Mirrors
9 Bad
Notas iniciais
“Eu digo por que é tão bom?
É tão bom ser má conseguindo o que quero.
Por que isso te deixa tão louco?
Porque se é luta que você está procurando...
Aqui estou”
Entramos na boate. E como era ela linda! As luzes piscando, a pista lotada, o som das batidas vibravam em meu corpo como se eu fosse uma caixa acústica. Em questão de segundos eu já me sentia entregue.
Jane estava ao meu lado, segurava minha cintura com posse, acho que ela não estava muito a vontade com os olhares masculinos sobre mim, ou melhor, pela falta de comprimento do meu vestido.
Uma música sensual e ao mesmo tempo excitante começou a tocar, me embalei na batida e percebi um rapaz moreno me olhar com desejo. O mesmo olhar que Jane me deu em meu quarto minutos atrás.
Bad – David Guetta ft Vassy, Showtek
– Quero uma bebida Jane. – Gritei em seu ouvido devido ao barulho alto da música.
– Tá. Mas você vem comigo. – Agarrou em meu braço e me puxou. Sim, ela havia percebido o rapaz moreno se aproximar e isso a estava deixando bem irritada. Talvez essa mudança de humor tenha amenizado os efeitos da bebida, já que ela não parecia mais tão bêbada.
Enquanto estávamos na fila para pegarmos meu nono, ou seria décimo energético com vodka, um rapaz se aproximou por trás de mim enquanto eu dançava e segurou minha cintura. Dancei no ritmo dele, no embalo da música. Fechei meus olhos ao sentir a boca dele em meu pescoço, sua barba roçando em minha pele, não sabia quem era aquele rapaz, mas aquilo me causava alguns arrepios gostosos. Então senti uma mão me puxar, me levando ao encontro de quem me puxava. No momento em que me aproximei abruptamente, quase um impacto de corpos, senti o perfume familiar de canela e lavanda. Era Jane. Ela me entregou meu copo e me disse algo com raiva, as batidas altas e meu nível alcoólico não me permitiram entender bem. Apenas levantei o copo e o tomei.
Em três goles bebi todo o liquido e coloquei meus braços em volta do pescoço de Jane, largando meu copo que com certeza caiu no chão. Precisava de um apoio naquele momento, precisava de um corpo quente colado ao meu. Ela virou o copo que bebia, largou ele em algum canto e enlaçou minha cintura. Senti sua raiva naquele abraço e ao invés de me assustar me excitou. Me excitou a forma como ela puxava minha cintura de encontro ao seu corpo. Como olhava para os caras ao nosso redor como quem diz: “É minha! Cai fora!”, ela os desafiava com o olhar... Nossa! Como isso era excitante, eu estava realmente ferrada com essa mulher
Por instinto procurei sua boca e depositei um selinho ali. Era macia, diferente das bocas que já beijei, tinha gosto de conhaque, morango e chocolate. Choconhaque, ela estava bebendo choconhaque, ela soltou um riso baixo, aparentemente se divertindo com algo. Tentei um beijo, mas ela me abraçou e gritou em meu ouvido que era melhor irmos embora, pois eu já estava excessivamente bêbeda. Em um gesto bruto, segurei seu rosto e gritei.
– Posso estar bêbada, mas sei bem o que estou fazendo! – e ela me olhou com aquele mesmo fogo nos olhos. Senti suas mãos apertarem minha cintura, descendo um pouco indo em direção a minha bunda. Ela a contornou e desceu pelas minhas coxas, senti que ela abaixava mais meu vestido e então subiu a mão novamente, colocando seus dedos um por um em minha bunda e a apalpando... Notei que ela fazia essa sequência de gestos enquanto olhava para alguém atrás de mim. Com certeza estava desafiando o cara que havia me agarrado, não me importei em olhar, aqueles gestos estavam me agradando e muito . E então ela começou a guiar ao som da nova batida que começava, passando suas mãos pelo meu vestido vermelho e ficando em minhas costas. Ela queria me dominar e eu estava disposta a deixar isso acontecer.
Mais um dia de visitas e eu estava novamente com olhos colados no vidro a espera de Korsak. Vi Ruby entrar na sala e abraçar um senhor. Tenho certeza que já havia visto aquele senhor, porém não lembrava de onde. Forcei minha mente até que me assustei com alguém batendo no vidro. Olhei assustada para a fonte do barulho e era Korsak sorrindo. Andamos em direção a porta, quase atropelei o guarda-mal-humor que me xingou e cheguei ao meu amigo, ele me abraçou quando entrei no lugar.
– Oi Korsak! – minha voz por algum motivo saiu eufórica.
– Oi Maura! E novamente encontrei mais gente barrada lá fora. Você prometeu que iria aumentar sua lista.– me deu a bronca.
– Prometi que iria pensar.
– Não posso ficar muito tempo, mas uma pessoa irá te fazer companhia. – ele levantou os olhos para alguém atrás de mim. Assustei-me quando me virei e olhei aqueles olhos verdes tão familiares.
– Oi Thommy! – levantei em um pulo e o irmão de Jane me abraçou forte, me rodopiando e tirando meus pés do chão. Envergonhada pela demonstração pública de afeto, arrumei meus cabelos, e mostrei o lugar para ele sentar.
Korsak colocou sete livros sobre a mesa e se despediu de mim. Durante esses seis meses abrirei uma segunda biblioteca aqui, tenho certeza.
– Pelo que vejo ainda gosta muito de ler, né? – Thommy abriu aquele sorriso que tanto admiro, o sorriso Rizzoli.
– Estou trabalhando na limpeza, mas mesmo assim fico muito tempo ociosa. Então esses livros são meus companheiros aqui.
– Livros são companheiros que apenas falam, você precisa ser ouvida também. – disse olhando fixo em meus olhos. – Você sabe que pode me ligar quando quiser. Eu não te culpei pelo que aconteceu, até te defendi, por que você não me ligou?
– Eu não sabia se seria atendida. Mas não quero falar sobre isso. Quero saber como você entrou aqui. Apenas Korsak está na minha lista.
– Tenho amigas aqui também! - Se fez de ofendido.
– Quem Thommy? – perguntei já sabendo a resposta.
– Ruby é uma boa moça e não merece você brigar com ela por isso. – não sei porque ainda me surpreendo.
– Como? Como ela te colocou na lista dela? Ela nem te conhece.
– Mas conhece meu padrasto, ou melhor, o pai dela. – espera que meu cérebro deu pane.
– Explica essa história melhor por favor. – ele me sorriu, aquele sorriso infantil que tanto gosto.
– Sabe aquele senhor ali. – acenou para o senhor de cabelos brancos e porte de jogador de golfe que retribuiu com um aceno e sorriso– Aquele senhor ali é o pai da Ruby, e namorado da minha mãe.
Por um instante fiquei em silêncio tentando digerir a informação. Então me lembrei daquele senhor nas várias vezes em que fui ao restaurante do Korsak. Esse senhor sempre estava lá e sorria muito para Angela.
– E como está Angela?
– Um pouco triste. Muitas coisas aconteceram, você sabe. A operação da Jane foi arriscada, você lembra... – desviei o olhar com vergonha de encarar aquele homem a minha frente. Claro que lembro, fui expulsa de lá ao berros – Mas ela fez uma festa enorme quando Jane saiu do hospital.
– Gostaria de saber sobre Freud, meu camaleão – tentei mudar de assunto para não começar a chorar ali na frente de todo mundo. Não queria me lembrar daquela cena no hospital, e da anterior a ela. Tudo ainda estava tão presente, era como se eu olhasse pra minha mão e ainda pudesse ver o sangue lá
– Aquele bicho esquisito está com Jane. Foi um custo ela conseguir pegar ele de Frank. Houve muitas ameaças e chantagens, você perdeu a cena. – ele ria, obviamente lembrando da cena da briga entre irmãos por um camaleão.
– Achei que Angela estivesse tomando conta dele.
– Minha mãe não mora mais na sua casa Maura. – aquela noticia me atingiu como um tiro. Minha vontade de chorar aumentou ainda mais.
– Desculpe Thommy, vou entrar. – levantei me segurando para não chorar e ele me chamou. Parei próxima a porta ouvindo os passos dele atrás de mim.
– Seus livros. – Me virei encarando os livros nas mãos dele. Não tinha coragem de olhar nos olhos, ele com certeza veria as lágrimas represadas ali. Agradeci e me virei novamente para ir embora.
– Na contra capa de um deles está meu telefone. Por favor, me liga. Não foi culpa sua Maura, você não tinha como saber o que ia acontecer. E Jane... Jane só fez o que sabe fazer de melhor, te proteger. Não me afaste, te peço. Agora você não tem mais a desculpa de não saber meu número de có. Então me liga.– É claro que sei seu número Thommy, assim como sei da Angela, Frank e Jane... Principalmente o da Jane. Agradeci e fui em direção a minha cela.
Durante aquela tarde fugi de tudo e de todos. Preferi não jantar e ir dormir cedo. No meio da madrugada acordei com meu estomago roncando, não deveria ter pulado a janta. Acendi minha lanterna e procurei por um dos meus novos livros. Passei os olhos nos títulos, todos são clássicos da massa popular. Escolhi um que virou filme, não vi o filme e nem havia lido o livro ainda, resolvi arriscar por ser um dos preferidos de Jane.
O garoto do pijama listrado. Logo na primeira página reconheci a letra de Thommy.
“Aqui em cima está meu número. Escolhi escrever nesse livro porque é um dos preferidos da minha irmã, e por saber isso eu sabia que ele seria o primeiro a ser lido por você.
“ Se o passado não morre... O futuro não nasce.” Tenho certeza que você conhece essa frase.”
Como eu não iria reconhecer? Foi a frase que escrevi na contra capa desse mesmo livro quando o dei a Jane. Era a frase que eu tinha escolhido para ajudá-la a enfrentar o fim do relacionamento com Casey.
Que ironia não? Me perdi na leitura do livro, sempre amei história.
– Ei Doc! Acordou cedo heim? – Ruby me dizia ao levantar da cama. Nem preciso comentar sobre o susto que levei. Me despreguei do teto e respirei fundo para responder
– Acordei de madrugada e comecei a ler esse livro. – Ruby subiu na própria cama para espiar a capa do meu livro.
– Chorei horrores com o final. Vou até deixar um lencinho aqui do seu lado.
– Não choro tão fácil assim.
– Não foi o que pareceu quando deitei para dormir e você chorava baixinho. – mirei o teto envergonhada pela minha exposição. Nesse momento desejei cair e bater a cabeça bem forte pra desmaiar e ter uma amnésia, esquecer o que ouvi e não passar pela vergonha maior de responder.
– Desculpa se te acordei com meu choro. Dei esse mesmo livro para Jane quando ela terminou um relacionamento.
– Você não terminou um relacionamento Doc.
– Não posso terminar algo que nem começou. – soltei o ar frustrada enquanto marcava a pagina que parei minha leitura e coloquei o livro ao meu lado. – Não terminei, mas me afastei. É a mesma coisa.
– E não está fazendo nada bem pra você esse afastamento ai. – ela me disse enquanto prendia seu cabelo.
– Todo dia tento me convencer que certos afastamentos, por mais dolorosos que sejam, servem para evitar dores maiores.
– E evita?
– As vezes sim.
– Isso é fugir, você sabe né?
– Sim eu sei. É fugir da dor.
– Mas se ainda dói, então não adianta nada fugir. – por que as vezes Ruby tem que ser tão sincera e certa?! Isso é irritante.
– Algumas coisas não são possíveis ser explicada Ruby.- me sentei no beliche e ela se apoiou nos meus joelhos, olhando fixhamente em meus olhos.
– Fugir e se esconder não adianta Doc. Se você tipo se tranca pra deixar tudo de ruim pro lado de fora, tipo, deixa tudo de bom não entrar também. Não da pra se viver com nada. Seja coisa boa ou ruim a gente tem que enfrentar entende? – coloquei minhas mãos sobre as suas e sorri
– Desconhecia esse seu lado poetisa Ruby
– Sou uma desperdiçada poetisa não compreendida. Será que eu ganharia dinheiro escrevendo um livro? Já tenho até um titulo: Filosofa contemporânea nascida da cadeia fria.
– E suja
– E suja, cadeia muito suja. Mas aprendemos muito aqui. Na minha antiga cela tava escrito: Só quem sente o frio de uma cela da valor ao calor da liberdade.
– Esse poderia ser o título do seu livro. – ela cresceu os olhos e sorriu pra mim.
– Verdade! Agora vou levar Katy Bieber para dar uma volta no pátio. Te encontro no café da manhã.
– Ruby, espera. — desci em um pulo. – Você disse que alguém cuidava de uma pessoa muito importante pra você. Essa pessoa que cuidava era a Angela não é? Angela Rizzoli.
– Sim. – me disse de cabeça baixa – Mas eu não sabia que ela era a mãe do seu bad romance, eu juro! – disse levantando as mãos. – Pelo meu pai eu faço todas as merdas que faço sempre. Você não faz ideia do quanto ele é importante para mim.
– Então você confiou a coisa mais importante que você tinha em troca de cuidar de mim?
– Foi uma troca justa. Você também é muito importante para alguém. Assim como meu pai é pra mim. Então eu sabia que podia confiar.
– Mas essa pessoa que você diz morava na minha casa. E agora se mudou.
– Se mudou para a minha. Meu pai precisa de cuidados constantes. Angela é um anjo em nossas vidas. E a forma como ela pediu pra cuidar de você... Mesmo que ela não me ajudasse eu faria isso. Você é como uma filha para ela Maura. – eu não conseguia acreditar naquela confissão, não ao me lembrar das acusações justas que sofri– Não sei o que rolou com você em Vegas com seu bad romance. Mas você ainda tem uma mãe italiana que te ama demais. E irmãos bem implicantes... E gatos. – ela gargalhou saindo da cela com Katy Perry.
As luzes me davam a sensação de liberdade (ou talvez fosse a bebida não sei). Mas eu me sentia livre, como um passáro que voa ao longe, voando por montanhas e florestas. Nada mais me importava, muito menos me importava os olhos das pessoas em mim.
Bebi mais um gole da minha bebida, mal sentia o gosto, só sabia que era maravilhosa, infelizmente ela acabou muito rápido, ou eu bebi muito rápido, a diferença não importava. Abri meus olhos a procura de Jane que tinha ido buscar mais bebida, mas ao não encontra-la entre aquela multidão, apenas fechei meus olhos e voltei a dançar. Senti olhos me desejando e comecei a rebolar, me sentia uma prostituta ao fazer aquilo, mas era maravilhoso ser desejada
Com meus olhos fechados, eu apenas sentia a música, não me importava mais se meu vestido vermelho subia, se algumas mãos bobas passavam em mim, eu queria curtir aquela liberdade. Então senti uma mão tocar a minha e me puxar. Bati de frente com um rapaz, ele havia me puxado, ao abrir os olhos reconheci aquele rosto, era o rapaz que vi no começo quando cheguei a boate. O moreno de sorriso safado. Passei a mão em seu cavanhaque macio e a deslizei por seu pescoço, logo ele me puxou para um beijo, um beijo guloso, tive a impressão que estava sendo engolida por aquela boca. Não estava sendo muito bom, não queria dessa forma tão ávida, quando pensei em amenizar o beijo senti algo em minha cintura.
Senti duas mãos me puxar pela cintura, ao abrir os olhos vi Jane furiosa na minha frente, ela estava entre o rapaz e eu e ela ostentava um olhar mortal para o rapaz moreno. Nunca havia visto ela tão furiosa assim. Me senti protegida ali atras dela. Ela gritou algo com o rapaz que não consegui entender o que era, o som estava muito alto. Não faço ideia do que ele respondeu, tudo que sei é que ele tentou segurar minha mão de novo e Jane empurrou bruscamente o peito dele, avançando para cima dele.
Algumas pessoas seguraram ela e eu fiquei lá, inerte sem fazer nada, sem entender nada. Jane veio em minha direção, dentes trincados e gritou que a gente iria embora, isso eu ouvi porque foi bem no meu ouvido.
Ela segurou minha mão e me rebocou de lá. Do lado de fora da boate ela me disse que no hotel iriamos conversar sobre o que tinha acontecido ali dentro.
Não quis responder nada no momento, meus lábios ainda ardiam pela barba que roçou com força ali, mas nem isso tirava o sorriso da minha boca. Por algum motivo eu estava feliz, mesmo sabendo que iria ouvir horrores no hotel, eu estava feliz, aquela proteção era tão prazerosa. Jane parecia não estar mais tão bebada e apertava minha mão, como se tivesse medo que eu fugisse.
Em uma tentativa falha tentei puxar minha mão e Jane se virou nervosa pra mim. Não sei como, mas dei um passo para o lado e esbarrei em um muro, senti que ia cair, mas entao senti o corpo de Jane colado ao meu evitando a queda enquanto ela me dizia algumas coisas que eu não conseguia entender. Tudo que eu via era sua boca tão perto da minha. Meu corpo queria responder por mim.
Thommy Rizzoli
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