Ian caminha para dentro de sua casa acompanhado do primo que ia abrindo as portas, já que Emily adormecia em seus braços como um anjo. O lugar estava completamente silencioso com os funcionários em seus devidos quartos dormindo. Lorenzo ia abrindo a porta de um dos quartos de hóspedes quando o primo para ele, apontando para o próprio quarto. Ambos vão apressados em direção ao cômodo e Ian deposita a morena com cuidado sobre sua cama. Era estranho vê-lo trazer uma garota para sua própria casa, quanto mais no quarto. Apesar de ser um grande canalha, como sua mãe adora dizer, ele sempre foi muito reservado, não levando ninguém para aquele lugar que era quase um momento de paz de descanso para ele.

— E agora? O que você vai fazer? – Pergunta Lorenzo cruzando os braços e encarando a garota desacordada em sua frente.

— Eu não sei. Acho que precisamos tirar esse vestido dela, afinal, está fedendo a vodka. – Sugere mordendo o lábio inferior.

— Ian, tem certeza que foi uma boa ideia trazê-la para cá? Com certeza essa garota mora com os pais ou com alguma amiga, que podem cuidar dela melhor do que você. – Sussurra ao ver a morena se revirar na cama.

— Me ajuda a tirar esse vestido. – Ordena Ian, elevando o corpo dela com cautela e descendo o zíper. Ele entrega o vestido para Lorenzo. – Acorde algum funcionário e peça que lave urgentemente, deixando aqui no quarto amanhã cedo.

— Mas agora, cara?

— Sim, agora, Lorenzo! – Grita Ian e o primo sai apressado após se despedir, avisando que iria embora.

Poderia haver uma explosão naquele quarto, mas de maneira alguma Emily acordaria em função da bebida exagerada. Era estranho vê-la assim, dormindo serenamente como se nada importasse. Principalmente por ela ser tão grossa com ele depois de ter vencido o racha. Chegava a ser engraçado a sua sede de vencer. Ian retira as grossas cobertas de sua cama e cobre o corpo da morena com cuidado. Ela sorri de lado, ainda de olhos fechados e vira até o outro lado da cama, se encolhendo embaixo da grossa coberta. A garota era muito bonita, não podia negar. Estava se tornando impossível ficar um dia sem deixar de encará-la ou ir até ela e irritá-la; já era um hobbie de Ian. Ele retira sua roupa e toma um banho rápido e quente, colocando apenas um calção e indo se deitar ao lado dela. Demorou um pouco, mas ele pegou no sono, acordando com ela abraçada ao seu corpo arrancando dele, um sorriso no rosto.

Fazia um bom tempo que Emily não bebia tanto como na noite passada, já que esse tipo de acontecimento só trazia mais problemas para ela quando tudo que mais queria era esquecer alguns, dos vários que já tinha. Aos poucos, espreguiça seu corpo e coça os olhos, suspirando pesadamente e virando para o outro lado desejando dormir por uma eternidade.

Sempre foi assim.

Ela acordava completamente sonolenta, levantando da cama depois de séculos, e somente após um belo banho gelado que se dava conta de onde estava, que dia era e a fome que sentia toda manhã. Suas mãos vagueiam pela cama e o criado mudo à procura do celular, mas não o encontra, voltando a fechar os olhos em uma tentativa inútil de voltar a dormir, já que a claridade a impedia de cair no sono. Não se lembra quando o quarto de hóspedes da prima ficara tão claro. A janela era tão pequena que o cômodo vivia a maior parte do tempo na completa escuridão.

Emily se levanta caminhando em direção ao banheiro, trombando em algumas paredes até finalmente se aproximar de uma porta que levava até o lugar desejado. Quando ia tirar a roupa, nota que está usando somente a lingerie, e tenta se lembrar de quando tirou as outras peças, mas acaba ficando com preguiça, indo em direção ao Box do banheiro e mudando a temperatura para o gelado, tomando um banho demorado.

Depois de horas embaixo do chuveiro, ela nota que definitivamente não estava no apartamento de Chloe e um arrepio percorre sua espinha de nervoso, fazendo várias perguntas retornarem como um jato em sua cabeça. Em segundos, ela se enrola na primeira toalha que vê pela frente, saindo do banheiro atrapalhadamente, dando de cara com um closet luxuoso repleto de ternos e roupas bastante sociais.

O local era completamente claro em função da parede de vidro que dava uma bela visão da cidade de Chicago, um pouco afastada dali. Uma cama enorme e repleta de travesseiros no quarto, e uma coberta grossa e quente. Uma manta marrom enfeitava os pés da cama e um quadro de folhas secas em cima da cama, decorando as paredes. Uma poltrona luxuosa de cor verde ficava no canto do quarto. Criado mudo nos dois lados da cama e uma televisão enorme e fina em frente ao móvel. Uma senhora de porte médio arrumava a cama que até então estava uma completa bagunça. As roupas que Emily usou na noite passada estavam limpas e dobradas sobre a poltrona e ela encara a mulher a sua frente na defensiva, apesar da dor de cabeça forte, sabia onde estava pisando e a raiva tomava conta só de imaginar que alguém se aproveitou da bebedeira dela noite passada.

— Onde eu estou? – Perguntou secamente para a mulher que se assustou ao encontrar a garota ali, enrolada na toalha e completamente séria. Principalmente depois da maneira como ela chegou na noite passada, segundo relatos de Lorenzo, primo do dono da casa. Era a primeira garota que seu patrão levava para casa.

— Na mansão do senhor Ian, senhorita. – Responde educadamente, se curvando diante de Emily antes de sair do quarto.

Seus olhos fervem de ódio e decepção. Como Ian pôde ter se aproveitado dela? Mas que droga! A única coisa que fazia Emily parecer uma garotinha era desejar uma primeira noite especial e ela não se lembra nem do que aconteceu. Em questão de segundos, a roupa da noite passada estava em seu corpo e ela saia do quarto bufando gritando o nome de Ian e atraindo a atenção dos funcionários ali. Seus pés pisavam nos degraus da escada com força, quase marchando à procura do garoto que ela chegou a gostar. Por um tempinho. Já ia gritar com uma das funcionárias perguntando onde diabos ele estava quando o viu pelos vidros da sala, onde dava uma ampla visão da piscina. Ian estava deitado em uma espreguiçadeira usando apenas uma sunga e Emily para em frente ao garoto que rapidamente retira os óculos escuros, sorrindo todo galante para ela.

— Qual é o seu problema? – Pergunta de braços cruzados o encarando, tentando se controlar para não olhar no peitoral maravilhoso que aquele homem tinha.

— Bom dia para você também, Emily. Não se importe em me agradecer, não foi nenhum problema tirar você daquele bar. – Murmura se levantando e enchendo um copo de água, oferecendo para a garota, que joga aquilo longe.

— Por favor, me diga que nós não... – Os lábios dela travam ao tentar pronunciar o restante da frase. Só de imaginar que aquilo poderia ter acontecido, a deixa arrepiada dos pés a cabeça.

— Quer que eu minta? Não entendo por que está tão nervosa... Nossa noite foi linda! Você é perfeita. – Ian dá uma risada e ela se torna uma gargalhada quando começa a receber tapinhas de Emily.

— Você é um babaca. – Grita ela irritada demais para se controlar. A vontade era de dar um murro no rosto dele, mas precisou agir como uma garotinha indefesa que dá somente tapinhas ardidos. Entretanto, ela podia deixá-lo roxo, isso sim.

— Não foi o que você me disse noite passada... – Murmura Ian com um sorriso preso nos lábios. Adorava demais irritá-la e isso era algo que fazia com sucesso.

— Do que você está falando? – Ela para de bater nele tão rápido quanto começou.

— Oh Ian, você é tão lindo e tão malvado. Ian, eu queria beijar você. – Diz ele fazendo uma voz afeminada tentando imitar a garota que fica calada e completamente corada.

— Eu não disse isso. – Murmura ela séria, tentando esconder a vergonha que sentia de si mesma naquele momento.

— Como pode ter certeza se não se lembra? – Pergunta cinicamente e Emily revira os olhos.

— Jamais diria isso... – A morena diz isso mais para si mesma do que para ele.

— Você nunca quis me beijar? – Questiona Ian se aproximando dela enquanto Emily se afastava a cada aproximação. Se os braços deles não tivessem envolvido ela e a puxado para mais perto, era provável que a mesma teria caído na piscina.

— Não! – Vocifera tentando desviar o olhar do dele.

— Emily, Emily... – Ela queria dar um murro nele, mas se segurou.

— Tá! Talvez eu já quis beijar você.

— Quis? Não quer mais? – Ian sussurra e ela por alguns segundos se sente hipnotizada por aquele olhar, mas rapidamente ela o vira, empurrando ele em direção à piscina.

— Não, Ian. Eu não quero mais! – Grita, virando os calcanhares, pronta para sair dali bufando quando ele volta à margem e a grita.

— Vai embora que jeito se fui eu quem te trouxe? – Pergunta.

— A pé. – Resmunga pegando seu celular com a funcionária que havia lhe entregado a roupa e quase quebrando a porta de Ian ao fechá-la.

**

Chloe é filha de Hannah, tia de Emily, e Logan. Os dois se conheceram depois de uma série de acontecimentos envolvendo a traição de seu avô, Anthony. Seus pais não gostam muito de tocar nesse assunto, por mais que a insistência seja grande para entender um pouquinho mais sobre a maneira como eles se apaixonaram. Ao contrário da prima, ela acreditava no verdadeiro amor. Acreditava que havia alguém perfeito para ela e que a amaria até o fim de seus dias. Então sempre foi encantada com esses tipos de histórias. Sua tia Sophie adorava contar como conheceu seu tio Ethan e ela não se enjoava em ouvir aquilo uma, duas, dez vezes.

Era legal ver que o amor ainda não havia sido extinto da face da Terra. Ela e a prima são grudadas desde que se entendem, já que a família inteira mora em uma única casa no Brasil, deixando todos muitíssimo próximos. Dividiam até mesmo o quarto juntas, mas acabaram indo para quartos separados quando começaram a estudar e cada uma precisava de seu devido espaço. Chloe puxou a mãe e é apaixonada por dança e arte. Entretanto sua paixão por arte, sempre foi algo mais.

Também gostava muito de história e por isso decidiu unir o útil ao agradável. Então, escolheu história da arte como curso, e a família toda apoiou. Não que ela vá trabalhar para isso um dia, já que tem a máfia do seu pai, Logan, para comandar. Ao contrário de Emily que em breve assumirá a máfia do avô, ela não estava tão animada e não era tão chegada a organização. Mas não deixava as raízes de lado. Fora que a adrenalina era incrível. Era como se ela tivesse nascido para aquilo e, de fato, nasceu.

Agora, estava em seu apartamento, colocando uma roupa confortável e fresca, já que hoje, Chicago estava mais quente. Prende o cabelo em um coque e vai até a cozinha preparar algo saudável e gostoso para o café da manhã, depois ir até o apartamento da vizinha e alimentar o gato dela já que a mesma está viajando e pediu que a garota fizesse esse favor. Depois de terminar de cozinhar, decide chamar a prima já esperando a mesma xingá-la por ser acordada tão cedo, mas ela queria sair hoje. Ir a um parque, sei lá... Chloe sempre gostou desse tipo de coisa.

— Emily, bom dia! Está na hora de... Emily? – A prima não estava no quarto e a cama completamente arrumada, o que significava que não havia dormido em casa. As duas haviam combinado algo com os pais de sempre cuidarem uma da outra e quando uma fosse dormir fora, avisasse e vice-versa. Isso ajudaria caso uma delas fossem pegas pela Cosa Nostra. – Droga.

A garota alcança seu celular tão rápido, mesmo ele estando do outro lado do apartamento. O desespero nítido em seus olhos desejando que aquilo não fosse verdade. Seus dedos digitaram o contato da prima e ela espera pacientemente até que Emily atenda.

— Antes que reclame e me diga um milhão de asneiras sobre o quanto fui irresponsável, eu prometo que tenho uma explicação. O que não vai fazer de mim menos irresponsável, mas...

— Onde você está? – Pergunta Chloe preocupada e interrompendo o discurso da morena.

— Alguns metros longe da cidade, em frente a uma mansão cercada de seguranças. Provavelmente bem mais do que nossa casa no Brasil tem. – Murmura ela depois de olhar em volta. – Mas estou indo para casa. Só parei para descansar. Cansei só de procurar o portão de saída desse lugar. E pensar que ainda falta muito para chegar na sua casa...

— O que aconteceu? – Aquilo não deixava Chloe nem um pouco aliviada.

— Pode fazer essa pergunta depois? Preciso ligar para um táxi. Não acho que eu consiga chegar em casa. – Resmunga ela desligando o celular.

**

Emily decide por fim ir a pé mesmo, arrancando os saltos e caminhando descalço pela calçada da casa de Ian desejando pedir carona cada vez que um carro passava. Até que era legal sair por aí sozinha, andar pelos cantos sem ter ideia de onde ir – apesar dela ter sim essa ideia. Mas isso ajudava a colocar as coisas organizadas em sua cabeça. Um carro bastante conhecido dirige até ela e abaixa os vidros revelando Ian com óculos escuros e um sorriso no rosto.

— O convite da carona ainda está de pé... – Cantarolou e ela continuou andando, o ignorando como se ele nem mesmo estivesse ali. – Qual é... Simplesmente entra no carro.

— Não, obrigada. – Sussurra contra vontade e continua andando quando começa a chuviscar. – Que ótimo!

— É o destino nos unindo mais uma vez. – Ironiza Ian e Emily para imediatamente fazendo ele frear o carro. Os dois se encaram por um bom tempo. Ela com ódio. Ele segurando uma vontade imensa de rir.

Quando viu, já estava dentro do carro do garoto, mas não ousou encará-lo. Ficou apenas observando a paisagem que a janela do automóvel proporcionava.

— Poderia prestar atenção no trânsito e parar de me encarar? Está me incomodando. – Resmunga ela ao notar que ele a encarava, pisando fundo no acelerador sem se importar em bater o carro. Tinha que admitir que ele era bom sobre quatro rodas.

— Ver você está melhor. – Murmurou e ela o encara com intensidade, arrancando um sorriso de lado de Ian que continua dirigindo sem tirar os olhos dela. Era como uma batalha interna travada pelos dois e Emily desiste, sorrindo. – O que foi?

— Você é insistente. – Confessa.

— É um dom meu. – Diz ele voltando a focar no trânsito. – Onde você mora?

Emily dá as coordenadas para Ian assim que eles estão na entrada de Chicago e os dois terminam o caminho em silêncio, até estacionarem o carro em frente ao apartamento de Chloe.

— Então é isso... Obrigada! – Agradece ela rapidamente abrindo a porta do carro.

— Espere aí... Emily está me agradecendo? Eu preciso gravar isso. – Falou arrancando uma risada dela.

— Cala a boca! – Pede fazendo ele rir também. A chuva agora estava forte na cidade e o carro estava tomado pelas risadas que faziam a barriga doer.

— Nós não transamos. – Ian comentou depois de terem se recuperado. – Você estava bêbada... Seria injusto e desrespeitoso com você. Não sou esse tipo de homem.

— Sei que não é esse tipo de homem. – Sussurrou Emily mordendo o lábio inferior e atraindo a atenção dele.

— Sabe é? – Ela afirmou com a cabeça se aproximando dele e depositando um beijo em sua bochecha.

— Até um dia, Ian.

— Até um dia, Emily.

A morena sorriu antes de sair do carro, fechar a porta e ir em direção da portaria do prédio, observando ele uma última vez e lançando um sorriso presunçoso antes de correr para dentro e apertar no botão do elevador, que rapidamente se abre. Ian sentiu uma vontade imensa de descer do carro e ir até ela. Era incrível o vazio que sentia sem a presença dela, mas estava na hora de trabalhar e deixar esses pensamentos de lado. Emily bate na porta do apartamento de Chloe que abre rapidamente puxando a garota com força e fechando a porta atrás de si. As duas se sentam no sofá e ela começa a contar tudo em detalhes para a prima, que faz uma careta.

— Eu bebi demais, você não tem ideia. Aí eu não me lembro do que aconteceu, mas eu acordei no quarto daquele Ian que comentei com você e eu meio que acho que estou me sentindo atraída por ele. Mas ao mesmo tempo não. É tudo tão confuso que às vezes... Por que está fazendo essa careta? – Pergunta Emily cansada de ver a expressão da prima e então ela aponta para o notebook aberto e a câmera ligada. Seu avô aparecia na tela com uma expressão pior que a dela.

— A careta dela não está pior que a minha, acredite. – Murmurou Anthony, que acabou sorrindo.

— Oi vovô. Desculpe ter feito você ouvir isso... – Diz ela sorrindo também.

— Não tem ideia do quanto sinto a falta de vocês, mas vejo que estão indo bem sem mim. – Vociferou fazendo as meninas revirarem os olhos.

— Sabe que odiamos drama! Onde está a vovó? – Pergunta Chloe. Apesar de Blair não ser a avó dela, por não ser mãe de Hannah, era como se fosse, já que ela se acostumou em chamá-la assim. Entretanto, ela sabia de Chloe, sua avó, e a amava incondicionalmente assim como amava Blair.

— Ela não pode saber que entrei em contato com vocês... Se não ela me estrangula.

— Quando você fala assim, é porque tem um pedido a fazer. – Emily é direta recebendo um cutucão da prima.

— Estamos precisando de armas. Nosso estoque tem diminuído e aqui no Brasil, seus pais estão tendo dificuldades em conseguir boas. – Anthony volta a sua velha postura de mafioso sério e as meninas assentiram.

— E por que eles não falaram conosco antes? – Pergunta Chloe.

— Por que nos tratam como criança ainda e acham que não somos capazes de roubar algumas armas, óbvio. – Diz Emily seriamente arrancando uma risada do avô.

— Mas eu acredito em vocês, afinal, fui eu que as treinei. Descobri que a máfia japonesa está fazendo negócios com a Cosa Nostra e estão trazendo armamentos para eles.

— Quer confrontar a Cosa Nostra? – Foi a vez da morena questioná-lo.

— Não exatamente, eles ainda não pagaram a máfia japonesa, sendo assim, os armamentos continua sendo deles. Os pais de vocês acham que não conseguem roubá-los sem deixar vestígios. – Comentou Anthony.

— Claro! – Emily revira os olhos. – O que temos que fazer?

— Estou enviando o endereço onde acontecerá os negócios. Vocês tem que ir antes da Cosa Nostra chegar, porque eles são poderosos e levam muitos seguranças com eles. Estejam encapuzadas. Benjamim está indo com um jatinho até Chicago e vocês entregarão os armamentos para ele. – Vociferou.

— Certo. Daremos conta.

— Qualquer coisa, nos contate ou desistam da missão. Não quero que descubram a identidade de vocês. Entendido? — As meninas assentiram e se despediram do avô rapidamente, desligando o notebook.

— Você devia ter me avisado que estava conversando com ele. – Disse Emily e Chloe dá de ombros.

— Eu tentei avisar. – Sussurra e as duas acabam sorrindo.

— Mãos à obra.

Anthony estava certo quando disse que deveriam ir antes da Cosa Nostra, já que o local estava cheio de seguranças e poderiam ter ainda mais. Era uma pista no aeroporto, fechada exclusivamente para essa reunião entre eles. As garotas se encapuzaram e vestiram roupas justas e confortáveis, que não as incomodassem. Benjamim, melhor amigo da família há anos, já estava do outro lado da pista, devidamente escondido. Elas arrumam o armamento que possuíam, usando soníferos ao invés de balas. Usavam uma Espingarda Nock Volley, que quando utilizada livremente, pode quebrar o ombro do atirador de tão potente. Mas elas sabiam muito bem como mirar. Se escondem na laje do aeroporto onde tinha uma ampla visão da pista e atiraram nos caras armados, se escondendo rapidamente e rastejando até o outro lado do lugar, observando com cautela a situação. Os homens procuravam desesperados de onde veio os disparos e quando veem as garotas, levam tiros antes mesmo de pensarem em pegar suas armas. O chefe da máfia japonesa se esconde em um canto de seu carro e outros dois seguranças o acompanham.

— Eu cuido disso. – Sussurra Emily e a prima assentiu.

A morena desce os lances de escada com sutileza, atravessando o aeroporto e chegando até a pista. Um sorriso maldoso em seus lábios demonstrando o prazer que sentia com tudo aquilo. Não tinha pressa em se aproximar deles. O restante já estava adormecido com os soníferos e ela troca aquilo por balas. Estava encapuzada, assim como a prima, e diminui os passos assim que está próxima do chefe da máfia. Vê Benjamim de relance abrir os carros e retirar os armamentos sem que eles vissem.

— Não se aproxime! – Avisa um dos seguranças, mirando a arma na direção dela, mas ela faz biquinho, atirando nele de uma vez só. Então encara o outro segurança que engole em seco, negando com a cabeça como se respondesse a uma pergunta silenciosa dela.

— Vocês não vão se safar dessa! Esses armamentos são da Cosa Nostra e eles irão até o fim do mundo por isso. – Grita o chefe da máfia a encarando com ódio. Emily sorri e sente uma presença atrás dela, se virando e torcendo o pulso de um dos homens que havia acordado. O sonífero não durava muito. Ele acaba soltando a arma e ela sorri antes de atirar na cabeça dele.

Benjamim faz sinal de positivo para ela, que corre até Chloe do outro lado da pista, já dentro do carro. A morena joga um beijo para os mafiosos antes de entrar e pisar fundo no acelerador já que a prima abriu espaço para que ela se sentasse no banco do motorista. Elas dirigem até irem para longe de Chicago, onde o jatinho estava. Benjamim estava no banco de trás.

— Os pais de vocês irão me matar se souberem que ajudei Anthony. – Sussurra ele quando saem do carro.

— E nós provavelmente estaremos proibidas de sair pela eternidade. Talvez até tentem nos mandar de volta para o Brasil. – Diz Chloe dando uma risada.

— Como eu senti falta disso! – Exclamou Emily com um sorriso no rosto. Elas já não estavam mais encapuzadas e os seguranças que Benjamim levou com ele retirava todos os armamentos do porta-mala e do banco de trás do carro.

— Você definitivamente é filha de Sophie, por Deus. – Benjamim murmura e ela dá de ombros, correndo até ele, o abraçando.

— Sentimos saudades. – Chloe também se aproxima o abraçando.

— Aquela casa é um silêncio sem vocês... – Sussurrou o homem que era quase um segundo avô para elas. Ele deposita um beijo na testa das duas. – Tenho que ir, antes que a Cosa Nostra volte.

— Até as férias, tio Ben. – Murmura Emily e Chloe ao mesmo tempo.

— Até as férias meninas.

**

Roubada? Não, a Cosa Nostra não é “roubada”. Isso é cometer suicídio!

“Quem esses japoneses pensam que eu sou?” — se pergunta Ian enquanto caminha com passos firmes até sua sala, onde o representante da Máfia japonesa o esperava. Ian havia recebido uma ligação nada agradável o avisando que o armamento de armas que devia ter sido entregue para ele esta noite, havia sido roubada. Mas quem diabos ousaria roubar a Cosa Nostra? Ninguém em sã consciência faria isso, Ian sabe disso. Então tudo isso só tem uma solução: os malditos japoneses o enganaram!

Só podia ser isso... E quer saber? Ian não ia com a cara deles mesmo. Japoneses, coreanos... É tudo farinha do mesmo pó! Com certeza os japoneses acharam que poderiam passar a perna nele, roubando o próprio arsenal e fingindo que foram roubados. E assim, ficariam com o dinheiro, sem vender nada. Mas Ian não é tolo. Muito pelo contrário. Ian chega de madrugada ao Quartel, sendo guiado até o subterrâneo do prédio. O subterrâneo nada parece com a elegância do prédio acima, suas paredes são sujas e a iluminação é péssima. Geralmente, a Cosa Nostra mantém homens como prisioneiros lá embaixo, por isso a higiene é tão precária. Enquanto anda pelos corredores imundos, Ian encontra seu primo Lorenzo e esse parece estar tão irritado quanto.

— Esses desgraçados inventaram uma história sem pé nem cabeça, minha vontade é de atirar nesses babacas! – exclama ele seguindo o primo.

— Eu estou pouco me importando com a história que eles irão me contar, a responsabilidade da carga era deles! – Ian disse com calma desabotoando o terno.

Um dos seguranças, assim que avistou Ian e o primo, destrancou a porta e deu passagem para que eles entrassem. O chefe da Máfia Japonesa havia mandado um representante para tal reunião, pois temiam a fúria da Cosa Nostra, e o tal homem, coitado, estava encolhido na cadeira e assim que viu Ian e mais três seguranças entrando na sala, fez da mesa a sua frente, seu escudo, e tentava sem sucesso esconder o nervosismo.

— Se tem uma coisa que eu odeio é ser passado para trás. – Disparou Ian sentando em uma cadeira na frente do homem.

O homem engoliu em seco.

— Nó-nós não-não fizemos isso, Sr. Baldocchi, veja bem, o que aconteceu foi que nós fomos roubados por ninjas! – Explicou.

Ian olhou bem para a cara de sujeito e logo desatou a rir.

— Ninjas? – Ironizou.

— Sim, ninjas! – Exclamou o japonês. – Eu estava lá, eu vi. Dois ninjas atiraram em nossos homens e com a ajuda de mais um, roubaram nossa carga. Foi rápido demais, nós não tivemos tempo para nos defender.

Ian riu. Lorenzo também. Alguns seguranças fizeram o mesmo e o pobre japonês só ficava mais nervoso com tudo aquilo. Então, quando Ian faz um singelo sinal com a cabeça, dois homens jogam o pobre homem com força bruta na mesa e estendem sua mão direita. Ian se levanta e saca uma pequena arma italiana toda cromada que recebeu de seu pai aos dezesseis anos e sem pensar duas vezes, arrancou os três dedos do homem.

— Ninjas só na casa das suas putas, seu desgraçado! – Esbravejou Ian. – Você acha que eu sou o que? Um idiota? Eu sou Ian Chiacchio Baldocchi, chefe da Cosa Nostra e para te mostrar que eu fui bem treinado, — Disse em tom de ironia. – eu mesmo vou torturar você.

Os olhos do sujeito se arregalaram e Ian sorriu satisfeito. Mandou que seus homens amarrassem o homem e por duas horas seguidas, ele e o primo se divertiram torturando o homem, porém, o japonês não mudou sua história, até seu último suspiro defendeu que havia sido dois ninjas que o roubaram. Se havia sido um ninja, um palhaço, ou até mesmo um dos ursinhos carinhosos, Ian não ligava, mas ninguém o fazia de bobo, ninguém.

— Vai investigar esse roubo? – Pergunta Lorenzo assim que eles deixam o subterrâneo e seguem para o carro.

Ian dá de ombros.

— Não, o armamento era simples, somente armas de pequeno porte, não valem muito.

— Você que decide. E a morena? O que aconteceu afinal? – perguntou ele se referindo a Emily.

Ian rapidamente sorriu... Toda a raiva que sentia se esvaziou.

— A garota é difícil. Muito difícil. Vai entendê-la. – Disse por fim.

Lorenzo riu, seguindo para seu carro.

— Só cuidado para não se apegar, priminho. Essa Emily vai acabar mirando – Lorenzo dobrou os cotovelos e os levantou até a altura dos ombros, como se estivesse segurando uma arma de grande porte e “mirou” o dedo em direção ao coração de Ian. – e atirando. E quando você menos esperar vai estar caidinho por ela.

— Quem acredita em amor é você, priminho. – Ian disse sem lhe dar muita atenção.

Lorenzo revirou os olhos, pois ele sabia que ainda iria demorar muito para que o primo se apegasse a alguém. Mas algo lhe dizia que aquela não será a última vez que verá Emily, muito pelo contrário, Lorenzo tinha certeza que a morena daria muito trabalho.

Mal ele sabe...