Mirrors
36 Fear Me.
O caminho até o apartamento de Emily e Chloe parecia repleto de pedras. Cada centímetro daquela região lhes trazia uma avalanche de memórias das quais deveriam esquecer. Quatro carros as acompanhavam e aquilo era prova suficiente de que elas estavam realmente passando por isso. Ás vezes tentavam fantasiar que tudo não passava de um pesadelo, mas era o contrário: todos os momentos bons que tiveram ao lado de Ian e Lorenzo não passavam de um sonho bom. A realidade era mais embaixo. As duas desceram do carro pedindo que apenas dois homens as acompanhassem. O lugar onde moravam estava exatamente como deixaram na noite passada.
Emily foi em direção ao seu quarto, pegando uma pequena mala que havia no guarda-roupa para organizar suas coisas. Não queria levar muita coisa, apenas o suficiente. Sua cama estava uma bagunça. Na verdade, todo o quarto estava uma bagunça, exceto pela gaveta que a morena deixara para Ian. As roupas que ele usava quando estava por ali continuava milimetricamente organizada. O cheiro dele impregnava cada uma das peças e foi impossível não pegar uma somente para sentí-lo pela última vez. Sentia vontade de gritar e chorar ao mesmo tempo. Nunca havia se arrependido de nada do que havia feito, mas aquilo definitivamente era algo que merecia voltar no tempo. Sua família havia sido encontrada pela Cosa Nostra e usaram ela de isca. Pelo menos era isso que todos tentavam enfiar em sua cabeça, mas que ainda se recusava a acreditar. Como acreditaria? Só a ideia de que tudo que passou nos últimos meses era apenas teatro faz seu coração se quebrar em um milhão de pedaços de novo e de novo...
Havia o lado ruim da atuação, afinal. Ela não era nada legal quando você é a protagonista da história e está interpretando a si mesma em seu lado mais sensível.
Guardou todas as coisas dele em uma caixa, depositando sobre uma mesinha que havia no centro da sala de estar. A morena sabia que eles iriam até seu apartamento, uma hora ou outra, em busca de resposta, mas só encontrariam as lembranças de todas as mentiras que viveram. Mentiras que pareceram tão sinceras... Uma lágrima solitária escorre em seu rosto, mas ela trata de limpar quando sua prima surge no batente da porta segurando duas malas.
— Estou levando as armas que tínhamos escondido por aqui também... – Comentou quebrando o silencio que as acompanhava desde que entraram no carro.
— E os nossos passaportes? – Pergunta Emily se virando para ela, voltando a sua postura séria.
— Já estão comigo. E todos os documentos do apartamento também. Deixarei os do apartamento com o porteiro. Falei que o dinheiro da venda pode ficar com ele já que não iremos precisar disso.
— Fez bem... – A prima lhe sorri afetuosa, mas nota a caixa sobre a mesa.
— O que é isso?
— As coisas do Ian. Sei que ele e Lorenzo passaram por aqui cedo ou tarde, então... – Emily deu de ombros, deixando a razão de estar fazendo aquilo no ar, pois nem ela poderia explicar.
— Parece que pensamos a mesma coisa, afinal... – Chloe diz soltando suas malas e pegando a caixa que colocara no chão atrás de si. – Não acredito que caímos nessa cilada.
— Nem tive tempo de perguntar como você está...
— Bem. Eu acho. Meu maior erro foi me entregar ao homem errado, mas, quem não comete esse tipo de erro, não é? — Diz, apesar de ter se resolvido em partes com Lorenzo.
— Nossas mães? – A ruiva sorri de lado assentindo cabisbaixa. – Desculpe, não quis te deixar ainda pior.
— Relaxa, eu estou bem. Quer dizer, pelo menos não estaria tão bem se estivesse no seu lugar. Ainda acho que eles devem saber que eu namorei Lorenzo. Se é que aquilo foi um namoro. Não precisa levar toda a culpa sozinha, eu também aguento.
— Não, não é necessário. Você faz bem em não contar nada. Eles não precisam saber. – Sussurrou e Chloe assentiu, compreendendo. Realmente sua prima já estava ouvindo o suficiente para as duas.
— Bem, então vamos?
— Você se importa de ir com os seguranças? Eu preciso ir em um lugar antes de partirmos para o Brasil.
— Não me diga que vai até a empresa dos meninos... Emily!
— Não, não. Só vou me despedir de uns amigos. Mas, se puder inventar uma desculpa aos nossos pais, ficarei agradecida.
— Claro. Pode contar comigo. Mas, tome cuidado. – Chloe murmura abraçando a prima apertado antes de sair dali acompanhada dos homens que as trouxeram até ali.
***
Emily estaciona na porta da casa de Joe depois de checar milhares de vezes que não havia ninguém suspeito por ali. Temia que estava sendo seguida e não poderia bobear. Ela desce do carro segurando a garrafa de vodka mais cara que encontrara na loja de bebidas favoritas de seu amigo, e nem precisou bater tantas vezes na porta, pois logo ele abriu com sua cara de sono rotineira.
— Para quem detesta me ver bebendo logo cedo, chega a ser contraditório. Não que eu esteja reclamando, você sabe bem como conquistar um homem. – Ele brinca, sendo o primeiro a arrancar um sorriso sincero de seu rosto.
A ideia de que nunca mais irá vê-lo, deixa seu estomago embrulhado. Seus braços o envolvem em um abraço quase que mecanicamente. O abraço é apertado, como se seu próprio corpo não quisesse permitir ele mais distante do que isso. Agora era oficial, ela estava indo embora.
— Antes que pergunte que bicho me mordeu hoje, saiba que eu só quis te fazer um agrado. Você me aturou por muitos anos, senhor Joe. Merecia um agradecimento digno. – Ela brincou se separando dele, mesmo querendo chorar naqueles braços por tempo indeterminado.
— Por que está falando como se estivesse indo embora hoje? – Perguntou ele engolindo em seco, finalmente deixando as brincadeiras de lado.
— Porque eu estou indo embora hoje. – Admitiu Emily mordendo o lábio inferior. – E não tenho muito tempo, então...
— Emily...
— Não diz nada. Qualquer coisa que disser me fará chorar e é por isso que eu detesto despedidas, então só finge que a gente está em um dia normal, sem essa ideia de que eu estou indo.
— Sabe que não consigo. – Joe murmura.
— Eu assumi a organização da minha família. Foi meio que na marra e completamente involuntário. Quando eu vi já tinha feito e agora eu sou uma moça ocupada. – Comenta dando de ombros tentando sorrir mais uma vez, o que não era tão impossível, pois seu amigo tinha a capacidade de fazer isso mesmo quando estava bravo com ela.
— Uou! Posso saber o que aconteceu?
— A vida aconteceu. Parece que eu cometi bastante burrada aqui em Chicago, então preciso consertar todas elas sozinha.
— Do que está falando? – Joe estava completamente confuso. E a ressaca da noite passada parecia ter desaparecido. Na verdade, nunca esteve tão sóbrio.
— Você foi meu único acerto. Vê se não some. – Sussurrou deixando algumas lágrimas escaparem.
— Emily...
— Eu comprei um celular e pedi que meu tio desse um jeitinho para que ele não fosse rastreado. Você pode ligar nele sempre que precisar e eu prometo mover céus e infernos para te ajudar quando for necessário. E não pense que não esqueci de Katherine. – Ela o interrompe entregando um cartão com o número do aparelho móvel que havia comentado.
— Obrigado. Por tudo. – Joe a puxa para um último abraço. – O que será do Robin sem seu Batman?
— Acho que o Robin consegue se virar sozinho. E o Batman vai estar sempre por aqui. É só ligar. – Ela responde em meio a uma gargalhada. – Eu te amo, Joe.
— Eu sei. Sempre soube na verdade. Fico feliz que tenha admitido isso antes de ir.
— Não desse jeito idiota. – Emily se afasta lhe dando um tapa leve no ombro. – Preciso ir. Tente tirar mais informações do ocorrido com Katherine e prometo trabalhar nisso mesmo estando longe. É uma promessa.
— Certo... Se cuida.
— Você também. Não ouse se meter em confusão.
— Impossível. Eu sou a confusão em pessoa. – Retrucou ele coçando a nuca.
Emily se vira em direção ao seu carro, pronta para entrar quando sente seu celular vibrar, com o nome de Joe piscando na tela. Ela sorri abobalhadamente e, sem se voltar para ele, atende o telefonema.
— Alô?
— Já estou precisando de você.
— Eu também. Fica bem. – Sussurrou a morena, já desligando a ligação e entrando em seu automóvel, pisando fundo no acelerador e desaparecendo da visão de Joe.
***
A família Gavin Brian esperava impaciente na porta do barracão onde se instalaram durante a noite. Sophie e Ethan temiam pela sua filha a cada segundo que ela se atrasava, mesmo lutando para confiar na mesma conforme Chloe havia pedido. Como confiar? Da última vez que fizeram isso, olha o que aconteceu... Anthony caminhava de um lado para o outro segurando as chaves de seu carro. Todos ficavam com os olhos grudados nele, já que tentou ir atrás da neta cinco vezes em menos de dois minutos. Ele já estava quase tentando fugir dos olhares mais uma vez, quando ouviram o barulho de um carro se aproximando em alta velocidade. Os seguranças ficaram atentos com as armas apontadas em direção a estrada.
Não atirariam enquanto não vissem o rosto do motorista. Emily estaciona na entrada do lugar, descendo do automóvel apenas para sinalizar que era ela.
Seus pais caminham em sua direção e todos entram em seus devidos carros prontos para partir até um aeroporto abandonado onde conseguiram pousar um jatinho particular. Augustos imaginaria que eles fossem no avião comum, pois isso os deixariam mais protegidos estando no meio de todo mundo. Imaginaria que eles seriam espertos com uma estratégia assim, mas acabaram optando pelo obvio justamente pelo fato de que ele desconfiaria do contrário. A última vez que esteve em um avião foi voltando de Itália.
Itália. Caramba! Ela havia jantado na mesa da Cosa Nostra. Com Augustos. O homem que havia condenado toda sua família a morte. Havia convivido com todos eles. Como era possível que todos estivessem entrando na atuação de Ian? Se bem que Augustos não havia conseguido manter a compostura, sempre tentando deixar a morena para baixo, o que poderia explicar bastante coisa. Mas, também tinha Valentina, que parecia tão sincera. E Alicia... Havia prometido ir na festa de aniversário da pequena. Talvez nenhuma delas soubesse. Nem ela seria capaz de jogar tão baixo a ponto de trazer o inimigo para os braços de sua família. Quem é Ian, afinal? O pior de tudo isso era que seu coração ainda batia acelerado só de visualizar seu rosto, sua voz, seu toque..
“ – Vai embora, porra. – Gritou ele, dessa vez segurando Emily pelos braços, soltando ela ao se dar conta de que não foi isso que aprendeu. Precisava manter a calma. Caminhou em direção a sacada, procurando respirar como se tivesse corrido uma maratona. A morena estava surpresa, sem reação. Já viu o avô, Anthony, agir daquela maneira. Até mesmo seu pai e tios, em tempo de crise na máfia. Mas, Ian... Aquele homem conseguia ser uma caixinha de surpresas. Estava completamente alheia, sem saber como ajudar, o que fazer...
Então ela deu o primeiro passo. As pernas ainda bambas desviando de alguns cacos de vidro. Quando finalmente chegou até a sacada, seus braços sutilmente envolveram o corpo de Ian. A respiração descompassada pareceu encontrar seu rumo e se encaixar como um quebra cabeça. O rosto dela grudou nas costas dele, não antes de depositar um beijo naquela região. Ele, espantado, mas sentindo a calmaria invadir seus pulmões tão rápido como se iniciou, se virou para ela, ainda com uma carranca estampada no rosto. Emily, ao contrário, sorria, como se sua mente apagasse o que ocorrera a poucos minutos.
— Não importa o que diga, não importa o que faça... Só irei embora quando ver em seus olhos que o pedido é verdadeiro. E, adivinha? Não vi verdade em nada disso... – Sussurrou ela, o puxando para o sofá que havia na varanda e se sentando ao seu lado.”
“- Eu vim aqui essa noite para matar você, — Conta. – Mas, eu não consigo! E o pior de tudo é que eu também não quero.
Emily chora ainda mais, mas aperta com força a arma em sua mão.
— Você quer? – Pergunta ele.
Emily abre a boca, mas não diz nada. Sua cabeça dói com tudo aquilo. O que ele está fazendo, afinal. Por que está sendo gentil? Por que lhe diz tudo aquilo? E por que diabos ele não atirou? Ah, Ian, o que você está fazendo...
Antes que Emily possa enfim lhe dar uma resposta, ela vê Ian empunhar sua arma e atirar tão rápido, que ela só consegue fechar os olhos e esperar que ele a acerte e acabe logo com aquilo. Mas, o tiro não é para ela. Um homem cai morto logo atrás dela. Um homem da Cosa Nostra. Ela olha confusa para Ian.
— O que...? – Ela tenta, mas sua voz morre, sua visão está embargada por conta do choro. Ian passa as mãos pelo cabelo e a olha de uma forma tão, tão... Emily não consegue decifrar. Ian se aproxima dela, abaixa sua arma e, de forma desesperada, a beija. E ela permite.
— Vá embora, Emily. – Ian diz, segurando o rosto da morena.”
Aquele olhar... Era a verdade que ela precisou para conseguir toda a coragem do mundo e se afastar dele. O que aconteceu a deixou ainda mais confusa. Teria mesmo sido tudo mentira? Lá no fundo ela sentia que houve verdade em cada momento que tiveram. Cada beijo, cada palavra, cada confissão... Ela sentia, mas sua cabeça a traia sempre que seu coração fazia isso consigo. Sua família deixou claro que ele havia a enganado, e acabou. O avião estava sobrevoando, mas no momento em que pousasse, ela desceria dali como a nova chefe da máfia Gavin Brian. E é nisso que deve se concentrar agora.
E em nada mais.
***
A cabeça de Ian girava e girava com pensamentos aleatórios, lembranças e fatos. E quanto mais ele pensava, menos sentido tudo aquilo fazia. Sua casa estava cheia de pessoas vestidas de terno preto com o símbolo da Cosa Nostra gravado no lado esquerdo. Ian só tinha visto essa quantidade de homens quando seus avós, pais de Vitor, morreram em um acidente de avião. O funeral de Lorenzo e Margaret foi imenso. Ian tinha sete anos quando aconteceu e ele se lembra de ter ficado sentado no sofá da sala e observar aquele mar de gente de roupa preta com semblantes tristes darem condolências aos seus pais pelo ocorrido. Ele se lembra de chorar também. Chorou abraçado ao pai que ficou desolado por semanas. Chorou com a mãe, baixinho na cozinha, enquanto ela tentava anima-lo com sorvete. Chorou sozinho no quarto. Essa é a única vez que Ian se lembra de chorar quando criança.
A memória mais recente é da noite passada. Ian não gosta de admitir, mas ele chorou. Chorou porque tinha motivos para aquilo. Chorou de raiva e também por conta de seu coração partido.
Lorenzo estava a poucos metros do primo ao telefone falando com sua irmã gêmea, Geovana que, coincidentemente estava junto de Julie, a prima mais velha, em Londres. Ele tentava contar a história resumidamente, o que deixava Geovana e Julie ainda mais confusas. Por fim, Lorenzo pediu que as duas fossem o mais rápido possível para a casa da tia delas, Valentina, onde logos eles se encontrariam. As duas assentiram e assim que desligaram compraram as passagens. Lorenzo pediu uma pequena escolta para as duas, mesmo ainda confuso com essa história da família de Chloe, ele não podia fechar os olhos e acreditar que nada de mal fosse acontecer com qualquer membro da sua família. Quando desligou o telefone, voltou-se para o primo que continuava na mesma posição há horas. Sentado no sofá com o olhar distante e o semblante fechado.
Lorenzo havia se resolvido com Chloe, mas Ian... Ah, pobre Ian.
Além da decepção de toda aquela história, ainda tinha uma organização mafiosa para controlar. Todas aquelas perguntas que ele vai ter que responder, e ele nem sabia como. Lorenzo também não iria escapar do interrogatório que será feito aos dois, mas ao contrario de Ian, ele está conformado. Ele acredita que Chloe não armaria tudo aquilo, já Ian está incrédulo que se deixou levar por uma mentira bem feita. E o pior, depois que esse choque inicial passar, a raiva vai vir.
E esse lado Lorenzo não está nem um pouco ansioso para ver. Ele está temendo. E não é pra pouco. Ian vem de uma linhagem difícil. Augustos, Vitor e até mesmo Valentina quando estão enraivecidos fazem a Terra tremer. Agora imagine só o temperamento desses três em um único ser humano.
Lorenzo tem que dar um jeito de convencer Ian ao contrario antes que essa fase chegue. Se não, a guerra vai ser inevitável.
— Augustos já chegou?
Lorenzo se assusta quando seu tio Vitor aparece ao seu lado tomando um gole de whisky junto de Muriel.
— Se tivesse, essa casa já teria ido ao chão. – Diz Muriel com desdém.
— Eu não me preocuparia com a casa, mas sim com ele. – Diz Lorenzo, apontando para Ian.
— Acham mesmo que ele não sabia de nada? – Pergunta Muriel. – Vocês não sabiam de nada?
Lorenzo nega com a cabeça.
— O choque foi mútuo, acreditem. – Respondeu.
Muriel observou o sobrinho (não era parente de sangue, mas ele se considerava da família) por alguns instantes. Lorenzo percebeu o olhar pesando sobre ele e engoliu em seco.
— Acho que alguém devia ir falar com ele.
Vitor assente.
— Eu vou.
E então caminhou até o outro lado da sala, onde o filho estava e lhe estendeu a mão. Ian demorou um pouco para aceitar, mas por fim cedeu. Caminharam até o escritório ali no primeiro andar mesmo e Vitor trancou a porta ao entrarem. Ian passou as mãos pelo cabelo e respirou fundo duas vezes até se encostar na mesa e bater o punho com força sobre ela. Vitor apenas se sentou em uma cadeira de couro de frente para o filho e terminou a bebida em seu copo. Ficaram alguns minutos em silencio, até Vitor notar que seu filho estava pronto para falar.
— Quer tentar me explicar? – Disse, com o tom de voz calmo. Ele sabia que de nada adiantariam brigar ou gritar com o filho agora.
— Eu não sabia... – Afirmou. Ian sentia nojo de si mesmo. – Emily, — respirou fundo. – era só uma garota comum pra mim. Estudava artes cênicas, era estrangeira e morava com a prima em um apartamento perto do centro da cidade. Duas garotas comuns com suas particularidades e só.
— A garota fazia teatro, filho. É uma boa atriz no final das contas. Não se culpe.
Essa ultima parte pegou Ian de surpresa. “Não se culpe”? Como ele poderia se livrar assim não facilmente da culpa? Se alguém tem culpa no cartório, esse alguém é ele.
— Como pode dizer isso? – Pergunta Ian. – Tudo isso que está acontecendo, todos aqueles homens lá fora, meu avô, estão aqui porque eu e Lorenzo fomos estúpidos! – Gritou.
Vitor se levantou.
— Vocês abaixaram a guarda, isso é verdade. Mas isso acontece quando você se apaixona, Ian. Você abaixa a guarda. – A voz firme do pai fez Ian fechar os olhos, afinal ele estava certo.
— Eu não... Devia ter levado para casa. – Disse, se referindo a casa da família na Sicilia.
Vitor respirou fundo.
— Não, não devia. – Disse com raiva, mas se acalmou. – Mas você achou que estava levando uma garota comum para conhecer sua família.
— Não está com raiva? – Ian perguntou.
Vitor e Ian sempre foram muitos próximos. Ser um chefe de uma organização mafiosa poderosa e ser casado com a filha de outro chefe poderoso nunca impediu Vitor de ser carinhoso e amoroso com o filho. O ensinou a jogar bola, foi em todos os jogos do filho e sempre que a situação pedia, também o repreendia como devido. Ian tinha medo do pai quando criança, aquele medo de saber qual seria a reação do pai quando aprontava algo longe da vista dele. E Ian sentia que ele aprontou algo terrível dessa vez, algo que nem ele esperava aprontar.
— Eu estou muito puto, Ian. – Vitor respondeu, os olhos negros brilhavam. – Mas não com você. Estou bravo com toda essa situação, mais bravo ainda por ela ter caído sobre você, meu filho. E por eu não ter intervido antes que isso acontecesse. E pode acreditar que eu estou mais bravo ainda com aquela garota. – O coração de Ian saltou. – E com a família dela. E com que eles tentaram fazer com a nossa. Eu vou ficar bravo com você também, mas eu sei que você não tem culpa.
Assim que terminou de falar, Vitor abraçou o filho como não fazia há muito tempo.
Ficaram ali por alguns instantes.
— Meu avô não pensa dessa maneira. Ele acha que a culpa é minha.
Vitor assentiu.
— A história do seu avô com esse tal de Anthony é antiga e muito, muito enraizada. Faz parte de quem ele é. De quem ele se tornou. Mas lembre-se Ian, você é o chefe da Cosa Nostra agora.
Ian não entendeu o que o pai quis dizer com aquilo, mas também não teve tempo de perguntar, Vitor saiu da sala logo depois. Ele continuou ali, ainda sem saber o que fazer. Seu avô chegaria a qualquer momento da busca pela família Gavin e se ele não tiver tido sorte, iria cair em cima do neto querendo respostas. Respostas que Ian também queria.
Então Ian pensou “o que ele poderia fazer?”. Achar respostas naquele exato momento seria impossível. Poderia começar a procurar por elas, mas era isso que todos os homens que trabalham para ele estavam fazendo. Ele precisa fazer algo maior, algo mais objetivo. Algo que de alguma maneira atingisse em cheio o seu alvo, porque era isso que ele precisava.
Atingir seu alvo, leva-lo ao chão, como cinzas.
Foi ai que Ian percebeu que seu pai havia lhe dado a resposta pouco antes.
E determinado, Ian saiu da sala.
***
As labaredas de fogo cresciam e iluminavam o céu de Chicago. Parecia 4 de julho em pleno novembro. Mas, era apenas a faculdade de artes de Chicago em chamas. Porém também não era a única. Longe dali, o apartamento de Emily e Chloe também estavam em chamas. Lorenzo estava lá, se ofereceu para ir temendo que a amada estivesse na hora do ataque. O que fez Ian pensar no que ele faria para salvá-la caso ela de fato estivesse. O mesmo que ele, é claro: qualquer coisa. E foi por isso que Ian quis ir para a universidade. Não poderia lidar com aquilo. Não mais. Quanto mais o prédio ia sendo consumido pelo fogo, melhor Ian se sentia. Aquela destruição combinava perfeitamente com a que ele sentia. Aquele fogo consumindo cada parte daquele estúpido colégio passaria a mensagem perfeita. Porque Ian percebeu que ele não precisava ir a buscas de respostas, bastaria ele mandar uma única mensagem. E isso bastava.
— Mas o que diabos você está fazendo, Ian? – Augustos gritou ao saltar do carro e andar até o neto.
— Mandando uma mensagem. – Disse Ian calmamente.
— Você está chamando a atenção errada, isso sim! – Vociferou.
— Não, meu avô. Eu estou chamando a atenção certa. Eu quero que aqueles ratos saibam o que eu vou fazer com eles quando os pegarem. Algo que o senhor não pode fazer.
O olhar de Ian para o prédio em chamas era pleno como de quem observa as gaivotas na praia. A presença furiosa do avô já não mais o fazia temer.
— Quem você pensa que é? – Augustos sussurrou furiosamente para Ian, que por sua vez virou a cabeça na direção do avô e pela primeira vez desde que essa loucura começou, ele sorriu.
— Eu sou o chefe da Cosa Nostra. – Respondeu com calma. Mas logo sua afeição mudou. – E eu vou transformar em cinzas aqueles malditos do mesmo modo que estou colocando esse prédio. Esse, meu avô, é meu recado.
Dito isso, Ian deu as costas para Augustos e caminhou até seu carro, seguido por seu motorista, e partiu. Vitor, que observou a cena de longe, sorria. O filho havia entendido a mensagem. Augustos, que também não é besta nem anda, também havia entendido e nem por isso deixou de esboçar um sorriso de alívio.
Porque o momento que Lorenzo temia havia chegado.
O momento da fúria insaciável.
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