Mirrors

14 Antes de las seis


Notas iniciais
Hello! Como eu disse anteriormente, a partir de agora não tem mais flashback, mas isso não quer dizer que a história acabou, nananinanão. E... hã... acho que é só isso. Ahhhhh, já tava esquecendo. O que estiver em itálico é pensamento Boa leitura

Não aja tão estranho
Duro como uma pedra
Se te mostrei pedaços de pele
Que nem mesmo a luz do sol não toca
E tantos sinais que nem eu mesma conhecia
Te mostrei a minha força bruta
Meu calcanhar de Aquiles, minha poesia
O que você fará?
Só uma história mais
O que farei se não voltar a ver você

Estava no auditório passando pano no chão enquanto Ruby lustrava a grande mesa, algo que era obrigatório fazer uma vez por semana. O tempo passou relativamente devagar, eu havia inteirado um mês naquele lugar... Apenas mais cinco meses e acabou! Ri do meu “apenas” tão animado, e debochei de mim com um sorriso.

Ruby retirou um cigarro meio amassado do peito e o ascendeu com pilha e papel. Não sei por que ainda fico chocada com as coisas que entram nesse lugar.

E então ela soltou a fumaça de seu cigarro, me foquei na ponta laranja, lembranças invadiram minha mente, e retornei àquele quarto em Vegas, precisamente do momento em que dançava com Jane e a morena cismou de entrar no espírito da cidade diversão e acender um cigarro. Seus toques, seus beijos quentes e molhados, podia quase sentir sua mão firme em minha cintura.

— Não deveria ter lembrado disso agora — resmunguei para mim ao sentir o estado que minha respiração ficou agitada.

— Deu pra falar sozinha agora doc? – Ruby apagou o resto do cigarro na mesa que ela tinha acabado de lustrar... Essa menina adora deixar os guardas de cabelo em pé.

— Mais ou menos.- Sorri sem graça

— Tava pensando na sua morena gostosa né? – Minha o que?! Como ela ousa cham...?

— Minha o que?!

— Você entendeu... Tava pensando nela né?

— Por que você acha isso? Por que eu pensaria na Jane? A novata falou alguma coisa? – Fiz minha cara de séria e ela riu, não entendi o porquê, menina doida.

— Não precisa a Deborah me falar nada. Você acabou de confirmar doc. – confirmar o que? Acho que os ratos e baratas afetaram o cérebro dessa menina, tadinha. Pode se dar tudo a uma pessoa, menos intimidade!

— Você é louca. Tá pensando que sou o que?

— Responder com outra pergunta é uma forma de afirmar, certo?. – O que?! Além de cigarros elas conseguem bebidas aqui também? Eu quero um gole.

— Perdão? — perguntei

— Disse que... Ah esquece! Tava ou não pensando nela?!

— Talvez – Senti meu rosto queimar.

— Você pensa nela demais.

— Estamos a quilômetros de distância

— Distancia não é motivo pra desistir de tudo — cruzou os braços e me encarou

— Mas é motivo para não correr atrás.

— E por que você não liga pra ela doc? O telefone cobre qualquer distância.

— Não acho apropriado. — respondi voltando a minha atenção em ilustrar o chão.

— Pra você ou pra ela?

— Para as duas Ruby. Será melhor assim. – Disse mais afirmando pra mim do que pra ela.

— Tá sendo melhor pra ninguém. Você vai ligar agora! – Me apontou o dedo

— Não.

— Eu não estou pedindo doc, você vai ligar pra ela. – Ela se aproximou de mim— Agora!

— Não gosto de receber ordens! – Berrei me fazendo de ofendida, que menina petulante!

— Mentira! Você tá com medo dela rejeitar a ligação! E vamos lá. Toda história de amor tem que ter alguém pra sacudir o mocinho e fazer o casal juntar, serei eu dessa vez. Anda! Vamos! Larga esse medo e vamos.

— Não é isso Ruby, eu não quero ligar, só isso! Já estou decidida. Vamos terminar de limpar isso aqui.

— Ah! Mas você vai ligar! E vai ser agora — ela jogou o pano longe vindo furiosa em minha direção— Não vou ficar mais um mês ouvindo VOCÊS chorando não! Leva essa bunda lá pros telefone agora! – disse me puxando pelo braço e jogando meu rodo longe. Me deixa aqui doida, custei deixar o chão brilhando.

— Eu não vou! Sou adulta e eu decido sobre mim! – Disse séria para ela— Quando digo que não é não! Você não manda em mim e eu não vou! Entendeu? – Ela me olhou estranho.



Muito estranho.



Realmente muito estranho

— Não precisa ficar na fila comigo Ruby... Já sou a próxima a ligar tá vendo?!

— Vou acompanhar a ligação doc. Quero me certificar. – Bufei

— Não sou uma criança tá! – falei indignada ao cruzar os braços e bater o pé no chão. Ela riu de mim, não entendi.

— A moça saiu. Desmancha essa tromba e vai, sua vez doc, telefone, vai. – Meu Deuuus! Sou a próxima! O que eu vou fazer?!

Minhas pernas me fizeram tentar sair correndo, mas minha arrogante e petulante amiga de cela me puxou pela camisa laranja derrete retina.

— Isso é porque você não é criança mais né doc. Qual o número da morena gostosa? – disse tirando o telefone do gancho. Péssima hora que proibi ela de chamar Jane de Bad Romance.

— Não chama ela de morena gostosa. – Resmunguei ao voltar pra perto dela.

— Mas ela é morena... E gostosa!

— Não gosto que chama ela assim. – resmunguei de novo, na verdade tenho feito muito isso resmungar. Deve ser convivência com Jane.

— Ciúmes é? – Eu sei controlar meus sentimentos ta mocinha! Doida! Eles precisam proibir bebidas aqui, é sério!

— Não Ruby. Só acho esse apelido pejorativo. – respondi no meu melhor tom neutro que fez ela gargalhar de mim.

— Então qual o número da mulher de ascendência italiana, ui! Ouvi falar que italiano bota pimenta em tudo né... e adoro as coisas apimentadas, então... Enfim, me passe o número da mulher de cabelos selvagens bom de perder as mãos ali; abdômen claramente definido que da vontade mapear com a língua; boca que diz: “cala boca e me beija logo” e uma voz que da vontade ser jogada na parede a noite inteira? Hummm... Até salivei! – chamem a ambulância, aqui jaz um corpo.

— Ruby, v-você... — ela gargalhou de mim e percebi que ela estava zoando comigo

— 057... Hã? E o resto doc? – minha voz estava em algum lugar brincando de esconde-esconde

— Vou ligar pra Deborah e peço pra falar com a Jane. Assim é mais fácil. Elas devem estar no bar agora. – no bar? Jane e a oficial novata? As duas? Juntas? Como ninguém me falou?

Vi ela aguardar paciente enquanto enrolava o fio do telefone sensualmente no dedo. Por que tudo que essa mulher faz tem que ser sensual? Pensei em Jane, em como ser sensual para ela. Pára Maura! Que pensamentos são esses?! Você não era assim! Deve ser a água dessa maldita prisão! Ou então eu posso estar ficando perturbada, amanhã vou redigir outra carta para o diretor exigindo um psicólogo. Parece que alguém atendeu, pois Ruby ficou alerta.

— Claro coisa linda, como sabia que era eu? – Seria por que a telefonista falou que a ligação era do presídio e você é a única que liga? Espero que a Deborah não esteja perto da Jane! Só espero! Espero mesmo! Oh se espero!

— Sim, você sabe que gosto. – Acho que vou vomitar aqui— Queria ter visto essa foto dele nu... Acho que teria lambido a foto... Bieber é muito gostoso! – Com certeza Ruby está falando com a Deborah!

— Eu quero te pedir um favor meu amor.- Ruby olhou pra mim, corei e comecei a analisar minhas unhas na tentativa de mostrar que eu não estava atenta a conversa.

— Você sabe que seu eu estivesse ai isso seria certo né, mas não, é outra coisa. – Será que Ruby está falando mesmo o que estou pensando?! Não! Ruby não faria isso comigo aqui colada nela né, não. Ruby é hetero gente... Devem estar falando de receita de bolos ou coisa assim.

— Mas é claro que seria certo! Você acha que eu perderia um especial com minha diva? Taylor é vida! – não é receita de bolo, pior que isso! Estão falando da garota dos 15 ex namorados. Comecei a olhar ao redor procurando uma lixeira pra vomitar.

— Pode deixar Debs! Passa pra Jane por favor, quero falar com ela. – Senti meu coração atropelar uma batida e ameaçar sair quicando pelo corredor.— Claro que sim, temos que discutir muito sobre isso! Minha diva foi indicada várias vezes tá! E a sua não!

— Toma – Ruby me estendeu o telefone. Peguei totalmente incerta do que falar e então apenas o coloquei no ouvido tentando controlar as borboletas dançando Macarena em meu estomago.

— Alo? – ouvi a voz familiar do outro lado, as borboletas desmaiaram e eu quase desmaiei junto com elas me estatelando no chão.— Ruby? Alo?

— Não Jane – respondi baixo— É a Maura falando. – silêncio do outro lado.

Ruby me olhava com seus grandes olhos azuis enquanto eu começava a suar, minhas mãos tremiam e estava me sentindo muito desconfortável com o silêncio de Jane.

— Era você falando com a Debs ou era a Ruby? – Jane perguntou aflita

— Era a Ruby. – Escutei ela soltando o ar aliviada. Será que ela pensou que eu estava falando sobre Taylor e Bieber nu? O céus! Quão baixo cheguei.

— Como você está Maura? – Percebi sua voz meio lenta, ela já tinha bebido um pouco.

— Bem e você?

— Bem. – ficamos alguns segundos em silêncio

— Jane?

— Tô aqui. – mais silêncio. Antes não parávamos de falar um só segundo... e agora? Cadê os assuntos? Ruby me cutucou com o cotovelo pedindo que eu falasse algo.

— Freud está comigo. – Jane disse rápido, atropelando as palavras, sorri ao lembrar de nosso camaleão

— Está? Ele está se comportando?

— Temos que tirar outra licença, ele não é legalizado aqui em Boston. E ele anda comendo mais insetos do que eu previa. Passo o dia com uma raquete atrás de mosquitos pra ele.

— Só deixa-lo tomar ar fresco no jardim. Ele se vira.

— Moro em apartamento. Se eu o deixar tomar ar fresco ele virará carne moída na rua.

— É mesmo, desculpa. Não quis ser inconveniente. – Ruby me olhou como se eu tivesse jogado um sapato no Obama, então tentei contornar— No pet shop deve ter alimento para ele, procure alimentos para iguanas.

— Ah Maur! Que isso?! Até parece que não me conhece né! Já fui ao pet shop... Depois que minha mãe me obrigou é claro. E achei algumas coisas pra ele lá – Eu não parava de sorrir, ela estava mais solta e me chamou pelo apelido sem perceber. Tenho certeza.

— Ainda tem dificuldades para acha-lo? — perguntei sorrindo ainda mais.

— Demais!! E tô assustando minhas visitas tudo! Uma hora não tem nada, de repente olha ele lá olhando pra gente com aquela linguinha pra fora. – gargalhei. Como senti saudades disso. Como senti saudades do seu humor, senti lágrimas em meus olhos. E o silêncio voltou a reinar na ligação.

— Maura?

— Tô aqui. Vou passar pra Ruby, tudo bem?

— Maura, você recebeu uma carta?

— Não recebo cartas, não sei do que você está falando Jane. Vou passar pra Ruby. Boa tarde – um silêncio do outro lado, mas eu precisava desligar, precisava terminar aquilo antes de chorar— Jane?

— Sim, tudo bem. Boa tarde. — decepção. Decepção foi o que ouvi em sua voz.

Entreguei o telefone para Ruby que me lançou um olhar triste. Coloquei as mãos nos bolsos da minha roupa laranja-derrete-retina e andei cabisbaixa pelo corredor. Escutei sussurros das mulheres que passavam ao meu redor, mas não me importei. Fui até minha cela, peguei meu livro indo em direção ao pátio fazer o que faço melhor... Me esconder do mundo em um livro.



Antes de las seis — Shakira


“Como culpar o vento pela desordem feita, se foi você que esqueceu a janela aberta?” foi a frase que li naquele livro. Perdoar é fácil, o difícil é reconquistar a amizade e não sei se sou capaz de lutar tanto... Mesmo sendo por Jane.

Novamente eu estava chorando, as vezes a força foge do nosso corpo e nos sentimos tão fracos que nada mais importa, o dia parece um cinza sem fim. Então senti uma mão em meu ombro. Olhei pra cima e olhos azuis tristes me olharam. Ruby sentou ao meu lado na grama.

— Irônico não é? – me disse— Lembranças felizes fazem chorar mais que as tristes. – apenas assenti com a cabeça enquanto limpava as lágrimas do meu rosto.

— Tá tudo bem. – falei sentindo que minha voz não saiu tão convincente

— Doc, se a gente estivesse no mundo real agora, eu escolheria um filme bem dramático no netflix e faria um balde de pipoca enorme pra gente comer com sorvete.

— Você é uma boa pessoa Ruby. – ela me olhava preocupada e eu estava me segurando pra não pular nos braços dela e chorar. Nunca fui fã de abraços, mas agora eu realmente queria um.

— Desculpa doc, não consegui sorvete nem pipoca, e netflix aqui é tecnologia de outro mundo, mas consegui isso. – ela retirou uma pequena barra de Kit Kat do bolso e me estendeu— Não é muito mas...

Desprendi as amarras e a abracei... Chorei. Me joguei em seus braços e chorei por uma vida enquanto ela me abraçava e acariciava minhas costas.

— O que ela te disse Ruby?

— Doc...

— Não precisa me contar tudo. Só não minta pra mim.

— Falou sobre a nova cicatriz maneira e sobre a vontade de voltar a trabalhar logo. – e eu sabia que tinha muito mais coisa ali, Ruby tinha o dom de fazer as pessoas se abrirem.

— Doc, você não foi a chamada do correio, mas eu peguei sua carta. Toma.

Abri o envelope e senti meu coração acelerar, meu rosto ficou quente e as borboletas voltaram, mas dessa vez dançavam PSY gangnam style, a dancinha do cavalo.

Estava datada de quatro dias atrás

"Maura

Eu sei que não estamos em um momento muito bom na nossa relação, mas não quero continuar assim.

Eu sinto sua falta Maura, muito mesmo.

As vezes pego a chave da sua casa com minha mãe com a desculpa de buscar algo meu que esqueci lá. Tudo que faço é sentar no seu sofá e fingir que você está na cozinha escolhendo um vinho e logo sentará ao meu lado. Mas você não vem e aquele sofá parece grande demais. Coro em confessar que as vezes cheiro suas almofadas procurando por seu cheiro.

Só queria que você soubesse isso, que estou pegando sua chave até demais e também soubesse que suas almofadas já estão sem cheiro...

Sinto sua falta.


Com carinho


Jane"



— Ruby? Você tem papel e caneta?

— Caneta não, mas roubei esse papel e esse lápis no momento que vi o remetente.

"Querida Jane

Fiquei feliz em saber que você saiu do hospital, eu estava realmente preocupada.

Não precisa pegar a chave com sua mãe. Use minha reserva, está no meu armário no laboratório. A senha é a data que voltamos a conversar quando você atirou no meu pai. Brigamos e você não desistiu de mim, é uma data que guardo com carinho, pois é a prova que tudo pode ser restaurado.

Me perdoe por tudo.



Com carinho

Maura Isles"

PS: Há mais almofadas no meu quarto.

Terminei de escrever minha carta, e a entreguei ao correio da penitenciaria. Voltei a minha cela e uma mulher entrou minutos depois, um pouco desesperada. Logo reconheci como sendo aquela senhora que conversou comigo no dia da primeira visita de Korsak.

— Loira! Rápido! Sua amiga, aquela morena com mechas ruiva. Ela tá com problemas lá na biblioteca. É muito sério.

— Meu Deus! Vai apanhar de alguém? Da Ursa?! - Me joguei da cama e comecei a correr junto com a mulher. Se fosse da Ursa, eu estaria indo apenas para recolher caquinhos de Ruby. Eu falei para ela parar de implicar com a Ursa!

— Não é da Ursa... É pior ainda.

Entrei na biblioteca e vi uma cena que eu jamais esperei ver. O guarda-mal-humor estava com um cassetete na mão, ia em direção a Ruby. Não pensei duas vezes em entrar na frente para proteger minha amiga.

— Sai da frente sangue azul! A conversa não é com você! - gritou

— Se diz respeito a Ruby, então me diz respeito. - Então ele me olhou, seu olhar gélido me fez ter vontade de recuar. Pensei em Jane, e em quantos homens piores que esse ela enfretava todos os dias. Decidi não recuar.

— Saia da minha frente. — sua voz era fria, um calafrio percorreu minhas costas e então ouvi Ruby fungando atrás de mim.

— Não, não sairei. O que for fazer a ela, fará a mim também.

Ele sorriu, um sorriso que fez meu sangue gelar. Aquele homem era mal, cruel. Lembrei-me do olhar de Hoit na hora, do seu sorriso. "Jane, preciso muito de você".

— Com muito prazer Sangue Azul. — senti meu corpo inteiro estremecer de medo com aquela voz fria e cruel. Não consegui identificar o seu olhar, mas me dava medo, muito medo.

Ursa chegou ofegante, a senhora que me chamou com certeza havia ido atrás dela.

— O que está acontecendo aqui? — Ursa perguntou com sua voz de contralto.

— Nada que te interesse srta Johnson.

— Beleza, mas vou ficar aqui. Sabia que me deu até vontade ler um livro rapaz - E Ursa cruzou os braços. Me senti um pouco mais segura com aquela mulher ali.

Me abaixei perto de Ruby, ela chorava e tremia, notei sua blusa um pouco rasgada. Ela segurava algo nas mãos, com certeza era Katy Bieber.

Perguntei se ela estava bem, mas seus olhos ainda estavam arregalados, olhando o homem em pé atrás de nós. Katy saiu de suas mãos e passou perto dos meus pes, indo em direção ao guarda. Vi quando ele olhou sorrindo sarcasticamente para mim. Fechei meus olhos já pressentindo o que aconteceria em seguida.

— Por favor, não faz isso. - Escutei Ruby implorar.

— Vê se cresce garota idiota! - Abri meus olhos e senti a raiva crescer ao olhar aquele homem a minha frente.

— Por favor, não faz isso. — pedi, quase um sussurro.

— Não fazer o que? Isso? – o guarda-mal-humor pisou em Katy Bieber. O barulho de um inseto sendo massacrado nunca me incomodou tanto quanto agora. Ouvi Ruby gritar, um grito dolorido, rouco, um pesar que me fez agir sem pensar.

— Você já abusou demais do poder! QUEM VOCÊ PENSA QUE É?! – sem medo me levantei, apontava meu indicador, quase encostando no rosto daquele guarda que se achava o dono do mundo— Ruby gostava desse inseto. Custava ser gentil? Custava ser um pouco mais humano? CUSTAVA?!

— Esquece essa barata nojenta sangue azul. Você fica uma delicia assim nervosa sabia?

Sem pensar nas consequências fiz algo que jamais imaginei que um dia pudesse fazer. Dei um tapa sem medo de ser feliz no rosto do guarda-mal-humor. Vi a marca vermelha dos meus dedos na bochecha dele quando ele me olhou de uma forma furiosa, trincando sua mandíbula, eu quase podia ouvir o ranger dos seus dentes.

E não tive reação quando senti o golpe em meu rosto. Tudo ficou escuro por alguns segundos e o lado esquerdo do meu rosto latejava. Ouvi os gritos de Ruby e uma voz grave ordenando para alguém se afastar. Acho que era Ursa, Ursa interveio, ouvi um baque, abri meus olhos e vi o guarda-mal-humor se levantando. Ele levantou muito mais nervoso, seu olhar era assassino. Vi Ruby entrar na minha frente e ser arremessada para algum lugar.

"Você vai pagar sangue azul! VAI PAGAR MUITO CARO!" Foi tudo que ouvi antes de desmaiar com o segundo golpe que recebi.

Acordei e senti minha cabeça latejar. Coloquei a mão no lado esquerdo do meu rosto, ele estava inchado. Um gosto metálico de sangue em minha boca fez meu estomago embrulhar. Me virei de lado na cama na tentativa de jogar algo para fora, mas nada saiu, e então me lembrei que não havia comido nada ainda.

Tonta me sentei na cama olhando ao meu redor. As paredes estavam descascadas, com infiltração, o cheiro azedo de mofo fazia minhas narinas coçarem.

— E então sangue azul? Está gostando da vista? - o guarda-mal-humor gritou da janelinha.

— Aqui não tem janelas e você sabe disso. — Nem me dei ao trabalho de olha-lo

— Qual seu problema que não sabe nem reconhecer uma ironia! – eu sei seu otário, só não vou te dar esse gostinho de me humilhar mais.

— Sim, eu reconheço. Só que a sua foi tão miserável que nem me dei ao desgaste de interpretar.

Ele rangeu os dentes e bateu o bastão de madeira contra a porta de aço, fazendo o barulho alto doer um pouco mais minha cabeça.

— Vai ficar sem almoço!

— Não faço questão do resto escroto de comida que vocês dão nesse lugar. – resmunguei, porém acho que ele ouviu, pois bateu novamente na porta com mais força. Por reflexo levei minhas mãos para tapar inutilmente meu ouvido.

— A comida daqui é ruim demais pra você é? Então não vai ter nenhuma até o dia em que eu sentir dó de você.

Acordei novamente, não fazia ideia de quanto tempo fiquei ali. Estava com muito medo de pensar, as luzes que nunca eram apagadas pioravam minha situação. Eu tinha a impressão que minha cabeça tinha se mudado da cidade e deixado o aluguel para eu pagar.

Ouvi vozes irritadas. Elas se aproximavam ao longo do corredor.

— Isso é um desacato! — um homem velho gritava

— E quem você pensa que é? Solta meu braço antes que eu não responda mais por mim!- conheço bem essa voz, é a Jane! Ela está aqui!

Senti meu coração acelerar e minhas pernas ficaram bambas. Tentei levantar, mas meu corpo
estava muito fraco, viver já estava sendo uma tarefa muito difícil.

— Não me interessa o porque! Você vai abrir isso AGORA! – novamente Jane gritou.

Parece que a pessoa que estava com ela tentou a convencer a algo e ela gritou furiosa. Minha cabeça estava latejando tanto que não conseguia entender bem o que eles estavam conversando.

— Abre isso logo! — ouvi ela gritar novamente. Os sons estavam tão distante, mesmo eu sabendo que eles estavam do outro lado da porta, há menos de dois metros. Tudo que eu ouvia era a batida rápida do meu coração e minha respiração fraca e pesada.

Lutando contra o mal estar levantei da cama. Eu preciso dela. Preciso de Jane! Mas senti uma pressão forte na cabeça, minha visão escureceu, os sons ficaram ainda mais distantes. Senti que uma pessoa me segurava, me segurava firme e me perguntavam algo que não consegui discernir. Eu não tinha forças para falar nada, apenas me deixei naqueles braços, na esperança de não ser um sonho, ser os braços de Jane.



Notas finais
Tomara que seja mesmo né. Comente pleaaaaase