Mirrors
7 Blackout
Notas iniciais
“Eu sei que não sei da sua nova vida se tem outro em meu lugar.
Fico aqui sozinho no meu quarto imaginando aonde você possa estar
Torcendo pra um blackout na cidade, que seu carro quebre na garagem
E ninguém venha lhe buscar.
E assim eu vou traçando sua rota em minha mente, assim meio impaciente
Sem certeza, sem radar.
Pedindo a Deus que mande uma tempestade que alague toda a cidade
Que você não saia do sofá pra que ninguém roube o meu lugar.”
– Por que você tá desse jeito?
– Estou normal Jane.
– Tá não. Tá emburrada. Achei que você ficaria feliz com o Freud.
– Estou feliz com o camaleão.
– Com essa cara?
– Só estou pensativa.
– Com essa cara?
– Você vai se atrasar para seu encontro com o detetive lá.
– Então é por isso? Por que não vou sair com você?
– Não nascemos grudadas Jane.
– Ai que essa doeu! Viu como você tá emburrada?
– Não estou!
– Por que tá nervosa? Que que eu fiz? Então eu vou ficar com você oras!
– Podemos ir outro dia — talvez
Blackout – Christiano Araújo
– Maura... Eu...
– Jane, eu hoje estou afim de uma pizza. Vai logo, Stanley te espera. Vou abrir um dos vinhos do frigobar e pedir uma pizza pequena.
– Pede uma grande pra gente comer com coca amanhã. – falou animada esfregando as mãos–Pizza fria com Coca Cola é vida!
– Isso não é nem um pouco saudável.
– Mas é gostoso. – revirou os olhos - E daí que faz mal? Tudo que é bom faz mal, engorda ou é pecado.
– Não sei como ainda você mantém esse corpo.
– E por falar em corpo, como estou? – disse ao fazer um balé para me mostrar todos seus perfis
– Linda
–Milagre você não reclamar e mandar eu colocar um vestido. – talvez porque eu não queria que ele se apaixone por você. E você fica linda com essa calça social preta justa e camisa social branca que te dar um ar de imponência maravilhoso, já está sendo torturante demais deixar você ir assim.
– Ele te conhece assim... Tá, uma versão menos arrumada que isso, mas ele te conhece assim, e tem que gostar de você do jeito que você é.
– E como tá meu perfume? – ela se aproximou perigosamente de mim – Tô cheirosa?
– Sim. Está muito bom. – me limitei a responder, pra que complicar a vida né?
– Você vai ficar bem?
– E por que não ficaria?
– Mas você tá um doce hoje heim. Porque eu vou num encontro, talvez?
– E talvez seria o primeiro? Não né.
– Não estou afim de ir. – olhava para o chão como se procurasse alguma coisa– Se você quiser podemos comer a pizza junta e talvez... – deu de ombros – Talvez possamos ver um filme ou...
– Vai Jane. O rapaz já deve estar no restaurante cansado de te esperar. Vai logo. Só não bata nosso carro, e nos vemos amanhã.
Triste
Triste foi a feição que Jane fez.
Decepcionada?
Talvez também.
Ela não queria ir, eu não queria que ela fosse, mas não posso ser egoísta a ponto de privar ela de encontros. Não posso estagnar a vida dela. Amar é ver o outro feliz, certo?
Às vezes fazemos coisas na vida que não paramos para refletir direito, ou não pensamos de forma nenhuma.
Escutei um barulho estranho e resolvi olhar. Como naqueles filmes estúpidos de terror em que a garota está sozinha em casa e escuta algo na cozinha e já desce perguntando: “ Tem alguém aí?”, como se o invasor fosse responder “Sim. Tô fazendo um sanduiche, quer?”. Sempre ri dessas garotas nas vezes em que fui obrigada a assistir... E acreditem , agora sou essa garota.
Após o barulho fui até o corredor e encontrei Katy Bieber olhando para mim, me desafiando a dar um passo. Conheço bem esse tipo de inseto. E inclusive no seu pais de origem Madagascar, ela.. por incrível que pareça... É um animal de estimação. Calma que AINDA não estou louca, quase talvez, mas é verdade, pesquisa no Google. E com esse pensamento de Google e barata de Madagascar é pet, fui em direção a ela que apenas me observou aproximar.
Tenho certeza que ela achava que eu não tinha coragem de dar mais um passo em sua direção. Concordo com Katy, eu também achava isso. Ela levantou a antena pra mim e soltou um assovio típico de sua espécie. Dei alguns passos para trás e corri para minha cela. Não sou tão corajosa assim. Mas ao chegar lá lembrei dos olhos azuis tristes de Ruby, peguei o pacote de presente onde eu guardava meus livros e fui a luta.
Ela permanecia no mesmo lugar, ainda me desafiava. Disfarcei assobiando e então pulei em Katy Bieber agarrando-a com o saquinho colorido. Uma detenta passou perto de mim e comentou.
– Eu não sei se debocho da sua cara ou se lamento por você. Sabia que sua frescura não iria durar. Agora você é uma de nós. – sem coragem e nem dignidade para responder, me limitei a ficar calada e levantar daquele chão imundo.
E então voltei com Katy Bieber na mão, dentro do saquinho! É claro que estou louca, mas tenho meus limites higiênicos. Sentei na cama de Ruby e aguardei longos 10 segundos. Achei que morreria naqueles eternos 10 segundos, mas falando da minha morte...
... Ruby chegou cabisbaixa, procurando algo no chão.
– Não achei Doc.- serve essa coisa mexendo em minha mão? Vou viver minha vida inteira e mais seis meses e ainda não entenderei porque fiz isso.
– Ruby, tenho um presente para você. Tá até embrulhado – literalmente
Vi uma garota quicando e dando gritinhos com o sorriso maior que o rosto ao pegar o pacote bieber da minha mão. E então percebi que meu sacrifício valeu a pena.
– Ei Maura! – Jane disse sorrindo quando abri a porta
– Você não deveria estar em um encontro?
– Deveria, mas estou aqui e trouxe visita.
– Que visita? Não vejo ninguém com você.
– Jack Daniel´s, olha! – me mostrou uma garrafa transparente com um rotulo digno de Vegas.
– Aboliu a cerveja por hoje? – não resistir provocar.
– Só por hoje. Relaxa que não fizeram lavagem cerebral em mim – me disse ao entrar no meu quarto – Esse falam que tem gosto de mel. Stanley pediu essa garrafa pra nós. E eu a trouxe.
– Jane, ele a pediu para beber junto com você. – peguei meu copo de vinho, não troco meus vinhos por whisky
– Mas eu prefiro beber com você. – senti minhas bochechas queimarem– Não parei de pensar em você sozinha aqui comendo uma pizza deliciosa enquanto eu comia... – fez uma cara de nojo – Ostras. Como pessoas podem comer aquilo? Eca!
– É uma pérola da comida francesa. – ela não sabe o que está perdendo ao não gostar dessa iguaria
– Sou americana, prefiro pizza – Jane se aproximou de mim e senti um cheiro familiar de tequila – Ainda tem pizza?
– Ainda não a pedi. Estava sem apetite. Jane, você está bêbada?
– Não.
– Tem certeza?
– Não to bêbada. – disse ao entrar cambaleando em meu quarto
– Por que você mente pra mim?
– Tá. Bebi um pouco. Mas foi bem pouquinho assim.
– Você veio dirigindo? – minha neura começou a atacar
– Não. Stanley me trouxe – aposto que deu em cima dela.
– E cadê nosso carro?
– Ele me trouxe no nosso carro. – que?!
– Você pegou carona no seu próprio carro?
– E cheguei viva! Viu como sou responsável – muito, nossa! – Depois de um Jose Cuervo também né....Ele achou melhor me trazer.
– Você bebeu tequila e agora quer Whisky? Espera! Vocês dois estavam bêbados? – e ele ainda trouxe ela aqui? Bêbado? – Você deveria ter me ligado que eu buscaria você. – ela mexia no celular– Jane? – ela continuava mexendo no celular e não me dava atenção. – Jane? Você está me ouvindo?
– Tô colocando uma música aqui. Larga esse vinho e vem cá curtir Vegas comigo. Vem dançar Maur!
– Eu vou te levar para o seu quarto!
– Não, você vai dançar Pearl Jeam comigo. Vamos dançar Last Kiss
– Essa música não é pra dançar, é pra chorar.
– Exagerada. Se joga no ritmo e pronto!
– Jane. Não. Vamos dormir um pouco.
– Dormir? Tô mais louca que o Mário Bros quando pega a estrelinha.
– Quem?
– Você não teve infância.
– Quase acabei com o estoque de álcool da prisão, mas o que importa é que tenho Katy Bieber de novo! – ela falava emocionada enquanto eu lavava a mão com álcool pela quinquagésima vez. — Obrigada Doc, você não sabe o quanto me fez feliz! – os olhos dela brilhavam como seu eu tivesse dado o presente de natal esperado. Brilharam como o de uma criança. Senti-me feliz com aquele brilho.
– Tudo bem. Só não deixe ela fugir mais. Acho que não tem álcool o bastante aqui no caso de eu ter que resgatar ela de novo – COMO SE ALGUM DIA EU FIZESSE ISSO DE NOVO!! Nunca mais farei isso! Isso foi apenas um surto de cadeia.
– O que será que barata come? – pensei em responder, mas então lembrei que eu segurei aquele bicho em minhas mãos e preferi não pensar no assunto ou realmente acabaria com o resto do estoque de álcool da prisão.
– Vamos mudar de assunto. – quase implorei. Sentei novamente no meu beliche enquanto Ruby mexia no meu MP4.
– A sua bad romance é bem linda viu. Você tem bom gosto – quem?
– De quem você tá falando?
– Da morena que está te abraçando ou do seu lado em quase todas as fotos. – senti eu coração disparar.
– Onde você viu essas fotos Ruby?
– Doc, seu mp4 não é apenas para músicas. Tem fotos e vídeos também. E tipo, o que mais tem é vocês duas nele.
Peguei meu mp4 em um pulo e senti meu coração perder uma batida
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