de barco se acontecer alguma coisa.

— Às vezes você me assusta. Mas tudo bem, vamos ao resgate de Shark. — Encarou a rua por alguns minutos, virando a esquina e parando a uma agradável distância da casa. – Vamos estacionar aqui enquanto esperamos reforços.

Ficamos alguns minutos em silêncio, até que ela resolveu interrompe-lo



— Pelo jeito que você falava, eu imaginava a Ursa um verdadeiro urso, quase um mostro de dois metros de altura, mas até que ela é bonita.

— Vai ficar olhando minhas amigas agora? – Perguntei cruzando os braços e a encarando

— Só tenho olhos pra você meu amor. – Me sorriu cafajeste e não pude deixar de olhar seu rosto cansado.

— Olhos de panda. Olha o tamanho dessas olheiras, eu falei pra você dormir mais, não falei?!

— Queria passar mais tempo com você. Hoje você volta para aquela maldita penitenciaria com aquele maldito guarda mal humor. Se ele mexer com você eu mato ele, já estou avisando. – me apontou o dedo

— E seria presa também. O pior é que nem ficaria na mesma penitenciaria que eu. Assim não aceito.

— Então tudo bem eu ser presa se eu ficar na mesma prisão que você então? É isso que eu ouvi.

— Eu só posso confirmar o que eu falo, não o que você escuta.

— Estamos acidas hoje heim?

— Foi você que achou minha amiga bonita – falei cruzando os braços

— Já estou carente só por saber que daqui a algumas horas não estarei mais com você, vai mesmo ficar brava? — Fez uma carinha de cachorro na chuva que me fez desistir


— Não. Qual cavalaria está vindo nos ajudar?

— Me ajudar. Você vai ficar no carro dessa vez, DENTRO DO CARRO. Sair por ai bancando a policial foi o que te fez parar na prisão na ultima vez. Será apenas Deborah, Marlon, Frank, Korsak e eu.

— Apenas vocês? São uma gang Jane! E estão com um policial! – um policial não muito inteligente por sinal

— E tudo que temos é um palpite que é a casa certa. Chegaram. Fique no carro... NO CARRO, DENTRO DO CARRO e não saia por nada. NÃO SAIA!



Ruby estava chorando deitada em meu colo pela terceira vez aquele dia, ela não queria ir embora e ter que me deixar. Como alguém troca a liberdade para fazer companhia a outro?

Passei minha mão em seus cabelos escuros, brincando com as mechas ruivas e sorri quando ela me olhou com seus olhos vermelhos inchados.— Hoje não estou feliz doc.

— Eu sei Ruby, mas olha o lado positivo, você poderá ver seu pai, ver o Frank, você gostou dele não foi? – Ela me sorriu sem graça – Você todo dia tá ligando pra ele e conversam por horas

— Mas você não estará lá pra eu te contar todas as novidades. — Sentou na cama limpando o rosto com a manga do casaco

— Mas posso te ligar. Eu sempre vou te ligar Ruby.

— Promete doc? – Seus olhos de esperança me fizeram sorrir

— Todos os dias. Você agora é minha melhor amiga, já que Jane foi promovida a noiva.

— Ruby Lucca Redwolf, nos acompanhe. – Um guarda chamou da porta da cela. Ruby me deu um último abraço forte e pulou da cama, indo ao encontro dos dois guardas.

Senti uma dor aguda em meu peito, e o sentia apertar cada vez mais. Ursa entrou na cela e me olhou, seus olhos vermelhos, seu rosto inchado, estava sofrendo tanto quanto eu... Me deitei e virei para a parede, os dias agora iriam passar cada vez mais lentos.





Em uma homenagem aos longos anos de treinamento diligente que, mesmo meu cérebro gritando para eu correr a maus postos e abrir fogo com todas as minhas armas para proteger Jane, eu tenha conseguido manter meu disfarce alegre, pegar um livro e começar a ler DENTRO DO CARRO, e até mesmo me lembrei de que não gosto de livros de romance, apesar de estar lendo um.



Não sou curiosa, mas decide prestar atenção à conversa de Deborah com Jane, mas só fiz isso porque não tinha nada melhor para fazer e Nicholas Sparks consegue ser mais dramático que eu.

— Oh. Apenas essa casa encaixa mesmo? Tudo a ver com... Como é o nome? Aquilo que tem que... Eu vou pela esquerda com aquilo que, sabe?... Porque marquei com Korsak e ele prefere... Então, você pode ir pela retaguarda... Enfim, Frank também concorda completamente.

Vários comentários cômicos surgiram em minha mente e foram para minha boca lutando por espaço em minha língua, mas outra vez dei um jeito de me manter concentrada no que importava, que era ainda não ter ideia do que Deborah estava falando. E é incrível como Jane parecia ter entendido tudo que aquela louca havia falado... O ser humano sempre me surpreendendo.

Fiquei alguns minutos em silêncio quando todos se afastaram para seus lugares. Não vi nada além de várias casas e ouvi apenas o som baixo de uma TV ligada em algum lugar perto. Longos minutos passaram e resolvi que estava ali a tempo demais, não custava nada andar tranquila pelo quarteirão como uma dona de casa entediada que precisa de um pouco de ar, apesar que teria sido melhor arrumar um cachorro e fingir passear.

Dei a volta no quarteirão e vi uma casa com as luzes apagadas e protetores contra ladrões nas janelas, um bom sinal de que não havia ninguém e era exatamente a casa da lista de Jane. Andei pelo terreno vizinho até o quintal e a alta cerca que a separava da casa que aparentava vazia, apenas aparentava, Shark talvez estivesse lá. Eu me enfiei em uma abertura nos arbustos, fechei os olhos e fiquei escutando as novas emoções que borbulhavam em mim.



Respirei fundo e me movi o mais silenciosamente que pude no meio da cerca viva em direção ao quintal da casa vazia, mas parei quando ouvi um homem gritar, parecia ser a voz de Shark, senti minhas mãos queimarem e olhei para baixo, eu estava segurando uma hera venenosa, voltei e corri para a mangueira mais próxima.

A água correndo sobre as minhas mãos inchadas foi uma sensação incrível, diferente de tudo que já sentira antes e, sinceramente, não era algo que estava ansiosa para experimentar novamente. Era algo que ficava em algum lugar entre uma coceira imensamente poderosa e uma agonia lancinante, e quase gritei em voz alta esplêndida.

Eu havia encontrado Shark. Agora só precisava pensar em um jeito de me livrar dos caras que estavam com ele sem usar as mãos.

Poderia tentar usar a hera venenosa.

Em todo caso, não podia esperar. Tentei pegar o celular, mas lembrei que não tinha nenhum, o melhor era voltar para o carro. Levantei-me para fazer isso e ouvi alguns tiros. Corri em direção ao carro, e acelerando furiosamente rumo à origem do barulho, esquecendo tudo que Jane mandou eu NÃO FAZER e sobre minha vida estar em perigo. Só posso ter batido a cabeça forte, não tem condição. Não andei nem meio quilometro para chegar ao porto próximo dali, o que minhas mãos agradeceram, pois o volante parecia um emaranhado de espinho em minhas mãos inchadas e vermelhas.

Depois da saída de Ruby, as horas tornaram-se dias e os dias pareciam semanas. Ligava para ela e para Jane todos os dias. Era o pico de alegria do meu dia. Ruby estava dormindo na minha casa para cuidar de Freud, meu lindo camaleão que eu sentia falta. Até o momento em que dois guardas entraram em minha cela me mandando pegar minhas coisas.

Ao escutar aquilo, gelei. Não poderia ser transferida, mesmo faltando um mês para minha liberdade, eu não poderia ser transferida agora. Eu tinha Ursa ali que me protegia e me fazia companhia. E se eu fosse para um lugar mais longe, como poderia receber visitas de meus amados amigos e minha noiva?

Sai no corredor e fui em direção à sala de revista. Ursa estava encostada próxima à sala segurando uma caixa como eu, isso me agradou um pouco, a esperança dela ser transferida para o mesmo lugar que eu me fez sorrir.

Como esperava, o lugar parecia deserto. Mas sabia que, cerca de cem metros adiante, havia uma guarita onde alguém estaria ansioso por me tomar quatro dólares pelo privilégio de entrar no porto. Pareceu-me uma boa ideia não ser vista pelo guarda. Naturalmente, não era nada mal economizar quatro dólares, mas o mais importante era que, eu não poderia ser vista ali. Então passei próximo a um clube a beira mar. Apenas um campo gramado me separava do cais.

SÓ PROPRIETÁRIOS DE BARCOS SÃO PERMITIDOS NO CAIS, dizia a placa. Tentei me sentir culpada por violar uma ordem tão importante, mas era mais forte que eu. Na parte inferior da placa, lia-se: É PROIBIDO PESCAR NA ÁREA DA MARINA, então prometi a mim mesma que evitaria pescar a todo custo, o que aliviava minha consciência por violar a outra regra.

Vi o senhor de Vegas que mandou atirar em Jane e em mim, ele estava com seu casaco pesado acenando com a mão para alguns homens, todos indo em direção ao cais ha alguns longos metros a minha frente. Eles pareciam arrastar alguém.

“O que será que eles estão fazendo?” Pensei em voz alta. Mas nunca descobri o que eles estavam fazendo, porque lá longe, ouvi o som de buzinas de carro, seguidas por um barulho de metal se retorcendo. E muito mais perto, dentro da minha cabeça na verdade, ouvi uma voz sibilando: Idiota! E sem fazer uma pausa para pensar em como eu sabia que aquele acidente tinha Jane envolvida no meio, pulei na cerca, subi e desci do outro lado e saí correndo pelo campo de esportes de frente ao porto.

— Ei! – Um homem gritou, provavelmente um guardinha, mas pela primeira vez na vida não me importei com os bons modos nem esperei para ver o que ele iria dizer.

Corri muito. O campo parecia meio irregular, mas a grama era curta e bem cuidada, por isso consegui manter um bom ritmo. Estava exatamente me congratulando por estar em boa forma suficiente para manter minha velocidade máxima quando levantei os olhos um momento para ver o que estava acontecendo. Não foi uma boa ideia. Meu pé prendeu em algo e caí instantaneamente para frente. Virei uma bola, rolando pelo campo em uma cambalhota e meia até ficar de costas sobre algo arredondado. Pulei de pé e saí correndo novamente, com uma leve dor em um tornozelo torcido e uma vaga imagem de um grande formigueiro que agora tinha sido destruído pela minha atuação como canhão humano.

Agora estava perto; som de vozes aumentando em alarme e ... Um grito de dor.

Cheguei onde todos estavam, e vi Shark sendo arrastado por dois homens bem grandes, eles estava sendo colocado em um barco atracado. Ao menos Shark estava vivo e iria agradar muitos mulheres por ai, desde que não seja a minha, claro.



Não havia sinal de Jane, mas o senhor de óculos que obviamente não gostava de mim, estava encostada em uma madeira com uma expressão de choque e torpor, segurando uma bengala de madeira muito bem trabalhada e uma mão e algo na outra. E eu já havia visto aquela bengala tão bem feita antes... Aquele senhor me parecia bem familiar.

— Maura, o que está fazendo aqui? – Ele me perguntou com sua voz rouca e cansada. – Eu te botei na cadeia, era lá que você deveria estar! – Veio em minha direção, soltando algo de sua mão, possivelmente um celular.

— Eu estava aqui por perto – comecei a falar. – Precisava de um passeio sabe. E eu te conheço...

— Claro que sim. Seu pai acabou com meus negócios com uma maldita traição e você me colocou na cadeia. – Os dois homens parrudos vieram em minha direção, passando pelo senhor de óculos que ainda me encarava incrédulo.

— Ah, lembro de você... Ai! – e aquele “ai” não era um comentário inteligente ao acaso. Nas minhas costas, dúzias de formigas que aparentemente eu tinha carregado comigo depois da queda, resolveram me picar ao mesmo tempo como se tivessem seguido um sinal telepático.

— Então você estava matando esse monte de gente por mim? – perguntei, lutando freneticamente para tirar minha camisa. Puxei a camisa por cima da cabeça e vi os três me encarando com uma expressão de susto maior.

— O que você tá fazendo? – Um dos homens me perguntou

— Formigas-de-fogo estão nas minhas costas. – Bati nas costas com a camisa, o que não ajudou em nada.


Jane, Korsak e Marlon apareceram do nada e renderam os três homens. Ainda me pergunto onde eles estavam que não vi.

Enquanto eu lutava para tirar as formigas das minhas costas, os três se ajoelharam ainda olhando incrédulos para mim. Jane se aproximou de mim assustada.

— Precisávamos de uma distração, mas não precisava ser isso tudo Maura. – Minha noiva resolveu fazer piada enquanto eu me contorcia.

— Sim, eu sei – falei, me retorcendo como um pretzel enquanto tentava tirar as formigas das minhas costas.

— Ele fugiu! – disse uma voz atrás da gente. – Mas a Deborah pegou três ao enfiar o carro no carro deles.

Me virei no meio dos meus tapas-tira-formiga e vi Frank ofegante, aparentemente por ter perseguido alguém. Parou e olhou para mim.— As roupas aqui não são opcionais, Maura – ele falou.



— São formigas – falei. — Pode me dar uma mão aqui, Jane, por favor?



— Foi ela quem distraiu eles? — Frank perguntou a Jane



— Parece que ela não sabe a diferença entre ficar no carro e correr atrás do perigo – ela falou, e meio relutante, começou a dar uns tapas nas minhas costas. Olhei para eles através da nuvem vermelha de dor que sentia pelas picadas de formiga. Pelo que entendi, um fugiu, Deborah pegou três e três estavam sendo algemados agora.

Meus amigos estava todos bem. Era quase o suficiente para fazer com que as picadas de formiga parassem de doer. Mas só quase – especialmente porque Jane também acertava as picadas junto com as formigas, causando uma dor adicional.

Marlon puxava um dos homens algemados enquanto falava algo para Korsak que puxava outro. — E garanta que os paramédicos examinem todos vocês. – Depois, olhou para mim sem nenhuma expressão. – E talvez seja bom você se vestir, está bem? – Então se virou e andou para longe de nós.

— Acho que tirei todas – Jane disse dando um último tapa nas minhas costas. – Me dê sua camisa. – Ela a pegou e sacudiu vigorosamente, depois me devolveu. — Tome, melhor vestir de novo – falou, e apesar de eu não conseguir imaginar por que toda Boston, repentinamente, tinha ficado tão obcecada em lutar contra a nudez parcial, vesti novamente a camisa, depois de inspecionar a parte de dentro para ver se não tinha sobrado nenhuma formiga.

Quando passei a cabeça pela gola e ela viu a luz do dia de novo, Jane trazia o senhor de óculos e ele me encarou.

— Não foi só por você. – Ele respondeu a pergunta que eu havia feito anteriormente— Mandei matar todos que me mandaram pra cadeia, o lado bom foi fazer você aparecer em Vegas e conseguir te mandar pra cadeia. Se não posso chegar ao pai, a filha serve. Cadela.

Vi Jane “Sem querer” fazer ele tropeçar e bater de cara no chão. Acho que ela não gostou muito do “cadela” que ele se referiu a mim.

Me deixaram dirigir o carro na volta para a delegacia, pois nos outros estavam os “elementos”. Felizmente para todos nós, Shark acordou logo que foi solto, e ficou bem mais quieto no longo trajeto de volta dentro do carro. Ele tinha tropeçado em um ninho de vespas e levou três ou quatro picadas antes de fugir, o que só provava que os insetos são muito mais inteligentes do que achamos. Marlon ficou sentado em silêncio ao lado dele no banco de trás, franzindo a testa. De vez em quando se virava, olhava para as picadas de vespa de Shark, cutucava uma e sorria maliciosamente quando o policial modelo pulava. Mesmo com minhas costas e mãos ainda ardendo, comecei a gostar um pouco do Marlon.

***


Ursa e eu paramos em frente ao portão principal, nossas caixas em mãos. Doei todos os livros que ganhei a biblioteca, com exceção do que tinha a letra de Thommy e o telefone dele, é claro.

Eu estava respirando rápido, sentia meu estomago embrulhar, e ainda não havia tido a oportunidade de conversar com Jane ou Ruby para contar sobre o que havia acontecido. Foi tudo tão rápido. Mesmo em um dia tão frio, eu suava.

A guarda brasileira que eu aprendi a gostar estava ao meu lado, ela sorria sempre que olhava para mim. Desde o dia em que Ruby foi embora ela sempre conversava comigo, mas agora ela sorria, estava feliz.

— Quando você se casar, visite meu país na sua lua de mel, garanto que vocês irão amar.— Me disse tão terna. Comecei a tremer dentro de meu casaco, a neve leve e linda começou a cair. Fazendo-me piscar algumas vezes.

O portão foi aberto e escutei alguém gritar do lado de fora.

— Ai Doc, tô tão feliz!!

Pisquei mais algumas vezes tentando tirar a neve que caia em meus cílios, e eu não podia acreditar na linda e feliz menina que corria em minha direção com braços abertos, pronto para um abraço. Era minha amiga, era Ruby.

Me abraçou forte, fazendo minha caixa cair no chão. Escutei uma voz rouca atrás de nós, e como se fosse possível meu coração bateu mais rápido.

— Era pra você ter me visto primeiro e eu ser a primeira a te abraçar. Mas essa louca estava quase escalando o muro pra te encontrar.— Jane falou sorrindo e abriu os braços quando Ruby me soltou.

— Mas você será a primeira a me beijar.— Falei enlaçando meus braços em volta do seu pescoço.

— Espero ser a primeira e a única. – enlaçou minha cintura e nossos lábios se colaram. Senti sua boca macia na minha. Seu beijo molhado me aquecendo naquela tarde que até então estava tão fria.

Demi Lovato — Give Your Heart A Break (Tradução)

Alguém pigarreou e nos soltamos para ver Ângela e Thommy nos olhando com expectativa. Sem pensar duas vezes abracei minha família. A família que sempre me acolhia. Fechei meus olhos e me entreguei aquele momento, meu momento. Eles estavam ali por mim, eles... Espera! Ainda falta um mês para minha liberdade!

Soltei do abraço e olhei confusa para Jane, ela olhava para outro lugar. Segui seu olhar e tive que me segurar à minha morena para que eu não caísse no chão de susto.

Ursa estava nos braços de ninguém mais, ninguém menos que Marlon. O REX!

URSA E REX! Nem em mil anos poderia imaginar isso, na verdade mesmo vendo eles quase se engolindo em um beijo, eu ainda não estava acreditando.

Olhei ainda mais confusa para Jane, ela sorria para o amasso no portão da penitenciaria. Bati em seu ombro e ela me olhou.

— Calma que eu explico— Me falou enquanto tirava seu casaco preto e colocava em mim – Shark além de lindo e rico, possui um pai bem importante.

— Poderia deixar os elogios de lado. – Resmunguei quando me abaixei para pegar minha caixa no chão, ela se abaixou para me ajudar.

— Enfim, o pai dele, não bastando ter sido governador de Vegas, agora é ministro da justiça. E bem... Você ajudou a salvar o filho dele, e ele queria te agradecer de alguma forma...

— Então ele me tirou daqui?— Nos levantamos indo em direção a Frank que abraçava carinhosamente minha amiga Ruby por trás.

Tirou você e a Ursa. Afinal Marlon também ajudou a salvar o parceiro, e foi isso que ele pediu, a liberdade da Ursa. – Chegamos perto de Frank, que retirou a caixa da minha mão, a colocando no porta mala.

— Agora você me deixou realmente confusa— Falei ao me aconchegar a Jane.

— Doc— Ruby falou abrindo a porta do carro para nós – Lembra que a Ursa foi presa por bater em um policial? Adivinha quem era o policial!

Olhei mais uma vez para o casal estranho que agora andava de mãos dadas. O amor realmente tem um jeito estranho de acontecer.

Olhei para o céu vendo a neve cair tão leve, e é assim que a minha vida será agora. Leve. Sem mais corações partidos ou partidas com tristes adeus.

Entrei no carro sentando ao lado de Jane que me olhava de forma tão carinhosa, olhei para seu anelar esquerdo, logo um anel dourado estaria ali.

Doc, hoje fui no shopping com a Angela e achei um lindo vestido de madrinha de casamento. Já comprei e está lá em casa. Tô louca para te mostrar! Ai Doc, to tão feliz! – Virou para trás, me olhando sorrindo do banco de passageiros. — E comprei uma roupinha de casamento pro Freud também.

— Não vou levar um camaleão no meu casamento— Jane resmungou

É nosso filhinho Jane.— acariciei seu braço e roubei um beijo.

— Maura, por favor, não coloque esses nomes esquisitos nos nossos filhos, pelo amor de Deus. – Apenas sorri, já imaginando nossos filhos correndo por nossa casa e deixando a tia Ruby louca.

Frank deu partida no carro, buzinando para Marlon que saia do estacionamento. — E ai garotas? Já escolheram aonde será a lua de mel.

Sorri, olhei para Jane e falamos juntas – We´ll go for Brazil!

— Olha! — Ruby bateu palmas animada— Vamos conhecer o Brasil amor!

Jane e eu nos olhamos confusas.

— Vocês duas estão seriamente pensando que vão ficar sozinhas na sua lua de mel? – Ruby falou, e pela primeira vez, não fiquei chateada em dividir uma lua de mel com a mulher da minha vida, minha melhor amiga e meu cunhado. Só a lua de mel, porque a mulher e a cama... isso divido não.