Mirrors
22 Another One.
3 meses depois...
O suor escorria por todo o seu corpo que parecia nunca se cansar de dar murros naquele saco de areia. A academia estava lotada e alguns pararam para observar os movimentos precisos da morena, que nem precisava da ajuda de um personal trainer. Finaliza com um belo chute, dando de cara com sua prima atrás dela a observando com olhos de águia. Emily para por alguns segundos, indo até um banco onde suas coisas estavam, pegando sua garrafa de água e bebendo alguns goles.
— Só estava afim de dar alguns socos... – Esclarece a morena ao notar o olhar curioso de Chloe que simplesmente ergue as sobrancelhas parecendo entender.
— Em... Está tudo bem? – Pergunta e ela nega vergonhosamente. – O que acha de tomarmos um café naquela cafeteria que você adora?
A morena vai até o vestiário e toma um banho rápido em um dos chuveiros ali, colocando um suéter de lã vermelho e branco, um short jeans rasgado, uma bota de cano curto com salto quadrado e baixo. Guardou sua roupa de academia na bolsa e depois de se organizar, colocou tudo no carro e foi com a prima até a cafeteria de a pé já que era bem próximo de onde estava.
— Um café forte, por favor. – Pede Emily enquanto Chloe pede o completo oposto do pedido da prima.
— Você está esquisita desde que sua avó foi embora com os meninos... – Murmurou a ruiva encolhendo os ombros diante do frio.
— Está apaixonada pelo Lorenzo? – Emily é direta, tentando encontrar a melhor maneira para explicar a ela o que têm acontecido.
— E-eu? Bem, talvez. Quer dizer.... Sei lá. Às vezes, eu... Eu acho. Não posso ter... Certeza! Até porque ele é um cara bem legal, mas consegue me irritar boa parte do tempo. Mas, eu gosto. É difícil explicar.... Não acredito que seja...
— Eu estou apaixonada pelo Ian e não tenho ideia do que fazer. – Sussurrou a morena interrompendo a bela confusão que a prima estava fazendo para responder aquela pergunta. O café delas chegam e Chloe dá um belo gole no seu tentando digerir o que acaba de ouvir.
Aquela garota que odiava ouvir a história clichê dos pais? Aquela garota que batia o pé sempre que alguém dizia que ela amaria alguém tanto quanto os casais da sua família se amavam? Ela estava mesmo diante da prima ou era um projeto de Emily mais propício para o amor? Tentou rir, achando ser uma piada, mas a garota continuou séria. Oh! Então ela não estava brincando. Ian realmente havia conseguido conquista-la... Depois de finalmente se acostumar com a situação, sorriu abobalhada.
— Talvez, sei lá, você deva contar para ele, não é? – Falou fazendo movimentos com as mãos. Não conseguia conter a felicidade.
— Contar para Ian? E ver ele indo embora? Sem chance. Já vou ter que dizer adeus uma hora ou outra, mas quero adiar isso o máximo que eu conseguir. – Sussurra Emily se lembrando que em menos de um mês irá voltar para o Brasil. E nunca mais irá voltar.
— Vocês podem tentar um relacionamento à distância... Está óbvio que ele sente algo também. Eu vejo isso na maneira que te olha. – Chloe incentiva.
— Ian não acredita nessas coisas. É tudo carnal para ele. Duvido muito que me veja de outra maneira se não a de um pedaço de carne que pode dar conselhos de vez em quando. – A morena bebe de seu café observando a cidade a sua volta.
— Duvido que ele te veja assim. Além do mais, não foi você mesma que disse que em breve estamos indo embora? Então por que não se arriscar? – Pergunta dando de ombros e Emily pensa no assunto.
Realmente, se ela passasse a maior vergonha da sua vida, não precisaria se lembrar do fato já que não estaria mais aqui em alguns dias.
— Não. Sem chance.
— Mas, Em...
— Eu tenho que treinar para o papel de Julieta. É minha última chance de conseguir. A gente se vê mais tarde.
Emily pega sua bolsa e vai em direção ao carro atraindo olhares por onde passava. Mal notou, com a grande questão a qual estava lutando para resolver sozinha, já que a prima, uma romântica inconfundível, não ajudou muito por acreditar que a vida é um verdadeiro conto de fadas. Ian é mulherengo, não tem como negar. Não vai mudar da noite para o dia. O que ela tem de diferente das outras garotas com quem ele já ficou afinal? O que ela tem de diferente que faria ele se apaixonar ou mudar por ela? Não que quisesse isso... Ele é perfeito da maneira que é. Argh! Já estava começando a ficar pior que Chloe. A tela de seu celular pisca e o nome de Ian surge. Pensa se irá atender ou não, mas não resiste, atendendo ao segundo toque.
— Hey... – Sauda ela com um sorriso falso nervoso.
— Estava pensando em sairmos, o que acha? — Perguntou ele de modo direto, e mesmo não o vendo, sabia que estava com aquele olhar sacana que ela estava começando a se acostumar (e gostar).
— Tenho que estudar hoje. A peça é daqui a dois dias. Mas, a gente se vê mais tarde.
— Certo, então eu...— Emily desliga sem ouvir o que Ian diria.
Não sabia mais como agir diante dele, ainda mais depois de finalmente ter admitido o que sentia em voz alta para a prima. Aquilo fez tudo parecer mais real do que já era, de fato. E ela não podia pensar muito, afinal, tinha um papel para conquistar em menos de quarenta e oito horas. O conselho todo estará observando como anda o treinamento dos atores e decidir pela última vez o que quer mudar ou não. E sabe Deus quantas vezes ela e Dan passaram noites em claro para que tudo ficasse perfeito. Acabou se aproximando dele, que se tornou um grande amigo para animá-la quando estava quase dormindo durante a madrugada devido ao cansaço.
— Bom dia! – Emily aparece no batente da porta da sala do professor Dan, que revisava alguns trabalhos. Seus olhos rapidamente focam na bela morena a sua frente e é impossível não sorrir ao vê-la ali.
— Bom dia... Comprei café para nós dois. – Murmurou oferecendo um, dos dois copos que estavam sobre a mesa, para ela.
— Eu acabei de tomar com minha prima, mas obrigada. – Agradece se sentando na mesa e observando a papelada na qual ele trabalhava. – Acha que o conselho pode mudar de ideia quanto a mim?
— Vai dar tudo certo... Você foi perfeita nessas últimas semanas em que treinamos. Ninguém poderá dizer o contrário. – Dan afirma se levantando e pegando sua pasta.
— Obrigada pelo voto de confiança. Bem... Eu vou me arrumar. A gente se vê no teatro. – Ela sorriu o abraçando e saiu dali em direção ao vestiário.
Por sorte, não havia ninguém ali e ela colocou a roupa reserva de Julieta. O vestido caiu perfeitamente bem nela. Fez uma tiara com duas tranças que fizera no cabelo, e deixou o restante dos fios soltos, finalizando com uma maquiagem leve com a boca rosada e as bochechas coradas, deixando tudo o mais natural possível. Emily queria estar o mais parecida possível com a personagem, mas não tinha ideia do quanto as duas eram tão idênticas, afinal, ambas se apaixonaram pelo inimigo. Será que ela também se sacrificaria por Ian como Julieta se sacrificou pelo seu Romeu? Levantou indo em direção ao teatro dando de cara com milhares de estudantes se preparando para seu devido papel. Odete estava no canto, bebendo um copo de água e tentando ficar acordada. Parecia que se divertira muito noite passada e mal conseguia se manter de pé.
— Vamos reproduzir o Ato I, cena cinco! Preparados? Odete e professor Daniel, por favor, se posicionem no centro do palco. – Avisa o reitor se sentando com os outros conselheiros e a sala escurece, iluminando apenas os dois ali.
Durante toda a cena, Odete parecia estar dormindo, sempre esquecendo as falas e improvisando da maneira que podia. Sua improvisação era de fato impressionante, mas não agradava nem um pouco o conselho que já estava de cara amarrada conversando de maneira pacífica. A garota pareceu notar, voltando a se lembrar do que precisava dizer rapidamente e interpretando com perfeição, e o que ocorreu a pouco até poderia passar batido, mas o reitor não é do tipo misericordioso.
— Emily, querida, pode tomar a cena a partir daí? Queremos ver como se sai... – Pede o reitor educadamente, sem deixar de encarar a Odete.
— Desculpem, só perdi o foco no início, posso melhorar, prometo.
— Demorou minutos até você voltar a se concentrar... Até lá todo o público e críticos que estiverem na apresentação já terão ido embora e eu terei perdido minha credibilidade. Sugiro que treine um pouco mais ao invés de se afogar na bebida alcóolica. – Murmurou. – Emily, querida. Suba ao palco por favor.
A morena obedece ao reitor sem pestanejar e quando já estava próxima o suficiente do professor Dan, que interpretava Romeu, ousou sorrir para ele, que a olhava como se dissesse “eu avisei”; Odete se senta em uma cadeira qualquer e encara ela com nojo. Mas Emily nem mesmo nota, ou retruca com algum olhar vitorioso. Estava presa demais a Daniel para se manifestar. Por uma coincidência, a cena havia parado na parte do beijo e ela tenta ignorar o fato de ter somente Ian preso aos seus pensamentos e passa a se ocupar também de Romeu, que agora a encarava como se pedisse permissão para tal ato. Ele se aproxima calmamente, lhe dando apenas um selinho. Gostaria de aprofundar o beijo, mas a morena se afasta antes que isso aconteça, afinal, fazia parte do papel.
— Acaba de passar para os meus o que os seus lábios contraíram! – Exclama ela levando a mãos a boca, demonstrando surpresa diante do ocorrido.
— Pecado? De meus lábios? Então devolvei-me meu pecado. – Pede Romeu em suplica. Julieta o encara pensativa, ponderando seriamente seu inesperado pedido, e estava prestes a aceita-lo quando sua ama aparece, correndo às pressas.
— Senhora, vossa mãe está a sua procura e tem pressa por falar com você. – Murmura a ama, que por coincidência era interpretada por Suzan, amiga de Odete, que odiava Emily com todas as suas forças.
— É uma Capuleto? – É a vez de Romeu estar surpreso diante da situação.
— Partamos, Romeu! A brincadeira chegou ao auge. – Diz Bryan, que interpretava Benvólio, entrando no palco.
— Sim, é o que temo. – Romeu sussurra desapontado sem deixar de encarar a bela jovem a sua frente. Os dois saem do palco, deixando somente Emily e Suzan ali, que se segurava para não surtar em meio a apresentação. Sua amiga acaba de ser enxotada e ela é obrigada a interpretar a ama da morena? Só podia ser piada.
— Quem é este belo jovem? – Pergunta Julieta se aproximando.
— Não o conheço. – Murmura a ama sem tirar os olhos de onde os garotos estavam agora a pouco.
— Então vá lhe perguntar o nome. Temo que seja casado! – Ordena temendo com todas as forças que estivesse certa.
— Seu nome é Romeu, é um Montechio. Filho único de vosso grande inimigo.
— Oh! – Julieta sente seu coração se apertar diante daquela descoberta. Como podia estar apaixonada por ele? Sua família a mataria. Mas, era tarde demais. Ele havia captado sua total atenção e ao sair pela porta do salão, levara consigo seu coração. — Meu único amor nascido do ódio! Cedo demais o vi, sem conhecê-lo, e tarde demais o conheci. É possível nascer um amor em meio a tanto ódio?
— Professor Daniel, o senhor tem certeza que fez a escolha certa? Olhe só para Emily, é perfeita para o papel. – Questiona o reitor depois de guiar uma leva de aplausos antes mesmo da cena ter seu fim. Os olhos da morena focam no professor, tentando entender o que acabara de ouvir.
— Desculpe a intromissão reitor, mas o que o professor tem a ver com a escolha do papel para Julieta? – Foi a vez dela perguntar.
— Todos queriam você para o papel, mas o professor só disse sim para Odete. Vocês duas estavam entre as nossas favoritas, senhorita Hamswere. Se importam se tirarem um tempinho para descansar? O conselho gostaria de se reunir para uma conversa. Podem ir embora. – Avisa o reitor.
Emily realmente estava prestes a pedir para respirar ar puro longe dali. Correu em direção ao camarim uma vontade imensa de chorar. Não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Por que Dan faria aquilo? Odete não foi tão boa quanto ela, e sabia disso, mas todos queriam fazer a morena achar que não. Daniel mentiu para ela. O único cara que ela considerava de fato um amigo, além de Ian, claro.
— Eu posso me explicar... – Murmurou Dan ao entrar sem bater na porta, alguns minutos após ela finalmente ter conseguido ingerir o que havia ouvido.
— Não, não pode. Você melhor do que ninguém sabia o quanto isso era importante para mim. Você disse com todas as letras que fui melhor do que Odete, e o próprio reitor não me queria para o papel. Mentiu para mim! – Diz tentando se manter calma, mas alterando a voz nas últimas palavras.
— Eu sei, eu sei. Só queria me aproximar de você! – Daniel se explica de maneira resumida, antes que a morena o interrompesse de novo. Ela se cala, observando a expressão dele procurando alguma verdade ali. – Senti algo por você no momento em que te vi! Daria o papel a você de qualquer maneira. Só queria me aproximar.
— Havia outras maneiras de aproximação.
— Não havia. Porque você está ficando com aquele projeto de homem perfeito. Eu não sou ninguém perto dele. – Emily nunca havia mencionado Ian, mas talvez Dan o visse andando pelo campus quando ia busca-la. – Gosto de você, Emily.
— Eu também, mas não dessa maneira! – Sussurrou tentando não magoá-lo e já deixando todo o ocorrido para trás, focando apenas nesse assunto.
Imaginava tudo, menos seu professor sentindo algum tipo de atração por ela. O homem era bonito, não podia chegar. Mas, não sentia nada. Droga! Ian e os efeitos que ele deixou sobre ela no momento em que esbarrou nela na porta do The Club. Daniel se aproxima dela, enquanto a mesma se afastava o máximo que conseguia até se chocar contra a mesa, onde segura com firmeza se sentindo presa diante do olhar dele, que observava seus lábios, maravilhado com ela ali, bem na sua frente.
— Não pode saber sem tentar... E eu estou disposto a correr esse risco por você. – Antes que ela pudesse responde-lo, as mãos dele vão em direção ao seu rosto, o puxando para perto.
Foi impossível impedi-lo e quando se deu por si, os lábios dele já estavam colados ao seu e ele não perdeu tempo aprofundando o beijo, segurando a cintura dela com firmeza. Sentiu a língua dele tocando a sua de maneira gentil. Até que não era um beijo ruim e o relacionamento dela com Ian não passava de algo sem compromisso, então podia conseguir esquecer ele em dois tempos se desse chance para outros homens. Se sentou na mesa abrindo espaço para deixar seus corpos ainda mais colados. A imagem de Ian a beijando de maneira delicada e ao mesmo tempo tão selvagem, fizeram ela voltar a realidade de que estava apaixonada por ele e aquele beijo, que não lhe trazia nenhum prazer, só provou isso a ela mais uma vez. Se afastou de Dan gentilmente.
— Eu sinto muito Dan... – Já estava prestar a fazer aqueles discursos para dar um fora gentil nele, que pareceu notar a impedindo de continuar.
— Você gosta mesmo daquele cara, não é? – Ela assentiu rapidamente e só então notou que era a segunda vez que admitia aquilo. – Sinto muito ter forçado você a isso.
— Tudo bem... Um dia irá conhecer alguém legal também. Você é um bom homem. – Murmurou ela com um sorriso no rosto.
— Mas não sou bom o suficiente para você. – Ela mordeu o lábio inferior arrancando uma risada fraca dele. Foi impossível não negar aquela afirmação. Daniel nunca esteve tão certo. – Apesar desse belo fora... O papel de Julieta é seu. Sempre foi.
— Obrigada! – Agradeceu. – Por tudo. Você é um bom amigo.
— Grande amigo eu sou... – Revirou os olhos e o sorriso dela se tornou uma risada. – Se quiser treinar ainda antes da grande apresentação, costumo ficar a noite inteira acordado. E o dia também, se quiser.
— Com certeza vou precisar. Quero ser a melhor Julieta que aquele teatro verá em anos.
— Disso não tenho dúvidas. Você já é a Julieta mais linda que eles já viram.
— Dan...
— Já entendi. Não tenho chances com você. Nunca tive. Relaxa... Foi só um elogio. – Sussurrou beijando a bochecha dela.
— Eu vou me arrumar para ir embora.
— Vou deixar você em paz. A gente se vê amanhã? – Perguntou preocupado com o fato dela nunca mais querê-lo por perto.
— Claro. – Ele suspira aliviado antes de deixar ela sozinha ali.
Trocou de roupa rapidamente e tirou a maquiagem de seu rosto depois de se observar alguns segundos no espelho. Finalmente Julieta seria sua. E verdade seja dita, ela sempre foi. Aquilo tirava um grande peso que carregava nas costas a um tempo e por mais que quisesse odiar Daniel, entendia o lado dele. Não conseguia sentir raiva, somente pena. Pena por não pode corresponder aos seus sentimentos. Tudo seria tão mais fácil se ela o fizesse, mas não é como se conseguisse controlar aquilo.
E se tivesse esse dom, definitivamente escolheria não amar. Com todos esses pensamentos a caçando onde quer que ela estivesse com a cabeça, Emily guarda suas coisas e sai do vestiário, deixando o vestido da personagem intacto sobre a arara com a veste de todas as pessoas da peça. Pegou seu celular para ligar para Ian e antes de chama-lo para sair, pedir desculpas por ter desligado na cara dele aquela hora. O mesmo não atendeu então decidiu ficar no apartamento assistindo a alguns filmes quando encontra um título de ação que envolvia rachas. Fazia séculos que não ia até lá, apesar de manter contato com Joe sempre. Ele era seu amigo, então nunca deixavam de se comunicar. Sentiu vontade de ter aquela adrenalina percorrendo suas veias então pegou as chaves do carro e saiu. Já estava a noite e Chloe saiu com Lorenzo, então... Desceu de seu automóvel assim que encontrou um lugar para estacionar e Joe, como sempre, a avistou de longe, indo até ela e lhe dando um abraço caloroso.
— Tem algum lugar para mim aí? – Perguntou sorrindo.
— Para minha princesa tem todos os lugares do mundo. Inclusive, minha cama está desocupada também... Se quiser passar lá mais tarde. – Brinca Joe maliciosamente arrancando uma risada da morena.
— Idiota!
— Você sumiu...
— É, ultimamente eu tenho me concentrado na peça e no meu tempo livre eu tenho estado com... – Só então se deu conta do quanto Ian interferiu em sua vida. Havia tantas coisas que havia parado de fazer porque seu tempo ficava entre Julieta e ele. Deixou a resposta no ar, apenas colocando os braços em volta do amigo tentando disfarçar e mudar o rumo da conversa. – Mas, e aí? Como anda as coisas por aqui?
— Perfeitamente bem! Desde que acabou com Santiago, houve boatos de que a Cosa Nostra o matou depois da grande mentira dele. Queria ter ido até lá para ajudar a tortura-lo, mas preferi não perder meu tempo...
— Então o poderoso Joe está de volta no mundo do tráfico?
— Graças a você, morena. E é por isso que o que não falta aqui é lugar para minha heroína. – Afirmou rindo animado. – O que acha de uma cervejinha?
— Eu adoraria. — Joe caminha até o pequeno trailer ali onde vendiam bebidas alcóolicas para o pessoal dos rachas e volta com duas garrafas de cerveja pequenas, e já abertas.
— Vamos até Katherine... A gente andou tendo que se virar aqui nos rachas agora que tenho minhas influências no tráfico. – Murmura maravilhado. Lógico que ele ainda estava em um nível baixo, mas qualquer colocação mais alta já o fazia se sentir dono da porra toda.
— Vai me dizer que ela decidiu entrar de cabeça nisso também?
— Tudo que é meu é dela, e seu também, basta querer. Mas, ela não é muito fã do tráfico. Só dos rachas. Então deixei isso por conta dela. – Ironizou ele mais uma vez.
— Sai fora, Joe. – Emily o empurrou de brincadeira, voltando a observar tudo a sua volta. Estava se aproximando de alguns carros quando vê Katherine. E quem ela menos esperava... Ian. Paralisou imediatamente ao ver ele ali, beijando ela. Só podia ser um verdadeiro pesadelo! Joe tenta guiar ela para dar mais alguns passos, mas ela continua ali, apenas observando aquilo sem saber como reagir. Engoliu o grande nó que se formava na garganta e decidiu apelar para aquilo que mais fazia no dia a dia... Atuar.
— Céus! Esqueci de pegar minhas coisas na academia! – Murmurou fingindo estar apavorada. – Preciso ir até lá antes que fechem. Prometo tentar voltar! A gente se vê. Obrigada pela cerveja.
Emily correu dali antes que Ian a visse... Não iria conseguir segurar essa fachada na frente dele. Seus passos são tão rápidos que quando se dá conta já está dentro do carro. Conseguia ver ele ali ainda, beijando Katherine com delicadeza. Você sabia que seria assim, por que está chateada? Entrou nessa de cabeça porque quis— Seus pensamentos a crucificaram. Ela estava entre o espeto e a brasa sem ter ideia de como reagir. Deu murros no volante querendo esquecer o que tinha acabado de ver. Ligou o carro e saiu dali de volta para seu apartamento, onde se deixou chorar, mesmo aquele canalha não merecendo. Um canalha lindo que teve a coragem de fazer ela se apaixonar por ele. Não se deu conta de quanto tempo ficou ali, sentada na escada de emergência do prédio observando a escuridão de Chicago, quando Chloe apareceu com Lorenzo. Iria enxugar as lágrimas, mas eles foram mais rápidos, a cumprimentando.
— Está tudo bem? – Pergunta a ruiva se aproximando ela e deixando Lorenzo curioso.
— O que houve? – Ele questiona, apesar de não querer se intrometer naquilo.
— Não é nada demais. Vocês iriam ficar aqui ainda? Eu posso ir para o quarto para deixar vocês a vontade. – Diz ela já se levantando, mas a prima a impede.
— Lorenzo, se importa se vermos algum filme com Emily?
— Não, não... Eu não vou incomodar vocês. O que aconteceu não foi nada. – Sussurrou ela tentando fazer as lágrimas pararem de cair.
— Soube que você odeia romances, então seremos dois contra um. Por mim, não tem problema nenhum assistir filmes com você. Onde está Ian? Talvez ele queira ver também... – Lorenzo responde. Apesar de querer ficar com Chloe, sabia que tinha todo o tempo do mundo para isso e já ficaram juntos tempo o suficiente. Não teria problema ver o filme entre amigos.
— Ele está por aí... Se divertindo a sua maneira. – As palavras da morena fizeram Chloe finalmente entender o que havia acontecido.
— O que acham de um filme de terror? – Pergunta ele já procurando alguns títulos no Netflix.
— Vou pegar travesseiros para ficarmos mais confortáveis... – Avisa a ruiva adentrando os quartos.
— Emily... O meu primo tem alguma culpa por você estar chorando? – Lorenzo se aproxima depois de ter escolhido algo bom na TV.
— Não se preocupe. Ian jamais me magoaria. Não temos vínculo nenhum. – Ela sorriu tentando parecer o mais sincera possível. E conseguiu, já que ele assentiu despreocupado, se sentando no sofá.
Chloe se sentou ao lado dele e Emily optou por ficar no chão, aos pés do sofá, dando a eles uma certa privacidade. Os dois assistiram atentos ao filme e vez ou outra trocavam alguns beijos. A morena ficou ali, agarrada aos joelhos, aproveitando o volume alto da televisão para chorar mais um pouco. Ela sempre soube das consequências, mas acreditava que aquilo jamais aconteceria. Esperava não sentir nada ao ver aquela cena, mas sentiu... E isso era algo que não poderia negar por muito tempo. Mas, estava tudo bem. Aquilo acabaria um dia ou outro mesmo. Ele precisava seguir em frente.
E ela também, eventualmente.
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