Mirrors
10 The Right Kind of Girl.
Seus olhos cinzas o analisava sem nenhum pudor, e ela nem mesmo se importava se aquilo podia ser notado de longe. O homem se aproxima dela com um sorriso de lado enfeitando seu rosto enquanto suas mãos tratavam de desamarrar o casaco luxuoso que ela usava. Seu sorriso se aumenta ainda mais ao ver o que aquela peça de roupa escondia. Emily coloca os braços na cintura, jogando a peça para trás, a fim de mostrar ainda mais a lingerie preta e rendada que usava.
— Ah! Eu sabia que era uma péssima ideia vir aqui. – Brincou fazendo biquinho e se virando quando sente as mãos de Ian segurando seus pulsos com delicadeza e força moderada.
— Não, não. Essa ideia não tem nada de péssima. – Murmurou, colando seus corpos causando arrepios indesejáveis na morena.
— De qualquer forma, estou pensando em uma ideia melhor... – Disse mordendo o lóbulo do ouvido do homem que sorri abertamente.
— E o que seria? – Pergunta curioso enquanto suas mãos trabalhavam jogando o casaco em um canto qualquer no chão.
— Mostrar para você, Ian... O quanto sou orgulhosa de ser sua. – Sussurrou se afastando dele e indo em direção às escadas vagarosamente, fazendo questão de exibir a roupa intima que usava.
— Sorte a nossa que a noite é uma criança. – Comentou com um sorriso malicioso no rosto.
— Então o que está esperando, senhor cheio de si apaixonante? – Questionou arrancando uma risada dele que já tirava o terno correndo em direção a morena que se aproveitava da situação para provocar ele ainda mais.
Chloe abre a porta do quarto da prima com um sorriso enorme no rosto, deixando o quarto um pouco mais iluminado ao abrir as cortinas da única janela que havia ali. Emily espreme os olhos e resmunga algo nem um pouco audível, virando para outra direção e puxando a coberta até o rosto, mas a ruiva não se contenta com resmungo, retirando aquilo que cobria seu corpo com facilidade, exibindo um sorriso vitorioso. O sonho que a morena estava tendo poderia ser considerado um pesadelo, e ela deixaria claro de encaixar aquela perversão nessa categoria, quando odiava admitir que era um dos melhores sonhos de toda a sua vida. E olha que ela costuma ser sonhadora por ser boa de cama quando o assunto é sono. Chloe cruza os braços deixando claro, mesmo que silenciosamente, que ela não iria sair dali até que a prima se levantasse. Emily joga um travesseiro no rosto da garota, antes de se levantar e sorrir falsamente indo em direção ao banheiro.
— Bom dia para você também raio de sol. – Chloe sussurrou em ironia e acaba rindo do estado da prima, quando vê o celular dela vibrar em cima da cama. Ela observa o corredor de seu apartamento antes de deixar a curiosidade falar mais alto.
Enquanto isso, Emily toma um banho gelado tentando inutilmente espantar os pensamentos que a rondavam. Tudo que conseguia pensar era no quanto aquilo foi perturbador, ou pelo menos, era aquilo que ela fingia pensar para si mesmo quando na verdade, queria que parte daquele sonho acontecesse. Deixando a parte daquele sonho em negrito porque ela não queria nem pensar no que aconteceria se Chloe não tivesse a acordado. Ou queria? Emily morde o lábio inferior e dá um murro fraco na parede desejando simplesmente ter o poder de parar de sonhar. Ao contrário da prima, ela não acredita nem um pouco em sentimentos fúteis como o amor, sendo assim, teria que colocar um basta no que quer que seja esse lance entre ela e Ian, porque o que menos queria era se sentir atraída por alguém como ele. Não que fosse horrível, mas o cara é convencido e ela... Bem... Ela é orgulhosa. Depois de se enrolar na toalha e escovar os dentes, ela calça suas chinelas velhas e vai até o quarto dando de cara com sua prima bisbilhotando seu celular com um sorrisinho no rosto.
— O que está fazendo? – Pergunta Emily aos gritos.
— De senhor cheio de si... Será que o destino se enganou? Estou esperando uma certa morena a vinte minutos na cafeteria, e ela sabe que eu odeio esperar. Ou pelo menos eu achava que ela soubesse. – Chloe lê em voz alta e seu sorriso se aumenta ainda mais ao encarar a prima que sentia suas bochechas se esquentarem.
— Me dá isso. – Exige, sem esperar nenhuma ação da ruiva, já tomando o celular das mãos dela. – Já ouviu falar em privacidade?
— Assim como você, eu faltei essa aula. Aliás, quando ia me contar que Lorenzo foi para o museu me importunar porque você decidiu compartilhar a novidade com um certo passarinho verde? – Pergunta Chloe cruzando os braços.
— Como se você não tivesse gostado. – Emily revirou os olhos e abriu o pequeno guarda-roupa que havia naquele quarto quando vê a prima a rondando. – O que foi?
— Eu não vou conseguir ir sozinha. – Avisa erguendo as mãos em rendição e se deitando na cama como aquelas garotas que chegam em casa se sentindo uma completa derrota.
— É lógico que vai... Lorenzo não é um bicho de sete cabeças! – Exclama a morena com os olhos arregalados.
— Ah! Não quero nem imaginar aquele homem com sete cabeças. Uma já é irritante o suficiente. – Murmurou, e então foi a vez de sua prima sorrir.
— Irritante, é? Até parece. Você gostou dele. Admita. – Exigi ela se sentando próximo a Chloe.
— Sabe, acho que deveríamos voltar a nossa conversa sobre privacidade. – Pediu fazendo a morena revirar os olhos.
— Fala sério! Não muda de assunto Chloe Thierry Porter. – Emily a encarou com os olhos acinzentados mais escuros que o normal. E ela sempre fazia isso quando o seu lado vilã havia assumido o comando.
— Eu não mexo mais no seu celular se não falar mais comigo sobre esse garoto. – Pediu e a garota fez muxoxo.
— Mas isso é um acordo injusto! – Disse enquanto Chloe se levanta da cama dando tapinhas nas costas da prima.
— Vou fazer o café da manhã para mim... – Cantarolou já indo em direção à porta.
— Chloe... – Grita Emily com um sorriso brincalhão no rosto.
— Está atrasada para seu encontro com Ian. – Avisou saindo do quarto.
— Não é um encontro. – Vociferou em alto tom e acabou ouvindo uma risada de sua prima certinha. Em um suspiro aliviado, suas mãos alcançam mais uma vez o seu celular.
De: Senhora esquentada apaixonante
Para: Ian Chiacchio
O destino esqueceu de mencionar que a garota iria perder o horário e dormiria além da conta... Hahaha Estou a caminho! ;D
**
Ian está entediado sentado naquela mesa redonda e minúscula demais para locomover as pernas. Suas mãos já haviam se cansado de fazer aviões de papel com aqueles guardanapos finos e ele checa pela última vez com sua secretária se ela havia desmarcado tudo que tinha que fazer naquele horário. Então ele ouve o barulho de uma voz doce agradecendo o taxista e em um movimento rápido, joga todos aqueles aviões medíocres no lixo, se virando para a direção da voz, onde havia uma morena o encarando com um sorriso encantador no rosto. Ela usa uma blusa branca soltinha; um jeans com rasgos; um salto agudo preto e um coque mal feito nos fios pretos. Emily caminha suavemente até o homem que a encara de cima a baixo de maneira discreta.
— Acho que valeu a pena a espera. – Sussurrou para si mesmo enquanto ela se aproxima sem tirar o sorriso do rosto.
— Ian, eu não esperava ver você aqui! – Exclamou arqueando as sobrancelhas, arrancando dele um olhar brincalhão.
— Sabe como é... Gosto de sair da minha zona de conforto. Veio de táxi? Achei que morasse aqui perto. – Comentou e ela encara o lugar onde havia um táxi alguns segundos atrás.
— Pois é, sair de casa com sono não é o meu forte. – Murmurou fazendo uma careta e ele dá uma risada.
— Estava pensando... Seria pedir muito que você me acompanhasse no café da manhã? É que já, já o lugar vai lotar e tem uma cadeira sobrando nessa mesa. – Convidou e ela negou com a cabeça.
— Tomar café da manhã com Ian sempre foi meu maior sonho. – Ironizou se sentando na cadeira que ele havia oferecido, e Ian solta uma gargalhada voltando a se sentar onde estava há pouco tempo.
— Já fiz o nosso pedido, se não se importa. – Avisou e os olhos dela se estreitam.
— Não vou me importar se tiver pedido algo do meu agrado. – Balbuciou dando de ombros e ele sorri de lado.
— Bom... Se é do seu agrado, eu não sei. Mas, é meu favorito. – Falou e Emily observa as pessoas ao redor.
— Posso perguntar uma coisa? – Pede ela mordendo o lábio inferior assim que ele assentiu, curioso com a pergunta que seria feita. – Lorenzo não é literalmente como você, não é? Porque se ele por acaso usar a minha prima e depois jogar ela fora como se fosse um objeto, eu o torturo até a morte sem dó ou piedade.
— Parte de mim agradeceria você por isso. – Ironizou dando uma risada ao se lembrar que tortura sem dó ou piedade é seu maior forte. – Mas, não se preocupe, ele pode se parecer comigo, mas quando o assunto são garotas, Lorenzo consegue ser o completo oposto.
— Ah! Nunca fiquei tão feliz em ouvir isso porque Chloe não é como eu... Ela é o tipo de garota fofinha que acredita em amor, príncipes encantados e toda essa baboseira. – Suspirou aliviada.
— Então esses dois foram feitos um para o outro. Acredite se quiser, mas ele também é desse tipo. Meu primo é um canalha ás vezes, mas ele leva encontros a sério. E isso é algo que ele pratica raramente. – Comentou Ian.
— De qualquer forma, minha ameaça está de pé. Trate de deixar isso claro para ele. – Pede ela sorrindo de forma maligna. – Mas, não quero falar sobre isso. Eu ajudei o destino dessa vez porque quero conhecer um pouco mais meu perseguidor.
— Perseguidor? – Pergunta Ian sorrindo fraco tentando inutilmente se fingir de desentendido.
— Eu não sou idiota e vi você tentando se esconder sempre. Mas se isso te alivia... Não vou prestar queixa. – Brincou dando uma risada.
— Certo, certo. Acho que eu devia ter pedido o seu número ou sei lá... Seria menos assustador. – Comentou acompanhando Emily nas gargalhadas.
— É, teria sido mesmo. Mas se tem uma coisa que é impossível, é voltar no tempo. – Diz ela dando de ombros. – Então... Você disse que era empresário, não é?
— Sim, disse. Minha família faz negócios com todo o mundo. Exporta e importa... Mas, e seus pais? Você disse que eles são empresários também.
— Hotelaria. O Brasil é um país repleto de cultura e riqueza. Que investimento seria melhor se não o turismo? Todos os dias, centenas de pessoas procuram quartos para passar alguns dias nas várias cidades de lá. E os hotéis dos meus pais são os mais cotados. – Murmurou como se aquilo fosse algo natural.
— Já fui ao Brasil a negócios uma vez. – Balbuciou.
— Ian Chiacchio vai ao Brasil a negócios e não aproveita a noite com nenhuma brasileira? Quem é você? – Pergunta Emily de forma brincalhona, fazendo o homem a sua frente sorrir.
— Não sou o tipo de cara que mistura prazer com negócios, Emily. Acho que não nos conhecemos tão bem ainda. – Vociferou a encarando como em um desafio.
— Então acho que devo vir à cafeteria todos os dias. – Sussurrou ela piscando para ele.
— Não podia concordar mais com você. – Disse sorrindo de lado.
— Aqui estão os cafés. – Avisou uma mulher se aproximando. – Dois cafés fortes com leite desnatado e sem açúcar.
— É o meu favorito! – Grita Emily animada pegando seu café e encara Ian desconfiada.
— Coincidência? – Murmurou sorrindo e ela balança a cabeça completamente encantada com aquilo.
— Não, Ian. Destino. – Ela pisca para ele de forma galante e os dois acabam rindo desatando uma conversa que parecia não haver fim.
A cafeteria já estava completamente vazia, mas o tempo parecia ter parado para ele que, agora, estavam finalmente se dando bem.
****
Lorenzo estaciona seu carro em frente ao prédio indicado no endereço que seu primo havia lhe dado. São oito em ponto e lá está ele pronto para levar uma dama para jantar. Ele se pergunta desde quando ele convida desconhecidas para um encontro. Certo que não é um daqueles encontros românticos, mas não deixa de ser um. O ponto é que ele é bem chato com essas ocasiões formais, não é de levar qualquer uma para sair, ele gosta de levar as certas. Em Chicago existem muitas jovens que só estão a fim de se divertir e não fazem questão nem de saberem o nome do acompanhante, a única coisa que perguntam é “na casa de quem?”. E se elas não se incomodam, não será ele que irá se incomodar. Porém ele não sabe que tipo de garota é Chloe. Quando se encontraram no restaurante, ele realmente a achou linda e pensou nela como uma garota que gosta de encontros, mas depois da acidez da garota, ele já não teve mais certeza.
Entre tudo, ele não pode negar que ficou interessado na ruiva, ou melhor, intrigado. Lorenzo sentia uma necessidade enorme dentro de si de saber mais sobre ela. Seja apenas por curiosidade ou não, essa noite ele está certo que irá descobrir que tipo de garota Chloe é.
Já dentro do apartamento, Chloe anda de um lado para o outro nervosa, aguardando a chegada de Lorenzo. Emily apenas ri da prima e vai checar pela milésima vez a rua da entrada do prédio pela janela da sala a pedido dela.
— Ele não vai vir. Não acredito que aquele idiota fez eu me arrumar à toa, isso é culpa sua Em. – exclamou Chloe, chamando a prima por seu apelido e sentando no sofá desiludida. – Quer saber, agora quem não quer mais ir sou eu. – exclamou cruzando os braços emburrada.
— Se eu fosse você não falava isso. – comentou Emily sorrindo ao observar a vista lá fora. – Não é que ele é pontual? – brincou ela.
Chloe ao ver que sua prima observava a janela, correu para ver se era aquilo que estava imaginando. E uma parte dela ficou bem aliviada ao constar que sim. Lá está Lorenzo mais uma vez e Chloe não consegue evitar o pequeno sorriso singelo ao vê-lo ali, encostado no carro despreocupado a esperando.
— É uma pena você ter desistido de sair com ele. Vou lá avisá-lo e inventar uma desculpa qualquer. – Emily disse fingindo estar com pena do rapaz.
— Nem mais um passo, Emily Hamswere Gavin. Eu não sei o que Lorenzo pretende me levando para sair, mas eu não vou descobrir se ficar aqui, certo? – comentou. – Certo! – respondeu antes mesmo que a prima pudesse abrir a boca para dizer algo.
Chloe pegou sua bolsa e se olhou pela última vez no espelho. Maquiagem, batom, brincos, perfume... Ela está pronta! Respirou fundo e o riso curto da prima a tirou do transe.
— Vai dar tudo certo Chloe, é apenas um encontro. Você vai se dar bem. Ian me garantiu que Lorenzo leva a sério encontros formais e que ele será um cavalheiro com você, apenas relaxe e não seja tão rude com ele, ok?
Chloe concordou com tudo dando um leve aceno com a cabeça. Olhou-se mais uma vez no espelho, olhando bem no fundo dos seus olhos.
Você consegue, Chloe. Você consegue!
Lorenzo alterna seu olhar entre o relógio de pulso e a porta do prédio em que está parado a frente. Já estava pensando em ligar para Ian, para se certificar que o endereço dado era o certo quando a porta do prédio se destrancou e Chloe desfilou timidamente para fora dele. Por um momento Lorenzo ficou sem ar. Ela está linda! Ela usa um vestido preto justo que vai até a metade de suas coxas. Sem decote ou transparência, pois ela não queria parecer tão vulgar. Porém o vestido justo acentua bem seu corpo e deixa a mostra suas curvas brasileiras. Seus fios ruivos estão soltos e, com a ajuda da prima, conseguiu dar volumes nas pontas, o deixando ondulado do ombro para baixo. Nos pés um par de saltos alto na cor nude.
Lorenzo não pode evitar de olhá-la de cima a baixo, e Chloe sente suas bochechas corarem, já se arrependendo de escolher aquele visual para essa noite. Mas ao ver o sorriso do homem a sua frente, ela não conseguiu não se sentir bonita.
— Você vai brigar comigo se eu te elogiar? – Lorenzo perguntou, quebrando o silêncio entre eles.
— Depende. – respondeu ela, também sorrindo.
— Você está linda. – disse abertamente.
Chloe corou. Lorenzo sorriu. E ambos ficaram se encarando por longos minutos até que finalmente ele a chama para entrar no carro, abrindo a porta para ela e a ajudando entrar.
— Para onde vamos? – perguntou ela, assim que Lorenzo terminou de se acomodar no banco do motorista.
— Você verá.
Ao dar partida e arrancar com o carro, Lorenzo sorriu de certo modo que Chloe não conseguiu decifrar. E depois de alguns minutos, eles haviam chegado. Cavalheiro como sempre, Lorenzo saiu do carro e se apressou para ir abrir a porta para ela, e ao ver o local escolhido para passar a noite, Chloe não pode deixar de se sentir um pouco desapontada.
— The Club. – suspirou.
— Pois é, The Club. Vamos? – Lorenzo esticou o braço para a ruiva e ela excitou por um momento, mas depois aceitou.
Sinceramente, ela esperava mais. Ele havia dito um jantar, não uma dança! E além do mais, Chloe não curtia tanto esses clubes. Tentou não demonstrar o desencanto com a escolha do lugar, mas já planeja uma desculpa rápida para poder sair dali o quanto antes.
— Vamos demorar horas para entrar, olha o tamanho dessa fila! – exclamou ela ao se aproximar do local.
E não era pra menos. A fila para entrar no The Club costuma dar voltas no quarteirão e hoje não seria diferente.
— Não se preocupe com isso. – Lorenzo disse, andando calmamente até a entrada da boate. À medida que se aproximam, várias pessoas resmungam e os olham torto, esperando para vê-los voltaram para o final da fila. Só que não é isso que acontece lógico. – Depois de você.
Chloe olha sem reação para ele, porém Lorenzo parece estar falando sério. Eles estão na porta da boate e o segurança havia dado passagem para ambos. Sempre que acompanhou a prima em suas noitadas, ela esperava horas para conseguir entrar, mas pelo jeito com Lorenzo é diferente.
— Você vai amar esse lugar. – exclama ele assim que entram no local.
Chloe sorri singelo, tentando se animar, mas é em vão. Lorenzo é o único entre os dois que parece estar realmente animado com a ideia de estar ali. À medida que entram na boate, ele não deixa de cumprimentar uma só pessoa. Na verdade ele intercala seus elogios entre a multidão desconhecida e ela. Ao chegar à área VIP, Chloe se surpreende ao encontrar uma mesa reservada apenas para os dois.
— Vou cumprimentar o DJ, ele é um velho amigo. Já volto. – gritou Lorenzo por conta do barulho.
Lógico que ele não fazia ideia de quem é o DJ essa noite, mas sempre que as mulheres ouvem isso elas se animam. Ele não sabe bem o porquê disso, mas é infalível. Quanto mais conhecido o homem é, mais admirado ele se torna. Depois de ir cumprimentá-lo e de passar no bar para pegar duas bebidas, Lorenzo retornou para a mesa que ele mandou reservar, e se surpreende ao constar que Chloe não estava mais lá.
— Mas aonde ela foi? – se perguntou olhando ao seu redor, tentando avistá-la.
Sem pensar duas vezes, Lorenzo correu para fora do clube, para ver se a encontrava. E encontrou. Chloe andava com passos largos para o outro lado da rua, pronta para desaparecer dali.
— Ei, aonde está indo? – gritou Lorenzo, correndo para alcança-la. – Chloe, aonde vai? Acabamos de chegar!
— Olha Lorenzo, — começou ela se virando para ele. – eu não sou garota para você, está na cara!
— O quê? Não, olha, vamos voltar para a boate e nos divertir, vai ser legal.
— Está tudo bem, e quer saber, me desculpe por ter jogado a bebida em você, ok? Agora você está livre para ir e pegar qualquer garota que quiser lá dentro. – disse ela.
Lorenzo a encarou sem reação.
— Sério? Tem certeza? – Lorenzo perguntou para provocá-la.
Chloe semicerrou os olhos, não acreditando no que acabou de ouvir.
— Como você consegue ser tão galinha? Inacreditável!
Lorenzo sorriu.
— O que foi? Você disse que eu podia e eu só estava checando, não fiz nada de errado!
Chloe revirou os olhos, com certeza não tinha como a noite ficar pior.
— Quer saber? Esquece! Eu estou retirando as minhas desculpas e indo embora! – comunicou ela já irritada e se irritava ainda mais com o sorriso provocativo que Lorenzo exibia.
— Está indo embora porque é tensa demais e não sabe de divertir. – comentou ele dando de ombros.
— Você age como um adolescente de dezesseis anos. É ridículo! – exclamou ela.
— E você age como uma mulher de trinta anos. É deprimente!
Chloe olhou para Lorenzo com os olhos fulminantes e se segurou bastante para não dar um chilique. Fechou os olhos e respirou fundo, se lembrando do treinamento do avô sobre manter a calma.
— Eu estou indo embora e peço que você faça a gentileza de me esquecer. – comunicou ela, tentando soar calma o bastante.
— Ótimo.
— Ótimo.
— Ótimo.
— Ótimo! – gritou Chloe por fim se virando.
É então que ela vê Stan, seu ex-namorado caminhando alegremente. Stan foi o primeiro namorado de Chloe aqui em Chicago e ele a largou por causa de outra, o que feriu e muito os sentimentos dela. Não é a primeira vez que eles se encontram por acaso, dá última vez que isso aconteceu, Chloe inventou uma história absurda sobre namorar um advogado quando o viu com a nova namorada que cursa medicina. Foi imaturo da parte dela, ela sabe, mas de jeito nenhum iria ficar por baixo na relação. E lá estão eles, Stan e sua namorada caminhando lado a lado sorrindo feito bobos um para o outro enquanto ela acaba de brigar com um dos caras mais irritantes do planeta. E sem saída, Chloe resolve alimentar ainda mais sua mentira.
— Lorenzo, espera! – gritou ela, voltando a correr e sua direção e o segurando de frente para ela. – Me beija!
Lorenzo olhou para a ruiva se perguntando se aquilo é uma piada de mau gosto ou coisa do tipo, totalmente confuso com a atitude dela.
— O que? Não! – exclamou ele, tentando se afastar.
— É sério! – falou ela o puxando para si mais uma vez.
— E por que eu te beijaria? – ele perguntou
— Apenas me beija!
— Não! Você é bipolar ou coisa do tipo?
Ao olhar para o lado e ver que o casal feliz se aproxima, Chloe não teve escolha a não ser puxar Lorenzo para um beijo. De momento, Lorenzo se recusou, mas depois de alguns segundos e notar que ela estava mesmo falando sério, acabou se entregando, a beijando de volta. E ele poderia ficar horas ali a beijando se não fosse por alguém chamando por ela.
— Hm, Chloe? – chamou Stan. – Oi? Chloe?
Chloe parou de beijar Lorenzo sem se afastar do homem, o abraçando carinhosamente, deitando sua cabeça sobre seu peitoral como se fossem de fato, um casal feliz e apaixonado.
— Oi, Stan, que engraçado encontrar você. – comentou fingindo estar surpresa.
Stan a olhou também surpreso, mas não por encontrá-la de repende, mas sim por encontrá-la com outro. Ele particularmente não havia acreditado em uma só palavra sobre o novo namorado advogado, pois em sua sincera opinião, Chloe não havia o superado ainda. Mas ao vê-la com o tal namorado, ficou sem reação.
— Esse é meu namorado, Lorenzo, o advogado que eu comentei com você. – continuou ela, envolvendo de vez Lorenzo na mentira.
Chloe olhou para Lorenzo forçando um sorriso, enquanto o mesmo a olhava como se a estivesse analisando. Agora ele entendia o porquê do fuzuê para beijá-la, entendia o motivo. Um antigo namorado é claro. Lorenzo pensou duas vezes antes de confirmar a história louca que a ruiva havia inventado. Pensou em negar tudo e voltar para dentro do The Club e sair com uma, ou quem sabe, duas mulheres ao seu desejo. Mas ele saiu essa noite com uma só intenção: descobrir mais sobre a mulher que o encharcou no restaurante outro dia. E o olhar desesperador que Chloe o lança já diz tudo.
E então ele sorriu.
— Advogado criminal. – falou sério, estendendo sua mão para Stan e a apertando com força, depois voltou a abraçar Chloe. – Trabalho com o prefeito.
— Puxa vida, com o prefeito? – perguntou a namorada de Stan, impressionada.
Lorenzo deu de ombros.
— Quando ele soube que eu havia me formado em advocacia, fez questão de me chamar para trabalhar com ele. Sempre fomos vizinhos e eu pensei, por que não?
Chloe tentou não rir ao ver os olhos do antigo namorado se arregalar surpreso. Ele estava morto de ciúmes, ela podia notar isso e estava adorando.
— Mas é claro que foi graças a essa maravilhosa mulher que eu decidi aceitar o emprego. – Lorenzo disse olhando para Chloe, a encarando intensamente. – Eu amo você. – sussurrou de forma que todos ouvissem e aproveitou para beijá-la mais uma vez. – Ela é incrível, uma mulher completa.
Chloe sorriu e desgrudou seus lábios dos de Lorenzo, voltando a olhar para o casal.
— Estamos super felizes. – declarou desesperadamente.
— Sim, estamos. – concordou Lorenzo, continuando a farsa.
A namorada de Stan, Linda, sorria alegremente, se deixando acreditar pela farsa dos dois. Apenas Stan se incomoda com tudo aquilo. E ele achando que era o único a se dar bem com o fim do relacionamento dos dois...
— Ele é incrível. – continuou Chloe, olhando dessa vez para Linda que sorria educadamente.
— E deve ser mesmo. Você é uma garota de sorte!
Chloe sorriu falsamente, dando um selinho em Lorenzo e o encarando.
— Você não faz ideia. – respondeu.
E eles ficaram se encarando até Stan coçar a garganta, chamando a atenção dos dois.
— Bom, nós vamos indo. – disse ele sem graça.
— Claro, claro.
— Stu, foi um prazer conhecer você. – provocou Lorenzo, apertando a mão do homem mais uma vez.
Stan sorriu sem jeito.
— É Stan, não Stu. – corrigiu.
— Claro, Steve, tanto faz. – falou dando de ombros.
— Foi um prazer conhecer você, Lorenzo. – Linda disse, se despedindo.
— O prazer foi todo meu. – Lorenzo respondeu de um modo galanteador, fazendo Linda corar.
Stan se sentiu incomodado e sorriu sem jeito, fazendo Chloe sorrir internamente milhares e milhares de vezes. Os dois se despediram com um aceno de cabeça formal e partiu.
— Tchau pessoal. – exclamou Lorenzo para os dois. – Divirta-se Simon! – disse provocando o ex de Chloe mais uma vez.
— É Stan. – ele gritou sem olhar para trás.
E logo Stan e namorada sumiram de vista dos dois. Chloe soltou o ar pela boca se sentindo aliviada e se soltou de Lorenzo, o agradecendo por tudo e pedindo desculpa pela cena ridícula que ela o fez passar.
— Achei que fosse Emily a atriz da família. – comentou Lorenzo fazendo Chloe rir.
— Ele é o meu ex-namorado e sempre que podia, esfregava a namorada perfeita dele na minha cara. Acabei inventando um imaginário e quando o vi aqui, entrei em pânico. – se explicou. – Eu não acredito que te fiz me beijar, estou tão envergonhada. Me perdoe.
Lorenzo sorriu achando uma graça o jeito doce de Chloe.
— Não foi nada, o cara parece ser mesmo um completo idiota. – expressou ele e sem perceber, Chloe concordou com a cabeça.
Chloe estava realmente muito agradecida e envergonhada ao mesmo tempo. Primeiro brigou com o cara na frente de várias pessoas, acreditando tê-lo feito passar vergonha na frente daqueles desconhecidos e, segundos depois, o agarrou sem nenhuma explicação e o induziu a entrar em sua mentira. Ela está se sentindo horrível. Ela definitivamente não é assim.
— Quer ir comer uma pizza? – arriscou Chloe. – Conheço uma boa pizzaria por aqui.
Lorenzo olhou para Chloe se sentiu surpreso com o convite da jovem, não demorou muito pare ele aceitar e os dois partiram para a pizzaria que era logo ali na esquina. Os dois então começaram uma conversa descontraída. Chloe contou sobre sua adolescência no Brasil e sobre os pais. Sua paixão sobre arte e história e o que a levou escolher o curso que a fez mudar de país. Lorenzo também não escondeu nada e contou sobre sua família, informando que tinha uma irmã gêmea e também sobre a morte da mãe, dizendo que ela havia morrido em seu parto. Ambos esconderam o quesito máfia e não fizeram nenhuma ligação se quiser, sem saber que cada um é herdeiro de uma organização mafiosa. Passaram horas na companhia um do outro até serem os únicos fregueses na pizzaria. A garçonete já começava a limpar as mesas e o chão quando os dois resolveram partir. Começaram uma caminhada lenta até o carro do rapaz, pois pela primeira vez, ambos não queriam que a noite acabasse. Por mais que fosse difícil de admitir para si mesma, Lorenzo havia sido um ótimo acompanhante aquela noite e ele realmente superou suas expectativas. Infelizmente não demorou muito para que chegassem até o carro e muito menos para chegarem até o prédio dela.
Lorenzo saiu do carro e se encostou no mesmo e esperou Chloe sair e dar a volta, parando de frente para ele.
— É difícil de admitir, mas... Foi ótimo passar esse tempo com você, Lorenzo. Você até que é inteligente para um frequentador de boates.
Lorenzo riu com vontade achando graça.
— E você até que é divertida para uma inspetora de museus. – devolveu ele, a fazendo rir.
— Pelo vistos ambos se superaram essa noite. – sussurrou ela para ele.
Eles então trocaram olhares até ficarem se encarando intensamente. Lorenzo se desencostou do carro e deu um passo a frente, ficando face a face de Chloe, querendo muito beijá-la novamente. A mesma tinha impressão que seu coração sairia rasgando de seu peito, de tão acelerado que está. Ela olha no fundo dos olhos de Lorenzo à medida que ele se aproxima de seu rosto. Aquela seria e terceira vez que o beijaria em uma só noite e uma parte dela se questionava se aquilo é mesmo algo que ela costuma fazer sempre. Claro que não é sempre que ela tem um encontro com um cara como o Lorenzo, pois ela tinha que admitir, a genética da família dele é maravilhosa! Mas mesmo assim, quando foi à última vez que ela saiu beijando um desconhecido? E quando ela tenta reunir todas as suas forças para se afastar de Lorenzo, o mesmo para de se aproximar, ficando próximo o bastante apenas para sentir a respiração desacelerada de Chloe.
— Eu adoraria muito de beijar mais uma vez. – confessou ele.
— E eu adoraria te beijar de volta. – ela declarou sem pensar, sendo traída pelo desejo incerto de agarrar o homem a sua frente. Chloe sentiu suas bochechas queimarem quando ouviu o som gostoso da risada de Lorenzo, abaixando a cabeça e querendo infantilmente se enterrar em um buraco. Mas que merda está acontecendo comigo?
— É muito bom saber disso. – sussurrou ele. – Mas acho que vou guardar esse beijo para outro encontro.
Chloe voltou a olha-lo rapidamente.
— Um outro encontro? – indagou.
— Bom, eu adoraria sair com você outra vez, você não?
— Sim, eu... Eu adoraria sair novamente com você. – esclareceu sorridente.
Lorenzo sorriu satisfeito.
— Ótimo. Essa semana eu não vou estar por aqui, mas eu te ligo assim que voltar para Chicago.
A esperança de Chloe em encontrar Lorenzo mais uma vez rapidamente se escorreu por água abaixo assim que ele terminou de falar. A velha desculpa da “viagem a negócio” já era velha para ela. Eles prometiam ligar assim que voltassem, mas isso nunca chegava a acontecer.
— Ah, claro, uma viagem a negocio, adivinhei? Típico. – falou com ironia, se afastando de Lorenzo e o olhando com indiferença.
Lorenzo rapidamente entendeu o engano da moça, afinal, ele já havia dado aquela desculpa várias vezes, então tratou logo de se explicar.
— Não, não é uma viagem a negócios, estarei indo visitar minha irmã na Inglaterra. Eu comentei com você, não se lembra?
Chloe fechou os olhos envergonhada. Ele havia de fato comentando sobre isso com ela e sem querer deve ter esquecido. Agora ela desejou com todas as forças que um buraco aparecesse para ela se esconder lá dentro por toda a eternidade. Ela já perdeu as contas de quantas vezes agiu com indiferença com ele, estava sendo boba enquanto ele apenas queria se aproximar.
— Me desculpe. – sussurrou. – Eu estou agindo como uma idiota ultimamente.
— Não que isso, eu entendo você. Mas sabe Chloe, eu não sou tão canalha como você pensa. E eu vou te ligar. Eu prometo.
— Se é assim, estarei esperando por sua ligação.
Os dois se despediram e Lorenzo esperou que Chloe entrasse no prédio para enfim entrar no carro e partir. Ele se sentia satisfeito consigo mesmo. Ele perdeu a conta de quantas vezes conseguiu fazer a ruiva sorrir. Ele saiu de casa não levando muita fé nesse encontro com a prima de Emily, querendo apenas provocá-la. Mas ele se surpreendeu com o rumo que o encontro dos dois levou. E ele ainda ganhou um beijo! Ah, com certeza esse foi o ponto alto do seu dia. Chloe o surpreendeu, de fato. Para uma moça sempre tão mal-humorada, ela se mostrou ser bem mais interessante.
E se Lorenzo havia saído de casa apenas para descobrir que tipo de garota Chloe fazia, ele não podia estar mais satisfeito em já ter a resposta para aquela pergunta, pois ela faz um tipo raro. Chloe faz o tipo de garota certa. Ela é a garota certa. E ele tem certeza que ela é à garota certa para ele.
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