Mirrors

8 The Hate at First Sight.


As últimas aulas de Emily foram suspensas já que seu professor havia passado mal e ido ao hospital checar se era mesmo apenas um mal estar. Ela então decide ir para a biblioteca da universidade, que possuía um acervo incrível de livros e optou por pegar um que usava uma linguagem parecida com as de roteiros, passando o resto da manhã treinando falas aleatórias de cenas contidas naquele livro. O lugar estava completamente vazio então ela não precisava seguir a regra do silêncio... Somente a secretária estava ali, mas a mesma mal se importava com o barulho que era feito pela garota durante as dramatizações e gritos da personagem que incorporava com facilidade.

— Será que podemos conversar? – A voz tão conhecida e que, já havia se tornado irritante, ecoa pelo cômodo e quando a morena olha para trás, nota que a secretária não estava mais ali. Somente Bryan que tranca a porta antes de se aproximar da garota. Ele não era o tipo de cara insistente, na verdade, nunca foi. Mas ela tinha algum poder sobre ele. Era impossível dormir sem sonhar com aqueles olhos cinza o encarando com intensidade. Se não se conhecesse tão bem, poderia dizer que estava apaixonado.

— Eu já estava de saída. – Murmura ela na defensiva, colocando o livro de volta na prateleira e pegando sua bolsa, mas acaba sendo barrada pelo garoto em sua frente.

— Por favor, preciso falar com você. – Sussurrou a encarando como um menino de seis anos quando não recebe o que quer.

— Você tem cinco minutos. E eu quero uma distância considerável de você, ou não me responsabilizo pelos meus atos. – Bryan sorri malicioso entendendo a última frase da morena com segundas intenções, mas quando ela se refere aos seus atos, quer dizer a vontade que está de socá-lo a um bom tempo. Ele se afasta, erguendo as mãos em rendição.

— Quero pedir desculpas por ter me aproveitado de você quando estava bêbada... – Vociferou indo direto ao ponto, já que ele sabia muito bem que a sua ex odiava enrolação.

— Bryan, você sempre pede desculpas, mas no outro dia está agindo exatamente igual. Eu simplesmente cansei. Quando eu terminei com você, foi definitivo. Minha opinião não mudou. – Diz ela convicta. Ele até tenta alguma aproximação, mas Emily o encara com desdém fazendo o mesmo continuar onde estava.

— Prometo mudar se você me aceitar de novo e...

— Sem chances. É melhor eu ir embora. – Comunica, mas ele segura seus braços com carinho.

— Por favor, Emy. Sinto sua falta.

— Eu não. Estou bem melhor sem você. – Sussurra e ele a solta.

— Acho que estou me apaixonando por você, morena. – Avisa baixinho, e ela o encara intensamente travando uma batalha consigo mesma.

— Azar o seu. – As sobrancelhas da garota se ergue vitoriosa por tê-lo atingido em cheio. Suas mãos seguram com força a bolsa e ela vai até a porta da biblioteca, destrancando e a abrindo com facilidade. – Aliás, se isso é o que você chama de amor, sugiro que procure ajuda porque para mim... Isso é doença.

Emily sorri de lado sem exibir os dentes e fecha a porta sem cuidado nenhum, marchando em direção ao seu carro do outro lado da rua. Ela escuta Bryan gritando seu nome, chamando a atenção de todos os outros alunos da universidade e ela apenas acena para ele, soprando um beijo ao vento em sua direção antes de entrar no carro e pisar fundo no acelerador. A garota dirige pela cidade inteira sem se importar com os semáforos que ultrapassa e os carros dos quais desvia.

Ela ama andar sobre quatro rodas na velocidade máxima sem se importar com qualquer multa, já que aquilo seria apagado de seus dados imediatamente graças ao seu tio Benjamim que era bom no quesito tecnologia. Depois de algumas horas dirigindo sem rumo nenhum, ela estaciona em frente ao prédio da prima e cumprimenta o porteiro antes de ir até o elevador e, em poucos segundos, chegar ao apartamento de Chloe. O local está espantosamente lotado de pessoas entrando e saindo, alguns seguranças na porta e aquilo fez Emily ficar em alerta imediatamente, retirando um revólver que carrega o tempo todo e segurando ele as escondidas, enquanto entrava no apartamento. Logan, seu tio, e Ethan, seu pai, estão sentados no sofá encarando a pobre de sua prima com os olhos fervendo e quando eles veem a morena ali, nota que também iria sobrar para ela.

— Pai! Tio! – Grita animada correndo em direção aos dois e lhes dando um abraço apertado, mas não sendo nem um pouco retribuída. Emily então se afasta, encarando suas feições bravas. – O que eu perdi?

— Você sabe muito bem por que estamos aqui, Emily Gavin Hamswere. – Nome completo? Definitivamente estava encrencada.

— Já sei! Chloe reclamou com meu tio que estou incomodando e vocês vieram para me ajudar a encontrar um apartamento para mim? Eu realmente estava precisando de um empurrão, porque tem sido difícil encontrar algo que eu...

— Emily, sua prima já tentou nos enganar. – Sussurrou seu tio Logan sem tirar os olhos da filha que engolia em seco. – Não pense que conseguirá.

— Sabe, meninas... Seu avô é um belo mentiroso, mas nada passa despercebido pela avó de vocês. Não foi tão difícil descobrir como ele conseguiu aqueles armamentos da noite para o dia. – Diz Ethan encarando sua filha, em especial. Cada um julgando suas herdeiras em silêncio.

— Se tivessem roubado armamentos qualquer, até conseguiríamos engolir... Mas roubar da Cosa Nostra? E se descobrirem sobre nós? Já pararam para pensar nisso? – Logan tenta se controlar, mas acaba gritando.

— Em minha defesa, eu não consigo dizer não ao meu avô. – Murmura Chloe encolhida e sorrindo lindamente, exibindo seus dentes para o pai. Seu pai ainda tinha os cabelos em um tom de loiro, quase dourado, e os olhos verdes intensos que poderiam arrancar a verdade de qualquer um com seu jeito bravo. Ethan possuía cabelos negros e os olhos cinzas, herdados pela morena a sua frente que conseguia acalmar o homem rapidamente, assim como a esposa, Sophie.

— Ah! Fala sério. – Emily grita recebendo um olhar ainda mais feio do pai. – Nós somos as futuras chefes da máfia e precisamos cuidar dela para que esteja inteira até que eu assuma. Vocês deveriam entender que não somos crianças. Fiquem tranquilos! Não deixamos vestígio nenhum. Somos boas. Nascemos para isso.

Logan encara o cunhado com cuidado, como se conversassem por telepatia e suspiram pesadamente voltando a encarar as filhas. Eles definitivamente não eram muito bons em sermões, já que aquelas garotas conseguiam acabar com a fúria dos dois com apenas um sorriso. Elas eram a vida deles, e ficaram preocupados quando souberam que roubaram armamentos da máfia japonesa. Se a Cosa Nostra fizesse algo com as garotas, eles perderiam o chão. Definitivamente. Um sorriso escapa pelos lábios de Ethan rapidamente e o olhar de Logan se suaviza, fazendo as meninas se aproveitarem da situação e correrem até seus devidos pais, os abraçando com força, afinal sentiam muita falta deles.

— Por que eu não consigo ficar bravo com você, hein? – Pergunta Ethan para a filha que dá de ombros, sorrindo lindamente e dando inúmeros beijos no rosto do pai.

— Porque você não resiste ao meu jeito meigo. – Murmura Emily toda convencida. – Onde está minha mãe? E a tia Hannah?

— Acha mesmo que traríamos elas aqui? Era capaz de brigarem conosco por estarmos dando sermões em vocês. – Diz seu tio Logan arrancando uma risada das duas.

— Mas o que vieram fazer aqui, afinal? – Pergunta Chloe e eles suspiram pesadamente.

— Os armamentos que pegaram não é o suficiente e fizemos um pequeno negócio com a máfia russa. Eles têm um aliado americano que nos trará as armas e precisamos estar lá em alguns minutos, para voltarmos ao Brasil imediatamente. – Ethan se manifesta e a filha faz um biquinho.

— Mas já? – Sussurra a morena.

— O que acham de irmos almoçar em algum restaurante? — Pergunta Chloe.

— Precisamos ir agora... Mas comam por nós dois. – Diz Logan abraçando a filha com carinho e os dois se despedem delas antes de irem embora.

****

Lorenzo caminha tranquilamente nos corredores da empresa cumprimentando todos aqueles que vê com um sorriso de lado e um bom dia. Os gêmeos, Lorenzo e Geovana, sempre foram os mais educados entre os primos. Ao contrário de Ian e Julie que gostam de se sentirem os maiorais, os gêmeos gostam de se sentirem amados... Por isso, sempre trataram todos a sua volta com total igualdade. Até mesmo seus empregados. Talvez seja por isso que os empregados da empresa não conhecedores dos negócios mafiosos preferem, de certo modo, Lorenzo a Ian.

— Bom dia, primo. – Cumprimentou Lorenzo ao entrar na sala de Ian.

Ian que fala ao telefone, apenas acena para o primo, pedindo simbolicamente um minuto.

— Não, vovô, não se preocupe. – Ian disse cansado, como se estivesse falando aquilo há horas. – O roubo das armas não foi nada, como eu havia dito, eram só armas de pequeno porte. Seriam vendidas para os policiais da região, não eram nada demais. – Ian se calou por um instante, provavelmente ouvindo a pessoa do outro lado da linha. – Claro, vovô, mas se quer saber, eu não acho que seja necessário investigar, tenho quase certeza que devem ter sido alguns traficantes locais. Deixem eles acharem que podem nos roubar e dá próxima vez que eles mexerem conosco, eu mesmo cuidarei deles.

Lorenzo, que ouvia atentamente a conversa do primo com o avô Augustos, se sentou em uma poltrona próxima, esperando o fim do telefonema. Mais cedo nessa mesma manhã, um dos homens da Cosa Nostra o procurou, alegando que não havia encontrado Ian e que havia achado algo importante no aeroporto onde o roubo aconteceu. Um cordão de ouro com um pingente de um sol, também de ouro.

O objeto é delicado e misterioso e várias teorias se passam pela cabeça de Lorenzo sobre o dono do colar. Talvez seja um presente que um dos japoneses iria dar para sua amada ou coisa do gênero. Mas com certeza o objeto não tem tamanha importância para a tal investigação de quem havia de fato roubado o armamento de armas na noite anterior.

— Desculpe Lorenzo. Meu avô ficou sabendo sobre o roubo e queria os detalhes. – Ian comentou tirando Lorenzo de seu transe. – O que é isso? Algum presente para o melhor primo do mundo? – perguntou irônico se referindo ao cordão que o primo segura.

Lorenzo se levantou se aproximando de Ian com o colar nas mãos.

— Se você gosta de objetos afeminados para completar o seu look. – Brincou ele, entregando o colar para o primo, que franziu o cenho. – Um dos nossos homens me entregou isto hoje de manhã. Disse que o achou no aeroporto perto da onde as armas foram levadas.

Ian deu de ombros.

— Isso pode ser de uma das milhares de mulheres que frequentam aquele aeroporto junto com os mafiosos. Esposas, filhas, amantes... Não tem importância para nós, não nos ajuda em nada. – Dito isso, Ian abre uma das gavetas da mesa e atira o colar lá dentro, o esquecendo por lá.

— Foi o que eu pensei. – Disse Lorenzo, abrindo os botões de seu terno feito sob medida e se sentando novamente em frente ao primo. – Então, o que temos para hoje?

Ian respirou fundo, pensando.

— Meu avô quer que façamos relatórios dos nossos últimos negócios feitos e mandemos para ele.

— Me surpreende seu avô ainda querer saber tudo o que se passa aqui dentro.

— Ele ainda manda aqui dentro. Ele e minha mãe, por isso os dois estão sempre querendo esse tipo de coisa. Relatórios, contratos... Tudo. Gostamos de pensar que somos donos do mundo, mas é graças a mente de trapaceiros deles que a Cosa Nostra ainda está de pé hoje.

— Assim você me ofende.

Lorenzo e Ian tomam um susto quando ouvem a voz de Valentina. A mãe de Ian está parada na porta do escritório e mostra um belo sorriso de lado. Ela veste um vestido azul bebê que é aberto nas costas, justo no busto e solto da cintura para baixo que batia um pouco acima do joelho. Valentina continua com um corpo malhado e cheio de curvas, chamando atenção por onde passa mesmo se estiver vestida com moletom. Grávida de apenas algumas semanas, aproveita para usar seus vestidos justos o quanto pode.

— Mãe? O que faz aqui? – Indaga Ian confuso.

— Eu vim ver o meu filho sumido e descubro que ele me acha uma trapaceira. Não foi essa a educação que eu te dei. – diz ela fingindo estar magoada.

— Foi exatamente essa a educação que você me deu. – Ian diz a abraçando carinhosamente.

— Tem razão. – sussurra ela. – Lorenzo, meu querido, quanto tempo!

— Tia Valentina, que surpresa boa!

Os dois se abraçam e logo voltam a se sentar.

— Está vendo Ian, é assim que se recebe um parente!

Ian revirou os olhos rindo.

— Meu pai sabe que a senho... – Valentina levanta o olhar para o filho, o desafiando. – quer dizer, que você está aqui?

— Claro que não! – Exclamou. – Seu pai me mataria se soubesse que eu peguei um avião e vim para os Estados Unidos, ele anda muito chato comigo ultimamente.

— Por que diz isso?

— Bom, desde que o médico revelou que minha gravidez é de risco, ele não me deixa fazer absolutamente nada! Muito menos viajar para outro país. – Comentou ela com desdém.

Lorenzo reprimiu uma risada e Ian suspirou cansado. Valentina sempre foi muito teimosa e dona do próprio nariz. Eram raras e vezes que Vitor, seu marido, conseguia dar um jeito nela e fazer com que a mesma mudasse de opinião. Na verdade, ninguém conseguia dar uma ordem para ela, pois ela não acatava e muito menos respeitava. O que Valentina quer, ela tem.

— Mãe, – Ian chamou meio irritado. – se o médico disse que a senhora tem que se cuidar, a senhora tem que se cuidar! Não devia ter vindo para cá, sabe que se a senhora tivesse pedido, eu teria ido para a Itália, não precisava ter desobedecido o médico e contrariado meu pai. Ele vai ficar puto da vida quando descobrir onde a senhora está!

— Primeiro: você me chamou de senhora quatro vezes, se eu não estivesse grávida, te daria uma surra por isso. E segundo: eu sei que se eu tivesse pedido, iria me ver. Mas eu quis vim, ok? Quis e aqui estou, e agradeceria muito se vocês dois parassem de me olhar dessa maneira, me repreendendo e me levassem para almoçar, o que acham?

— Mãe, eu adoraria, mas meu avô acabou de ligar pedindo para que eu faça e envie hoje mesmo alguns relatórios para ele, não vou ter tempo de...

— Oh per favore!— exclamou ela em italiano. – Você tem mais de dois mil empregados trabalhando aqui, e mil deles são contratados pela Cosa Nostra e muito bem pagos que eu sei. Então peça para eles trabalharem e fazerem essa droga de relatório que seu avô tanto quer. Estou grávida e quero comer, e vocês dois, — apontou para eles. – irão me levar para almoçar e seria muito gentil da parte de vocês se fossem por livre e espontânea vontade.

Lorenzo e Ian se olharam, se perguntando o que deviam fazer. Se ligam de uma vez para Vitor, ou se colocam Valentina em um jatinho de volta para Itália o mais rápido possível, ou se simplesmente fazem o que ela pedem.

— É como você disse priminho, é a sua mãe que manda aqui dentro. – Disse Lorenzo por fim, sorrindo.

Agradecida, Valentina estendeu sua mão para o sobrinho e ele a pegou. Depois ela voltou seu olhar para o filho novamente, esperando uma resposta.

— Vamos mio amore, não é sempre que sua mãe foge da Itália para vir almoçar com você. – brincou ela, usando seu tom de voz doce e persuasivo.

Ian, não resistindo aos pedidos da mãe, aceitou sair para almoçar com ela e o primo. Cancelou seus compromissos da parte da tarde e tentou se acalmar com a presença da mãe ali. Não que ele não tivesse gostado de tê-la ali, mas ele sabe que ela não devia estar ali, e acima de tudo ela está grávida. E como ela mesma disse, é uma gravidez de risco. Seu pai, Vitor, já tem muitos cabelos brancos por causa dela e quando souber que ela viajou sozinha para a America, com certeza enfarta! Mas ele tenta se acalmar e aproveitar o tempo com a mãe, faz tempo que eles não conversam e tem um tempo um com o outro.

— Já fiz nossas reservas, podemos ir. – Lorenzo exclama.

— Ótimo, então vamos. – Valentina levantou animada e guiada pelo sobrinho e filho, desceram para o hall de entrada, onde os carros já os aguardavam. – Sabe, — Exclama ela depois de um tempo. – gostava mais quando existia o Quartel e apenas mafiosos trabalhavam conosco.

— E por que diz isso? – indaga Ian abrindo a porta do carro para a mãe.

Valentina entra e suspira, dando de ombros.

— Porque sempre que eu dava a cara por lá, todos sabiam quem eu sou e me olhavam com grandeza. Eu adorava isso.

Ian e Lorenzo acabaram rindo da declaração espontânea da mãe. Afinal, não tinha como não passar cinco minutos na presença dela sem rir ou temer. Valentina sempre surpreende.

— Não se preocupe tia, aqueles que te conhecem verdadeiramente continuam a te olhar dessa mesma maneira. – confortou Lorenzo. – E aqueles que não, te olham maravilhados porque você continua linda!

Valentina sorriu agradecida e tocou gentilmente o rosto do sobrinho.

— É tão gentil quanto sua mãe. – Sussurrou mais para si mesma do que para ele. – Alicia estaria muito feliz ao ver a pessoa maravilhosa em que você se tornou. Você e sua irmã Geovana.

Lorenzo, pego de surpresa, tentou esconder a emoção e abriu um sorriso ao ouvir o nome da mãe, e também ficou agradecido pelas palavras da tia. Ian apenas observou calado satisfeito. Ele mais do que ninguém sabe que Lorenzo adora ouvir coisas relacionadas à sua mãe.

— Sabe o que me surpreende? – continuou Valentina, se afastando do sobrinho. – Geovana ser tão parecida com ela!

— Meu pai diz a mesma coisa! – comentou Lorenzo sorrindo. – E quando vejo alguma fotografia dela, eu também vejo semelhança.

— Pois é, fui visitá-la semana passada em Hamburgo na Alemanha e vi o quanto ela está parecida com Alicia, por um momento achei que fosse ela ali. Cheguei a me emocionar.

Lorenzo sorriu feliz, ao contrário de Ian, que franziu o cenho para a mãe, se virando para ela.

— Quer dizer que também viajou para Alemanha sem avisar ninguém? – perguntou se mostrando um pouco irritado. Valentina apenas deu de ombros mais uma vez. – Agora eu entendo porque meu pai adoraria trancá-la em uma torre. – zombou. – Mãe, você não para quieta!

Nesse momento, todos já estavam fora do carro, prontos para entrar em um restaurante chique no centro da cidade. Ainda pensando no que o filho disse, Valentina colocou uma das mãos na cintura, sorrindo com ironia e se virou para ele.

— Você e seu pai são iguaizinhos! – exclamou ela sorrindo. – Ambos acham que nós, mulheres, temos donos e que esses donos são vocês, mafiosos incrivelmente bonitos e poderosos. Mas querem saber? Nós até deixamos vocês acharem isso, mas querido aprenda, nunca se prende ou manda em uma mulher. Temos cartas nas mangas e sabemos exatamente como usá-las. Quando encontrar a tal mulher com quem irá se casar e me dar netos, você irá descobrir isso.

Ian ficou confuso com a declaração da mãe, mas não pode deixar de sorrir. Já ouviu milhares de vezes essa comparação com o pai, mas nunca viu a mãe falar dessa maneira. Talvez sejam os hormônios, quem sabe. Lorenzo riu da cara de espanto do primo.

— Sabe que eu também penso dessa maneira, tia? – provocou Lorenzo, dando o braço para a mesma e a acompanhando para dentro do restaurante.

— Encontrar a mulher perfeita... Può essere solo scherzando!— sussurrou ele entrando logo depois.

Valentina e os dois tiveram um ótimo almoço. Ian viu o quanto a mãe estava alegre por estar ali. Valentina sempre adorou uma bagunça. Ela está sempre inventando reuniões em família, festas e outras coisas só para ter a casa cheia. Ele nunca chegou a entender o motivo disso, mas ao ver os milhares de sorrisos que sua mãe dá durante essas festas e reuniões, ele e seu pai entendem que isso a deixa feliz e que isso não precisa de explicação alguma. Quando já estavam terminando, o celular de Ian toca e o nome de seu pai brilha na tela. Ele rapidamente atende.

— Sì, padre.

— Por favor, me diga que sua mãe está com você!?

Ian olha para Valentina, que logo percebe quem é a pessoa do outro lado. Sem saída Ian confirma.

— Dios, filgio, passe o telefone para ela, per favore.

Ian fez o que o pai pediu e entregou o aparelho para a mãe, que excitou por um momento.

— Diga amore mio. – disse ela assim que pegou o celular.

Ian achou que os pais brigariam, mas pelo sorriso bobo que a mãe deu, ele se surpreendeu pelas caricias trocadas pelo telefone. Valentina parecia uma adolescente conversando com seu namorado e ambos pareciam bastante apaixonados... Vitor devia estar desesperado, de fato, mas nada adiantaria brigar com ela, por isso, apenas declarou o quanto estava preocupado com ela e que, Alicia, filha do casal, também estava louca por noticias da mãe.

— Está certo, Vitor, logo estarei em casa. – Valentina esperou por um instante e deu um dos seus sorrisos contagiantes e Ian soube exatamente o que seu pai havia dito. – Eu também te amo meu amor.

E desligou.

— Sempre que ele diz que me ama é como se fosse à primeira vez. – declara ela. – Bom, agora é oficial, estou ferrada e preciso voltar para a Itália. Ian, pegarei um dos seus motoristas, pois antes vou visitar Julie e logo depois irei direto para o aeroporto.

— Claro, eu te levo até o carro. – disse ele se levantando.

— E eu vou pagar a conta. Até outro dia, tia. E por favor, pare de sair escondido. – brincou Lorenzo.

— Eu não saio escondido. Apenas esqueço-me de comunicar os outros que estou de saída para outro continente. – disse sorrindo, se despedindo dele com um abraço logo depois.

Ian levou a mãe até o carro e se despediu, pedindo que ela mandasse um beijo para sua irmã Alicia, e um abraço para sua avó, Catarina. E assim que sua mãe partiu – depois de prometer que depois de visitar sua sobrinha Julie, iria voltar imediatamente para Itália. – resolveu esperar por Lorenzo ali mesmo no estacionamento, mas já se arrependendo, pois o primo estava demorando de mais. Quando ele já estava quase entrando novamente no restaurante atrás do primo, um carro preto estacionou e Emily e uma jovem de cabelo ruivo saíram do veiculo. Ian sorriu abertamente e se aproximou das jovens, agradecendo mentalmente por Lorenzo estar demorando tanto.

— Quem está seguindo quem agora? – Pergunta ele se aproximando das meninas e um sorriso escapa pelos lábios da morena ao ver ele ali, tão próximo dela de novo. Chloe encara os dois sucessivamente antes de sorrir maliciosamente.

— Eu vou entrar e pedir uma bebida, tudo bem? – Emily assentiu abobalhadamente e a prima desapareceu de sua vista em segundos.

— Até parece. Mas vai ver é o destino, não é? – Diz ela usando as mesmas palavras que Ian usava arrancando uma risada sua. – Veio almoçar?

— Sim, trouxe minha mãe para falar a verdade, mas ela acaba de ir embora. – Explicou.

— Sério? – A garota pareceu um pouco desapontada. – Que pena... Adoraria ter conhecido ela! – Contou, sentindo as bochechas esquentarem, afinal, ela não era nada dele para querer ter esse tipo de intimidade. – Quero dizer... Adoraria saber de quem foi a culpa por você ser tão metido. – Completou.

— Bem, se for assim, tem que conhecer toda a família! – Ian respondeu se aproximando dela, deixando a garota sem jeito.

Seus corpos pareciam ímãs, sempre puxando um para o outro, como se precisassem de toda aquela aproximação e aquilo de certa forma irritava os dois, porque não queriam se sentir daquela maneira. Seja lá qual sensação fosse, era boa. Daquelas que valem muito a pena sentir. Os dois sorriram um para o outro quase que automaticamente. Pareciam até que pensavam na mesma coisa.

****

Lorenzo esperou os dois saírem e vou até o bar para pedir uma bebida e aproveitar para pagar a conta ali mesmo. E enquanto esperava pacientemente por sua bebida, uma bela jovem de cabelo ruivo se sentou ao seu lado, também pedindo por uma bebida. Lorenzo não pode deixar de notar o quanto ela é linda e logo se ofereceu para pagar por sua bebida.

— Obrigada, mas não é necessário. – Disse ela gentilmente.

— Por favor, eu insisto.

A moça sorriu e permitiu, corando levemente.

— Me chamo Lorenzo. – Disse estendendo sua mão. – Prazer em conhecê-la.

— Chloe. – Respondeu apertando a mão do rapaz.

— Você vem sempre aqui? – Perguntou ele.

— Que cantada velha... – Sussurrou Chloe mais para si mesma do que para ele, mas alto demais para que o mesmo pudesse escutar, tomando um gole de sua bebida.

Lorenzo ficou pasmo com a acidez da garota.

— Desculpe, o que disse?

A ruiva deixou o copo sobre o balcão e voltou a olhar para Lorenzo.

— Eu disse que essa cantada é velha. – Repetiu naturalmente aquilo que pensou alto.

Lorenzo ainda sem reação apenas riu nervoso. Mas quem é essa garota?!— pensou.

— E por que você acha que eu estou te dando uma cantada?

— Sério que está perguntando isso? – Perguntou ela com desdém, tomando mais um gole.

Lorenzo sorriu nervoso e voltou a olhar para frente, terminando sua bebida e deixando o dinheiro das duas bebidas sobre o balcão. Se levantou e parou bem próximo a Chloe, que o olhou sem reação.

— Eu não estava te cantando, até porque você nem é tão bonita assim. Já levei mulheres melhores para a cama. – Sussurrou ele em seu ouvido, apenas para provocá-la.

Infelizmente ele não obteve a resposta que queria. A ruiva ficou tão indignada com suas palavras que jogou a bebida que restava em seu copo na cara de Lorenzo.

— Você é nojento! – Xingou ela saindo dali.

Lorenzo ficou possesso de raiva e também se retirou, ainda querendo entender quem era aquela garota.

**

Ian e Emily se encaravam feito dois adolescentes sem assunto nenhum, mas se aquilo não era problema e ainda os deixavam em um mesmo lugar, estavam satisfeitos com isso. Era esquisito, mas a morena constatou aos poucos que se encontrar com ele por acaso havia se tornado uma rotina que se acostumou com facilidade, mas não tinha ideia se desapegaria daquela rotina tão rápido quanto se apegou. Era como se o homem pudesse estar em todos os lugares, e tudo que ela precisava era chamar seu nome.

— Emily! – Chloe gritou fazendo os dois se afastarem automaticamente, saindo de seus transes e observando a garota que se aproximava com passos firmes e duros, além da feição nada agradável. – Eu quero ir embora!

— O que houve? – Pergunta a morena espantada. Era raro ver a prima daquela maneira.

— Um idiota me tirou a paciência e a fome. – Chloe se segura para não gritar e Ian a encarava atentamente com um vinco se formando em sua testa. Quase que imediatamente, Lorenzo se aproxima com os olhos queimando de ódio e parte do paletó ensopado.

— Ian, vamos embora! Uma louca me encharcou lá dentro. – Disse sem notar que a louca que se referia estava bem na frente de seu primo.

— Louca é a senhora sua avó. – Gritou a garota o encarando ainda mais irritada.

— Chloe! Eu nunca te vi assim, se acalme! – Diz Emily estranhando, já que quem a acalmava era a prima, e não o contrário. – Esse é Lorenzo, primo de...

— Eu sem bem quem esse babaca é! – Vociferou antes que a morena terminasse seu discurso de apresentação.

— Olha Emily, eu não sei o que essa garota é sua, mas se eu fosse você, ficaria longe dessa louca. – Avisou Lorenzo irritado.

— Lorenzo! – Repreendeu Ian autoritário, sem entender absolutamente nada do que se passava ali.

— Emily. – A prima finalmente a encara com os olhos fervendo de ódio. – Vamos. Embora. – As palavras saem com cuidado e classe.

Emily olhou sem jeito para Ian e antes que pudesse se despedir de forma descente, foi arrastada por Chloe até seu carro, podendo apenas acenar para o homem.

— Ei, ruiva! – Grita Lorenzo para a garota antes que ela entrasse no veículo, chamando a atenção de alguns que estavam no local. – Na próxima vez que alguém te pagar uma bebida, é por educação e não porque está a procura de sexo.

Ele provocou e Chloe semicerrou os olhos, sentindo suas bochechas esquentarem, arrancando um sorriso vitorioso do garoto mais irritante da face da Terra. Emily, que já estava dentro do carro recebendo olhares de Ian, sorriu sem que a prima visse.

Vai ver essas provocações são de família...