Mirrors
21 ...Finishes In A Tragic Way. - Part Two
O bordel estava lotado de mulheres que queriam se inscrever e Emily entrou na fila observando em volta. Os garotos que estavam de fora e tentavam observar lá dentro eram expulsos à violência. A maioria dos homens que entravam eram empresários, médicos, advogados, engenheiros, entre outros que tinham bastante dinheiro para gastar com as mulheres, além das bebidas e da entrada para o lugar que custava uma fortuna. Definitivamente um local bastante requintado.
As prostitutas ali eram de luxo, e cobravam muito por uma simples carícia, quanto mais uma noite. E eles não se importavam, afinal, o dinheiro cobrado não era nada para eles que ganhavam aquilo por apenas uma hora de trabalho praticamente. Os seguranças usavam uma escuta e levavam as garotas para perto da câmera, onde Pierre observava em alguma sala do bordel. Quem entrasse é porque havia passado no primeiro teste. O segundo teste era somente mostrar do que é capaz para o garoto, que parecia bem rigoroso na escolha de suas garotas.
A Emily era uma das últimas da lista, então demorou algumas horas até chegar a sua vez.
O segurança a olha de cima abaixo e sorri, segurando a mão dela com delicadeza e levando ela até a câmera. Apenas uma resposta e a morena estava dentro, caminhando para dentro do bordel onde uma música alta tocava no máximo e haviam milhares de mesas no salão. Um grande bar no canto e um palco no centro para alguma das prostitutas se exibirem. Alguns sofás mais afastados onde os homens aproveitavam o melhor da casa.
Respirou fundo enquanto subia as grandes escadas ao fundo, indo ao segundo andar onde algumas mulheres levavam seus clientes para os quartos com um sorriso malicioso no rosto. Algumas estavam ali porque gostavam mesmo, mas haviam as exceções que precisavam daquele emprego e fim. Sua tia Hannah cresceu em um bordel, bem menos luxuoso que aquele e sem a segurança toda que tinha nesse.
Ela não entrava muito em detalhes, mas o nome de Chloe se deu em homenagem a mãe dela, que trabalhava naquele lugar. A mãe da ruiva era apaixonada por dança e ensinou tudo que as meninas sabiam sobre o assunto, então não seria um desafio passar por esse segundo teste. Apenas dez das cento e cinquenta garotas que estavam na fila conseguiram passar para dentro do bordel. Emily foi a última e caminhou a passos lentos até o quarto escuro. Sentia um milhão de borboletas sendo despejadas em seu estômago, mas precisava fazer aquilo direito. Era a vida da sua avó que está em risco. E ela sempre fez tudo por aqueles que ama. Mesmo que isso coloque até mesmo sua vida como alvo. O cômodo era na verdade o seu escritório, repleto de papeladas sobre uma imensa mesa, um grande cofre logo atrás e um painel de vidro que dava a plena visão do lado de fora. Algumas poltronas em frente e bem no centro, um pole.
— Pierre, essa é a última. – Os olhos do garoto se voltam para ela e um sorriso sujo escapa de seus lábios ao observá-la com cuidado dessa vez.
Assim que o segurança fecha a porta e os dois ficam a sós, Emily desce as alças de seu vestido e ele desliza até o chão. Pierre tinha os olhos esverdeados, o rosto quadriculado e os lábios cheios. Um moreno de causar inveja em qualquer homem e desejo em qualquer mulher. Ela caminha até ele retribuindo o sorriso. A vantagem de ter estudado artes cênicas antes de ser a futura chefe de uma grande máfia? Você pode controlar toda a situação sem nem mesmo ter noção disso. Para ele, havia apenas a realidade naquilo. Para ela, apenas mais uma das várias personagens que já interpretou ao longo dos anos.
— Nove garotas passaram por mim, e até agora nenhuma me surpreendeu. Você deve ter visto todas elas indo embora. Me diga, o que você tem que elas não? – Perguntou sem deixar de observar cada movimento de Emily.
Ela era a mulher mais linda que já havia visto em toda a sua vida e olha que muitas já passaram em seu caminho. O rosto tinha um formato quadricular e seu corpo era magro com bastante atributos; o cabelo negro como uma cascata que ia até seu seio; os lábios perfeitamente bem desenhados e cheios, com um batom vermelho bem passado — foi impossível não imaginar aquela boca colada na sua; os olhos tinham uma cor bastante rara — acinzentado.
— Não sou muito boa com palavras, mas seria um enorme prazer mostrar isso a você.
— Então fique à vontade. – Sussurrou indicando o pole e ela sorri agradecida. Que sorriso! Era possível se encantar mais por aquela mulher? Era.
E ele soube disso no minuto em que as mãos dela foram em direção ao pole sem tirar o sorriso do rosto. Os olhos exibindo pura luxúria que fizeram seu membro latejar dentro da calça. Ela não deixava de encará-lo por nenhum segundo enquanto segurou o pole e deslizou até o chão, se levantando com calma; caminhou até o lado e jogou as costas para trás mexendo os quadris enquanto usava uma das mãos para percorrer seu pescoço e colo. Com as duas mãos segurando o pole tirou os pés do chão, girando com graciosidade parando assim que chega até o final, se levantando apenas um pouco fazendo questão de empinar a bunda ao rebolar perfeitamente próxima a ele. Pierre se segurava para não saltar da poltrona e agarrá-la ali mesmo, e já estava prestes a fazer isso quando Emily caminhou até ele a passos lentos, se sentando no colo dele e o fazendo gemer baixinho.
— Conseguiu entender, ou quer que eu faça de novo? – Questionou ela toda inocente e ele sorriu levando as mãos as costas dela.
— Quero fazer outra coisa agora... – Sussurra próximo ao ouvido dela, que o empurra contra a poltrona e colocando as mãos sobre o peitoral dele. Começou a desabotoar sua camisa com um olhar sedento. Fez questão de deixar as mãos dele quietas no braço da poltrona e quando ele iria até o feixe do sutiã dela, Emily foi mais rápida, saindo da poltrona. E indo até a mesa. – Você gosta de joguinhos, é?
— Na verdade, só estou com sede. Não a nada melhor do que tomar algo antes que eu mostre do que mais sou capaz. – Ele riu, apontando para a jarra de whisky que era branco, o que facilitou tudo. Emily se serviu e no outro copo, jogou ácido sulfúrico (Que estava em um pequeno vidro guardado no vão entre seus seios). Caminhou até ele e sorriu lhe entregando o copo.
— Beba tudo, a noite é uma criança, mas quero aproveitar cada minuto dela. – Falou arrancando um sorriso dele que ao sentir o liquido na sua língua, tentou gritar, mas falhou ao engolir o ácido.
Os olhos se arregalaram ao sentir o calor alucinante de 100º no corpo, o corroendo por dentro. Emily se levanta pegando um travesseiro e colocando sobre o rosto do homem, e com a arma que ele guardava na gaveta de sua mesa, atirou na cabeça dele fazendo o menor barulho possível. Colocou o vestido com rapidez e se certificou mais uma vez de que ele estava morto.
Saiu do quarto dando de cara com um segurança e puxou o gatilho, o barulho fez todo o bordel se assustar e sair em disparada para saída. Droga! Agora ela só podia torcer para que os seus capangas já tivessem capturado todos os outros. Entrou em um quarto dando de cara com duas mulheres nuas transando com um homem e mirou neles.
— Saiam. Agora. – Grita firmemente e eles se assustaram tanto que saíram nus mesmos.
Emily corre até o banheiro do quarto e pega panos e mais panos para limpar o revólver eliminando todas as suas digitais e deixando ali mesmo antes de sair correndo, descendo as escadas e seguindo o fluxo por onde o pessoal ia, quando dá de cara com um homem usando o símbolo da Cosa Nostra seguindo o ritmo contrário.
Eles estavam aqui.
A morena olhava para todos os lados e parecia não ter lugar para ir, eram muitos seguranças e as filmagens ainda nem haviam sido apagadas! Procurou por um rosto conhecido, mas todos pareciam ter sumido no meio da multidão. O chefe poderia estar ali, o que ela faria? Viu uma porta que dava para as escadarias e não pensou duas vezes antes de entrar. Havia um machado de incêndio logo no canto e estava prestes a pegar quando um segurança da Cosa Nostra desce as escadas dando de cara com ela, segurando uma arma. Ela se desvia do tiro e chuta a pistola para longe, dando um murro na cara do homem que cambaleia para trás a tempo dela pegar o machado e jogar contra a cabeça dele. Pegou o machado e subiu mais os lances de escada, até a sala de projeção. Abre a porta dando de cara com o tio que mirava na porta pronto para atirar.
— Emily! – Ele corre até ela a abraçando.
— Como eles souberam do que acontecia? – Perguntou confusa.
— Alguém deve ter desconfiado e avisado. Me diz que pelo menos deu tempo de matar Pierre?
— Deu, ácido sulfúrico acaba com o corpo de alguém, ainda mais quando ingerido. – Comentou. – Já terminou de programar as filmagens?
— Não posso programar para mais de um minuto, teremos que acabar com todas as filmagens.
— Então faça isso. – Emily usa o machado para quebrar tudo e retira a filmagem essencial antes disso.
Benjamim segura a mão da sobrinha e os dois saem pela escada de incêndio. Chloe corria pelas ruas de Chicago com um carro branco, tentando não chamar muita atenção e entrando por um dos becos. Eles já estavam prestes a entrar no carro quando a sombra de alguém se aproximando surge. Emily estava prestes a atirar quando o farol do carro da ruiva liga, iluminando a distância. Maria caminhava a passos lentos sentindo todo o peso do seu corpo querer puxá-la para o chão. Os olhos da morena se arregalam e ela engole em seco. Sua avó estava ali. Caminhou em disparada até ela a abraçando com tanta força como se fosse perde-la de vista.
— Emily? – A voz dela é fraca, mas ela ainda se permite sorrir ao ver a neta ali.
— Vovó? – É impossível conter o choro ao ver que não havia nenhum machucado. A Cosa Nostra não havia tocado um dedo nela. As duas estavam juntas de novo.
— Temos que ir... Todos os nossos capangas foram mortos, não conseguiram pegar nenhum para torturar e encontrar respostas. Kieran e Charlie já estão no carro. – Benjamim avisa arrastando a sobrinha dali que não largou da avó um minuto.
Chloe dá ré e faz uma curva perfeita voltando correndo em direção ao seu apartamento.
Já haviam se passado horas desde o ocorrido e Emily fez questão que a avó tomasse um banho, colocasse uma roupa confortável e comesse tudo que tivesse na cozinha. Aqueles desgraçados deixavam ela desidratada e faminta por horas e a alimentava com pão duro e água barrenta. Maria parecia não se lembrar de absolutamente nada. Nem do local onde estava e muito menos de quem a havia capturado. No telefone, sua mãe chorava emocionada não acreditando que ela finalmente havia sido encontrada.
— Só me lembro de estar em um porta malas. Alguns sussurros e a porta sendo aberta. Me jogaram no meio do asfalto antes de irem embora. Estava no escuro o tempo todo, foi como estar em um pesadelo...
— Shh... Tá tudo bem, não precisa dizer mais nada. – Emily murmurou puxando a avó ainda mais para si. Ela já estava em uma cama confortável ao lado dela. Beijou Maria milhares de vezes sem acreditar que era real.
— Oh minha neta, não acredito que fez tudo isso por mim...
— Eu faço tudo por você. Sabe disso... Eu te amo tanto. Só de imaginar o pesadelo que você passou, eu... Eu...
— Não foi sua culpa, meu bem. Já estou aqui e estou viva.
— E eu não quero sair do seu lado nem por um segundo! – Completou a morena arrancando um sorriso da avó. – É melhor você dormir. Deve estar cansada.
Maria assentiu sem protestar e puxou os cobertores quentes para mais perto, fechando os olhos aos poucos até vencer o cansaço. Emily continuou ali acariciando o rosto da avó e vigiando seu sono sem tirar o olho dela em nenhum segundo. Não conseguia acreditar que todos aqueles seguranças que estavam ao lado dela há poucos minutos estão agora mortos. Eles arriscaram a vida por ela e haverá muitos outros que farão o mesmo. Era impossível imaginar algo assim. Se perguntava como sua avó estava tão intacta, já que a Cosa Nostra tinha a reputação de torturar as pessoas até a morte. Agradeceu mentalmente por ela estar bem. Amava tanto a avó que doía. Já estava quase dormindo, mas abria os olhos não querendo se deixar descansar, estando sempre em alerta.
— Emily? – Chloe abre a porta do quarto. – Não vai dormir?
— Não quero tirar o olho dela...
— Eu fico aqui com ela. O tio Ethan quer falar com você, e precisa tomar um banho, colocar uma roupa confortável e comer alguma coisa. Depois pode voltar.
— Promete ficar atenta?
— É claro. Não se preocupe. – A ruiva abraça a prima dando um beijo no topo de sua cabeça antes de se sentar no lugar onde a morena estava até então.
Emily vai até o quarto onde dormia e para não acordar o tio e seus primos, pega uma roupa com cuidado e toma um banho no banheiro social, tirando todo o sangue que cobria suas mãos. Fez um rabo de cavalo no cabelo, e jogou as roupas em um cesto deixando para lavar depois. Colocou um pijama confortável e foi até a sala pegar o telefone e discar o número do pai.
— Em, minha filha, você demorou a retornar a ligação...
— Eu sei, me desculpa. Me desculpa pelos seguranças que morreram por minha culpa. Só queria minha avó de volta, pai... Só isso... Por que a Cosa Nostra não pode simplesmente esquecer tudo isso? – Perguntou Emily se sentindo uma derrota.
— Acha que estou chateado com você? Estou orgulhoso. Emily, você enfrentou isso tudo com firmeza e conseguiu sair de lá com maestria. Liderou como uma verdadeira mafiosa. Eu é quem devo pedir desculpas por não acreditar em você às vezes. Mas é que sempre que te vejo, não enxergo a mulher linda que se tornou, enxergo a bebê que peguei nos braços e prometi manter sempre perto. — Murmurou arrancando um sorriso da filha.
— Minha mãe está bem? – Mudou de assunto.
— Ela já queria pegar um avião e ir até aí de tanta alegria e preocupação. Acabou dormindo depois que insisti. Como está Maria?
— Cansada. É tão estranho que a Cosa Nostra não tenha machucado ela...
— Talvez só quisesse nos assustar. Você deveria dormir também...
— Não posso. Tenho que ficar com minha avó.
— Emily, ela não vai sair correndo. Está tudo bem agora, não se preocupe. Prometa que irá descansar.
— Eu prometo pai. Amo você.
— Eu também te amo meu amor. Muito. Agora desligue o telefone e vá dormir. Você e Chloe.
— Tudo bem. Tchau. – Emily riu antes de desligar e se permitiu ficar feliz por alguns segundos.
Seu pai estava orgulhoso dela e disse isso com todas as letras sem demonstrar arrependimento ou mentira na voz. Não podia acreditar em tudo o que estava acontecendo. Há poucos minutos estava no meio de uma verdadeira guerra e agora estava sentindo uma paz dentro de si, como se todo o peso de seu corpo tivesse finalmente caído e seu corpo estivesse livre de tudo aquilo.
***
Sicília, Itália
Augustos está sentado em seu escritório há horas, encarando seu telefone, esperando a ligação do chefe da segurança de Chicago sobre o ataque de hoje. Ele descobriu que o bordel do filho de Marcos estaria contratando novas garotas para o trabalho, por isso o local estaria movimentado e cheio de pessoas. Cafetões e prostitutas. Ocasião melhor para se infiltrar e matar alguém não deve haver. Porém já faz algumas horas que Augustos ordenou que o local fosse invadido e revirado, a procura de impostores e até agora não havia recebido nenhuma notícia. E isso o deixava cada vez mais impaciente.
— Meu amor, — Chamou Catarina, adentrando o escritório do marido. – Vai ficar aí até quando?
Augustos desviou o olhar para a bela mulher parada a sua frente e esboçou um sorriso de lado, fazendo a mulher sorrir também.
— Ainda não sei, estou esperando notícias e não posso dormir sem elas. – Informou.
Catarina assentiu.
— Boa noite, então. – Desejou.
— Durma bem, meu amor. – Disse e observou a mulher a fechar a porta e ele logo voltou a encarar o telefone.
Augustos ficou mais uma hora ali esperando até que, finalmente o telefone tocou.
— Fala! – Ordenou Augustos assim que atendeu.
A pessoa do outro lado da linha parecia nervosa, tremula.
— Senhor, a invasão... Bom, não ocorreu da maneira que queríamos... – Falava a pessoa.
Augustos se levantou e começou a andar de um lado para o outro.
— Pierre está bem? Ele está vivo? – Pergunta Augustos freneticamente.
O homem demorou a responder e Augustos sabia exatamente o que havia acontecido. Ele suspirou cansado e passou a mão livre pelos cabelos, se sentindo mexido. Marcos é um dos homens mais leais e mais antigos de Augustos, não merecia perder o filho.
— Senhor, a morte dele foi violenta. – O homem diz. – Primeiro lhe deram algo que o corroeu por dentro, suspeitamos que seja algum tipo de ácido e, logo depois, atiraram na cabeça dele. Seja quem for, queria ter certeza que ele morreria esta noite.
Augustos suspirou fundo ao ouvir aquilo. Pobre garoto...
— Vocês capturaram alguém? – Perguntou. – Pegaram os malditos que fizeram isso?! – Exclamou, agora furioso.
— Não, senhor. – Respondeu o homem, que mesmo por telefone, sentia a fúria do chefe. – O lugar estava cheio quando chegamos, um tiroteio tinha acabado de acontecer e as pessoas saíram em disparada para fora, foi um inferno para conseguirmos entrar. Perdemos alguns homens, acreditamos que eles tenham enfrentado os autores dos tiros.
— E os vídeos de segurança? Gravaram alguma coisa? – Perguntou Augustos, ansioso por boas notícias.
— Foram apagadas, senhor. Todas. – Informou ele, engolindo em seco.
Augustos respirou fundo. Ou eles têm um hacker com eles, ou usaram tecnologia avançada. Mas se estão agindo por baixo, é mais provável que não tenham recursos para tais tecnologias e são inteligentes, por isso um hacker na equipe é mais provável.
Anthony tinha um amigo com habilidades incomparáveis... Como era o nome dele, mesmo? Algo com Ben... Benjamin! Isso, Benjamin também fazia parte da Cosa Nostra, fazia alguns trabalhos para Augustos, nada demais. Porém quando Anthony se foi, ele foi junto. E provavelmente devem estar até hoje. Aqueles idiotas! Vão pagar por tudo.
Mas é claro que isso não é motivo, ou uma certeza absoluta de que seja Anthony o mentor dos ataques, qualquer grupo pode ter um hacker. Mas é claro que não é qualquer grupo que decide atacar a Cosa Nostra, por isso Augustos tem cada vez mais certeza de que é Anthony, sim, que está o afrontando.
— Recolha tudo o que puder e for útil para a investigação. Pegue as pessoas que possam ter visto algo e até aquelas que não. Interroguem quem for necessário e só volte a me ligar quando tiver notícias sobre os maledettos, me ouviu?! – Exclamou Augustos.
— S-sim, senhor! – Gaguejou o homem, nervoso.
Augustos desligou o telefone e tentou não jogá-lo contra parede. Catarina disse que dá próxima vez que ele fizesse isso, ela iria fazê-lo catar cada pedacinho com a boca! E pode-se dizer que a esposa do grande chefão, é tão temida quanto ele quando quer. Por isso, ele apenas o colocou com força bruta sobre a mesa, e logo depois bateu sobre a mesma com dois pulsos, fechados, de raiva.
A verdade é que ele não sabe muito o que fazer agora. O filho de um dos seus melhores homens está morto. Um homem que pagou pela proteção da Cosa Nostra está morto. As armas que ele pediu, foram roubadas. Pois sim, Augustos está fazendo um arsenal imenso, repleto de armas poderosas, pronto para começar uma terceira guerra mundial, apenas porque sentiu-se ameaçado. Ele anda tendo pesadelos a noite, vendo sua família morrer a sua frente sem poder fazer nada. E agora que soube da existência de Anthony e desses ataques, ele tem certeza que seus sonhos não eram apenas pesadelos, mas sim avisos... Mas, ele não vai deixar Anthony renascer dos mortos para ameaça-lo, nem ele, e nem ninguém.
Augustos vai ser mais cauteloso dessa vez. Pois quando ele pegar o responsável por isso, ele irá fazer a mesma coisa que fizeram com Pierre: se certificar de que está realmente morto quando assim fizer.
Mas para tal vitória, Augustos não vai poder trabalhar sozinho.
Pegou o celular novamente e procurou o nome pela lista de contatos. Estava tarde, mas ele sabe que ela irá atender. E no quarto toque, ela atendeu.
— Eu te disse que na hora certa você saberia de tudo. – Adiantou-se Augustos. – Pois bem, a hora é essa, minha filha.
***
Chicago, USA
Ian caminha frustrado pelo corredor do apartamento de Emily meio sonolento e meio bravo. A conversa que teve com o avô pelo telefone o deixou destruído. E ao ouvir do avô que agora quem lidaria com aquele problema seria apenas ele, Augustos, se sentiu incapaz. Impotente. E ele precisa desabar. Precisa desabafar com Emily.
Bateu na porta da morena três vezes e não se importou se eram três da manhã ou não, ele precisava vê-la, precisava conversar.
Ian bateu mais um pouco até que finalmente a morena apareceu. E ao contrário do que Ian pensava, ela não estava nem um pouco com cara de sono. Emily abriu a porta e ficou surpresa ao encontrar Ian, sendo assim, escondeu rapidamente a arma que havia pegado para se proteger, achando que fosse um dos homens da Cosa Nostra atrás dela. Mas era apenas Ian.
— Oi. – Saudou ele normalmente.
— Oi. – Respondeu Emily confusa. – O que faz aqui?
Ela saiu para fora do apartamento e fechou a porta atrás de si, ficando com Ian no corredor vestido seu pijama habitual sem se importar. Se ele já a viu nua, por que ter vergonha do seu velho pijama?
— Preciso conversar. – Confessou ele, dando de ombros e se sentando ali mesmo, no corredor.
Emily o olhou sem o entender, mas viu pelo seu semblante que algo estava errado. Parecia que aquele seu velho charme havia desaparecido e o cansaço tomado conta.
— Conversar? Às três da manhã? – Indagou ela.
Ian a encarou e assentiu, meio sem jeito. Sem escolha, ela se sentou ao seu lado e logo lhe roubou um beijo. Ao sentir a boca dele na sua, Emily sentiu algumas borboletas no estômago e uma paz que nunca havia sentido antes. A segurança proporcionada por Ian é algo mágico para ela e deseja que nunca pare de sentir. A poucas horas de quase ter morrido pela Cosa Nostra, ela está ali, nos braços do homem que tanto deseja e, talvez, que ama.
— Eu senti sua falta. – Murmurou ela, ainda de olhos fechados.
Ian sorriu.
— Nos vimos a poucas horas. – Lembrou ele, mas ela deu de ombros e ele voltou a beijá-la.
E ela poderia ficar ali a madrugada toda, recebendo aquele carinho, mas lembrou-se que ele havia ido ali para conversar, por isso se separou dele gentilmente e ajeitou o cabelo, o prendendo em um coque frouxo.
— Então, sobre o que quer conversar? – Perguntou ela, o encarando.
Ian respirou fundo e fitou o teto.
— Você já se sentiu como se tivesse o mundo em suas mãos e depois, sem nada? – Indagou ele, fitando as paredes pensativo. Emily não falou nada, apenas deixou que ele continuasse. – As pessoas te dão o poder, o melhor treinamento, você é considerado o melhor e é admirado até por seus inimigos. E de repente, por um simples deslize, você sente que perdeu quase tudo.
Ian parecia tão perdido que Emily pegou sua mão e a apertou gentilmente.
— Problemas na empresa? – Indagou.
— Não é exatamente um problema, pelo menos não mais o meu problema. – Contou. – Meu avô diz que agora é coisa dele e que eu não devo me envolver. Como se eu não fosse capaz, entende?
Emily o fitou e assentiu.
— Entendo perfeitamente. Eu tenho os mesmos problemas com a minha família. Eles nunca acham que eu estou preparada. Isso me irrita! – Expressa ela.
— Parece que eles nos veem com cinco anos, incapazes de lidar com a situação a nossa frente sozinhos. – Continuou Ian e Emily concordou.
— Mas uma hora ou outra eles aprendem a confiar em nós e assim mostramos a ele os líderes que somos. Eles se sentem orgulhosos e nós...
— Completos. – Terminou Ian, a olhando com um sorriso de lado.
Era tão bom ter alguém que o entendia, que passe pelo o que ele passa. Ainda mais sendo Emily essa pessoa. Ele tem sorte de tê-la, ele sabe disso. A morena sorri de volta para ele e ele sente sua confiança voltando. Ele passa seu braço pelo ombro dela e a abraça, deixando que ela se debruçasse sobre seu peito e os dois ficam ali por um bom tempo, aproveitando um ao outro.
— Queria poder ficar assim para sempre. – Sussurra ela, com a voz já sonolenta.
— E eu adoraria, mas se ficarmos assim para sempre, só abraçados, nunca voltaríamos a transar ou a nos beijar, então não vejo muita vantagem nesse para sempre. – Falou ele.
Emily levantou-se e o olhou indignada, rindo logo depois.
— Você não cansa nunca, não é? – Perguntou.
— Com você, não. – Respondeu, com serenidade nos olhos.
— E isso é bom? – Indagou ela.
— É maravilhoso. – Disse ele, passando a mão pelo pescoço da morena e a puxando para um beijo cálido e demorado.
— Mas o que é isso aqui? – Interrompe Kieran, primo da morena, fazendo os dois se sobressaltarem.
Emily se levantou rapidamente, passando as mãos pelo corpo e sentindo um incomodo nervosismo por ter sido pega com Ian aos beijos.
— Kieran! – Advertiu Emily. – O que está fazendo aqui?
Kieran olhou para a prima, mas parou seu olhar em Ian, que continua sentado sem se incomodar com a situação a sua frente, se sentindo incomodado apenas com o fato de ter um homem no apartamento de Emily e ainda sem camisa, afinal, quem é esse moleque?
— Passei pelo seu quarto e não te achei, ouvi vozes e vim te procurar. – Respondeu, sem tirar os olhos de Ian. – Quem é esse aí? – Indagou.
Ainda sentado, Ian tomba a cabeça de lado, fitando o garoto sem muita importância, mas ainda sim sentindo um certo desconforto com o fato dele estar na casa de Emily, sem camisa e a procurando em seu quarto.
— Sou o namorado dela. – Respondeu ele com rapidez, pegando Emily de surpresa.
Ela o olhou com os olhos arregalados, não acreditando no que acabará de ouvir e o repreendendo com os olhos, pois sabia que ele apenas queria irritá-lo.
— Ele não é meu namorado! – Exclamou rapidamente. – É só um amigo.
Ian se levanta e para ao lado de Emily, se divertindo com o nervosismo dela e com a cara de marra do garoto a sua frente.
— Ele estava te agarrando! – Alertou Kieran, inconformado.
Ian riu.
— Eu não estava a agarrando, estávamos nos beijando. Deliciosamente. Até você nos interromper. – Disse ele e Emily deu uma cotovelada em sua barriga que, claro, ele nem sentiu. – E você, quem é?
Kieran dá um passo à frente, bufando de raiva.
— Sou o primo dela. – Informou, pegando Ian de surpresa, mas o fazendo suspirar aliviado, pois o garoto sem camisa na casa dela a procurando em seu quarto é apenas algum membro da sua família. – Você não devia visitar sua não-namorada a essas horas. É inadequado.
Inadequado são as coisas que fazemos em quatro paredes... – pensou Ian, guardando aquele pensamento para si, mas tendo quase certeza que Emily pensara a mesma coisa, pois suas bochechas coraram logo em seguida.
— Você tem razão. – Concordou Ian, sorrindo falsamente para Kieran, que não faz nenhum esforço em retribuir. – Acho melhor eu ir agora. Nos falamos depois, pode ser? – Sussurrou a Emily e ela assentiu.
— Me desculpe por isso. –Sussurrou ela de volta em seu ouvido ao abraça-lo.
— E eu por isso. – Dito isso, Ian a pegou pela cintura com tamanho desejo e a beijou com intensidade, com vontade.
Emily sentiu um fogo se alastrar pelo seu corpo, e se não fosse por seu primo fingir uma tosse desnecessária, ela se entregaria para Ian ali mesmo, naquele corredor moribundo.
— Até mais, morena. – Sussurrou Ian para ela, a deixando boquiaberta.
— A-até m-mais. – Respondeu de volta, tentando recuperar o fôlego.
Ian desapareceu pelos corredores e Emily ficou encarando o vazio, se perguntando o que havia acabado de acontecer ali.
— Isso foi nojento. – A voz de seu primo a tira de se transe e ela revira os olhos, voltando para o apartamento.
Mas ela não perdeu tempo discutindo com o primo, foi direto para seu quarto afim de descansar e acalmar seu coração, pois sempre que pensa em Ian, que está com Ian, ela perde o controle dele.
Ela sempre perde o controle com ele. E é uma sensação tão boa... É então que se dá conta. Deus! Como pôde ter se deixado levar? A única regra que havia sido imposto aquela amizade, Emily havia acabado de quebrar... Porque ela estava perdidamente apaixonada por Ian Chiacchio.
Fale com o autor