Mirrors

17 As Well As Cosa Nostra.


Assim que desligou o telefone, Ian sabia que Emily não estava bem e ele daria tudo para estar com ela agora. Mas são problemas de família e, como ela mesma disse, ela consegue resolver. Ele já estava se arrumando para ir embora quando seu celular tocou novamente. Pensou que fosse Emily, mas o nome de sua mãe brilhava na tela e ele rapidamente atendeu.

— Benedizione madre. – saudou em Italiano.

— Dio ti benedica, figlio. – respondeu Valentina. – Vi uma chamada de Lorenzo em meu celular e vi que liguei para você também. Perdi alguma coisa?

Ian sorriu ao se lembrar da ligação da irmã mais nova.

— Alicia ligou para nós. – contou. – Estava enciumada por conta do bolo que a vovó fez para comemorar o primeiro mês do nosso irmão. Ligou para desabafar. O velho drama ala Valentina. – brincou ele, rindo junto com a mãe.

— É por isso que ela sumiu durante um tempo. Depois volto de cara fechada e comeu o bolo em silêncio. Você tinha que ter visto, parecia gente grande! – riu ela, lembrando-se da cena da filha mais nova. – Vitor teve que levá-la para passear para ela desfazer a cara fechada.

— Imagino. – comentou Ian, relembrando os momentos que havia passado em família.

Os dois ficaram em silêncio e só se ouvia a respiração de cada um. Lembranças em família se passaram pela cabeça dos dois e, quase que de imediato, ambos confessaram que sentiam saudades.

— Você devia vir nos visitar. Tipo, agora! – exclamou Valentina usando o linguajar adolescente.

— Mãe, sabe que não posso. – começou ele.

— E por que não? – questionou Valentina. – As coisas estão tranquilas por aí. Eu me certifiquei disso.

— Meu avô e meu pai não vão gostar. – sussurrou Ian.

— Eles mais do que ninguém sentem a sua falta. – lembrou ela carinhosa. – Além do mais, te ver é um dos meus desejos de grávida. Então acho melhor você se apressar. – falou com alegria na voz.

Ian sorriu de orelha a orelha ao ouvir aquilo. No instante seguinte Lorenzo entrou na sala chamando o primo para ir embora quando se deparou com um Ian todo alegre.

— O que está aprontando? – indagou Lorenzo desconfiado.

— O que acha de tirar uns dias de férias?

***

Ian e Lorenzo desembarcaram em Sicília ao meio dia no aeroporto particular de sua família. Durante a viagem de carro até a casa, Ian contou a seu primo sobre a também repentina viagem de Emily e Chloe. Lorenzo afirmou ter recebido algumas mensagens de Chloe, mas nada que revelasse muito sobre os tais problemas familiares que ela está passando.

— Seja como for, vamos aproveitar nossos dias aqui. Nada de tocar nos nomes das meninas, por favor. Sabe como é minha mãe... – pediu Ian.

Lorenzo revirou os olhos.

— Por favor, Ian. Sua mãe já está cansada de ouvir nomes de garotas com quem dormimos e nunca se apegou a nenhum deles. Não será agora que...

— Eu estou te pedindo, Lorenzo. – pediu Ian de modo autoritário. – Não toque no nome das meninas. Por favor.

Lorenzo levantou as mãos ao alto em forma de rendição e assentiu.

— Você é quem manda.

Ian agradeceu o primo com um meio sorriso e, assim que o carro estacionou na frente da casa, a porta se escancarou antes mesmo de Ian pensar em abri-la. É Alicia.

— Você veio! Você veio! Você veio! – exclamou ela, pulando dentro do carro e o abraçando.

Ian esbugalhou os olhos, mas aceitou de muito bem agrado o abraço da irmã mais nova.

— E o primo mais legal do mundo? Não recebe abraços? – questionou Lorenzo cruzando os braços fingindo estar bravo.

Alicia olhou para trás. A pequena não se continha de tanta felicidade. Seu irmão e primo favoritos estão ali com ela, como desejou. Largou o pescoço de Ian e pulou no colo de Lorenzo, lhe beijando as bochechas. Ian e Lorenzo saltaram do carro com a pequena e ela começou a correr em volta deles, gritando de alegria. Seus cabelos castanhos claros batiam um pouco abaixo do ombro, lisos. A pele clara, o rostinho pequeno, o jeito meigo – o jeito “mandão” – o sorriso... Cada traço lembra perfeitamente Valentina e isso ninguém pode negar. Alicia usa um vestido florido com um casaquinho cor de rosa claro por cima. Sapatilhas brancas nos pés e uma tiara vermelha na cabeça. Como uma verdadeira princesa.

— Onde está a mamãe, Alicia? – perguntou Ian, pegando a irmã no colo.

— Está no quarto. Ela acabou de chegar do médico. Ela e o papai estavam brigando. – sussurrou ela, como se contasse um segredo.

Ian olhou preocupado para Lorenzo, que sacudiu a cabeça, também preocupado.

—Ian, meu neto! – exclamou Catarina, mãe de Valentina e esposa de Augustos.

Ela desceu a escadaria de pedra até o pátio e abraçou o neto até ambos perderem o fôlego. Já na casa dos sessenta, Catarina continua advogando em certas ocasiões. Os cabelos, já brancos, estão sempre presos em um coque. As roupas deixaram de serem justas, mas nunca sofisticadas. Assim como todos os membros da família Baldocchi, a superioridade ainda a acompanha aonde quer que ela vá e ela continua sendo a âncora da família. Valentina não saberia dizer o que seria dela sem a mãe. Augustos muito menos.

— É tão bom te ver aqui novamente! – disse ela.

— É bom estar aqui, vovó. – confessou Ian, alegre por vê-la.

— Lorenzo, meu querido. – cumprimentou ela, o abraçando também. – Também senti a sua falta. Você está muito lindo, e as namoradas? – perguntou sorrindo.

Todos riram e Lorenzo apenas sacudiu a cabeça, brincando que ele havia perdido a conta. Ian passou Alicia para o colo de Lorenzo e chamou sua avó para mais perto.

— Alicia disse que minha mãe e meu pai brigaram. – sussurrou. – O que aconteceu? – perguntou preocupado.

O semblante de Catarina ficou sério e o de Ian e de Lorenzo, que ouvia a conversa de longe, também ficaram.

— Vamos deixar essa conversa para mais tarde, tudo bem? – cochichou ela, sorrindo de lado e tentando não parecer preocupada.

Ian ficou intrigado, mas assim como Lorenzo, assentiu. No instante depois, Valentina surge ao pé da escadaria. Ao ver o filho, abriu um sorriso enorme e suspirou aliviada. Seu filho havia voltado para casa. Desceu a escadaria pulando os degraus enquanto segurava a barra do vestido longo que vestia. Os cabelos, assim como o da filha, estavam soltos. O vestido longo de alcinhas é da cor de azul marinho, soltinho e leve.

— Meu filho está em casa. – exclamou ela, se lançando nos braços do filho. — Mio figlio.

— Mia madre. – sorriu Ian, abraçando a mãe com força.

Valentina se afastou apenas para ver o sorriso do filho, depois acariciou-lhe o rosto, sorrindo com ternura e se afastou, indo até Lorenzo e lhe dando um abraço de urso também. Valentina tinha Lorenzo como um filho, assim como Ian, já que ela o praticamente o criou, junto de Miguel e, desde a primeira vez que o pegou no colo, nutriu um amor maternal pelo sobrinho.

— Mio Dios, como estão belos os meus meninos! – disse Valentina, analisando os dois. – Não quero nem imaginar os rastros de perfumes que vocês devem estar deixando para trás.

— Você não faz ideia, tia. – comentou Lorenzo sorridente.

Ian balançou a cabeça rindo do primo. Alicia acabou puxando Lorenzo para brincar de pega-pega e ficou os dois correndo pelo pátio animados. Ian, Valentina e Catarina ficaram admirando a cena. Valentina, ao ver a filha correndo alegremente, acabou se emocionando e Ian logo notou. Passou o braço pelo ombro da mãe e a confortou.

— Ela é uma menina linda. – paparicou o irmão.

— Sim, ela é. – concordou Valentina, passando a mão por debaixo dos olhos.

— Está assim por conta da gravidez ou por que você sempre foi muito chorona mesmo? – brincou Ian.

Valentina olhou para o filho, fingindo estar ofendida e lhe deu um tapa fraco no ombro.

— Sou tão chorona quanto poderosa, meu filho. – disse ela, piscando para ele.

Ian olhou nesse momento para a mãe com admiração. Orgulhoso.

— Venham, vamos entrar. O almoço já vai ser servido. – anunciou Catarina, abraçando Ian e logo depois, Lorenzo. Alicia correu para perto da mãe. – Mandei preparar o prato favorito dos dois!

Os dois sorriram se sentindo mimados e entraram na casa. Valentina e Vitor se mudaram para Sicilia quando Ian começou a assumir os negócios da família e compraram uma mansão na praia. A mansão é uma mistura de casarão antigo com a modernidade de uma casa na praia. A entrada da casa, por onde Ian e Lorenzo chegaram, mais lembra uma casa antiga, por conta das paredes altas de pedra, a escadaria, também de pedra, um chafariz no meio com uma escultura das letras C e B, representando os sobrenomes da família Chiacchio e Baldocchi. As paredes são cobertas por uma vegetação, dando um ar ainda mais pesado de uma velha vila italiana. Porém, quando se entra na casa, nada da vila se é lembrado.

As paredes são brancas e quase todas de vidro. Os moveis claros, intercalando entre uma paleta de cores que foi seguida rigidamente pelos decoradores, dão a casa o charme e o conforto de que ela precisa. Os quartos ficam no segundo andar da casa, e é para lá que Alicia arrasta Ian e Lorenzo, para mostrar-lhes sua nova coleção de bonecas. Ambos conseguiram se esquivar do convite, dizendo que precisavam de um banho antes do almoço e a pequena concordou, dizendo que mostrava mais tarde.

Ian foi para o seu antigo quarto e tomou um banho rápido. Colocou uma roupa fresca, bermuda jeans e uma camiseta branca de gola V, e desceu para a cozinha. Antes, passou pelo quarto de Alicia para ver se ela estava, mas o quarto se encontrava vazio. Ele deu uma rápida olhada por ele e viu que ela havia mudado a decoração – algo que ela vazia com frequência. As paredes continuam rosas, porém os brinquedos e os moveis estão diferentes. No canto, perto da penteadeira, Ian notou dezenas de bonecas que pareciam novas e chegou a conclusão de que aquela era a nova coleção de bonecas da irmã. Ele riu e deixou claro para si mesmo tentar ao máximo fugir da irmã quando ela tentasse lhe mostrar seus novos brinquedos. Devia ter mais de duzentas peças novas ali.

Ainda rindo disso, Ian desceu as escadas e resolveu ir à procura do pai. Foi até seu escritório e o encontrou em pé, do lado da mesa lendo alguns papéis apressados. Vitor Chiacchio continua sendo o mesmo homem de vinte e quatro anos atrás. Concentrado e focado em seus negócios, mesmo não comando diretamente sua Máfia e a Cosa Nostra, ele continua a par dos negócios, sendo o braço direito de seu filho, Ian. A musculatura de Vitor não mudou muita coisa. Ele sempre se exercitou e, como Valentina gosta de dizer, humilha muitos novinhos por aí. Os olhos negros continuam intimidando as pessoas e sua postura de gente importante deixa muita gente de cabeça baixa.

— Pai? – chamou Ian.

Vitor rapidamente desviou sua atenção do papel e se virou para Ian, feliz ao vê-lo.

— Filho!

Vitor largou os papéis na mesa e se apressou para ir abraça-lo. Vitor sempre foi um pai amoroso, mesmo pegando nos pés de Ian agora, por conta da Máfia, ele nunca escondeu o amor que sente pelo seu primogênito.

— Eu já estava indo procurá-lo. – confessa Vitor, se afastando. – Só vim revisar alguns contratos de entrega de mercadoria que seu avô me enviou. Alicia entrou gritando e os jogou pelos ares, tive que organizar antes de sair. – explicou, indo se sentar atrás de sua mesa e oferecendo o lugar à frente ao filho.

— Tudo bem. Cheguei e fui direto para o banho. – disse Ian, se acomodando na cadeira.

Vitor assentiu.

— E Lorenzo? Onde está? – perguntou.

— No banho, provavelmente. – respondeu Ian, pegando o celular para mandar uma mensagem para o primo. – Vou avisá-lo que estamos aqui.

Feito isso, Ian pegou um dos papéis em cima da mesa do pai e os leu.

— Vão receber mercadoria? – perguntou intrigado.

— Sim, vamos. Armas. – contou Ian.

— Pelo jeito vocês continua na ativa por aqui. – brincou Ian. – De quem irão comprá-las?

Vitor respirou fundo e se encostou no encosto da cadeira e encarou o filho.

— Para o IRA. – respondeu, encarando logo em seguida a expressão de espanto do filho.

Ian arregalou os olhos.

— O verdadeiro IRA? – questionou.

Vitor assentiu.

— Os verdadeiros, filho.

Ian continuou encarando o pai esperando que ele dissesse que era tudo brincadeira, mas Vitor não o fez.

O exercito republicado irlandês, mais conhecido como IRA, é um grupo de separatistas que pretendia separar a Irlanda do norte do Reino Unido. Eram um grupo de políticos e católicos que agiam como terroristas e praticavam ataques violentos por todo o território Irlandês. Enfim, a história deles é longa e sangrenta. Com o fim do movimento, em 2005, IRA se tornou a maior rede de tráfico de armas do mundo. Melhores até que os alemães. São tão poderosos quanto a Cosa Nostra e mais racistas que Hitler um dia já foi. Produzem as melhores armas, importam e exportam armamentos pesados o suficiente para darem inicio a terceira guerra mundial. Resumindo, eles são uns grandes filhos da puta! Assim como a Cosa Nostra.

Porém eles não se gostam. IRA é católico demais para os mafiosos. E possuem muito menos piedade do que a Cosa Nostra. É como uma guerra de poder, de reconhecimento, de espaço. Mas acima de tudo, eles são aliados. É por isso que Ian estranha quando descobre que ambos irão negociar, eles nunca misturaram os negócios. Era cada um no seu canto. Só se juntavam quando uma ameaça maior aparecia. E é isso que faz Ian arregalar os olhos mais uma vez.

— Estamos com problemas? – perguntou.

— Não, só queremos renovar. – disse dando de ombros.

Lorenzo entrou no escritório antes que Ian abrisse a boca para falar novamente.

— Tio! – exclamou Lorenzo contente, indo abraça-lo.

Vitor se levantou e foi até o sobrinho, o abraçando.

— Como anda as coisas, Lorenzo? Ian anda dando muito trabalho? – perguntou Vitor, voltando a se sentar. Lorenzo se sentou ao lado de Ian, de frente para o tio.

Lorenzo sorriu divertido.

— Você não faz ideia! – brincou. – E o senhor? Como anda a aposentadoria?

Vitor, que antes sorria, fechou a cara para o sobrinho ao ouvir aquilo. Vitor odiava quando as pessoas o comparavam com um aposentado. Ele continua fazendo seus negócios e, vez ou outra, se mete em um tiroteio, mas as coisas não são mais quando se era jovem e, mesmo que Vitor não goste de confessar, ele sente falta da ação de antigamente.

— Insinue isso mais uma vez e eu te mando para o olho da rua. – rosnou Vitor.

Lorenzo e Ian sorriram. Lorenzo é o mais brincalhão da família e ele não perde a chance de zoar com alguém quando tem chance. Ele e Geovana são assim. A quem diz que eles passaram muito tempo com Valentina e Lia e pegaram o jeito da coisa. Mas Miguel, o pai dos gêmeos, diz que eles puxaram mesmo a mãe, que adorava fazer piadas e estava sempre alegre. Tanto Geovana quanto Lorenzo adoram quando o pai os comparam com a mãe, isso faz com que eles se sintam, de alguma maneira, mais perto dela.

— Que isso, tio. Todos nós envelhecemos algum dia. – continuou Lorenzo e Vitor revirou os olhos para o sobrinho, fazendo Ian e Lorenzo rirem ainda mais.

— Parece que o conforto de Chicago está deixando vocês muito metidos. Talvez um treinamento rápido lembrem vocês seus devidos lugares. – ameaçou Vitor, com um sorriso de lado.

Ian e Lorenzo se entreolharam.

— E que tipo de treinamento seria? – indagou Lorenzo, mostrando um dos seus sorrisos de banda.

— Daqueles que te joga no chão e te enche de porradas. – disse Vitor fitando o sobrinho.

— Isso vai ser interessante. – comentou Ian observando os dois. – Mas antes que vocês se matem, será que você nos deixará ir com você quando for fechar o negócio com o IRA?

Lorenzo olhou assustado para Ian quando ouviu ele mencionar o IRA.

— Espera! Você disse fechar negócio com o IRA? – perguntou perplexo, mas não escondendo a sua animação. Ian assentiu. – Uau. Isso é grande. Desde quando fazemos negócios com os irlandeses?

— Desde agora. Não é grande coisa, mas é algo importante. O IRA e a Cosa Nostra são como dois irmãos mimados que se odeiam. Vivem comparando a grandeza de seus poderes. Só se unem quando querem algo em comum: acabar com o mesmo inimigo e lucrarem mais. Foi o seu avô que os contatou. Valentina o ajudou na negociação. Serão três carregamentos de armas. A primeira veio com mais de duas mil armas. Desde AK-s à mísseis de longo alcanço. Essa será a segunda entrega.

— E por que meu avô pediria todas essas armas? – interrompeu Ian, surpreso com a informação.

Vitor balançou a cabeça.

— Ele diz que é só por precação. Mas são armas potentes demais e em grande escala para quem quer só se precaver. — Ian e Lorenzo concordaram pensativos. – Enfim, iremos nos encontrar com eles depois do almoço. Estão mais do que convocados para essa reunião. Talvez vocês me ajudem a descobrir o que está acontecendo. – completou Vitor, se levantando, seguindo para a porta.

Os meninos assentiram, o acompanhando.

— Claro que iremos. Mal posso esperar para ver tia Valentina negociando com os irlandeses. Ela sempre contava histórias engraçadas sobre eles e...

— Valentina não irá a essa reunião. – cortou Vitor, sério.

Lorenzo esbugalhou os olhos quando seu tio o cortou daquele jeito. Vitor encara Lorenzo como um predador encara sua presa e Ian notou a tensão em seu pai. Ele se colocou entre o pai e o primo, fazendo com que Vitor percebesse o que estava fazendo e recuasse.

— Isso por acaso tem haver com a briga que Alicia comentou conosco mais cedo? – perguntou Ian calmamente.

Vitor se virou para a porta e passou as mãos pelo cabelo, respirando fundo.

— Alicia te disse isso? – questionou, parecendo estar desapontado. – Não queria que ela tivesse ouvido, mas às vezes sua mãe me tira do sério.

— Vai nos contar o que houve? – arriscou Ian, se aproximando do pai.

Vitor recua e abre a porta do escritório e se vira para os dois.

— Não, uma outra hora. Vamos, devem estar nos esperando para almoçar.

Ambos assentiram e caminharam juntos para a cozinha. Vitor bateu no ombro de Lorenzo, como quem pedisse perdão e o menino sorriu, como quem entendesse a situação.

Chegaram a sala de jantar e estava quase todos prontos, apenas esperando os três. Muriel, Lia e a filha do casal já haviam chegado e a pequena Bella correu para abraçar os três, assim como seus pais.

— Tios! – gritou Bella ao vê-los.

Bella tem os cabelos tão pretos quanto o carvão e são cortados na altura do queixo, fazendo com que a pequena se pareça ainda mais com a princesa que adora, Branca de Neve. Tem o rostinho pequeno e redondo e é um pouco mais branca que Alicia que, de tanto dias de sol na praia, acabou ficando um pouco morena. Bella puxou o pai e herdou seus olhos azuis e encanta qualquer um que a vê. Diferente de Alicia, que não se apega a quase ninguém, Bella distribuiu amor e carinho a qualquer um. Porém, sendo filha de Muriel, acaba sendo a mais arteira da família.

— Dios Mio, como está bela essa Bella. – exclamou Lorenzo, que foi o primeiro a abraçá-la.

— Você rimou o meu nome! – gritou a menina contente.

— É que o seu tio aqui está pensando em virar rapper. Aí eu ando praticando. – disse, piscando para ela e arrancando risadas de todos.

Bella desceu do colo de Lorenzo e foi abraçar Ian.

— Tio Ian, o que é um rapper? – sussurrou ela ao seu ouvido.

Ian riu.

— Nem queira saber, Bella. – contou, dando um beijo estralado em sua bochecha logo depois.

Bella se afastou de Ian e correu até onde Alicia estava e a abraçou também. As duas são melhores amigas e vivem juntas. Assim como as mães, que não se largam. Elas se sentaram juntas e, suas mães, ao lado de cada uma.

Todos se sentaram à mesa e logo o almoço foi servido. Augustos, o único que havia chegado em cima da hora, estava sentado na ponta da mesa, como um patriarca. Vitor se encontrava na outra ponta. Ian olhou para o avô e, com um aceno de cabeça, o cumprimentou. Augustos retribuiu o aceno e suavizou o rosto, sorrindo para o neto.

Logo, a mesa foi engolida por conversas paralelas, risadas e gritarias. Todo mundo conversavam com todo mundo. As crianças riam e os adultos se divertiam ao contar histórias antigas, relembrando os velhos tempos. E assim foi da entrada até a sobremesa. Ninguém se cansava daquela euforia, muito pelo contrário, sentiam falta da bagunça que era quando se estava em família.

Quando a mesa já havia sido tirada, foram todos para a sala, a fim de se sentirem mais relaxados. A comida farta estava agora pesando em todos, apenas Alicia e Bella não se sentiam cansadas e corriam uma atrás da outra.

— Mamãe, podemos ir brincar na praia? – perguntou Alicia, se jogando no colo da mãe.

— É, mamãe, por favor, deixa a gente ir?! – insistiu Bella, fazendo o mesmo com Lia.

Lia e Valentina se entreolharam exaustas e riram ainda mais cansadas. Valentina chamou uma empregada e pediu que acompanhasse as duas crianças até a praia – que ficava em seu quintal. – e que ficasse de olho nas duas. Catarina resolveu acompanhá-las.

— Bom, acho que já está na hora de irmos nos encontrar com os irlandeses. – anunciou Muriel, se levantando. – Coloquei até uma cueca verde em consideração a nossa amizade. – informou e os presentes riram.

— Se eu soubesse que iria encontrar os irlandeses, teria comprado uma saia de presente, algo assim. – completou Lorenzo, entrando na brincadeira também.

Todos riram. Exceto Valentina.

— Vocês vão ao encontro com os irlandeses? – indagou ela, parecendo impaciente.

Todos ficaram em silêncio e Valentina encara Vitor, que sustenta seu olhar o máximo que pode.

— Sim, eles vão. Afinal, são eles que comandam a nossa charter agora. – respondeu Vitor dando de ombros.

Valentina forçou um sorriso.

— Chamei meu filho para me visitar e passar um tempo com a nossa família, não para você arrastá-lo a encontros mafiosos. – disse, se segurando para não alterar o tom de voz.

— Esse é o trabalho deles, Valentina. – Vitor disse bruto.

Eles se encararam e Valentina engoliu em seco, sem perder a pose. Deu um sorriso fraco para todos ali e se retirou, indo para a praia atrás das meninas. Lia a seguiu sem pensar duas vezes.

— Mas o que diabos está acontecendo? – esbravejou Ian.

— Nada. – Vitor disse antes de se levantar e desaparecer pela porta da frente.

***

Estavam Vitor, Ian e Lorenzo em um carro e Augustos e Muriel em outro. No total, são cinco carros no modelo Mercedes-Benz G63 AMG dando total segurança para os mafiosos mais poderosos do mundo. Vitor vai passando as informações necessárias para Lorenzo e Ian, quando este resolveu saber o que estava acontecendo entre o pai e a mãe.

— Sem mais delongas, pai, o que está acontecendo entre você e a mamãe? – interrogou Ian.

Vitor fica incomodado com a pergunta, já que não é de discutir sua relação com seu filho e sobrinho. Mas entende que os dois só querem ajudar e entender o que se passa. Ainda mais com Valentina grávida.

— Estamos discutindo desde semana passada, quando voltamos do ultrassom. A gravidez de Valentina é de risco, mas ela é teimosa demais para aceitar que qualquer erro de nossa parte possa fazer com ela perca o nosso filho. Esses encontros com os irlandeses... Nunca a deixaria vir, por mais que as reuniões sejam demasiadamente tranquilas, a tensão delas já acaba com sua mãe, que tenta fingir que está tudo bem. Andamos brigando desde que eu decidi que ela não participaria mais dos encontros.

Ian assente, entendendo a situação.

— Mas a minha mãe é teimosa demais para aceitar. – complementa Ian.

Vitor concorda.

— Eu sei que não sou dono dela, nunca achei isso. Valentina tem autonomia e é ótima no que faz. Odeio obrigá-la a alguma coisa que não queira, sempre acabamos discutindo por conta disso. Mas vocês tem que entender que, se essas reuniões fossem seguras, não estaríamos sendo escoltados por cinco carros de luxo fortemente blindados. – esclareceu Vitor. – E eu a amo demais para deixar qualquer coisa acontecer a ela ou ao bebê. É uma gravidez complicada, e vocês se lembram de como foi difícil quando ela estava grávida de Alicia. Só quero que aquilo não se repita e ela não sofra. Mas se para isso acontecer eu tiver que ser o vilão da história, eu não me importo.

Ian e Lorenzo ficaram sem reação ao ouvirem a declaração de Vitor. Agora que estão a par dos acontecimentos, eles entende o lado de ambos nessa briga de casal. Valentina odeia ter que receber ordens. Afinal, ela é uma Baldocchi, nasceu para mandar. E Vitor, odeia colocar a amada em risco, ele a coloca a frente de qualquer coisa. É lógico que eles acabam brigando quase sempre em situações como essa, mas Ian e Lorenzo sabem que, como das outras vezes, eles acabariam se resolvendo.

— Não se preocupe tanto assim, tio. A tia Valentina vai acabar percebendo que o que você faz é apenas para protegê-la. Não demorará muito para vocês voltarem ao normal. – confortou Lorenzo.

— Ele está certo, pai. Mamãe vai entender. Só a deixe informada sobre tudo e ela ficará contente. Sabe que ela adora se envolver, tem que entender que, quanto mais perigoso, mais atraída minha mãe se sente. – Ian lembra, fazendo ambos sorrirem. – E fazer negócios com o IRA é algo que não acontecesse em décadas, era de se esperar que ela ficasse animada. Só tenha paciência, logo ela terá também.

Vitor sorriu.

— Espero que estejam certos. – nesse momento, os carros pararam e Vitor analisou pela janela o ambiente lá fora. – Chegamos.

Dito isso, saltaram para fora do carro no mesmo instante em que Muriel e Augustos também saíram. O local do encontro é em um armazém abandonado, utilizado por Augustos de vez em quando para fiscalização de mercadorias. Fica no meio do nada em uma cidade vizinha, longe dos olhos curiosos de algum morador ou turista.

Os irlandeses já haviam chegado e os esperavam sentados em baixo de uma tenda improvisada. Todos bem vestidos e com o nariz em pé, a superioridade os rodeavam, assim como o pessoal da Cosa Nostra. Augustos se adiantou e caminhou até Gaalan, um dos representantes do IRA.

— Gaalan. – cumprimentou. – Espero que não tenha esperado muito por nós.

Gaalan balançou a cabeça.

— Quase nada, velho amigo. – respondeu.

O sotaque irlandês pesado vazia de Gaalan, e de qualquer outro irlandês que more fora do país, ficar irresistível. Gaalan, por sua vez, é um homem alto e robusto. Deve ter a mesma idade de Vitor, quarenta e quatro, e assim como ele, é um homem bonito. O loiro escuro do seus cabelos se contrastam com o mel de seus olhos. Gaalan não é casado, mas se envolve sempre com uma mulher diferente. E mesmo sendo católico fervente – assim como todos os membros do IRA. – ele acha seus envolvimentos insignificantes e sem importância.

— Estes dois aqui são Ian, meu neto, e Lorenzo, seu primo. – apresentou Augustos.

Gaalan analisou os dois jovens e só depois estendeu as mãos.

— Ian, o herdeiro do império e Lorenzo, seu consiglieri. – exclamou. – Não esperava vê-los aqui hoje.

— Muito menos nós. – respondeu Ian firmemente, fazendo o homem sorrir.

Gaalan se virou para Vitor.

— Seu filho tem pulso firme. Gostei disso. – o cumprimentou e em seguida Muriel. Depois disso olhou ao redor a procura de mais alguém. – Onde está Valentina? – indagou.

— Teve que se ausentar no encontro de hoje. – respondeu Vitor.

— Oh, é uma pena. Espero vê-la em outra ocasião.

— Temo que isso não vá acontecer, Gaalan. – informou Vitor, chamando a atenção de todos.

Gaalan pareceu chateado com a falta de Valentina e isso deixou Vitor bastante irritado. Isso deixou claro para Ian que, além de estar preocupado com a saúde da mulher, seu pai também estava com ciúmes dela com o irlandês. Ele riu sozinho ao pensar sobre isso, mas ele não havia sido o único a notar. Todos ali já haviam notado.

— Espero que a falta da minha filha não interfira nos negócios. – contestou Augustos, sorrindo de maneira enigmática.

Gaalan se virou para ele e negou, os convidando para entrar no galpão, onde as armas estavam expostas.

— As AK-s estão ali. Seiscentas distribuídas em cem caixas, contém seis em cada uma. Trouxemos rifles de longo alcance, cinquenta no total. Essas estão ali. Aqui temos seis pares de mísseis. Meia dúzia de fuzis e, de brinde, trouxemos uns band-aid, no caso de alguém se machucar. – informou Gaalan, sorrindo no final.

Os cincos analisaram os caixotes de madeiras empilhadas pelo galpão. Augustos fez um sinal para que seus homens analisassem o conteúdo de cada uma e se certificassem de que estava tudo de acordo. Foram necessários vinte minutos para que tudo fosse averiguado, mas antes que qualquer um ali respirasse aliviado, um dos homens de Gaalan entrou no galpão nervoso, exclamando que carros estavam se aproximado.

Gaalan xingou baixinho.

— São os franceses. – informou. – Acho que eles não gostaram nem um pouco da ideia de compartilhar o carregamento com vocês.

— Odeio os franceses. – rosnou Muriel, se aproximando de uma das caixas de míssil e a abrindo.

Gaalan se aproximou dele furioso.

— O que diabos você pensa que está fazendo? – vociferou.

Muriel deu um sorriso de lado.

— Se você não se importa, eu vou torrar um bando de frescurentos antes que eles encham o meu e o seu traseiro de balas. – respondeu na ironia. – Além do mais, temos que testar a potencia dessas belezas antes da compra, concorda?

Gaalan suspirou quase que soltando fogo pelas ventas. Mas concordou com Muriel.

— Quantos carros são? – perguntou Ian ao homem de Gaalan.

— Quatro. Acho que eles não sabem que estamos com as armas aqui, devem achar que estamos apenas acertando os detalhes, caso contrário, nunca teriam aparecidos.

Lorenzo se aproximou.

— Ele tem razão. Estamos com um estoque para destruir uma cidade, eles não seriam loucos de vir atrás de nós se soubessem que isso se trata de uma entrega. – disse ele ao primo.

Ian não parecia convencido.

— Ou talvez eles esperassem nos surpreender e roubar a mercadoria. De qualquer forma, morreram hoje mesmo. – disse. – Vocês, peguem as AK-s e os rifles e as carreguem, estejam preparados para atirar assim que eu mandar. – gritou Ian para os homens de Gaalan e para os seus. Ambos obedeceram, contrariando Gaalan e o deixando levemente irritado.

— Apenas eu dou ordens em meus homens, querido Ian. – sussurrou ele em direção ao chefe da Cosa Nostra.

Ian o encarou com um ódio mortal e se aproximou de um dos líderes do IRA.

— Eu não dou a mínima para você e seus homens, pois como você notou, quem dá as ordens aqui sou eu. O chefe da Cosa Nostra. – vociferou. – E você não acha estranho os franceses terem conseguido a nossa localização e aparecer justo na entrega das armas? Porque eu acho isso muito estranho. E digo mais, Gaalan, se eu descobrir que isso foi uma emboscada, eu irei acabar com você e o seu negócio de armas. Estamos entendidos?

Gaalan estava vermelho de tanta raiva. Ele não podia acreditar que um garoto daquela idade o estava afrontando daquela maneira. Mas estava acontecendo e Augustos nunca sentiu tanto orgulho de seu neto na vida.

— Está dizendo que eu os traí? – exclamou Gaalan.

Ian sacudiu a cabeça.

— Apenas disse que se eu descobrir que você está no meio disso, farei com que você pague caro.

Ian e Gaalan travaram uma batalha de olhares e Vitor e Augustos os observavam cautelosos. Ambos orgulhosos da atitude do herdeiro.

— Então, mais alguém aí está interessado em explodir alguns franceses? – Muriel gritou, já indo para fora do galpão com um míssil no ombro, sorrindo de orelha a orelha.

Vitor sentiu a adrenalina correr pelo seu corpo e também pegou um dos projéteis e o ajeitou em seu ombro, seguindo Muriel.

— Peça para que seus homens se prontifiquem que nenhum de nós saia ferido daqui. — Ian falou para Gaalan enquanto ia atrás do pai.

Quando saiu, Ian pode ver quatro carros se aproximando ao longe. Seus homens saiam apressados de dentro do galpão e se posicionavam, mirando nos carros e esperando a ordem para atirar. Lorenzo pegou duas AK-s e as carregou, entregando uma para Ian.

— Vitor, você mira nos dois últimos e eu nos dois primeiros, combinado? – combinou Muriel, animado. – Dios Mio! – exclamou com um sotaque italiano fajuta. – Eu sempre quis usar um desses!

Vitor, Ian e Lorenzo riram da animação exagerada de Muriel e se preparam. Muriel e Vitor foram para frente do grupo e em questão de segundos dispararam o míssil, que saiu rasgando o ar. Cada um conseguiu pegar dois carros, que explodiram. Quando os outros carros já estavam perto o suficiente, Ian deu a ordem e todos começaram a atirar.

Mas como o previsto, os carros eram blindados e, pela proximidade, nunca que Muriel ou Vitor conseguiriam tempo para pegarem outros míssil e atirar. Ian gritou para que tentassem os pneus e deu certo. Um dos carros foi atingido e perdeu o controle. O último carro acelerou e todos perceberam que esse não haveria modo de parar. O carro corria em direção ao galpão e não pretendia parar.

— Ele vai direto para o galpão. – gritou Lorenzo. – Ele vai explodir com a colisão!

— Puta que pariu!

Ao ouvirem Lorenzo, todos se desesperaram e Vitor gritou para que seus homens tirassem Augustos e Gaalan a tempo do galpão. Todos saíram correndo para os lados tentando ao máximo não serem atingidos pela possível explosão. E quando o carro finalmente atinge seu alvo, tudo foi para os ares!

***

— Fui tudo planejado. O carro estava cheio de dispositivos de bombas, qualquer batida e o carro explodia. Eles queriam que as armas fossem destruídas. – Lorenzo diz.

Augustos revira os olhos.

— Eles devem achar que estamos nos preparando para acabar com eles.

Gaalan interviu.

— E não estão? – questionou.

Augustos o fuzilou.

— Não, não estamos.

O irlandês deu de ombros.

— Olha, ninguém se feriu, mate alguns franceses e está tudo certo.

Vitor, que até então não havia aberto a boca, se enfureceu com as palavras de Gaalan e o pegou pelo colarinho, o prensando no carro. Os irlandeses apontaram suas armas e logo a Cosa Nostra fez o mesmo.

— Matar alguns franceses? Você está de brincadeira comigo, seu irlandês de merda?! Sabe o que teria acontecido se Valentina estivesse aqui também? Ela poderia ter se ferido, o bebê poderia ter se ferido. – gritou vermelho de raiva. – Eu vou aniquilar esses franceses e se o meu filho estiver certo sobre você os ter ajudado, Gaalan... Nenhum dos seus santos vai poder te ajudar quando eu for atrás de você! – vociferou, o soltando em seguida.

Gaalan ficou estático com a ameaça e mordeu a língua de raiva. Vitor se afastou e cuspiu aos pés do irlandês, como um sinal de desrespeito. Gaalan balançou a cabeça ainda mais ferido com aquele gesto e fechou a mão com força. Os homens do IRA e da Cosa Nostra ainda tinham suas armas apontadas um para o outro.

— Abaixem suas armas e vamos embora. – gritou Vitor. – Não a mais nada para se fazer aqui. – disse encarando Gaalan mortalmente.

Augustos olho para Gaalan e acenou com a cabeça e ele fez o mesmo. Naquele momento, não havia nada que o antigo chefe da Cosa Nostra pudesse fazer para amenizar as coisas. Ian e Lorenzo seguiram Vitor rapidamente antes que o mesmo os deixasse para trás. Durante o trajeto de volta, ninguém ousou a abrir a boca dentro do carro.

***

Quando chegaram, Vitor foi o primeiro a sair e andou com passos firmes para dentro da casa, indo direto para o quarto. Augustos nem saiu do carro, passou na casa da filha apenas para pegar sua mulher, Catarina. Muriel entrou e tomou um gole de whisky com Ian e Lorenzo enquanto Lia terminava de dar um banho em Bella, que havia entrado no mar junto com Alicia. Valentina, que se deliciava com o resto da sobremesa, logo sentiu a tensão no ar e exigiu saber o que estava acontecendo.

Ian explicou o que havia acontecido e Valentina ficou surpresa com o ataque, dizendo que não esperava que os franceses fossem loucos de mexerem com a Cosa Nostra novamente. Ela e Muriel entenderam, já que ambos se lembravam da máfia francesa quando Valentin a comandava.

— E Vitor? Onde está? – ela quis saber.

Ian suspirou.

— Se trancou no escritório. Ele tá puto da vida. – informou Ian.

Valentina franziu o cenho.

— E por que?

— Ele explodiu quando Gaalan insinuou que o ataque não havia sido nada demais. Ele nos lembrou de que você poderia estar lá. – contou Lorenzo.

Valentina respirou fundo e abaixou a cabeça. Ela queria tanto ter ido nesse encontro e olha só o que acabou acontecendo. Vitor estava certo. Era perigoso demais para ela, na situação que está, estar lá. Ela brigou e disse coisas horríveis para ele.

Maldito orgulho.

— Acho que devo ir falar com ele. – Valentina propôs, se sentindo pra baixo.

Ian se levantou do bar e abraçou a mãe, a confortando.

— Ele vai precisar de você. – sussurrou. – Ele sempre precisa e é por isso que te protege tanto. Ele te ama.

Valentina assentiu já com os olhos marejados.

— Eu sei.

Ele beijou-lhe a testa e Valentina subiu as escadas indo atrás de Vitor.

A noite já havia caído e Lia finalmente apareceu com Bella sonolenta nos braços. Muriel beijou a esposa e a filha e se despediu dos dois, partindo em seguida. Lorenzo aproveitou e foi para o quarto descansar e Ian ficou sozinho, pensando sobre tudo o que aconteceu em seu primeiro dia na Itália e sorriu ao constatar que esse era só mais um dia normal em sua família. Parou para prestar atenção no caso dos pais. Ele não sabia que a gravidez da mãe era de risco e, como seu pai havia mencionado mais cedo, na gravidez de Alicia as coisas já não foram tão boas, agora então. Mas Ian afasta os pensamentos negativos. Sua mãe é a mulher mais forte que ele já conheceu e ela irá passar por essa. Ele sempre estará lá quando ela precisar, assim como seu pai, Vitor.

O amor dos dois é o sentimento mais forte que Ian já sentiu. E ele deseja ter algo assim um dia, mesmo não acreditando no amor. Ele deseja ter alguém para amar como seu pai ama sua mãe. Ele quer alguém para cuidar e sentir que morreria por ela sem pensar duas vezes, como sua mãe quase fez pelo seu pai.

E é nessa linha de pensamento que Ian se lembra de Emily.

Ele pega seu telefone e liga para morena sem pensar duas vezes.