Mirrors
37 Fear Me More.
Notas iniciais
A casa toda estava repleta de seguranças armados até os dentes, sem contar aqueles que acompanharam toda a família Gavin Brian desde a pista de pouso. Logo todos estavam em casa e reunidos ao restante que não pôde acompanha-los a Chicago. Emily entra sem dizer absolutamente nada, parando apenas ao pé da escada para relembrar Benjamim dos relatórios relacionados a máfia, antes de subir os degraus e ir em direção ao seu quarto. Sua cabeça ainda girava e sabia que todos ainda tinham uma avalanche de perguntas. Deus! Será que ninguém entendeu que nem até a mente dela lhe devora com as mesmas dúvidas? Sentia vontade de socar a parede, mas a ficha parecia não ter caído. Se fechasse os olhos, talvez ainda acordasse nos braços de Ian, esparramada nos lençóis de sua cama na Itália, com Alicia batendo incansavelmente na porta. Ficou ali mais tempo do que gostaria. Queria agir rápido, mas não dependia só dela. Já estava quase saindo do quarto quando Benjamim bate na porta pedindo permissão para entrar.
— Tem pelo menos quinze caixas aqui na porta, então se puder me ajudar a trazer tudo para o quarto. – Sussurrou quando a sobrinha abriu a porta. Ela sorri sem exibir os dentes, saindo do quarto depois de horas e pegando caixa por caixa até que todas estivessem lá dentro.
— Obrigada pela agilidade, embora eu preferisse que fosse um pouco mais rápido de hoje em diante. Espero que tudo isso esteja digitalizado em algum lugar. – Resmungou Emily colocando a primeira caixa sobre sua cama.
— Uou... Já chegou sentando na janela e querendo mandar logo no motorista? – Brincou o tio na intenção de quebrar o gelo.
— Desculpe. Só quero ter um plano decente até amanhã de manhã então não posso perder muito tempo.
— Sabe que não precisa pegar a organização nesse estado, não é? Por que não espera até que a poeira abaixe e...?
— Está brincando? A poeira está alta por minha causa. Não vou fugir dela. – Diz seriamente cruzando os braços.
— Não espero menos de você. É só que... A Cosa Nostra te usou e não estou nada satisfeito em ver você tendo que dar a volta por cima nessa situação.
— Que situação, tio?
— Querida, está mais do que claro que se apaixonou pelo rapaz. Acha que conhecemos você ontem? – Perguntou ele dando uma risada fraca.
— Bem... Alguns aprendem do modo mais fácil, mas não quer dizer que essa é a melhor maneira. Estou aprendendo na base da experiência. E quando isso tudo acabar, certamente não precisaremos mais nos esconder. – Disse firme, tentando confortar Benjamim, embora lá no fundo também tentasse confortar a si própria.
— Claro, mas somos sua família, Emily. Não é como se quiséssemos que aprendesse do modo mais difícil. Sei que muitos estão te pressionando, mas estão todos confusos...
— Confusos? Tem ideia de como eu estou me sentindo? Me importo com vocês, por isso estou me dando um tempo. Estou pedindo apenas uma noite. Explicarei tudo depois. Não há mais nada que eu possa fazer.
— Bem... Não vi você dizendo como funcionaria quando chegou...
— Como se vocês estivessem me deixando dizer alguma coisa que não seja exclusivamente relacionada a Ian e a minha estupidez de ter ido até a Itália e conhecido toda sua família.
— Emily...
— Eu entendi, tio Bem. E peço desculpas por ter deixado vocês tão transtornados. Mas, eu preciso lidar com isso sozinha. Não posso explicar nada sem organizar minha cabeça antes. – A morena lutava para não ficar irritada, afinal, entendia de fato que sua família estava confusa. Não podia culpa-los.
— Claro, claro. Não quero te incomodar mais. – Concordou, mas antes de sair, concluiu. – Só gostaria que soubesse que estamos ao seu lado. Sempre. Não importa o que acontece. Seu pai e seu avô que na hora da raiva costumam se esquecer disso, mas...
— Obrigada. Eu amo vocês.
— Nós também.
Emily fecha a porta e ao se olhar no espelho ao lado, percebe que está chorando. Já tinha se imaginado acabando com toda organização, mas daquele modo? Ela definitivamente havia ido longe demais. Quando se viu, estava quebrando todos os objetos de vidro que decoravam seu quarto. Conversar com seu tio só fez a ficha cair pela milésima vez de uma perspectiva ainda pior. Sophie, que escuta o barulho ao chegar no segundo andar, corre em direção ao som, dando de cara com uma morena esgotada escorada sobre o batente da porta que dava para a sacada de seu quarto. Jamais imaginou ver a filha naquele estado, nem em um milhão de anos. Ainda estava sem entender nada do que aconteceu, mas todas as respostas estavam em seus olhos marejados. Ah... Aquela pessoa completamente derrotada em sua frente era o amor de sua vida. Um amor que conseguia superar o que sentia por Ethan. Um amor que moveria céus, terras e até o próprio inferno com a maior facilidade. A garota parece ter notado a presença de sua mãe, mas não tinha forças para sair dali. Sua garganta formava tantos nós que sua voz falhava sempre que tentava dizer algo. Sua eterna criança não precisava dizer nada. Nunca precisou. Sempre soube o que a filha precisava desde que a recebeu em seus braços pela primeira vez.
Ali, naquela situação, percebeu que havia fracassado vergonhosamente quando prometeu a si mesma que jamais deixaria ninguém machucar Emily. Seus primeiros passos causaram roxos nas pernas e as injeções que a pequena precisava tomar fizeram a mesma chorar. Também tiveram os joelhos ralados, acompanhados do choro gritante. Na adolescência, vieram os machucados enquanto ela aprendia a lutar com os pais e manusear armas com a mãe e o avô.
A morena sempre detestou perder ou cometer erros, então estava sempre atenta a todo e qualquer ensinamento. Todos fizeram questão de ensinar suas devidas habilidades, e Emily aceitava de bom grado.
E então, quando finalmente chegou o momento de baixar a guarda, sua pequena havia abaixado a guarda para a pessoa errada. Não que Ethan fosse a pessoa mais certa do mundo, mas certamente era para ela. Será que Ian era o mesmo para a filha? Estava mais do que óbvio. Não sabia nem porque se perguntava isso: seu coração estava destroçado. Vê-la ali se culpando por tudo, agarrada aos próprios joelhos observando a calmaria do mar, foi como se o seu próprio coração também estivesse se partindo.
Sophie se aproxima de Emily calmamente, a abraçando com carinho e depositando um beijo em sua cabeça. Doía para ela saber que aquele machucado jamais poderia ser curado com um band-aid.
— Eu sinto muito, mãe. Sinto muito por ter me apaixonado pela pessoa errada... – Murmurou a morena entre soluços. A mãe odiava vê-la daquela maneira.
Toda a pressão que a própria filha se colocava triplicou no momento em que a verdade veio à tona e o que todos menos esperavam aconteceu: a garota estava apaixonada pelo inimigo. Sophie havia prometido que colocaria a máfia acima de tudo que mais prezava no momento em que aceitou comandá-la ao lado de Ethan. Mas, era a felicidade de Emily que estava em jogo. E se tivesse que morrer por colocar a garota como prioridade, assim o faria. Organização nenhuma era mais importante. E Sophie soube disso no momento que pegou a filha nos braços.
— Shh... Está tudo bem, meu amor. Vamos consertar isso, lhe prometo. – Sussurrou.
— Me perdoe, eu, eu... Eu juro que não sabia. Ian para mim era só um homem comum que esbarrei em um clube noturno.
— Não tem ninguém lhe culpando... – Emily olha para a mãe de relance, quase revirando os olhos. – Quer dizer, ninguém exceto Ian e Anthony. E Logan. E talvez seu tio Frederick, mas quem se importa?
— Eu me importo, mãe. Mas, eu te prometo que Ian vai pagar muito caro por isso.
— Ele já está pagando, meu amor. Você era a mulher mais incrível que poderia ter aparecido na vida dele, e foste embora tão rápido quanto o momento em que se esbarraram. Talvez ele não vá saber agora, mas logo perceberá.
— Ele também era o homem mais incrível que poderia ter aparecido, então é uma via de mão dupla. Sinto muito, mas, nada me faz acreditar que o que vivemos foi mentira. Me recuso! – Exclamou deixando mais algumas lágrimas caírem.
— Sabe, esse tipo de coisa passou pela minha cabeça quando seu pai retornou para casa com...
— Jolene, eu sei.
— Olha... É completamente diferente, eu entendo. Não te direi que o que tiveram foi mentira. Porque eu não estive lá. Mas, levou um certo tempo até que a verdade viesse à tona. Não dá para tudo ter sido falso. É impossível não se apaixonar por você estando na sua presença por pelo menos cinco minutos. Eu mesma não precisei nem de minutos. Você precisa buscar lá no fundo de sua memória por cada momento. Será doloroso, sei disso, mas lhe dará todas as respostas que precisa agora. Se ainda achar que se apaixonou pelo homem errado, é porque o homem certo ainda vai chegar.
— E se eu achar que é ele?
— Você precisará lutar. Não só você, Ian também. Seus avôs jamais concordariam então muito sangue seria derramado, mas vocês estarão juntos. E é isso que importará. O que quero dizer é que... Não importa o que decida, estarei ao seu lado. Mesmo que isso vá contra todos os preceitos seguidos por essa organização. No fim das contas, é a sua felicidade que está em jogo também.
— Obrigada. Mas, não posso decepcionar meu avô. Não importa as respostas que conseguirei essa noite, nada vai me impedir de manter todos sãos e salvos.
— Minha filha...
— A máfia Gavin Brian foi escolhida por mim a mais tempo. É ela que devo honrar. Mas, prometo que amanhã cedo terei todas as respostas que preciso. Agora eu preciso estudar toda essa papelada.
— Seu avô está preocupado. Ele gosta de manter as tradições antigas da máfia então acha que você deve participar de todo a iniciação antes de assumir tudo e...
— Não. A organização irá entrar em uma nova era agora. Isso não será necessário. Pelo menos, não por enquanto. – Murmurou Emily já se recompondo e se desvencilhando dos braços da mãe.
— Por que não deixa para estudar tudo isso amanhã? Precisa descansar para...
— Preciso me situar. Nunca me deixaram a par de muita coisa então tenho bastante material para me atualizar. Obrigada mais uma vez.
— Tudo bem. Acho melhor eu ir, antes que Ethan venha e...
— Não tenha sanidade suficiente para me fazer perguntas sem me olhar com desgosto? Claro.
— Também. Não mentirei para você. Mas, ei! Confio em ti. Sei que dará um jeito. O sangue dessa galera toda corre em suas veias, então não será muito difícil. Boa noite, meu amor.
— Boa noite. – Sussurra Emily antes que a mãe desaparecesse de sua vista, fechando a porta de seu quarto.
A morena usa o telefone fixo de seu quarto para solicitar uma funcionária que ainda não tivesse ido dormir. Com a ajuda dela, retira todos os cacos de vidro que inundavam seu quarto e prepara um café bem forte. Leva a garrafa inteira de volta para o cômodo e senta sobre o carpete confortável que havia logo ao lado de sua cama. Seu trabalho era longo, mas precisava estudar tudo aquilo em poucas horas. A cafeína lhe daria forças para manter os olhos bem abertos após a mente já ter prendido o órgão mais estupido em um cantinho escuro para que ele não desse mais trabalho.
Toda a papelada só provava o quanto a organização estava acabada. Literalmente. Toda a droga que tentavam espalhar pelo mundo, o armamento, os negócios que tentavam fechar... Para tudo sempre surgia um imprevisto. Era impossível que a policia soubesse com tanta clareza todos os pontos de entrega sem ter um informante dentro da máfia. Isso quando outras organizações não desistiam de fazer negócio, mesmo tendo entrado já sabendo que eles eram procurados da Cosa Nostra. Havia algo muito errado em tudo. E a mente de Emily logo começa a trabalhar.
***
— Lorenzo, você precisa parar de ficar ligando! – Exclamou Chloe ao atender a vigésima tentativa de chamada do garoto.
— Graças aos Céus você está bem. Não tem ideia de como fiquei preocupado!— Disse finalmente respirando aliviado.
— Quê? Claro que estou bem! Do que está falando? – Perguntou completamente confusa. – Eu nem sei porque estou falando contigo. Não podemos. Isso está errado...
— Achei que já tivéssemos superado isso, além do mais...
— Superamos! Quer dizer, acho que superamos. Eu não sei, está bem? Estou confusa. Não dá para tudo ter sido coincidência! E minha família está na minha cola, não podemos ficar horas tentando entender a situação pelo telefone.
— Então me deixe ir até você.— Pede Lorenzo. Mesmo sem vê-lo, já podia imaginá-lo com os olhos brilhando em súplica.
— Ficou maluco? Você leva um tiro assim que colocar os pés no Brasil!
— Já estão aí? Fiquei preocupado que não tivessem onde dormir depois do ocorrido com o prédio. Claro que vocês têm dinheiro para se virar, mas o apartamento foi o lugar onde viveram durante...
— Espera aí. O que aconteceu com o apartamento?
— Opa. Hm... Chloe, antes que fique brava...
— O. Que. Aconteceu. Com. O apartamento? – Perguntou pausadamente.
— Digamos que o Ian chegou em sua fase de fúria e decidiu colocar fogo em tudo. E não foi só no apartamento, até a faculdade de Emily está em chamas nesse momento.— Comentou com tanta naturalidade, que a ruiva teve vontade de soca-lo.
— Tem ideia do que isso pode provocar nela? – Questionou. – Isso vai mais longe e ainda está com a ilusão que podemos conseguir passar por tudo isso intactos?
— Como assim?
— Lorenzo, Emily ainda tinha esperanças de que tudo pudesse ser uma coincidência, por mais que não quisesse demonstrar. No minuto em que ela descobrir o que aconteceu, as coisas irão tomar novas proporções. Olha a hora em que veio me avisar o ocorrido! Se eu estivesse no apartamento, jamais conseguiria me salvar. Eu também não posso fazer o mesmo. Mais ainda, não podemos controlar nossa família. Isso não vai dar certo.
— Chloe...
— Amanhã de manhã, meu tio deve confiscar nossos celulares para que não possam rastrear ou sei lá, fazer algo ainda pior. Fiquei surpresa que ele não tenha feito isso ainda hoje!
— Podemos...
— Para de alimentar uma esperança que não pode nos sustentar por mais tempo. Acabou, Lorenzo. Logo terá noticias nossas. Passar bem.
— Se desligar esse telefone agora, juro que pego o primeiro voo até o Brasil sem me importar com a morte que me esperaria aí. Eu amo você, Chloe. Sei que tudo foi um mau entendido.
— Mau entendido? – Chloe ri falsamente. – Qual a probabilidade de estarmos mentindo um para o outro? Não seria difícil arrancar informações.
— Você jamais faria isso.
— O que sabe sobre mim, Lorenzo? E o que eu sei de você? Amor não pode servir de combustível para a guerra que vai começar. Precisamos de um tempo pelo menos, sabe disso. Lá no fundo, sabe disso.
Lorenzo pareceu pensar sobre o assunto.
— Está certa... Só tenho medo do que pode acontecer a vo...
— Chloe? – Logan surge no batente da porta de seu quarto, fazendo com que a ruiva finalizasse a chamada imediatamente. – Com quem estava conversando?
— Sozinha. Sabe como eu sou quando estou preocupada. E nervosa. Pior ainda quando estou as duas coisas ao mesmo tempo, aí já viu, eu converso sem parar com minha própria consciência como se ela pudesse me trazer ideias suficientes para que ninguém surte com tudo que está acontecendo e nem saia jogando bombas nos quintais alheios, se é que entende a metáfora que estou...
— Querida, eu entendi. – Ele ousou sorrir no meio de todo o caos que estava acontecendo. – Só passei para saber como está. Sei que não tem nada a ver com o que aconteceu com Emily, mas imagino que você e o sujeito tenham se esbarrado algumas vezes...
— O Ian? Ah... Sim, algumas vezes... – Quando a língua dela não estava ocupada na boca do primo dele, pensou consigo mesma.
— E?
— E? E o quê?
— Como está em relação a tudo isso?
— Ah! Estou bem. Quer dizer... Só preocupada com a Emy. Vocês conseguem ser incrivelmente idiotas quando querem.
— Ei!
— É verdade! Não se lembra do dia em que se apaixonou pela minha mãe? Emily sentiu a mesma coisa. O que faria se soubesse que ela era filha do chefe de alguma máfia inimiga? – Perguntou Chloe cruzando os braços.
— Digamos que sua mãe era, de fato, filha do chefe de uma máfia inimiga. Eu e seu avô não tínhamos um relacionamento tão concreto... Construímos isso com o tempo. – Explicou mordendo o lábio inferior, como se recordasse de tudo.
— E o que você fez? – A ruiva perguntou confusa com a nova informação. Não sabia muito sobre a história de seus pais.
— Bem... – Logan senta na ponta da cama e sua filha se sente tentada a sentar ao seu lado para ouvir o que viria a seguir. – Ele e eu já estávamos montando alguns acordos para que minha organização se aliasse a dele. Então não foi tão difícil quando começamos a nos apaixonar.
— Aparentemente os relacionamentos se tornam ainda mais complicados de geração em geração. Tenho medo do vem para as próximas... – Chloe se permitiu rir.
— Não parecia tão fácil, na época. Talvez seja fácil para Emily também. Ela só não está vendo todo o tabuleiro. Está entrando nessa agora, então precisa estudar as regras e ver como tudo funciona.
— Não sei se hoje em dia tenho vontade de participar de tudo isso.
— Do que está falando? – Seu pai pareceu confuso.
— É violência demais. Sangue demais. Boa parte desse sangue é de gente inocente. E também tem o... – Por um momento, Chloe sentiu vontade de mencionar Lorenzo, e os percalços da máfia que impediam ambos de engatar qualquer tipo de relacionamento.
— Querida, você sempre soube disso. Nunca lhes escondemos, como Frederick fez com seus filhos. Sempre te demos o direito de escolher aquilo que bem entendesse.
— Eu sei. Eu sei... – Sussurrou. – Mas, não posso abandonar Emily agora. Não posso abandonar a organização agora. Sei que acabaria sentindo falta e me arrependendo se o fizesse. Mas, às vezes eu gostaria de poder ter uma vida normal. Não para sempre, só alguns fins de semana pelo resto da minha vida, sabe?
— Entendo. Já quis muito isso quando tinha sua idade. Mas, acredite, quando achar alguém que te aceite como é, todos os dias serão repletos de momentos comuns que fazem toda a diferença para que continuemos com a organização. Valerá a pena. – Comentou Logan puxando a filha para um abraço.
Ahh... Se ele soubesse...
— Pai...
— Eu sei. – Interrompeu ele. – Isso é porque sua mãe anda passando mais tempo comigo do que o normal.
— Não, não é isso. – A ruiva riu, finalmente se dando conta que ele de fato estava mais meloso que o costume. – Obrigada. Apesar de tudo, eu estava precisando ouvir algumas coisas.
— Sabe que pode contar comigo sempre que precisar. Quer dizer... Quando precisar de palavras de conforto, Hannah é a melhor pessoa. Sou péssimo nisso. Mas, eu tento.
— Você se sai bem quando quer. – Chloe tentou encorajá-lo.
— Acho melhor ir dormir. Fiquei sabendo que Emily irá conversar com todos amanhã e precisamos descansar antes de qualquer coisa, então...
— Claro. Confesso que não dormi bem durante nosso trajeto até aqui e estou exausta.
— Durma bem, meu amor. – Logan sussurra, depositando um beijo estalado no topo da cabeça de Chloe antes de sair de seu quarto.
Se sentia tão culpada por não revelar que também conheceu alguém lá. Sua prima não podia levar toda a culpa sozinha e... Seus pais não podiam enchê-la de esperanças como se tudo fosse dar certo porque não têm ideia de que ela encontrou alguém tão especial quando eles e esse alguém também fazia parte da Cosa Nostra.
Em que bagunça fui me meter? — Se perguntou durante o resto da noite.
***
As luzes invadiam o quarto de Emily com velocidade, já que havia esquecido de fechar as cortinas. Os relatórios da máfia Gavin estavam espalhados por todo o chão e ela estava dormindo sentada apoiada na cama. Seu corpo todo doía então não foi difícil despertar. Teve pesadelo nas poucas horas que pôde descansar, sendo assim não faria diferença estar ou não acordada. Aproveitou que ainda estava bem cedo para tomar um banho gelado. Fez toda sua higiene matinal e por fim colocou um vestido preto extremamente elegante antes de sair dali e descer as escadas rumo a sala de estar onde todos já lhe esperavam apreensivos. Ficaram espantados ao vê-la tão calma considerando seu estado na noite passada. Rumores percorreram todos os corredores o resto da noite, até mesmo entre os funcionários. O silêncio era desesperador, então Benjamim decidiu colocar toda a lenha necessária para iniciar a fogueira que logo mais se acenderia.
— Recebemos informações de que a Cosa Nostra incendiou o apartamento em que você e Chloe viviam em Chicago. – Murmurou se levantando, mas sem se aproximar da sobrinha que vira o rosto em sua direção com graciosidade de maneira completamente robótica.
— Não esperava menos de Ian.
— Ele incendiou a faculdade também. – Finalizou Chloe. As palavras atingiram Emily em cheio, mas segurou a pose com todas as forças que lhe restavam.
Achou que tinha saído do quarto com a mente completamente clara: Tudo não havia passado de uma coincidência. Ela iria reerguer a máfia de sua família e quando tivesse a oportunidade iria atrás de Ian. Precisavam de pelo menos dez minutos a sós, conversando de maneira natural, sem todo aquele muro que construíram em volta de si quando se encontraram pela última vez. Ele havia chamado ela de mentirosa, como se ela fosse a errada da história. Está claro que há um conflito que não bate. Sabia disso. Mas, saber que foi capaz de fazer aquilo com a faculdade... Um lugar que não era só dela! Entendeu perfeitamente bem o recado.
— Conheci o Ian em um clube noturno no centro de Chicago. Nos esbarramos na entrada e ele veio me pedir desculpas depois. Desde então, com ou sem intenções, acabávamos nos encontrando por aí. Nossa amizade cresceu e decidimos.... Decidimos nos beneficiar disso, sem compromisso. Tudo era muito intenso e o que imaginávamos aconteceu: eu me apaixonei por ele. Decidi me afastar depois de vê-lo com outra garota, e na mesma noite passei por uma situação que não precisa entrar em pauta hoje. Para provar que sentia algo por mim além de pura atração, Ian me levou até a Itália para que eu conhecesse toda a família dele. Lá decidimos que iríamos namorar e ele me deu esse anel de compromisso.
Os olhares de todos se voltaram para o anel. Anthony sentia vontade de ir atrás do garoto e soca-lo até se cansar por todo o papel que fez sua neta passar. Ethan segura toda a ira que queria descontar na filha através de palavras graças a Sophie, que segurava sua mão com delicadeza sem deixar de se preocupar com a morena. Hannah e Logan puxam Chloe para mais perto, como se pudesse protege-la do mundo. O restante apenas observava, ainda processando toda a situação com a maior delicadeza possível.
— Vai continuar com esse anel? – Pergunta Ethan, já não se segurando mais ao ver a filha colocar o objeto em seu dedo novamente.
— Por enquanto. Quero dizer que apesar de todo o ocorrido, vocês são tão culpados quanto eu. Sempre me ensinaram a temer a Cosa Nostra, mas nunca me ensinaram a temer quem estava por trás dela. Nunca me deram um nome, sequer me deram um rosto. O erro é tão meu quanto de vocês. Mas, nada disso importa agora. Está feito. Não podemos voltar no tempo. E se pudéssemos, voltaríamos para uma época mais distante, afinal, tudo começou com um peão querendo ser o rei absoluto do tabuleiro, subestimando aquele que estava no topo; e nem por isso estou vendo alguém jogar pedras sobre ele.
— Emily... – Blair começa, mas é interrompida pela neta.
— Como podem ver, tudo que ocorreu entre Ian e mim pareceu ser coincidência e, até mesmo destino. Não tinha a menor ideia de quem ele era, até porque ele nunca deixou qualquer evidencia. E se deixou, não percebi. Estava apaixonada. Estou apaixonada. Esse sentimento não desaparece com facilidade. Mas, acima disso, também estou com raiva. Muita raiva. Porque ele me enganou por um bom tempo. Ian teve a capacidade de deixar que as coisas chegassem a esse nível. E vai pagar com a mesma moeda por isso.
— Não temos nada para pagar com a mesma moeda. – Sussurrou Anthony, tentando finalmente se acalmar diante da situação.
— Ian não é estudante de artes cênicas para manter um teatro por tanto tempo. Algo dentro do que vivemos foi real. Sei disso. Parte de mim ainda conhece parte dele. Se ele quis jogar baixo, então é baixo que iremos jogar. A máfia Gavin Brian está, a partir de agora, sob meus cuidados. Não quero participar de nenhuma tradição ridícula para provar isso, todos saberão através da língua dos outros. Não tem rede de informação mais rápida que essa.
— Entendi o recado. – Diz Benjamim já pegando seu celular e fazendo todas as ligações necessárias para espalhar a informação.
— Não vamos mais nos esconder. A Cosa Nostra não pode vir ao Brasil sem ter informações de como estão as coisas por aqui e até onde temos o controle. Seria um tiro no escuro que Augustos jamais faria; é esperto demais para isso.
— Nisso temos que concordar. – Comenta o avô.
— A máfia está decadente. Não sei como conseguem colocar medo nas pessoas ainda. Os relatórios mostram o quanto a situação está péssima, então precisamos resolver a situação cortando o mal pela raiz.
— E a raiz seria...? – Pergunta Blair confusa.
— Funcionários. Está na hora de descobrir quem é o informante da polícia aqui. Estamos no fundo do poço. Então comecem o trabalho de vocês aceitando essa condição e se preparem para começar do zero. Eu cuido do resto.
— Ótimo. – Sussurra Hannah sorrindo docemente, enquanto os homens da família trocam olhares como se estivessem se comunicando em pensamento. Anthony estava orgulhoso, mas não demonstraria isso tão cedo.
— Teresa, pode, por favor, solicitar a presença de todos no pátio? – Perguntou a morena se virando para a funcionária que trazia uma jarra de água para sua família.
— Claro.
— Obrigada. Enquanto isso, tio Logan, quero que cuide de minha faculdade. Ligue para o reitor e diga que nossa empresa irá cobrir todos os gastos e ainda fará uma doação bem gorda. O mesmo para o porteiro do prédio, pois Chloe havia dado o apartamento a ele. Aproveite para confirmar nossa presença, caso queiram fazer uma apresentação ao fim da reforma.
— Pode deixar. Já estava indo para a empresa agora de manhã para fechar alguns negócios.
— Sei que não estão satisfeitos em me ver no comando tão cedo, mas acostumem-se. Me ensinaram desde pequena para consertar todos os meus erros, e é isso que estou fazendo então não reclamem. Além do mais, eu assumiria tudo assim que retornasse, ou o combinado mudou quando namorei Ian? – Seus olhos estavam presos em seu avô, que pouco dizia.
— Não. Você está certa. Foi o nosso combinado. Se me permite um comentário, não acha que fazendo isso, ficaremos muito a vista deles? – Perguntou Ethan.
— Eles querem que tenhamos medo? Que sintam mais. A partir de hoje, não iremos nos esconder. Faremos uma guerra em plena luz do dia.
Emily, agora, já não era mais consumida por nenhuma paixão ardente. Seu coração se alimentava do mais puro ódio. Mas, ainda assim, sua cabeça se concentrava em algo maior que isso, pois haviam vidas em jogo.
E a dela estava incluída.
***
O pátio estava repleto de burburinhos que só se calaram quando Anthony, Ethan e Emily saíram da casa. Não era segredo que a filha do chefe da máfia havia retornado e algo de muito estranho ocorrera por lá. Ninguém sabia se temia ou amava o fato de que a garota estava ali e muito provavelmente assumiria o comando de tudo, mesmo depois de expô-los da pior maneira possível para a Cosa Nostra. Dúvidas e mais dúvidas rondavam aquele pequeno grupo de pessoas. A morena conseguia sentir aquilo na expressão neutra de cada um, mesmo que não tivesse ouvido nada do que estava sendo comentado segundos antes de aparecer.
— Imagino que todos aqui já me conhecem, embora eu não tenha frequentado minha própria casa por muito tempo. Sou a filha de Ethan, atual chefe de nossa organização e, estamos entrando em guerra. Não gostaria de alarmá-los, mas verdade seja dita, todos que ficarem ao nosso lado estarão em constante perigo agora. Decidimos que eu assumiria o cargo de chefe ainda que estejamos enfrentando problemas graves como esse, afinal, quero que saibam de imediato que a culpa de todos eles estão sobre meus ombros. Esse discurso todo é mais do que só lhes comunicar sobre isso. Quero saber se posso contar com cada um aqui presente. – Emily discursa, descendo os degraus da casa para ficar na mesma altura que os funcionários.
— Poderá sempre contar conosco, senhorita. – Um dos homens diz firmemente, quebrando todo o silêncio que havia se formado.
— Antes que utilize tais palavras, deixe-me ser mais específica. Não irei crucificar aqueles que decidirem sair hoje. Vocês terão todas as suas contas acertadas e carteiras assinadas, sendo desligados com toda a dignidade que merecem. Aqueles que decidirem ficar, entendam que farão mais do que trabalhar para nós, serão parte de tudo aquilo que construímos. Vocês nos protegerão com garra e levarão quantos tiros forem precisos para salvar cada um aqui presente. E será recíproco. Protegeremos vocês e acabaremos com o império de qualquer pessoa que atentar contra suas vidas. Estaremos juntos em cada obstáculo, mas também em cada momento de alegria que nos atingir. Terão vinte e quatro horas para pensar sobre o assunto. Quem optar pela demissão, peço gentilmente que procurem meu tio, Benjamim, para que ele possa cuidar de tudo que for necessário. Obrigada pela atenção de todos e tenham um bom trabalho! – A morena agradece se retirando e ouvindo mais burburinhos logo atrás de si.
— Você falou bem. – Ethan comenta assim que entraram na casa, mas ela não faz a menor menção em responder. Ainda estava levemente ressentida por não ter tido o mínimo de apoio que um pai deveria dar para uma filha em momentos assim.
— Imagino que poucos irão pedir demissão depois de ter oferecido nossa proteção. – Foi a vez de Anthony comentar, realmente impressionado com a neta.
— Espero que muitos o façam para que eu não tenha que perder meu tempo fazendo mais cortes do que irei fazer amanhã. Quero só gente de confiança ao nosso lado. Não me importo que seja só uma. – Responde Emily atravessando a sala e entrando no escritório que uma vez foi deles para dar seu próximo passo.
Havia tanta coisa para ser feita, mas sua mente não conseguia se desprender de tudo o que acontecera consigo em Chicago. Desde os primeiros momentos até o trágico final. Seus olhos vagueiam pelo anel que Ian havia lhe dado. Ainda estava em dúvida sobre mantê-lo ou devolvê-lo esperando alguma reação do próprio. Era incrível como algo em seu consciente continuava gritando que Ian e ela não foram algo planejado como arma para acabar com um império que não fazia diferença na vida da Cosa Nostra há anos. Eles sequer sabiam de sua existência e, se soubessem, Augustos é ansioso demais para planejar algo daquela maneira. Nem Ian é calmo o suficiente para esse tipo de plano.
Era irritante ter que lidar com essa guerra interna enquanto o mundo desabava sobre seu corpo. Seu emocional nunca esteve tão instável quanto aquele momento. Mesmo quando estava em constante movimento, sua mente insistia naquele mesmo assunto. Estava claro que levaria séculos para que se desprendesse de Ian e tudo aquilo que viveram. Se sua mente se esforçasse mais um pouco, conseguiria com facilidade sentir seu hálito quente e seus lábios se unindo sem a menor intenção de se afastar.
— Toc, toc.... – Chloe abre a porta com um sorriso amigável, como se estudasse o terreno que estava prestes a invadir. – Trouxe uma bandeja com o melhor da mesa hoje para que a gente possa tomar café da manhã juntas como nos velhos tempos.
— Algo me diz que veio para saber mais sobre o meu estado emocional do que preencher meu estomago vazio... – Sussurra Emily quando a ruiva fecha a porta atrás de si colocando a bandeja sobre a mesa.
— É. Sei que a gente se viu ontem, mas me sinto mais afastada de você do que nunca.
— Queria poder fazer algo sobre isso. Sinto muito.
— Você poderia desabafar. Por favor, Emy, não se isole. Não de mim. – Suplica Chloe puxando uma cadeira se sentando ao lado da prima.
— Eu adoraria. A verdade é que está tão confuso aqui dentro que nem sei por onde começar. Não sei nem o que dizer.
— Existe algo que eu possa fazer? – Perguntou se sentindo péssima por tudo que estava acontecendo com a morena.
— Existe. Você pode ser honesta comigo. – Emily falou tão baixo que Chloe perguntava a si mesma se havia escutado corretamente.
— Do que está falando?
— Estou falando que você está normal demais considerando tudo o que está acontecendo e, pode enganar qualquer um dessa família, menos a mim.
— Emy, eu...
— Pensei muito sobre todas as hipóteses que te levariam a se comportar dessa maneira. – Ela interrompe a prima. – E, considerando que estaria arrancando os cabelos por ter, mais uma vez, entregado seu coração ao homem errado...
— Por favor...
— Ou tem uma personalidade nova que desconheço, ou ainda mantém contato com Lorenzo mesmo sabendo que ele é um traidor assim como Ian. É fácil jogar dos dois lados quando todos concentram seus julgamentos a mim, não é, Chloe?
Era a primeira vez que Chloe se sentia exposta diante da morena. As duas sempre tiveram uma cumplicidade inigualável, então não havia motivo para desconfianças. Até agora. Sua garganta parecia ter secado quando mais precisava de palavras.
— Eu não estou mantendo contato com Lorenzo. De onde tirou essa ideia maluca? Eu jamais faria algo que te prejudicasse, muito menos a organização. É claro que estou me descabelando, mas não quero que ninguém desconfie que eu também andei pelo território inimigo, afinal, foi isso que combinamos e...
— O fato de estar aqui tentando se explicar já me prova que está mantendo contato com ele. Caso tenha se esquecido, você é uma péssima mentirosa. – Emily a interrompe mais uma vez e a ruiva perde todo o ar que havia em seus pulmões.
— Está certa.
— Sobre?
— Que saco! Eu preciso falar em voz alta?
— Precisa, porque talvez só assim tenha consciência da loucura que está cometendo. – Reforça a morena se levantando irritada.
— Não é loucura. Emily, está mais do que óbvio que isso tudo não passa de uma coincidência absurda.
— Coincidência ou não, Lorenzo e Ian fazem parte de uma organização que quer nossas cabeças de presente para exibir a todos aqueles que ousar traí-los novamente. E eles provaram isso assim que incendiaram nossa casa e minha faculdade!
— Você sabe muito bem que foi Ian que fez isso. – Resmungou Chloe. – E Lorenzo havia me avisado no momento em que tudo aconteceu...
— Como é que é?
— Emily...
— Não! Pare de se explicar! Nada vai fazer essa situação se tornar correta. Precisa escolher um lado. Não vou te julgar se pegar um voo para Chicago agora. Mas, não poderei mover um dedo se estiver enganado e entrar em uma grande cilada. – A morena se levanta indo em direção a porta.
— Acha mesmo que eu seria capaz de deixar vocês?
— Já está fazendo isso ao manter esse relacionamento. Dê um jeito nisso ou eu mesma me meto nesse assunto. Caso tenha se esquecido, sou eu que estou no comando agora e o que eu disse aos funcionários se estende a você: só quero gente de confiança do meu lado.
— Está dizendo que não confia em mim?
— Estou dizendo que, pela primeira vez em toda minha existência, não sei se ainda posso contar com sua lealdade. – Emily finaliza saindo do escritório e deixando Chloe com seus próprios pensamentos. Ela não estava falando sério, mas sua prima merecia aquele balde de água fria.
Aquelas palavras saíram como bofetadas em seu rosto e, mesmo com tudo o que estava acontecendo, só agora sentira o peso sobre suas costas. Emily não estava errada. Como confiar em alguém que está mantendo contato com o inimigo? Independente do que ocorreu, Lorenzo faz parte da organização errada. A ruiva só está atrasando o que deveria ter acontecido naquele dia em que esteve cara a cara com ele. Suas mãos vão em direção ao celular que estava no bolso da calça, jogando o mesmo na parede com tamanha força que o mesmo se quebra com facilidade.
Sua consciência aumenta de peso no momento em que se dá conta que poderia quebrar todo e qualquer contato que ele tinha dela, mas nada quebraria o contato que ela tinha dele, pois o mesmo estava gravado em sua memória. E não havia nada que pudesse fazer em relação a isso.
Uma lavagem cerebral cairia bem em horas como essa, pensou antes de sair dali.
***
— Alô?
— Gael? É a Emily. – A morena diz assim que escuta a voz dele do outro lado da linha. Fazia tanto tempo que não a escutava. – Preciso falar com o Cobra. Tenho um assunto que pode interessar a vocês dois.
Brincou com fogo, Ian? Está na hora de me reerguer para que você possa entender aonde está se metendo — pensou enquanto engatava o plano para colocar sua organização no topo novamente.
E para isso estava disposta a tudo... Inclusive começar de baixo novamente.
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