Lorenzo tem um sorriso besta no rosto enquanto observa a prima de Emily entrar no carro furiosa, ambas partindo para fora do estacionamento e saindo em disparada pelas ruas da cidade. Provocar as mulheres é algo que ele e o primo mais têm em comum e a indignação estampada na cara de Chloe assim que ele gritou aquilo, o fez ganhar o dia. Ao contrário de Ian, que está furioso e confuso com o que havia acabado de acontecer.

— Mas que porra foi aquela Lorenzo? – disparou ele furioso. Lorenzo se virou para o primo ainda sorrindo abobado, sem se importar com a cara de fúria de Ian.

— Nada de mais. – respondeu calmo, andando até o carro.

— Nada de mais? A prima da Emily saiu igual uma louca de dentro do restaurante e puta com você e me diz que não foi nada de mais?

Lorenzo parou e se voltou para Ian.

— Com todo respeito primo, mas isso não é da sua conta. – falou sem evitar um sorriso sarcástico antes de entrar no carro. – Agora vamos, temos muito o que fazer na empresa.

****

Chloe desce do carro, já em frente a seu apartamento, pisando duro e bufando como a prima jamais viu. Ela odiava garotos como aquele, que a tratava como algo completamente descartável, até mesmo durante uma conversa. Fazia ela se sentir “trocável” e querendo ou não, aquilo lhe proporcionava uma pontada de dor na alma. Emily estaciona o carro devidamente e desce minutos depois, observando o porteiro que encarava a ruiva com os olhos arregalados. Até ele estava espantado. A morena o cumprimenta quando seus olhos se encontram e ao apressar o passo, consegue alcançar a prima e entrar no elevador. Ela mal olha a garota ao seu lado e atravessa o corredor até seu apartamento assim que as portas se abrem e a fecha com força.

— Ainda iremos comer alguma coisa? – Pergunta Emily que já sabia muito bem que, perguntar como ela estava ou por que estava agindo daquela maneira, não adiantaria de nada. Pelo contrário, pioraria toda a situação.

— Eu já falei que perdi a fome. – Resmungou se jogando no sofá de cor clara, sem nenhuma delicadeza.

— Por causa do Lorenzo? – A morena sorri falsamente.

— Você já perdeu o sono por causa de Ian e nem por isso julguei você. – Diz Chloe sem olhar para a prima que para que sorrir imediatamente, sentindo suas bochechas arderem.

— Eu nunca perdi o sono por causa daquele homem! – Emily tenta se defender e sua prima a encara descrente.

— Certo, certo. – Sussurrou revirando os olhos.

— O que houve afinal? – Perguntou a garota realmente interessada e Chloe finalmente se levanta, sentando com postura sobre o sofá e encarando os olhos cinzas a sua frente, brilhando esperando pela resposta.

— Vou resumir para você. – Murmurou a ruiva, respirando fundo, antes de incorporar a compostura do homem que ela passou a odiar. – Só porque estou te pagando essa bebida não quer dizer que eu estou cortejando você!

— Ele disse cortejar? – Emily arregalou os olhos com um sorriso preso nos lábios.

— Não, usou uma palavra mais vulgar que não vou pronunciar. – Diz Chloe e sua prima não resistiu caindo na risada.

— Acredite se quiser, mas ele é assim mesmo. – Sussurrou depois de conseguir controlar os risos.

— Conhece ele tão bem assim? – Agora era Chloe quem estava curiosa.

— Conheço o primo dele e depois da cena de hoje, é meio óbvio que eles são bem parecidos. – Murmurou a garota e a prima bufou se sentindo uma completa ridícula, mas ainda sem deixar de odiar aquele homem.

— Talvez eu tenha sido rude. Mas não vou me desculpar, ele também estava errado. – Concluiu depois de longos minutos de silêncio.

— Depois diz que não é orgulhosa. Ah! Tá bom. – Balbuciou Emily em ironia, arrancando um olhar frio da ruiva esquentada. – Agora você tem que preparar algo para mim.

— Eu? – Chloe a encara na defensiva.

— Lógico, se não fosse por você, minha barriga estaria cheia e eu estaria tirando um cochilo para depois retornar as aulas. – Resmungou a morena. – Quero macarronada. Só para avisar.

A ruiva bufa, mas não protesta já que realmente estragou o almoço das duas. Seus pés se movem sem pressa até a cozinha, onde localiza todos os ingredientes para a comida que a prima tanto queria. Organizou todos por etapa, pegou aquilo que precisava para preparar o alimento e por fim, deu início ao almoço. Emily sabia que a prima iria demorar já que macarronada é algo que ela fazia com maestria, mas também com bastante paciência, então decide pegar o celular para checar mensagens e e-mails... A rotina era sempre a mesma até uma mensagem não lida de Ian piscar na tela e ela praticamente pular animada do sofá. Finalmente algo legal para fazer.

De: Ian Chiacchio

Para: Emily Hamswere

Mal pudemos nos despedir... O que podemos fazer em relação a isso?

Um sorriso involuntário surge no rosto da morena ao ver a mensagem daquele senhor cheio de si por quem tinha conquistado um pequeno espaço na vida dela. Ian, que estava nesse exato momento sentado sobre a cadeira no meio de um monte de papeleira e negócios mafiosos para resolver, também sorriu ao salvar os contatos da morena com um nome bastante peculiar e que cabia perfeitamente bem para ela.

De: Emily Hamswere

Para: Ian Chiacchio

Não precisamos nos despedir se vamos nos encontrar sempre por aí. Sabe

como é... O destino!

Ian, que voltara a prestar atenção nos vários papéis que o aguardava, pega o celular rapidamente ao ver que havia uma mensagem de Emily. O sorriso já estava em seu rosto antes mesmo de abrir a caixa de entrada de suas mensagens.

De: Ian Chiacchio

Para: Emily Hamswere

Devemos sempre acreditar nele ;) Quem sabe não nos encontremos amanhã?

De: Emily Hamswere

Para: Ian Chiacchio

Se isso ajudar o destino... Estarei na cafeteria da rua de baixo do prédio onde Chloe mora. Antes das aulas começarem.

Era incrível o efeito que a garota dos olhos intensos tinha sobre aquele mafioso frio e calculista, mas conversar com ela ou até mesmo a encará-la por um certo tempo, mesmo que por um segundo, o trazia uma certa paz. Ian entende o recado da garota rapidamente, e seu sorriso se torna uma risada.

De: Ian Chiacchio

Para: Emily Hamswere

É sempre bom dar um empurrãozinho ao destino.

Depois de mais ou menos uma hora, o almoço estava pronto e Emily organizava a mesa na pressa enquanto a prima trazia a comida em uma travessa, que é colocada ali com cuidado. As duas se sentam e se servem sozinhas, comendo em silêncio até que Chloe decide conversar.

— Hm... Depois do que aconteceu essa manhã até me esqueci da novidade que tenho para contar. – Murmurou ela depois de engolir o alimento que era mastigado em sua boca. Emily a encara depois de enfiar uma garfada de macarronada na boca. — Devido as minhas notas, me convocaram para fazer uma prova e testar minhas habilidades como residente no museu. Serei uma espécie de guia que irá receber os turistas e mostrar o conhecimento que tenho pelas artes. Vou começar hoje. – Diz Chloe e sua prima começa a pular descontroladamente sobre a cadeira.

— Está brincando, não é? – Murmura sem acreditar no que ela dizia, mas a mesma assentiu com um sorriso nos lábios. – Oh meu Deus! Isso é incrível.

Emily praticamente corre em direção a garota, envolvendo seus braços naquele corpo miúdo em um longo abraço apertado onde ficaram ali por tempo o suficiente até a morena se afastar e se oferecer para lavar a louça.

***

Lorenzo abre as portas do escritório do primo automaticamente, mas o mesmo mal notou sua presença ali, sorrindo feito um idiota enquanto segura o celular. Ele não tira Ian de seu transe de imediato, observando aquela expressão de felicidade rara no rosto do homem. Geralmente isso acontecia quando estava próximo de Alicia, sua irmã mais nova.

— Me deixe adivinhar... Você viu um passarinho verde? – Perguntou Lorenzo fazendo Ian fechar a cara de imediato, voltando a sua compostura de durão.

— Quase isso. O que está fazendo aqui? Já falei para ser anunciado pela porra da...

—Seu avô está aqui e não parece nada contente. Está te esperando faz meia hora. – Lorenzo interrompe os xingamentos do primo que arregala os olhos.

— Droga.

— Ah, que isso! Não me agradeça. – O homem revira os olhos e ambos correm para a sala de reuniões.

— Perdoe-me pelo atraso nonno. – Ian exclamou ao entrar na sala acompanhado do primo.

Augustos Baldocchi observa a vista do centro de Chicago através da grande vidraça que a na sala de reuniões com as mãos no bolso. Mesmo na casa dos sessenta anos, Augustos mantém um corpo forte e rígido.

— Espero que esse atraso tenha um bom motivo. Sabe que eu odeio esperar. – falou. Lorenzo sorriu maliciosamente enquanto Ian engoliu em seco, se aproximando do avô.

— Eu apenas me esqueci, perdão. – confessou.

Augustos finalmente virou o rosto e olhou para seu neto, fazendo com que o mesmo sentisse um leve arrepio. Com o tempo Ian viu que seu avô nem sempre foi o bom homem que sempre pensou. Quando ingressou no mundo mafioso, ele entendeu porque os olhares do avô às vezes pareciam ser tão sombrios. As coisas que esse homem fez, faz qualquer um duvidar da humanidade.

— Tanto faz. – Augustos falou dando de ombros e indo se sentar na mesa de reuniões. – Como anda as coisas por aqui?

— Tudo dentro conforme o nosso padrão. – Ian respondeu, sentando de frente para o avô. – Se veio atrás de minha mãe acredito que veio em vão, ela já deve estar a caminho da Itália nesse exato momento.

Augustos suspirou pesadamente.

— Valentina mesmo depois de tantos anos continua a me dar trabalho. – comentou cansado. – Vim aqui atrás dela, achando que havia sido sequestrada ou coisa do tipo e descubro que ela só veio almoçar com o filho.

— Ela estava bem, não se preocupe. – Lorenzo o confortou.

— Sei que sim. Mas ela ainda me preocupa, sabem como ela é.

Ian e Lorenzo sorriram. Eles sabem.

— Se tudo já foi resolvido, eu também já vou indo. – Augustos anunciou, se levantando.

— Tem certeza, vovô? Pode passar essa noite em minha casa se quiser e amanhã...

— Não, não. Isso não é necessário. – cortou ele rapidamente. – Prefiro voltar ainda hoje.

— Se é o que quer. Acredito que veio com os seus homens, eles te levarão até o aeroporto, certo?

Augustos balançou a cabeça confirmando.

— Vejo vocês em outra ocasião.

Augustos saiu da sala com passos firmes acompanhado por um dos seus seguranças particulares e não olhou para trás. Lorenzo e Ian observaram o velho homem entrar no elevador e levar consigo sua áurea poderosa. Não se sabe se é coisa de família, mas os Baldocchi, por mais que tentem, não conseguem nunca deixar de parecerem poderosos...

— Seu avô é sinistro. – Lorenzo desabafa sem pensar assim que perdem Augustos de vista.

Ian sorri concordando.

— Mas por incrível que pareça, é uma boa pessoa.

Nesse momento o celular de Ian vibra mais uma vez e ele rapidamente retira o aparelho do bolso e checa a mensagem. Um sorriso involuntário escapa de seu rosto assim que vê o nome da pessoa que enviou a mensagem.

De: Emily Hamswere

Para: Ian Chiacchio

Acho que o destino merece mais empurrões, então não custa nada você informar a Lorenzo que Chloe estará no museu mais famoso da cidade atuando como guia turística. Aposto que ela adoraria pedir desculpas para ele... Ou ouvir um pedido de desculpas, certo? ;)

— Por que está sorrindo desse jeito? – Lorenzo pergunta tirando Ian de seus devaneios. – Está parecendo o Coringa.

E ele estava. Se tem algo que Ian adora fazer é colocar o primo em encrencas com mulheres. E se Chloe for tão esquentada como a prima, Lorenzo vai ter problemas. E claro, Ian estava puto por ter sido ele o culpado por Emily ter ido embora tão de repente na hora do almoço. E por último, e não menos importante, se Lorenzo se resolvesse com Chloe, seria mais uma porta aberta para Ian na vida de Emily.

— Lorenzo, você já foi ao museu? – Ian perguntou malicioso para o primo.

***

Chloe desfilava alegremente pelo hall de entrada do Museu Field de História Natural. É seu primeiro dia e sua primeira turma será um pequeno grupo escolar do sétimo ano. Seus mais novos colegas de trabalho a informaram que eles não são nada fáceis de lidar e que ela não podia em hipótese alguma ser legal com nenhum deles. Pois se eles tivessem liberdade, o céu seria o limite para aqueles pestinhas. Claro que essa filosofia não fazia nenhum sentido para Chloe e ela seria a melhor guia turística que eles já tiveram.

— Bom dia a todos. Meu nome é Chloe e eu serei a guia turística de vocês. – saudou ela sorrindo de orelha a orelha.

Os alunos não lhe deram muita atenção, seus celulares já os ocupam tempo demais. E apenas um ou outro que lhe respondeu e se mostraram animados com a excursão. Um pouco frustrada pela falta de atenção, Chloe deu início ao passeio por dentro do museu. Depois de meia hora sem receber nenhuma devida atenção, Chloe decide levar os alunos para a melhor parte da exposição: os dinossauros. Vários esqueletos bem preservados e completos são a atração principal do museu e Chloe tinha absoluta certeza de que aquilo chamaria a atenção dos jovens. E não deu outra, assim que entraram no salão, um grande murmurinho se espalhou, junto com várias exclamações de entusiasmo. Feliz por finalmente ter a atenção desejada, Chloe começou seu discurso sobre um dos animais pré-histórico.

— O Diplodoco foi uma espécie de animal herbívoro e quadrúpede que viveu durante o período Jurássico há aproximadamente...

— Eu sempre odiei dinossauros vegetarianos. — Chloe foi interrompida por um comentário nada agradável e cerrou os olhos a procura de quem havia falado tal asneira, em sua opinião.

Avistou um homem sentado atrás da turma de adolescentes com um jornal aberto em frente ao rosto, a impedindo de ver o rosto do indivíduo.

— Perdão? – indagou contrariada.

— Eu disse que sempre odiei os dinossauros vegetarianos. Eles são sem graça. — E então ela o vê. Lorenzo, primo de Ian, sentado segurando o jornal com um sorriso desafiador, e encantador, a encarando. Chloe ficou surpresa por vê-lo ali, mas logo se irritou. Aquele é o ambiente de trabalho dela, ele não tem direito de estar aqui.

— Você não devia estar aqui. Essa é uma excursão escolar. – advertiu. Lorenzo apenas deu de ombros. Levantou-se e caminhou até os esqueletos dos animais o analisando sem interesse, parando ao lado dela.

— Prefiro mil vezes o tiranossauro rex! Ele sim é irado! – exclamou parecendo ser descolado e logo chamou atenção dos jovens, enfurecendo ainda mais a ruiva.

— Ele tem razão. Esses aqui são chatos, eles só comem planta!

— Queremos ver os carnívoros!

— Ei, fiquem quietos! – exclamou Chloe. – Os dinossauros herbívoros são tão legais quanto os carnívoros. Esse aqui chegava a quatorze metros de altura enquanto o tiranossauro rex só chegava a cinco metros. – explicou fazendo Lorenzo erguer a sobrancelha impressionado.

Os jovens ficaram calados confusos e Chloe ficou satisfeita até que Lorenzo voltou a falar.

— E daí? Tamanho não é documento. – comentou, fazendo a turma de jovens concordarem com ele.

— Claro que é! Quanto maior melhor. – exclamou irritada fazendo que os jovens a olhassem assustados. Apenas Lorenzo que riu por levar a frase da ruiva pra malicia.

— O que você quer dizer com isso? – a baixinha da turma perguntou visivelmente irritada. Chloe corou levemente, envergonhada. Parte pelo sorriso malicioso de Lorenzo e parte por ter ofendido a pequena.

— Nada, querida. Eu não quis dizer nada. – disse se desculpando. Depois se virou para Lorenzo. – O que você está fazendo aqui? – perguntou irritada para que só ele pudesse ouvir.

— Eu pensei que poderia passar aqui para ouvir suas desculpas por ter me molhado no bar ontem. – contou descaradamente, sem se preocupar com o olhar assassino da ruiva.

— Você está me atrapalhando! – esbravejou.

— E você está sendo rude novamente.

— E você está me tirando à paciência outra vez!

— É porque você fica linda quando está irritada.

Chloe ficou pasma com a revelação e quase ficou sem palavras. Abriu a boca para falar algo, mas nada saiu. Sentiu as bochechas esquentarem e Lorenzo sorriu abertamente.

— Podemos ficar discutindo sobre como você fica adorável quando fica corada, ou pode aceitar a sair comigo.

— Nem pensar!

— Ótimo, então eu acho que vou ficar aqui mais um pouco compartilhando com esses jovens adoráveis o quanto o tiranossauro rex é melhor que esses herbívoros gigantes. – disse ele se virando, mas Chloe o puxou pelo braço.

— Nem pensar! Olha, se eu aceitar sair com você, você vai embora? Esse aqui é o meu primeiro dia e, como eu disse, você está me atrapalhando!

— Tem a minha palavra. – disse ele.

— Ótimo. Agora, por favor, vá embora.

Lorenzo sorriu satisfeito e se dirigiu a porta, mas antes de sair, gritou:

— Te pego amanhã as oito, querida.

O rosto de Chloe avermelhou de raiva e Lorenzo sorriu vitorioso. Essa garota ainda vai lhe dar problemas. E ele vai adorar lidar com cada um.