Geovana e Julie chegaram logo pela manhã na casa da tia. Valentina as aguardava ansiosamente, estava quase enlouquecendo naquela casa sozinha. Ou melhor, longe do filho. Ou melhor ainda, longe de toda ação. Sem notícias do que estava acontecendo, ela estava quase arrancando os próprios cabelos.

— Ian nunca namorou e quando namora é logo com uma arqui-inimiga. Se isso não é uma armação do destino eu não sei em quem botar a culpa. – Geovana disse enquanto arrastava a mala pesada pela sala da casa.

— Porque não tenta colocar a culpa na garota? – suspirou Julie, se jogando no sofá. – Eu estou exausta e estou pressentindo que só vou poder descansar de verdade daqui meses.

Geovana encarou a prima com um olhar de reprovação.

— Não pode ser assim tão grave. – sussurrou, com medo de alguém ouvir.

Julie levantou a cabeça e abaixou os óculos escuros para poder encarar a prima melhor.

— Você tá brincando, não é mesmo?

A ruiva suspirou fundo e se jogou no sofá ao lado da prima mais velha.

— Estamos prestes a enfrentar uma guerra daquelas, não estamos?

— Pode apostar que sim. – Valentina diz, pegando as garotas de surpresa.

Geovana e Julie levantam a cabeça e logo encaram a tia no topo da escada que sorriu ao ver as duas.

— Minhas sobrinhas favoritas. – saudou descendo as escadas e indo de encontro as duas.

As meninas se levantaram e foram em sua direção. As três se abraçaram força e vontade. Fazia quase um ano que não se viam.

— Nunca mais desapareçam dessa maneira. – sussurrou Valentina. – Morro de saudades de vocês.

— Nós também, tia. – responderam em uníssono.

Valentina se afastou apenas o suficiente para encará-las. Julie já é uma mulher linda e conhecedora dos seus encantos, já deixa muitos marmanjos de quatro por aí. Talvez tenha sido influenciada. Julie sempre admirou a tia, desde pequena. E quando conheceu os verdadeiros negócios da família, a admiração só cresceu. E foi se tornando cada vez mais como a tia, mas claro, tendo em partes a sua particularidade.

Enfim, Julie é mais como Valentina. O olhar dramático e sedutor. Consegue o quer e o que não pode. Agora Geovana... É como aquele vaso delicado posto em cima de uma prateleira bem protegida. Porém, Valentina sentia que ela estava diferente.

— Estou louca para saber de suas viagens, Gigi. – disse. – Você me parece diferente.

Julie riu alto.

— A-HÁ! Eu disse, eu sabia. Ela ia notar logo de cara!

Geovana ficou vermelha.

— Tia... – começou, envergonhada.

Valentina estranhou e sorriu confusa, esperando uma explicação. Ambas se sentaram no sofá enquanto Julie ia à cozinha pegar algo para beber.

— Eu conheci alguém na viagem e... Bom... Meio que... Aconteceu…

— O que ela está querendo dizer é que ela transou com alguém. – Julie contou abrindo a latinha de refrigerante e sentando-se na poltrona em frente as duas.

Valentina arregalou os olhos.

— Você teve sua primeira vez? – questionou, surpresa. – E você gostou? Ele te machucou? Vocês se cuidaram?

— Sim, sim, não e sim. – contou sorrindo, ainda envergonhada. – Estávamos viajando juntos quando recebi a ligação e os homens da Cosa Nostra foram me buscar. É bem provável que só conseguiremos nos ver depois de tudo isso. Mas estou feliz que tenha acontecido. Eu estava pronta.

Valentina olhou com carinho para a sobrinha. Geovana e Lorenzo eram praticamente seus filhos. Ela os criou, os ensinou e os amou como uma mãe faria. Como a mãe deles teria feito se não tivesse sido tirada bruscamente da vida deles.

Valentina ainda se culpa pela morte de Alicia.

— Eu amo vocês duas e estou grata pelas mulheres que vocês se tornaram e estão se tornando. Mas, — Valentina vez uma pausa traumática e respirou fundo. – infelizmente, mi amore, o seu romance terá que ficar para mais tarde. As coisas estão complicadas e a tendência é só piorar.

Geovana assentiu e Julie se endireitou na poltrona, engolindo em seco.

— O quão ruim? – questionou a ruiva.

Valentina balançou a cabeça.

— Eu não consigo nem mensurar de tão grave. Envolve muitas vidas, muitos rixas e segredos. O pior de tudo: envolve meu filho.

— Como Ian está? – perguntou Julie.

— Péssimo.

*****

O avião havia partido há algum tempo, logo estaria pousando na Itália. Ian dormia com a cabeça encostada na janela enquanto Lorenzo o encarava em silêncio.

— No que está pensando? – questionou Vitor ao sobrinho.

— Em quem é o vilão da história. — a resposta de Lorenzo foi tão sincera e rápida que até ele se surpreendeu.

— Você ainda tem dúvidas?

— Muitas.

— O holofote está sobre Ian agora, mas eu sei que você também se envolveu com a prima de Emily. Chloe, certo?

Lorenzo respira fundo. Ninguém o perguntou nada sobre Chloe. Apenas sobre Ian e Emily. E para ele seria tão mais fácil se ninguém soubesse sobre Chloe... E ouvir o tio falar o nome dela, o deu calafrios.

— Tio, eu... – começou, porém Vitor o interrompeu.

— Não se dê o trabalho. Eu vi a menina, é bonita, parece ser meiga e... perfeita para você.

Lorenzo olha para o tio paralisado, não esperava aquilo.

— Emily também parecia ser perfeita para Ian, marrenta como ele. Eu pude notar isso. Eles se completavam.

— Mas elas são filhas do inimigo.

— São. E o que fazemos com eles, Lorenzo? – pergunta de Vitor é direta e ele encara o sobrinho, esperando pela resposta.

Lorenzo engole em seco e se vira para frente, encarando o primo adormecido.

— Eu não acredito nessa história, tio. É fácil para vocês acreditarem que fomos enganados por elas, mas vocês não estavam lá... Não sentiram, não viveram aquilo. Nós sim! – Lorenzo bateu no peito, ele estava nervoso, queria desesperadamente que alguém enxergasse o que ele via diante daquela situação. Que era tudo uma armação. – Dia após dia vivemos com aquelas garotas e eu posso te garantir que nada daquilo foi uma mentira!

Vitor encara o sobrinho. Quais seriam as chances de tudo aquilo ter sido uma grande e infeliz coincidência?

— Você acha que estamos errados? Que não fomos enganados? — mesmo que a pergunta parecesse ser uma pegadinha, Vitor estava sério, como se realmente quisesse saber a opinião do sobrinho.

— Acho. – respondeu com convicção.

— Então eu acho melhor você provar isso logo, sobrinho. Os planos para aquela família não são um dos melhores.

***

A viagem de carro do aeroporto até a casa dos Chiacchios foi silenciosa. Vitor, Ian e Lorenzo dividiam apenas o espaço dentro do carro, mas cada um estava preso em seus próprios pensamentos. Quando chegaram, Valentina e suas sobrinhas os aguardavam na porta de entrada.

Lorenzo saiu do carro e Geovana correu em sua direção, Julie em direção a Ian e Valentina ao Vitor. Foi uma saudação silenciosa, como se tivessem acabado de voltar de um funeral e fosse proibido expressar qualquer tipo de alegria em respeito ao falecido.

Entraram em silêncio dentro da casa e sentaram-se todos no sofá. Menos Ian, que foi em direção ao bar, servir-se de alguma bebida forte. O silêncio era gritante, mas ninguém se atrevia a falar. Até que Julie resolveu rompê-lo.

— Então... Ninguém vai falar sobre o elefante na sala? – questionou, olhando para cada um, aguardando uma reação.

Geovana, como sempre, olhou repreendo a prima, pois aquela não era a hora. Mas Julie deu de ombros, até porque, alguém em determinado momento, teria que falar sobre o caso.

— Julie, talvez agora não seja a melhor... – começou Vitor, visivelmente cansado. Valentina o abraçava.

— Não, pai. Ela está certa! – cortou Ian. – Vamos falar sobre o elefante na sala e sobre como eu o plantei aqui, bem na sala da família.

— Não foi isso que eu quis dizer, Ian! – Julie retrucou, defendendo-se.

— Ninguém está o acusando. – acalmou Geovana. – Mas…

— Mas queremos saber por vocês o que houve e com o quê estamos lidando! – esbravejou Julie. – Recebemos uma ligação no meio da madrugada avisando que alguns mercenários de confiança iriam nos buscar e que devíamos empacotar tudo para voltar para a Itália porque de alguma forma nosso primo dormiu com o inimigo.

— Julie, por favor. – murmurou Lorenzo.

— Deixa ela, Lorenzo. Deixa ela... – Ian fez uma careta quando o último gole da bebida desceu queimando sua garganta. – Ela tem razão. Eu dormi com o inimigo, transei com ela – Valentina revirou os olhos, nenhuma mãe precisa saber dessas coisas. – Mas o pior nem foi isso. — o tom de Ian era melancólico.

Ele havia se apaixonado.

Um silêncio se instalou na sala, todos encaravam Ian e esse encarava o copo já vazio. Ele estava com raiva por estar tão vulnerável naquele momento.

— Quais são os próximos passos? – questionou Julie após um tempo, com a voz mais mansa, querendo tirar um pouco do holofote do primo.

— Analisar. – respondeu Vitor. – Vamos analisar o estrago, ver quão feio está e quão feio pode ficar. E depois, agir.

— O que você quer dizer com agir? – perguntou Geovana.

— Ele quis dizer que faremos eles pagarem. – respondeu Ian, ainda com os olhos focados no fundo do copo vazio.

— Quem irá pagar? – a ruiva questionou.

Ian finalmente tirou os olhos do copo e encarou a prima.

Antes de queimar a faculdade, Ian estava perdido, sem reação, ele havia perdido o amor da vida dele, tudo foi uma grande e bela mentira. Não sentia raiva, medo, não sentia nada. Estava completamente perdido. Mas ao ver o fogo e sentir o calor que o prédio queimando transmitia, de certa forma, ele voltou a sentir. Sentia raiva e ódio.

— Emily e todos que estiverem por trás.

— Ótimo. – a resposta de Julie foi quase que instantânea. Todos olharam para ela, surpresa.

E ela já sabia como começar.

***

Julie tinha bem mais do que seus encantos, tinha os seus contatos. Ao redor do mundo, em cada área de conhecimento, ela conhecia uma pessoa. E o melhor de tudo: todos lhe deviam favores.

Assim que ela recebeu a ligação de um representante da Casa Nostra e ficou a par da situação, ela fez algumas ligações e descobriu que a família Gavin Brian estava contrabandeando armas para uma pequena milícia no oeste da África. Era algo pequeno, mas que rendia muito. Um dos homens mais chegados do chefe dessa milícia é um conhecido de Julie, eles se conheceram há alguns anos em uma das viagens da jovem.

— Akin cresceu em uma das aldeias comandadas pela milícia. Esses homens recrutam garotos ainda muito novos e em situações de péssimas condições e os tornam em rebeldes. Akin foi um deles.

— E como vocês se conheceram? — questionou Geovana. Julie deu um sorriso de canto, relembrando a cena. — Eu não vou querer saber, não é?

— Engraçadinha, não é nada disso. Nos conhecemos em um jogo de pôquer.

— E como você ficou sabendo que os Gavin vendem armas para eles? – questionou.

— Eu perguntei. – respondeu, dando de ombros.

Geovana sorriu. Simples assim. Ela sabia que a prima era bem mais vivida que ela. Julie é uma mulher linda, qualquer um pode notar isso, e as suas histórias sempre deixaram a ruiva com ciúmes da personalidade que a prima mais velha tinha, enquanto ela, ficava vermelha apenas com um toque mais acalorado.

— E qual é o plano? – indagou a ruiva minutos depois. – Iremos roubar os clientes dos Gavin?

—É um bom plano. Mas o que iremos fazer é saber como eles contrabandeiam essas armas.

— E por que isso é importante? – questionou novamente.

Julie encarava a paisagem lá fora, tentando manter-se focada. Mesmo não participando ativamente dos negócios da família, ela tinha bastante conhecimento sobre.

— Porque se eles estão contrabandeando para outro continente, quer dizer que eles possuem todo esse arsenal. – respondeu, sem tirar os olhos da estrada. — O que significa que alguém contrabandeia para eles e, se isso acontece, esse o fornecedor devem ser bem grande.

— E isso é importante porque... – buscou saber.

— Porque nós somos os maiores fornecedores de armas que existem. – respondeu Julie, encarando a prima. – Olha, eu sei que você não é chegada nos negócios da família, mas você pediu para vir comigo porque quer ajudar, certo? – Geovana acenou, engolindo em seco. – Então eu preciso que você se concentre.

Geovana respirou fundo e começou a pensar. Era verdade o que a prima disse, ela não tem interesse pelo negócio da família, afinal de contas, foi esse negócio que matou sua mãe. Então ela sentia medo. Tinha medo de saber de mais e de saber de menos. É a que menos participa das festas que as organizações promovem. Ninguém a reconheceria se não fosse pelos cabelos ruivos iguais a da mãe. Todos conheciam a história de Alicia Chiacchio, que foi morta logo após o parto da maneira mais cruel e covarde que já houve. Geovana carregava essa bagagem nas costas e, por isso, tinha repulsa pela Máfia.

Mas o básico ela sabia e por isso se concentrou nas poucas informações dadas pela prima.

— O.K. Se nós somos os maiores fornecedores de armas, com certeza não iríamos vendê-las para o nosso maior inimigo. – disse em voz alta. – Mas não possuímos controle pela revenda dessas armas.

Julie sorriu.

— Isso mesmo. E se a gente descobrir quem é que está revendendo, já temos o primeiro traidor. E claro, já daremos um jeito para que essas armas não caiam mais nas mãos daquela família. Uccidiamo due piccioni con una sola pietra (Matamos dois pássaros com uma pedra só).

***

O clube para qual elas estavam indo naquela noite estava fechado, mas carros caros rodeavam o quarteirão do local. Um jogo de pôquer iria acontecer em alguns instantes e alguns homens influentes iriam participar. Paulo Tesar Zerutti era um deles.

— Como ficou sabendo desse jogo? – questionou Geovana ao saírem do carro.

Julie entregou a chave ao manobrista e ajeitou o vestido justo. Ele era preto de mangas longas, tinha um decote em V generoso e detalhes em prata na barra, como se fossem chamas. Nos olhos um delineado simples e esfumado, na boca, um vermelho sangue.

— Eu gosto de jogar. É assim que faço meus contatos. – respondeu, se olhando pela última vez no espelho do retrovisor no carro antes do manobrista dar partida e sair com ele.

— E você é boa? – questionou a prima.

Ela riu.

— Como acha que eles que tenho tantos favores a serem pagos?

A ruiva sorriu, admirada. Julie sempre foi a prima mais velha que Geovana idolatrava. Ela adorava o jeito como Julie vivia e invejava. Ela é tão confiante!— dizia a si mesma. A ruiva por sua vez, se sentia como um cachorrinho medroso. Geovana vestia um vestido verde escuro de alça grossa, com recortes na cintura, deixando-o a mostra. O cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto, nenhum fio de cabelo estava fora do lugar.

Ah, não havia um só que resistiria ao encanto das primas Chiacchio aquela noite. Elas estavam impecáveis.

— O plano é o seguinte: Paulo Tesar, um comandante do exército brasileiro, irá jogar essa noite. Ele é como os outros, corrupto. É ele quem autoriza o que passa e o que não passa pela fronteira da Colômbia, por onde as nossas armas entram. Se elas são desviadas, são desviadas por ali. A gente precisa ganhar esse jogo e ter essa vantagem. Paulo tem o nome que precisamos.

—E porque não o sequestramos e o entregamos a Vitor e Ian para torturá-lo? – questionou, como se fosse a coisa mais obvia do mundo. – Afinal não é isso que as máfias fazem?

Julie revirou os olhos.

— Porque iremos fazer isso do meu jeito. E o meu jeito é através do diálogo. E também porque nossa família não sabe que estamos aqui.

Geovana consentiu. Dois segundos depois ela se deu conta das palavras finais da prima.

— Espera! O que? Eles não sabem nada disso? Não sabem desse plano?

— Xiuuu! Para de gritar, Geovana! – Julie a pegou pelo braço e a arrastou até a esquina, se escondendo dos olhares curiosos que surgiram. – Não, não sabem. Se soubessem, eles iriam sequestrar o Paulo e teriam essa informação de uma forma bem sangrenta. E eu quero evitar sangue o máximo possível, Gigi. – confessou. — Nós podemos fazer isso, tá bom? Somos duas mulheres fortes e inteligentes. Não precisamos de homens fortes e raivosos para fazer um trabalho simples como esse.

Geovana estava ofegante, por essa ela não esperava. Ela pensou que aquilo seria apenas um trabalho tranquilo dado pela tia para a prima mais velha, e querendo ajudar o mínimo possível, se ofereceu para aquela tarefa que julgou sendo a mais simples e segura de todas.

— Eu pensei que... que... seria algo simples... – gaguejou.

— E é. Eu jogo pôquer desde muito nova, é o meu segredo sujo. É através dele que tenho os meus contatos e eu tenho tanta gente me devendo favores porque eu ganho e a única coisa que eu preciso é isso: favores. Dinheiro a gente tem de monte, agora todos esses contatos poderosos com o rabo preso comigo, não. Podemos ajudar dessa forma Geovana, e como eu disse, sem derramar uma só gota de sangue.

— Tá bom. Eu vou com você. Mas se eu sentir que algo dará errado, irei ligar para eles no segundo seguinte! – ameaçou, se referindo aos tios.

Julie dá um passo em direção a prima. Geovana recua, mas bate as costas na parede. Ela segura o fôlego.

—Não, você não irá ligar. Você precisa se reconhecer Geovana Chiacchio. Você pertence a família mais poderosa que existe nesse país. Você pertence a Cosa Nostra e a Cosa Nostra te pertence. Não há homem que ousaria tocar em você, está me escutando? Você precisa parar de temer e fazer com que os outros temam você. – Os olhos azuis de Julie encaravam a ruiva que engole em seco, em choque. – Agora vamos. E se lembre, faça apenas o que eu mandar. Preciso que você confie em mim.

— E-eu confio.

Julie esperou a prima se acalmar e a voltar a respirar em um ritmo normal, que não chamasse muita atenção para o seu nervosismo. Ela estava quase mandando a prima de volta para a casa e lidar com aquilo sozinha, mas ela sabia que Geovana tinha que lidar com aquele medo da máfia e aquele era um bom começo. A ruiva só precisava de um pequeno empurrão e de alguém que a encoraja-se. E que mal teria em um jogo de pôquer, afinal?

Quando as duas entraram no clube, várias cabeças se voltaram para elas. Alguns já conheciam Julie de outros jogos e esses, ela cumprimentou de longe com um simples aceno de cabeça. Os outros tinham olhares curiosos. Para esses, Julie lhe mandou seu habitual sorriso de lado.

Elas caminharam até o bar e se sentaram lado a lado. Julie pediu dois shots de vodka e, enquanto esperava pelos drinks, observou o local atrás do homem que a trouxera até ali.

— Paulo ainda não chegou, se chegou, deve estar em algum canto. – ela checou o relógio em seu pulso. – Falta 10 minutos para o jogo começar, você pode se…

Quando Julie voltou a olhar para a prima, ela estava tomando o segundo shot de vodka deixado pelo barman.

— Ei, era para nós duas!

Geovana enxugou o canto da boca.

— Desculpa.

— Tudo bem. Olha, reconheço que fui muito dura com você, se você quiser ir embora, peço para o motorista te levar e…

— Não! – esbravejou, baixinho, sem chamar atenção. – Eu vou ficar. Serei o seu reforço. – disse, determinada.

Julie sorriu, orgulhosa. E antes que pudesse voltar a observar o salão em busca de mais rostos conhecidos, Paulo Tesar adentrava o clube acompanhado de três seguranças e duas mulheres bem vestidas.

— Ele chegou. – sussurrou para a ruiva. – Peça mais dois shots de vodka, iremos precisar.

— Você está nervosa?

— Não. Mas eu consigo sentir suas pernas tremendo daqui! – brincou. Geovana riu, se descontraindo um pouco.

Julie pediu por mais bebidas e ficou com um olho na prima, tentando acalmá-la e outro olho em Paulo e na movimentação do clube.

“Paulo sempre anda bem acompanhado, como qualquer outro comandante do exército. Pelo o que eu sei, tem um cara novo e é ele o responsável pela revenda das armas. É nele que você precisa chegar.”

Julie repassava as informações dadas por Akin em sua cabeça e analisou os três homens que escoltavam Paulo. Dois deles tinham o semblante sério e as roupas muito parecidas, de segunda linha e olhavam o ambiente com atenção. Agora o outro não. Vestia roupas de marcas e estava mais íntimo de Paulo. Falava-lhe com afinidade e parecia despreocupado. Só podia ser ele.

— Senhoras e senhores, por favor, me acompanhem. O jogo irá começar em 5 minutos.

O croupiêr chamou no centro do salão, indicando com o braço esquerdo uma porta vermelha entreaberta para os participantes. Julie, Geovana e os demais adentraram a sala de tamanho médio. Era grande o suficiente para uma larga mesa com 8 jogadores e alguns divãs ao redor. Julie tomou seu lugar na mesa com os outros jogadores e a ruiva com os demais que, como ela, vieram apenas observar. Geovana se sentou no canto da sala de forma que ficava de frente para a prima e para a porta, atenta a quem saia e a quem entrava. Por precaução, deixou o número do irmão gêmeo na discagem rápida.

Quando todos se assentaram, o croupiêr passou as instruções e deu início a partida.

O jogo foi estimado para acabar em duas horas e meia. Passado a primeira hora, Geovana já estava no terceiro drink, o que deixava sua prima desconfortável e preocupada com as ações da ruiva, por isso, quando houve o intervalo de 10 minutos, a primeira coisa que fez foi arrastar a prima para o banheiro.

— Você está bebendo de mais, preciso de você atenta. – sussurrou Julie, checando todas as cabines do banheiro., certificando-se que estavam sozinhas.

— E eu estou atenta. A bebida está me ajudando a acalmar meus nervos. – rebateu. – Esse comandante brasileiro tem bastante seguranças, eu vi uma movimentação de quatro por quatro em quinze minutos.

— É, eu notei também. Troca de homens para deixá-los atentos a movimentação. Eu preciso começar a agir. – falou, depois parou em frente ao espelho, pegou o batom da bolsa e retocou.

— Como você irá fazer? – indagou a ruiva, observando os movimentos da prima.

Julie respirou fundo.

— Preciso ganhar o jogo. Os mais fortes são Paulo, eu e aquele empresário de Budapeste. Porém, Paulo perdeu dois terços do que tinha na jogada anterior, mas competitivo do jeito que é, irá continuar e apostar até as calças, e é nessa hora que eu entro.

— Mas e o empresário? E se ele ganhar?

Julie encarou a prima.

— É aí que você entra. – Geovana arregalou os olhos. – Calma, não é dessa forma que você está pensando. – acalmou. – A mulher desse cara está grávida e hospedada em um hotel na costa da Sicília, é o primeiro filho deles. Eu preciso que você entre em contato com o Mark e peça para ele descobrir o número pessoal dele. E quando eu der o sinal, você irá sair da sala, ligar para ele fingindo ser a enfermeira e avisar que a mulher está parindo e que ele precisa chegar o mais rápido possível. Se ele der pra trás inventa que é um parto de risco e que ela pode morrer, sei lá.

— Dios mio. – suspirou a ruiva, começando a andar de um lado para o outro. – Certo, Mark, ligar, parto, morte. Fácil, beeem fácil. Vai ser moleza.

— Você consegue! – reforçou Julie, segurando a prima pelos ombros e olhando dentro dos olhos dela. – Não se esqueça quem você é.

Geovana assentiu. Assim que sua prima saiu do banheiro de volta para o jogo, ela pegou o celular e procurou o contato de Mark. Tentou ignorar as mãos trêmulas. No terceiro toque, o hacker atendeu. Geovana foi o mais sucinta possível, tentando não enrolar ou parecer à beira de um ataque de nervos. Ele escutou com atenção e disse que dentro de alguns minutos mandaria um sms com o número do cara, ela agradeceu e desligou.

Respirou fundo diversas vezes e se encarou no banheiro e mentalmente repetiu as palavras da prima “não se esqueça quem você é”.

— Um dia você está tendo as melhores horas com o melhor cara do mundo e na outra você está conspirando com a sua prima para enganar um pobre homem para que ela consiga extorquir informações de forma limpa de um mafioso brasileiro. — resmungou para si mesma enquanto caminhava para a porta do banheiro.

Voltou para o salão de jogos e recebeu um olhar bem atrevido de um dos funcionários, a deixando vermelha como um pimentão. Voltou para o seu lugar no canto da sala e acenou discretamente para a prima, afirmando que havia conseguido o que precisavam.

Ela olhou para a prima e seus olhos azuis claros estavam escuros. Geovanna ficou admirada. Julie estava impecável aquela noite, todos a olhavam, dividiam sua atenção entre o jogo e ela. Até mesmo Geovana ficou um pouco desnorteada com aquele olhar de sua prima. Depois de se recuperar dele, ela entendeu que era a sua hora de agir. Se levantou, dirigindo-se para fora da sala. Foi em direção ao banheiro e depois de inspecionar cada cabine, certificando-se que estava sozinha no local, pegou o número enviado por Mark e discou.

Você consegue. Você consegue…

*****

Na sala de jogo, o silêncio reinava e todos prestavam atenção nas cartas à mesa e nas reações dos jogadores. De repente, o telefone toca. Todos levantam a cabeça e encaram o terceiro jogador, o húngaro. Desconfiado, ele pega o celular do blazer e entrega ao seu segurança, que sai da sala para atender a ligação. Julie, com os olhos cerrados, fica atenta a porta vermelha que acaba de se fechar. Sua respiração é curta e seu coração se aperta. Se a sua prima não for convincente o bastante, ou se foi tola o suficiente para fazer a ligação perto demais daquela sala, seu plano vai por água abaixo. Dois minutos depois, a porta da sala se abre, o segurança usou tanta força ao girar a maçaneta que fiz um barulho alto, fazendo todos da sala de assustarem.

Ele mal adentrou a sala e se dirigiu ao seu chefe. Com a voz grossa e um pouco trêmula, ele falou rapidamente. Julie infelizmente não entendia húngaro, ninguém naquela sala parecia entender, pois todos olhavam confusos entre si. Quando o empresário ouviu o que seu segurança tinha a dizer, sua feição mudou, parecendo desnorteado. Ele se levantou da mesa e fechou o botão do blazer.

Peço perdão, mas terei que abandonar o jogo. Acabo de ser informado que minha mulher está em trabalho de parto. — informou.

Pode-se ouvir em uníssono “ohhh”. Julie fingiu um olhar doce para o homem.

Espero que venha com saúde! — desejou.

O homem acenou com a cabeça, em gratidão. Juntou suas fichas e se retirou da sala. Junto com ele, outros três visitantes e os demais jogadores também aproveitaram e abandonaram a sala. Antes que a porta se fechasse, Geovanna adentrou a sala. Ela não conseguia conter o orgulho que sentia de si mesma.

Parece que o jogo será entre eu e você, comandante. — disse Julie, o encarando.

Paulo acenou em concordância.

Assim que colocou os olhos em Julie no começo do jogo, ele achou que ela era apenas uma distração. Era algo normal em jogos de cartas onde requer bastante atenção e concentração. Uma distração poderia se sentar a mesa e jogar ou ser uma observadora, basicamente tinha o trabalho de se vestir afim de chamar atenção e desnortear os homens, para que perdessem o máximo possível. E Julie parecia o peão perfeito para isso, era uma mulher linda e charmosa. E ela jogava medianamente, ganhando algo aqui e ali, nada que chamasse atenção. Talvez fosse contratada pelo húngaro para distraí-lo, e se sim, após a sua saída, ela não teria habilidades suficiente para ganhar. O croupiêr lança as cartas novamente e o jogo retorna.

A tensão na sala parece se multiplicar. O coração de Geovana bate tão rápido que ela tem a sensação de que se pode ouvi-lo a quilômetros de distância. E ela fica ainda mais nervosa quando nota que a sua prima, Julie, parece estar desconfortável na cadeira, se mexendo de minuto a minuto, com a respiração pesada. Seu semblante, que antes era de confiança, agora demonstra sua falta.

O croupiêr anuncia a próxima pausa, que aconteceria em 15 minutos. Paulo bufa, endireita sua coluna e passa as mãos pela cabeça. Geovana podia notar que ele estava cansado.

O jogo pode terminar antes deste intervalo, será necessário a cartada final. — o mestre do jogo finaliza.

Paulo sussurra baixinho que estava preparado para encerrar. Para ele, o jogo já havia perdido a graça. Ele estava pronto para dar sua última cartada e levar para casa a fortuna acumulada do jogo. Seu companheiro, o homem que Julie precisava, sorria o encorajando.

Geovana, ao notar a cena, se pergunta se o que falta para a prima era encorajamento. Talvez ela não fosse assim tão boa no jogo, ou talvez o brasileiro fosse muito bom, qualquer que fosse, a ruiva, e todo o restante da sala, notava o nervosismo de Julie durante as últimas rodadas. Estava certo de que ela não estava em uma boa posição, e o pior, é que ela estava demonstrando demais. Entretanto, antes que ela fizesse algo — que seria estupidamente errado — sua prima começou a falar.

Não sabia que este tipo de jogo fosse tão famoso em seu país, comandante. — Julie disse, ao alinhar suas cartas, apostando mais três fichas no, já amontoado, monte.

Aprendi a jogar com os estadunidenses, querida. No meu país temos outros meios de nos distrair e ganhar dinheiro. — respondeu, como se o jogo já estivesse ganho por ele.

Julie sorriu empaticamente. O jogo já durava mais de três horas, Paulo já estava cansado e irritado de ficar naquela sala, sua coluna doía e ele tinha planos mais divertidos com as mulheres que trouxe como acompanhantes. A rodada termina e, Julie acaba por perder todas as suas fichas, ela respira fundo e Paulo dá uma risada já cansada. Não é a primeira vez que ele limpa as fichas da sua oponente. Geovana fica cada vez mais tensa. Seria isso parte do plano ou ela deveria ligar para seu irmão? Se ela somente conseguisse ler os pensamentos da prima agora… O que será que se passa pela cabeça dela?

A irritação de Paulo só subia, e a sorte de Julie parecia piorar. Todos na sala já se mostraram entediados com o jogo, e pareceu piorar quando a sobrinha de Valentina pede um café a um dos baristas. Aquela foi a gota d’água para Paulo.

Já está bem claro que você não é uma jogadora profissional de pôquer. Foi contrata para ser uma distração ou fazer o jogo durar e ser mais interessante? — disparou o homem, ríspido. — Não interessa, ainda mais agora que só tem eu e você e ele está durando horas!

Geovana sobressalta em seu banco, parecia que o homem falava com ela. O álcool em seu sangue fazia sua cabeça girar e ela apertava os olhos para se manter atenta.

Julia não demonstra nenhuma reação.

Você quer terminar o jogo? — sua pergunta é óbvia e faz o comandante respirar fundo antes de acenar com a cabeça, os olhos cravados nela. — Quer dizer, quer desistir da partida?

Você continua estendendo esse jogo jogada por jogada, eu já deveria ter ganhado esse jogo há…

E por que não ganhou? — a mulher o corta. tom de Julie é calmo e sereno. Paulo se endireita na cadeira, ele mexe o maxilar como estivesse o estralando, uma mania antiga desde que o quebrou em uma briga quando era mais novo. Julie continua. — Se eu não sou tão boa assim, por que ainda há um jogo a ser continuado?

Há um burburinho na sala, as pessoas que ali estão voltam a prestar atenção nos dois participantes como se suas vidas dependessem daquilo. Julie cruza as pernas e apoia um dos cotovelos no apoio de braço da cadeira em que se sentava, jogando o peso do seu corpo para o lado, sem tirar os olhos de Paulo. Ela se movimenta mais uma vez, na tentativa de ajustar o quadril na cadeira, ela joga seu tronco levemente para o lado, depois para a frente e finalmente encontra uma posição confortável. O comandante, e todos na sala, olharam seu movimento com suspiro. Parecia loucura, mas era a primeira vez que o brasileiro notava a beleza de sua oponente. Seu corpo, suas curvas, seu charme. Ele esboça um sorriso de lado.

Por que você ainda não ganhou esse jogo? Por que veio aqui essa noite? Por que joga? — questionou, ainda sustentando a versão de que ela estava ali a mando de alguém.



Acha que eu não tenho condições de ganhar de você? — A postura e a fala de Julie eram tão limpas como se ela tivesse ensaiado a vida toda para aquela situação. Geovana a observava meio sem entender o rumo da conversa e o que estava acontecendo naquela sala, mas como um click ela se dá conta de tudo. E é a vez dela de esboçar um sorriso de lado.

Se eu acho? Eu faço melhor, eu aposto! — disse ele, estendo os braços e depois descansando-os sobre o encosto da cadeira. — Mais uma rodada e mostramos nossas cartas. Se eu ganhar, além do prêmio em dinheiro, eu levo você.

A sugestão fez com o burburinho que havia se instalado cessasse. Geovana sentiu o rosto ficar vermelho de raiva. Como ele ousava? Ela olha para a sua prima a procura de alguma reação, porém ela continuava com o mesmo semblante sereno.

E se eu ganhar? — ela perguntou. Paulo deu de ombros ao rir da ideia de que ela poderia mesmo ganhar, mas disse que ela poderia escolher o que desejar. Ela assentiu.

O croupiêr deu as cartas. Eles apostaram. Paulo ao alinhar suas cartas riu consigo mesmo. Quatro A’s de diferentes naipes e um 8. Full house. De forma alguma a mulher a sua frente conseguiria algo maior que isso.

O croupiêr deu o sinal. Era o momento final.

Apenas me perguntando, o quão difícil será tirar esse seu vestido do seu corpo… — Ele depositou suas cartas à mesa, a mostra de todos. Todos esticaram o pescoço para ver a combinação que ele tinha e sussurraram entre si “full house” “ele fez um full house”, “o que será que ela tem?”.

Julie respirou fundo enquanto se sentava ereta na cadeira. De primeira, sua afeição mostrava que sua combinação não era tão boa quanto a dele, fazendo o sorriso do comandante se esticar. Segundos depois, pela primeira vez, ela esboçou um sorriso.

Quando meu amante terminar de arrancar o vestido do meu corpo essa noite, irei pedi-lo para te dizer qual foi a sensação.

Com firmeza, Julie colocou suas cinco cartas sobre a mesa e as abriu em leque, permitindo que sua combinação se revelasse. Até mesmo Geovana que não entendia muito daquele jogo, sabia o que aquelas cartas juntas significavam.

Paulo olhou incrédulo, e seu sorriso se deformou dando lugar a uma afeição raivosa. Ele fechou a mão em punho e a apertou com força. O som da salva de palmas preenche o lugar.

Vadia imunda. — Paulo sussurra em português.

Seja lá o que você tenha me chamado ou me amaldiçoado, eu não dou a minima. Eu quero o meu prêmio.

Geovana desfaz o sorriso e volta a sentir a tensão de mais cedo, suas mãos tremem. Ela não havia pensando em como sua prima conseguiria a informação. Simplesmente perguntaria?

E o que é que você quer? — a voz de Paulo era ríspida.

Há um silêncio. Todos se calam para poder ouvir o que ela pediria após sua vitória.

Eu quero ele. — Julie apontou para o homem que o acompanhava. Paulo se vira para ver a quem ela se referia e depois voltou a sua atenção a ela, surpreso.

Michael? E o que você quer com ele? — indagou.

Eu quero saber quem é o responsável pelas revendas de armas da Cosa Nostra para o Brasil. — perguntou.

Simples assim. Pensou Geovana, que engoliu em seco e encarou os dois homens, a espera de suas reações.

Ao citar o nome da organização, o clima na sala mudou completamente. Já não se tratava mais do jogo de cartas, ou de quem ganharia, ou da humilhante cartada final que aquele homem havia passado. Agora se tratava da organização que comandava a Itália. O continente europeu e muitos outros lugares ao redor do mundo. Citar a Cosa Nostra nos tempos atuais era como citar o nome do diabo. Ninguém podia falar sobre, caso contrário algo ruim aconteceria.

— É você? — Julie enfatizou, levantando as sobrancelhas.

Três seguranças adentraram a sala. São homens contratados por Paulo. Julie nota a movimentação, mas não demonstra nenhum tipo de reação além da sua confiança. Ninguém podia tirar isso dela.

Quem você pensa que é? — e pela primeira vez Julie escuta a voz do homem a qual tem observado a noite toda. — Você sabe quem você está citando e o que está insinuando?

Mais seguranças entram na sala, o resto dos convidados saem, só restam Geovana e o croupiêr para assistir a cena. A ruiva dá um gole final em sua bebida.

Eu sei muito bem quem eu sou, quem menciono e o que insinuo. O que ainda não sei é a resposta para a minha pergunta. Não fui clara de alguma maneira?

A voz de Julie é tão calma quanto é seduzente. Seus olhos brilham com a adrenalina. O rosto perfeitamente tombado para o lado, como se estivesse despretensiosa com aquela conversa, sem medo, mesmo sabendo que ela e a prima estavam em desvantagem, a confiança que ela remetia dava a impressão de que ela era dona do mundo. Mas ela não iria ganhá-lo sozinho essa noite. Se alguém contasse a ela o que aconteceria nos próximos minutos, ela não acreditaria.

Devemos levar as garotas para algum lugar privado, comandante? — Michael perguntou, em português. Ele se sentia ofendido pelas palavras de Julie, assim como Paulo, ele não aguentava a ideia de uma mulher sair por cima dele.

É o melhor a se fazer, não quero ter problemas nesse clube pela morte das duas.

Geovana ouvia os dois conversarem em português, ela havia feito aulas quando mais nova e teve a chance de praticar várias vezes quando encontrava brasileiros durante as suas viagens. Era impressionante como em cada canto desse mundo, há um brasileiro caloroso cheio de história para contar. Quando dois dos seguranças começaram a contornar a mesa do bar para se aproximar dela e outros dois de sua prima, Geovana relembrou da fala de Julie mais cedo naquela noite. “Você precisa se reconhecer Geovana Chiacchio. Você pertence a família mais poderosa que existe nesse país. Você pertence a Cosa Nostra e a Cosa Nostra te pertence. Não há homem que ousaria tocar em você, está me escutando? Você precisa parar de temer e fazer com que os outros temam você.”

Se eu fosse você, desistiria dessa ideia.

Paulo, Michael, e até mesmo Julie, olharam surpresos para a ruiva. Geovana segurava um copo vazio na mão e encarava o fundo dele. Depois levou o olhar para os dois homens a sua frente.

Você fala português? — Paulo questionou, atordoado. Ele não estava gostando nem um pouco daquela situação. — Quem diabos são vocês?

Geovana ignora a sua pergunta.

Você quer saber quem somos? — o tom dela é melancólico. Era a vez dela de ser teatral. — Nós somos a Cosa Nostra.

Geovana se levanta e, a passos lentos, se aproxima dos dois. Julie segue a prima com o olhar, e fica atenta a movimentação dos seguranças dos brasileiros. Paulo e Michael, a olham perplexos.

Você quer saber o porquê viemos aqui esta noite sem armas de fogo, sem proteção e sem backup? — questiona ela. Não há vestígios de nervosismo em sua voz. — Porque o nosso nome, a nossa família, é a arma mais perigosa que se existe neste mundo. Este clube é nosso, essa vila é nossa, a ilha, o país. A Cosa Nostra possui tudo, ela comanda tudo e tudo vê. E o que nós vemos agora são ratos tentando nos passar a perna. Vocês sabem o que fazemos com traidores? Você já imaginou, Sr. Comandante, sua filha Luciana, que acabou de completar seus quinze anos, ter a sua vida encerrada sem ao menos começá-la de verdade?

A informação pegou até mesmo Julie de surpresa. Paulo arregalou os olhos. Michael olhou para ele perplexo. Geovana vira o rosto para o outro homem.

A minha prima fez uma pergunta, Michael Conrrado, e ela está aguardando a resposta.

*****

Julie e Geovana caminham para fora do clube como duas modelos caminham em uma passarela. Já se passava das duas da madrugada quando o manobrista traz o carro de Julie de volta a ela e lhe entrega as chaves. Ela agradece e lhe dirige uma piscadela, o deixando sem graça e encantado. Já dentro do carro, Geovana parece respirar pela primeira vez depois de muito tempo.

Eu… Você viu… Eu falei… — a adrenalina tomava conta de seu corpo de forma que ela não conseguia mais formar uma frase.

Julia sorria.

Eu estou tão orgulhosa de você! — gritou, enquanto arrancava o carro e dirigia de volta para a mansão. — Você tem ideia do quão maravilhosa você foi lá dentro? Você assumiu quem você é Geovana! E aquela frase de efeito? Nós SOMOS a Cosa Nostra. — Julie imitou uma voz grossa. — Aquilo foi do caralho!

Geovana ria com o rosto entre as mãos. Parecia estar envergonhada, mas a verdade era que ela amou cada minuto daquilo. Uma maçã não cai tão longe da árvore, ela sempre soube disso, por isso sempre fugiu: das festas da máfia, das reuniões, até mesmo da sua família. Viajar era a sua paixão, mas no início era sua fuga. Sentir a adrenalina adentrar o seu corpo enquanto se dirigia aqueles homens foi satisfatório. Ver o temor nos seus olhos foi satisfatório. Assumir as suas raízes pela primeira vez na vida e dizer em voz alta, por mais que ela negasse, também foi satisfatório. Mas um segundo depois a imagem de sua mãe invadiu sua mente. O medo e a dor que ela deve ter sentido naquela fatídica noite… Geovana chacoalha a cabeça como se afastasse os próprios pensamentos. Julie percebe a mudança de feição da prima e resolve manter a excitação para si mesma e se acalma.

Bom, pelo menos conseguimos o que queríamos. Temos os nomes.

É, conseguimos. E agora?

Julie focou os olhos na estrada. Ela sabia o que fazer com a informação, mas a pergunta da sua prima pareceu incomodá-la de certa forma. E agora? O que de fato iria acontecer? Se houvesse mesmo uma guerra, a qual tanto se fala, quem ganharia? E quem morreria? O coração dela se aperta.

Ela não conseguiu responder a prima, e a ruiva também não estava muito interessada na resposta.


Se as duas soubessem a importância do que elas conseguiram extrair naquela noite, e de como essa história terminaria, o que de fato aconteceria naquele agora, talvez voltariam no tempo e não participaram daquele jogo. Passariam o tempo que lhe restavam… com a família.

Notas finais
alô, alô? Tem alguém por aqui? Eu nem sei como me desculpar pela ausência (minha caixa de mensagem está aberta para desabafos). Irei apenas fingir naturalidade e dizer... GEOVANA E JULIE QUE MULHERES DA PORRA! Valentina está orgulhosa das suas meninas ♥ E, aí? O que acharam? Sentindo tanta falta de vocês quanto sinto desses personagens maravilhosos. Ian de coração quebrado e pronto pra fazer uma loucura. Lorenzo e Julie únicos sensatos da família. O cerco está se fechando em minha gente! Como que a família Brian irá reagir sem suas armas? Quais as expectativas de vocês? ME CONTEM TUDO!!!!!! Xoxo, Troublemaker Girl.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.