Mirrors
35 ... and Finally It Has Come.
Uma comitiva de carros pretos – dez aproximadamente – estacionam em frente ao portão da casa dos Baldocchi. Valentina pode ouvir a barulhada de longe. Seria, Ian? — perguntou-se. Saiu do quarto e caminhou tranquilamente pelos corredores da casa, porém apertou o passo quando ouviu a porta de sua casa ser escancarada e seu pai aos gritos.
— Onde ela está? Cadê aquela maledetta??!! — a voz de Augustos fazia até as paredes tremerem. Sua pele estava vermelha e ele arfava de raiva.
Valentina parou no pé da escadaria e observou seu pai e, mais ou menos, trinta homens, todos armados, vasculharem sua casa. Alicia, que estava na sala brincando, se assustou tanto que saiu correndo de encontro com a mãe, quase tropeçando em um dos degraus, porém Valentina conseguiu ser mais rápida e segurou sua filha. Aquilo foi à gota d’ água.
— Che diavolo sta succedendo qui?( O que diabos está acontecendo aqui?)— gritou ela, fazendo todos pararem e a olharem. – Padre, o que isso significa?
Augustos respirou fundo, guardou a arma em seu coldre e subiu até a metade da escada, onde sua neta, Alicia, chorava baixinho assustada no colo da mãe.
— Onde. Está. Emily? – os olhos dele brilhavam.
Valentina, ainda confusa tentou decifrar o pai. Mas o que ele queria com a garota? E porque toda aquela comitiva? Algo estava errado, muito errado. Augustos ficou calado encarando a filha e não disse nada, Valentina forçou a mente. Pense, rápido, Valentina, pense. Então o coração de Valentina pareceu parar por um instante.
— Quem é Emily?
***
Algumas horas antes...
Ian e Emily mal tiveram tempo de se despedirem da família Baldocchi quando o avião particular do herdeiro da máfia pousou. Alicia foi a que mais ficou triste, porém entendeu que os dois precisavam ir resolver coisas de adultos e entregou um convite de aniversário escrito à mão a Emily que se segurou para não chorar. Deu um abraço apertado na pequena, outra em Valentina e pediu que ela se despedisse de Vitor por ela. Ian fez o mesmo e depois os dois embarcaram de volta a Chicago.
Ian se sentou ao lado da janela e olhava para fora com um olhar mortal. Batia o pé no chão em sinal de nervosismo e Emily apertava os dedos das mãos meio insegura. Mas como ela pode ser assim tão boba? Ele havia acabado de lhe dar algo que – mesmo ele não falando as palavras— mostrava o quanto a amava e ela estava insegura por ele estar bravo com a situação de Katherine? Ora, quem não ficaria? Pelas palavras de Joe ela foi espancada e não é certo sentir ciúmes disso. Não mesmo.
— Ei. – Disse ela chamando a atenção de Ian. – Vamos resolver isso.
Emily apertou a mão de Ian e ele assentiu. Eles iriam resolver isso, mas seria da maneira dele. Não é surpresa alguma que Ian tem um carinho enorme por Katherine, ela o ajudou bastante quando ele e Emily se afastaram. Mesmo que ela demonstrasse que estava mais interessada em seus carros – Ian esboça um sorriso quando se lembra disso – ele sabe que ela também o adora. Eles são amigos. E ninguém machuca um amigo seu. Seja lá quem for esse pai de Katherine, ele vai sofrer.
Ian respira fundo. Olha para Emily e agradece mentalmente por ela não ter ciúmes da loira. E olha que ela tem motivos. Mas não. Assim que receberam o recado, Emily arrumou as malas e deixou tudo pronto para partirem. O acalmou. Ligou para Joe e pediu mais detalhes. Em nenhum momento demonstrou desconforto. Na verdade, sentia por Katherine. Xingava em brasileiro o pai da loira de hora em hora. Ian tentou falar com Katherine, mas Joe pediu que não, temia que a amiga fugisse ou algo do tipo, queria que pegassem ela de surpresa, assim ela não fugiria das perguntas e sabia que para Ian ela contaria.
E ela vai contar.
Então Ian ficou se perguntando que tipo de pai espancaria a filha. E infelizmente, ele teve muitas repostas. Era mafioso, ora. Conhecia muita gente mal caráter. Gente horrível disposta a fazer coisas horríveis. Cerrou o punho. Inferno! Tira uns dias de descanso e uma pessoa próxima passa por algo inimaginável. Se ele tiver feito algo a mais com Katherine... Ele nem pensa sobre. Se pensasse com certeza não se seguraria no avião e começaria a xingar qualquer que fosse. E não queria explodir na frente de Emily, não queria assustá-la caso começasse a falar sobre as maneiras que iria torturar cada um que tivesse envolvimento no caso de Katherine. Porque ele ia matar cada um.
Ian respira fundo novamente.
Contaria a Emily sobre a Cosa Nostra? Sobre quem é? Sobre o que faz? Ela continuaria ao lado dele mesmo sabendo que é um mafioso? Ian suportaria perdê-la mais uma vez?
Maledizione!
Ele sabe que tem que contar, e quer saber? Contará assim que resolver o problema de Katherine. Contará tudo! Quem é, o que faz, o que fez com aquele maldito professor dela que se atreveu a tentar machucá-la, e contará o que faria se tentassem isso novamente.
Molto bene, Ian Chiacchio Denaro Baldocchi, você vai contar a Emily tudo! E torcer para que ela não fuga.
Já ao seu lado, Emily se perguntava a mesma coisa enquanto se remexia inquieta. Estava maluca para dar um fim no miserável, mas esperaria a reação de Ian. Ela sabe que empresários como ele tem homens para trabalhos sujos como esse, ela não é boba de pensar que Ian nunca machucou alguém, bom, ela espera que não, mas caso tenha, quem é ela para julgar afinal? É filha de mafiosos! Já fez coisa pior. Entretanto, esperaria a reação de Ian e, caso fosse necessário, agiria. Ian havia ligado para Lorenzo pedindo que ele retornasse de sua viagem também, então só precisava ter paciência.
Os quatro, Ian, Lorenzo, Chloe e Emily, voltando do conforto de um pequeno recesso onde deixaram para trás o fardo de um sobrenome poderoso e se permitiram apenas sentir um ao outro. Cada casal a sua maneira. Infelizmente, um sobrenome poderoso pesa, e pesa muito. Eles deviam ter ficado no conforto dos braços de seus respectivos amados, se soubessem como aquele dia terminaria...
***
Quando o motorista estaciona o carro na frente da casa de Joe, Emily percebe a inquietação de Ian aumentar. No avião, ele batia o pé nervoso, porém quando eles desembarcaram, ele parou com aquilo e em vez disso seu corpo ficou rígido. Muito mais rígido do que o normal. Emily notou isso pela maneira que ele agiu assim que saíram do jatinho particular. Ele pegou firme na mão da morena, andou com uma postura invejável, e não olhava para ninguém. Olhava pela janela com um olhar concentrado e sabe-se lá no que estava pensando. Até mesmo no carro, sentava-se com postura, não como Emily, que sentava desleixada por conta do cansaço da viagem. Mas ela não disse nada. Sabia que era melhor deixá-lo, que só se acalmaria ao colocar os olhos em Katherine e tivesse certeza que ela estava bem. Ou melhor, ele só se acalmaria quando tivesse o controle da situação.
— Vou entrar com você, mas infelizmente não vou ficar muito tempo. – Anuncia Emily. – Vou pra casa me encontrar com Chloe, tudo bem?
Ian assente.
— Meu motorista te leva. Só fique por alguns minutos com Joe enquanto falo com Katherine, pode fazer isso? – Pede ele, com um tom de voz preocupada, mas calma.
— Claro. – Diz ela, esboçando um leve sorriso. Ian a puxa para um beijo breve. Quando se afastam, se encaram por um instante. Os rostos a centímetro um do outro. Na cabeça de Emily, cenas deles na Itália aquecem seu coração, como sou sortura! – Pensa. Na de Ian, a mesma coisa. Emily sente Ian relaxar.
— Eu sei que não era assim que queríamos que nossas férias terminassem, nem de longe queria isso. Mas não vamos deixar esses problemas apagarem o que vivemos lá. – Ian diz, olhando nos olhos de Emily, que brilham. – Não quero me esquecer do modo que você me faz sentir, de como faz meu coração pular em meu peito. E de como amo cada minuto contigo. – Ian faz uma pausa, Emily sorri e uma lagrima escorre de seus olhos, Ian a seca, sorrindo. – Não vamos nos esquecer nada isso, ok?
Emily não consegue dizer nada, apenas balança a cabeça para cima e para baixo, concordando, é obvio.
— Eu amo você. – Diz ela. – É disso que vou me lembrar todos os dias.
Ian sorri e torna a beijá-la.
— Almoça comigo hoje, pra tentarmos finalizar as férias com chave de ouro e barriga cheia. – Brinca ele. – O que acha? Pode ser mais tarde, assim dá tempo de você descansar da viagem.
— Até que não seria nada mal. – Diz. – Marcado!
— Ótimo.
Ian salta do carro e estende a mão para a Emily também sair. Já na porta da casa, Joe os aguarda de braços cruzados enquanto traga um cigarro importado. Luxos de um contrabandista – ele sempre diz. Os dois caminham lado a lado com as mãos entrelaçadas. Fazia sol em Chicago, por isso várias crianças nas ruas brincam com armas de brinquedo que esguicham água, deixando o bairro meio barulhento. Eram onze horas da manhã, então Kat já estaria em casa, provavelmente dormindo. Emily achou muito corajoso da parte dela voltar a cuidar dos rachas, sem se importar com os hematomas, já que Joe disse que eram muitos e alguns bem evidentes.
— Valeu por terem vindo. – Joe os cumprimenta com um aceno de cabeça. Joga o cigarro no chão e o apaga com o pé. – Não sabem como isso é importante.
Joe abre a porta da casa e eles entram. A cortina da sala estava fechada e isso deixava o lugar pouco iluminado, mas alguns raios de sol se atreviam a adentrar o cômodo por algumas brechas. Eles caminharam até a cozinha, onde Emily deu um abraço apertado em Joe.
— Sinto muito, sei o quanto Katherine significa para você. – Sussurra ao amigo, que recebe o conforto com agrado. Ele agradece com outro aceno de cabeça.
— Ela está no quarto? – Pergunta Ian.
— Está.
— Dormindo?
— Duvido que esteja. Depois do acontecido ela mal dorme. No máximo uns cochilos.
Ian assente, se despede de Emily com um beijo na testa e caminha para o quarto de Katherine. Ele abre a porta e tudo está exatamente de como se lembrava desde a ultima vez que esteve aqui. Kat está deitada, com um lençol azul escuro a cobrindo até acima da cabeça, sua cabeleira loira espalhada pelo travesseiro. Ele suspira. Ela está viva ao menos. Isso faz seu coração se acalmar. Ele caminha até o pé da cama e se senta. Fica ali por alguns minutos, apenas observando os detalhes do quarto. Pôsteres de carros e de peças automotivas enfeitam as paredes, algumas fotos de Kat com seus amigos estão grudadas ao lado do espelho, atrás da porta. De longe, Ian nota que uma foto sua com a loira também está lá. Ele sorri. No canto perto da cama, peças de roupas intimas estão empilhadas e uma sobrancelha de Ian arqueia, depois os homens que são bagunceiros... Quando Ian olha para baixo, em seus pés, outro sutiã, ele o pega e ri.
— Não sabia que você era um tarado por peças intimas, Sr. Ian.
Ian se assusta ao ouvir a voz de Katherine, ainda mais naquela situação. Mas, ele ri e levanta a peça de roupa.
— Elas estão por toda parte, mulher. Vou lhe dar um guarda-roupa de presente. – Brinca, se levantando e colocando o sutiã em cima da cômoda ao lado da cama. Ele se vira para a loira e com calma, a encara.
Seu olho esquerdo estava roxo. O outro com um esparadrapo. Na boca um corte feio com uma pasta branca por cima, provavelmente algum tipo de pomada. No pescoço uma mancha roxa amarelada, e por conta da blusa larga que caia do ombro, ele pode ver também mais marcas, o que indicava que elas não paravam por ali. Mas quando ele volta a olhar em seu rosto, Katherine sustenta um sorriso fraco. Ele se aproxima, sentando ao seu lado na cama.
— Que inferno, Katherine, por que não me disse que tinha problemas com seu pai? – Perguntou irritado, a abraçando.
— Eu tenho problemas com um monte de gente, se quiser, posso te fazer uma lista.
Ian a encara.
— Sem piadas, por favor. Voei da Itália com Emily até aqui para te ver, preocupado com você. Então sem piadas, quero a verdade.
— Itália? Com a Emily? – Pergunta ela, desconfiada.
— Te conto se você me contar o que aconteceu primeiro. – Diz Ian, irredutível. Ele sabe que Katherine é dona de si mesmo, guarda tudo para si e não gosta de envolver as pessoas em seus problemas. Ele a conhece e sabe que se deixar, ela vai o enrolar até o anoitecer.
Katherine suspira. Ela observa Ian e cada traço seu. De longe, um dos caras mais bonitos que já ficou. Emily tinha sorte em te-lô. E ela por ter sua amizade. Viajou da Itália até aqui apenas para vê-la, o olhar preocupado que lança para ela é o mesmo que de Joe. E se eles descobrirem o que ela fez, jamais a perdoariam.
— Meu pai é um homem complicado. – Começou a loira. — Ele já havia me batido algumas vezes quando criança, uns tapas e nada mais. Mas isso – Diz, se referindo a surra. –foi a primeira vez.
— Por que? – Ian pergunta incrédulo.
Katherine hesita. Ela queria contar a verdade a Ian, queria mesmo. Mas não podia. Seu pai tinha um triunfo que usaria contra ela sem pensar duas vezes, e Ian não poderia ajudá-la, assim como ela não pode ajudá-lo. Pelo menos não agora.
— Dinheiro. – Mente. – Ele veio atrás de dinheiro. Ele trafica e perdeu uma bolada num enquadra da polícia. Veio me pedir e eu não dei. Não tinha a grana que ele queria. Então ele deu sei jeito.
— Te espancar era o jeito dele? – Mais uma vez Ian pergunta com um tom de nojo na voz. Se ele pega esse homem a rua...
— Ele estava drogado, veio acompanhado de uns capangas. Todos atrás de dinheiro. Pegaram o dinheiro da corrida daquela noite. – Conta, e essa parte não deixava de ser verdade, o pai havia mesmo a roubado. Canalha. – Agora sou eu que estou devendo uma grana pros organizadores.
Ian coloca uma mecha de cabelo de Kat atrás da orelha e acaricia sua bochecha com as pontas dos dedos.
— Vou lhe dar a grana que seu pai roubou se você me der o nome dele. – Ian diz, seus olhos agora escurecem com o desejo de machucar o infeliz.
— Não, Ian.
— Katherine...
— Não, eu vou cuidar disso, e também não preciso do seu dinheiro. – Disse irredutível. – Joe disse que vai me ajudar com isso. Mas com meu pai lido eu. Por favor, Ian. – Suplica, quando ele faz cara feia. – Você quer me ajudar?
Ian olha assustado para ela.
— Mas é lógico que sim.
Katherine respira fundo e sem perder a coragem, diz:
— Me prometa que não vai perder a cabeça. E não se esqueça do que sente por Emily, em hipótese alguma.
— Por que está falando isso? – Confuso, Ian pisca algumas vezes e encara a loira.
— Me prometa, Ian, me prometa.
Ian prometeu o que Katherine pedia, mesmo não entendendo o porquê daquilo justamente naquela hora. Ficou mais algumas horas com ela na cama, parou de pedir pelo nome do pai, porque a primeira coisa que faria depois que chegasse em sua empresa, seria pedir que seu melhor hacker descobrisse quem era o desgraçado. Por isso, ele aproveitou e contou de sua viajem com Emily. Katherine pedia detalhes, ria dos momentos fofos do casal apenas para provocá-lo, mas ouvia atentamente. Joe se juntou a eles em certo momento. Sentou atrás de Katherine, de modo que ela podia se deitar sobre seu peito, e assim o fez. E então ficaram os três conversando. Joe e Ian trocavam olhares sérios, estavam preocupados com ela, mas se ela não queria tocar no assunto, eles não o fariam. Mas Ian, quando estava indo embora, garantiu a Joe que descobriria quem era o pai de Kat, e juntos, os dois o deixaram bem pior do que a amiga. Joe agradeceu e Ian partiu.
***
O apartamento de Emily e Chloe estavam exatamente do jeito que a morena havia visto pela última vez – literalmente! Ou seja, estava empoeirado, sujo, bagunçado... Caramba! Alguma coisa havia acontecido com sua prima, só podia. Ela surta com qualquer risco que sugira poeira, quanto mais naquele estado. Parecia que um terremoto passara naquele lugar. Decidiu ligar para a prima, mas o celular estava descarregado, algo que não tinha percebido até então, finalmente se dando conta do motivo de não ter recebido retorno algum de seu tio Ben. Colocou-o para carregar e aproveitou o tempo que tinha para arrumar tudo. Fazia um bom tempo que não organizava alguma coisa, geralmente sempre tinha uma pessoa para fazer aquilo por ela... Logo entendeu como aquilo era uma verdadeira terapia, afinal, te dava tempo para organizar a mente também.
— Eu definitivamente nasci para ver isso... – Murmurou Chloe, que havia chegado sorrateiramente, sem que a prima sequer ouvisse o barulho. Lorenzo aparece logo atrás dela, rindo levemente. As duas partem para um abraço, antes mesmo que Emily pudesse se defender.
— Que insulto! Eu até revidaria, mas senti falta do seu sarcasmo. – Sussurrou ela após se separarem. – Como vai Lorenzo?
— Vou bem, obrigado. E você? Soube através de informações extremamente confidenciais que mandou bem com Alicia. Estou surpreso. – Comentou rindo.
— Ela não foi fácil no início, mas mais difícil do que o modo como nos conhecemos foi o modo como nos despedimos. Vou sentir falta da pequena. – Diz mais para si mesmo do que para ele.
— Será recíproco, tenho certeza. Ela gostou muito de você. Ganhou uns pontos gritantes com a família.
— Fico aliviada em saber disso, eles são incríveis. E vocês? Por onde andaram? – A pergunta de Emily fez Chloe ruborizar da cabeça aos pés, deixando a prima completamente confusa. Que diabos havia acontecido? Continuou um bom tempo a observando até que chegou a uma conclusão que a deixou animada de maneira excessiva. – Vocês...?
— A gente pode conversar sobre isso depois? – Chloe pergunta fazendo uma expressão que fez a morena rir muito. Lorenzo, ao contrário da amada estava completamente alheio a conversa. As duas pareciam se comunicar telepaticamente, mas acabou rindo para se enturmar.
— Onde está Ian? – Perguntou tentando quebrar qualquer clima que tivesse surgido ali entre as duas.
— Hm... Bem... – Então Emily começou a atualizar os dois com os últimos acontecimentos.
— Oh meu Deus! – Chloe parecia chocada, e o olhar de sua prima foi o suficiente para saber que ela faria algo, mas definitivamente não faria sozinha. Estaria ali por ela. Sempre.
— Ian deve estar... Desolado. – Irritado seria a palavra que Lorenzo gostaria de usar. Sabia exatamente que o primo jamais descansaria enquanto não colocasse as mãos no canalha. E estaria ali por ele. Sempre.
Ahh! O amor familiar... Até que ponto ele pode ser um fator positivo? Em algumas horas, eles iriam descobrir.
— Ele está. Decidimos voltar, pois precisamos descobrir alguma resposta para que Joe possa agir. – Diz como uma boa atriz que é. Não poderia dizer que era ela quem precisava de respostas para agir, muito menos citar sua desconfiança em relação a Ian e sua família, afinal, Lorenzo fazia parte dela.
— Fizeram mais do que certo, com certeza. – Ele afirmou. – Bem, vou deixar vocês duas conversando, talvez eu possa passar aqui mais tarde ou...
— Ué, não tínhamos combinado que ficaríamos aqui? – Perguntou Chloe, sem entender essa mudança repentina de planos.
— Sim, mas Emily...
— Não se preocupe comigo. Ian e eu combinamos de almoçar hoje e provavelmente chegaremos bem tarde, então... Chloe e eu podemos nos atualizar dos acontecimentos depois. – Emily o interrompeu e para a alegria do casal, eles acabaram ficando ali no apartamento mesmo.
Por mais que a morena estivesse morrendo de curiosidade sobre tudo que aconteceu, sabia que os dois também precisavam fechar esse tempo juntos com chave de ouro, afinal, em breve elas estariam retornando ao Brasil e teriam todo o tempo do mundo, podendo ver os garotos apenas de vez em quando. Ainda não haviam discutido como seria esse relacionamento à distância, mas estavam dispostos a tentar. Ela deixou os dois na sala após terminar de arrumar a cozinha e correu para tomar um banho e descansar no quarto. A viagem de volta havia sido extremamente cansativa.
Acordou após algumas horas, já se sentindo completamente descansada. Correu para checar o celular e fica chocada quando nota quantas ligações haviam ali. Todas da sua família. Tentou retornar a cada uma delas, mas sempre caiam na caixa de mensagens. Estava sem entender absolutamente nada, mas logo sua cabeça começa a entender: seu tio não soube guardar segredo. É claro. Agora toda sua família quer informações sobre Ian. Só faltavam fazer um interrogatório com ela. Revirou os olhos só de imaginar a enxurrada de perguntas que enfrentaria no minuto em que retornassem a ligação, mas aproveitou que eles não atenderam suas chamadas para se arrumar.
***
Parecia que fazia anos que Ian não ia até sua empresa, os dias que passou na Itália fez bem a ele. Aquela rotina maçante que a Cosa Nostra o proporciona desde os dezesseis anos de idade acabariam com qualquer um. Então por um momento Ian não via a hora de se aposentar, ir morar com Emily bem longe dali para poder criar seus filhos. Ian riu. Filhos... É, ele adoraria tê-los com a morena. Quando a porta do elevador se abriu, Ian afastou esses pensamentos e caminhou tranquilamente até sua sala. Se jogou em sua cadeira e por um momento permitiu-se respirar tranquilo. Ele e Emily viajaram a madrugada inteira e, como estava tenso por Kat, mal conseguiu dormir ou descansar enquanto o voo. Agora poderia tirar alguns minutos para tirar um cochilo rápido antes de ir se encontrar com Emily para almoçar. Ele se levanta da cadeira e retira do bolso sua carteira e celular. Quando joga o aparelho eletrônico sobre a mesa, vê que a tela brilha notificando uma chamada. O nome de seu avô brilha. Ian suspira, cansado.
— Sì, mio nonno.( Sim, meu avô.) – saudou, voltando a se sentar.
— Che diavolo, Ian! (Que inferno, Ian!)— gritou o avô. – Por que não atendeu este telefone antes? Onde está? Está com Emily?
— Calma, o celular estava no silencioso. Estou na empresa e não, Emily não está comigo. O que houve? – responde calmamente, passando a mão pelos cabelos e se reencostando no encosto da cadeira.
Augustos Baldocchi respira fundo.
— Escute bem, Ian, e escute com muita atenção. – começa. – Emily não é quem você acha que é. Ela é neta de Anthony Gavin Brian, está ouvindo? Ela é a futura comandante da Máfia Gavin, inimiga da Cosa Nostra. Eu quero que você a mate agora mesmo, Ian, sem hesitar. Essa garota mentiu pra você.
Ian dá um sorriso fraco e sua mente para por um instante. E volta a trabalhar a todo vapor. Seu avô não mentiria sobre isso. Mas também não pode estar falando a verdade, não mesmo! Ele conhece Emily, sabe quem ela é. Puxou seus dados na faculdade, conheceu a prima dela, a levou para conhecer sua família. Ele a conhecia. Ela a amava. Não uma infiltrada. Não, essa não era Emily, não a que ele conhecia.
— Vô, é melhor o senhor ter certeza do que...
— Abra seu email, agora! – cortou Augustos.
Ian o fez. A caixa de entrada mostrava um email enviado há algumas horas. Ele o abriu. Fotos. Fotos de Emily ao lado de um homem.
— Quem é esse? – perguntou.
— Abra a outra foto.
Ian abriu. A ficha criminal de Anthony Gavin Brian, e por mais que seja de um homem bem mais novo do que o velho ao lado de Emily na outra foto, não tinha como negar. Era a mesma pessoa.
— Não pode ser. – exclamou Ian baixinho, desacreditado.
— Você é o chefe dessa organização agora, Ian. Por isso deixarei que cuide da vadia da Emily. Mas o resto da família é coisa minha. Estou indo para Chicago com seu pai e alguns membros da mesa, mande um dos seus homens atrás de Emily e da prima dela e faça com que...
— Ninguém. Toca. Em. Emily. – Ian rosnou ao telefone. Seu coração batia forte. A raiva crescia em seu peito e ele se controla para não pensar no pior.
Mesmo que o neto não o posa ver, Augustos assente.
— Resolva isso, Ian. Precisamos da garota para ameaçar Anthony. Sejamos o mais espertos dessa vez. – e desligou.
Ian fica um bom tempo sentado em frente ao computador encarando as fotos de Emily com Anthony. E a cada minuto que passava, um aperto em seu peito crescia. Como ela pode mentir daquele jeito? Como? Tudo que passaram, era apenas encenação? Então Ian riu. Tolo. A garota era atriz, não era? E uma das boas. Maldita. Mas ele não conseguia acreditar naquilo.
Ian torcia para que seu avô ligasse novamente contando que era tudo mentira. Que aquele não era o Anthony que procurava, que Emily não havia o enganado e que estava tudo bem. Mas o telefone não tocava. E nada parecia fazer sentido. Se tudo aquilo fosse verdade, ele precisava ouvir da própria boca de Emily. Talvez (e como Ian botava fé nesse talvez) tudo aquilo fosse uma grande confusão. Ele dá um sorriso fraco e seu coração parece pesar menos ao pensar nessa possibilidade. Emily o ama, não faria algo assim e muito menos se envolveria em algo assim.
E quando Ian estava prestes a dar um voto de confiança a Emily, um detalhe na foto dela com seu avô lhe chamou a atenção. Um detalhe tão pequeno, porém fez com que o mundo de Ian parasse por um minuto. O colar em volta do pescoço de Emily, ele o conhecia, já havia visto em algum lugar. Vasculhou a memória. Mas onde? Então se lembrou. Abriu uma das gavetas da mesa e procurou entre seus pertences o objeto. E lá estava. O colar que havia sido encontrado quando sua mercadoria foi roubada há meses atrás, era o mesmo da foto.
***
Emily usava um vestido branco com grandes rosas pretas estampadas. Ele era curto, mas possuía mangas longas e um decote em V que acentuava perfeitamente bem todo o seu corpo. Seu calçado era um salto alto fechado, mas ainda assim conseguia caminhar elegantemente até Ian, que esperava pacientemente por ela do lado de fora de seu apartamento. Ele a puxa para um abraço apertado, deixando ela completamente confusa.
— Uau... Não imaginei que sentiria minha falta em um período de tempo tão curto. – Murmurou ao pé do seu ouvido rindo de leve, mas Ian continuava sério.
— Você não tem a menor ideia, morena. – Sussurrou em meio a seus cabelos negros.
— Está tudo bem? – Perguntou ela com um vinco se formando em sua testa.
Ian se sentia anestesiado, ainda processando todas as informações, ele se sentia usado, se sentia com raiva, mas também sentia algo em seu peito quando o assunto era Emily. Mas precisava disfarçar... Pelo menos por enquanto.
— Estou ótimo. Vamos? – Aquilo não havia sido o suficiente para ela. Mas, aceitou aquela resposta ainda assim, o acompanhando até o carro, onde seguiram em direção a um restaurante.
O trajeto até lá foi extremamente torturante, pois havia alguma coisa errada que Emily não conseguia solucionar, ainda mais em todo aquele silêncio. Tentou fingir que estava tudo bem, mas sua cabeça trabalhava em um milhão e meio de hipóteses. Talvez a conversa dele com Katherine não tenha sido das mais agradáveis. Ela não deve estar em um estado normal quando se trata do emocional, nunca se sabe. A própria Emily havia ficado absorta depois do que ocorreu com ela na faculdade. Só de lembrar, seu estômago já revirava. Então a entendia. Mas, também existe a possibilidade dele estar irritado por não ter conseguido resposta alguma, e isso acabaria com ela. Precisava de um nome para ajudar Joe – e ela, claro.
Já no restaurante, eles almoçaram algo leve, ainda mais depois de terem comido o mundo na Itália, pois Valentina sabia bem como tratar as pessoas. O silêncio ainda reinava e Emily decidira que não tentaria quebrar o silêncio. Ian agradecia aquilo internamente. Enquanto comiam, ele observava cada movimento dela. Como conseguia fingir? Como? Ian sentia tanta raiva que queria gritar, até mesmo chorar, o que o fazia ter ainda mais raiva. Mas tinha momentos que a olhava e seu coração parecia se acalmar, sua mente gritava que tudo era mentira. Mas não era. E isso doía. Ele tenta se controlar na frente dela, ainda não era a hora. Lutava a todo custo para não tocar no assunto logo de cara. A certeza de que deixou ser enganado por alguém que ele havia deixado entrar em cada canto de sua vida era agonizante.
— Com o que seus pais trabalhavam mesmo? – Perguntou de repente. Aquela pergunta pegou Emily de surpresa, mas tentou agir naturalmente.
— Hotelaria. Por que essa pergunta surgiu tão do nada? – Ela riu, mas ele continuou sério.
— Tem medo de ser questionada?
— Não me importo, só estou achando estranho. Você parece estranho.
— Você também não me parece nada normal agora.
— Ian, tem certeza que está tudo bem? – Questionou largando os talheres, sentindo a fome ir embora rapidamente. Ele pareceu voltar a realidade.
— Sim, está. Desculpe. Eu... Só estou cansado. – Disse, juntando todas suas forças para dar um sorriso a morena. – O que acha de irmos até o museu aqui ao lado? Soube que está tendo uma ótima exposição de arte.
— Acho melhor irmos para casa. Você precisa dormir. – sugeriu ela.
— Eu estou bem, prometo. Só não tive muito progresso com Katherine e isso me deixa irritado.
— Sinto muito. – Emily se padeceu. – Há algo que eu possa fazer?
Ian a encarou, seria sua preocupação também uma atuação? Ah, como ele se odiava naquele momento.
— Bem... Você pode ir comigo nessa exposição. – Sussurrou ele finalmente esboçando um dos seus sorrisos traiçoeiros.
Ambos se levantam e, após pagarem a conta, caminham em direção a exposição. Eles caminharam de mãos dadas, o museu não era tão longe. Ian fez questão de segurar a mão de Emily e ao fazê-lo, ele quis largar tudo. Sua família, seu nome, sua Máfia, tudo! E apenas fugir com Emily para bem longe dali. Ela pediria desculpas e ele a perdoaria, ele sente que sim. E eles viveriam bem longe daquilo, longe de todos. Eles seriam a família um do outro! Mas infelizmente essa sensação não durou muito. Quando Emily soltou a mão de Ian para passar pela catraca do museu e lhe lançou um sorriso tão lindo que ele jamais poderá esquecer-se dele, ele se lembrou de já que tinha uma família. E que precisava vingá-la.
****
Quadros extremamente caros estavam sendo exibidos logo na entrada de um dos museus mais antigos de Chicago. O artista aparentemente tinha preferência por continuar no anônimo, talvez pela timidez. Emily tinha olhos apurados para arte, então estava completamente encantada com cada detalhe, curva e traçado. Não pareciam artes feitas com precisão e sim com amor, sem se importar com estética ou algo relacionado.
Ela caminhava entre as obras e Ian podia jurar que ela fazia parte de alguma delas. Era incrível a beleza de sua garota. Se sentia um bobo imaginando isso, mas precisava observá-la pela última vez antes de jogar toda a merda no ventilador.
Depois de tudo que havia descoberto, já não via mais aquilo como uma cena onde mostraria seu verdadeiro eu, pelo contrário, Ian via aquilo como uma cena onde mostraria o verdadeiro eu de Emily, e ele não tinha ideia se estava preparado ou não para saber. Por mais que estivesse cheio de si (algo que a raiva repentina lhe causara), ele estava tão nervoso, tão inseguro, que se perguntava a todo momento se aguentaria ouvir as palavras da boca de Emily.
Ian daria tudo, tudo! Para que aquilo não fosse verdade.
Por um segundo, retirou o colar que havia trago do escritório e guardado no bolso. Seus dedos brincavam com o pingente enquanto sua mente processava alguma evidência de que aquele colar poderia não pertencer a morena, ela poderia ter um igual, poderia não ser o mesmo, mas nem gastou muito tempo se perguntando isso...
— Oh meu Deus! Onde encontrou meu colar? Eu estava desesperada procurando ele, mas não imaginei que tivesse deixado com você! – Exclamou feliz indo em direção ao objeto que Ian segurava. Aquilo havia sido a gota d’água. Aquela era a prova concreta que precisava. Agora nenhuma incerteza invadiria sua mente. Não tinha ideia de como estava despreparado para aquele momento, pois no fundo Ian queria que fosse tudo mentira. Seus movimentos e expressões pareciam ter se congelado enquanto Emily tomava o colar e colocava em seu pescoço com um sorriso no rosto.
— Você.Mentiu.Pra.Mim. – Foi tudo que saiu de sua boca.
— O quê?
— Você... – As palavras somem quando um homem armado surge atrás do corpo de Emily, dispersando todas as pessoas da galeria. Sua mão alcança a arma que colocava no cós da calça e ele também mira na direção do homem. Ian reconheceu Anthony da foto.
— Saia de perto desse garoto imediatamente, Emily. – Grita Anthony destravando a arma enquanto a galeria se esvaziava completamente. Pessoas gritavam para lá e para cá, mas a voz dele estava alta o suficiente para que Ian e Emily escutasse.
— Vô, não é o que está pensando... – A morena diz no meio do fogo cruzado, mas quando seus olhos pousam em Ian, ela nota que ele não parecia assustado em frente a uma arma de fogo, pelo contrário, apontava outra na direção de seu avô.
— Isso tudo não é o que você está pensando. – Ele retruca. – Se afaste.
— Não! O que está acontecendo?
— É um prazer finalmente conhecer você, Anthony Gavin Brian. Imagino que deva estar muito feliz em fazer o novo chefe da Cosa Nostra de otário, mas eu garanto que isso não se repetirá. – Sussurrou Ian.
Aquilo fez Emily perder o chão em segundo. Seus olhos se arregalaram e sua boca formava um O.
— Espera. Chefe da... Cosa Nostra? – Perguntou se virando em direção a Ian. – Que droga é essa?
— Esse moleque é neto de Augustos Baldocchi, o homem que condenou seu avô e toda nossa família a morte. – Explicou Anthony de uma forma tão resumida que Emily nem teve tempo de processar quando escutou o barulho do tiroteio do lado de fora.
— Augustos era chefe da... – Ela não conseguia terminar. Seus olhos revezavam entre o avô e o amado, mas se fixaram em Ian quando Anthony a tomou pelos braços a arrastando dali. Ele também a encarava enquanto Augustos se aproximava com um batalhão de seguranças com sangue nos olhos. A verdade estava ali, sendo exposta de maneira rápida. Como quando queimamos o dedo após encostarmos em uma panela fervendo. A queimadura é repentina, mas a dor que se sente após notar sua presença é horrível.
***
— Você a deixou escapar?!
Augustos berrou para Ian enquanto corria com uma dúzia de homens atrás de Anthony e Emily,porém ele não se moveu. Observava perplexo o corredor por onde Emily desaparecerá com Anthony, seu avô. Seus olhos estavam vermelhos, mas nenhuma lagrima escorria. Sentia tanta raiva que poderia explodir, mas ele também estava tão confuso... Sua mente girava. Antes de ir almoçar com Emily, combinou a emboscada com seu chefe de segurança. Estavam todos ali, de olho neles, mas Ian deixou bem claro que ninguém agiria até que ele mandasse. Emily era dele, só dele, e se ela se machucasse, ele não se perdoaria. Mesmo que ela seja uma inimiga, seu coração dói só de pensar. Mas a verdade é que, mesmo com todas as provas, a foto, o colar, Ian meio que ansiava para algo mais concreto, sua mente pedia por mais, mais provas, e quando Anthony apareceu ali e a tirou de perto dele daquela maneira, não havia mais nada a duvidar. Nada.
— Ian, você está me ouvindo?
Vitor parou em frente ao filho e tocou seu rosto, o olhando fixamente. Ian saiu do seu transe e se afastou do pai.
— Eles se foram. – falou, meio rouco. Parecia ter perdido a voz.
Vitor queria gritar com o filho, demonstrar a raiva que sentia, a indignação. Como ele pode ter sido tão tolo? Não ter percebido nada de suspeito, não ter procurado o nome da garota com mais cautela? E ainda por cima ter levado ela para Itália, para sua casa! Perto da esposa, da filha... Só de imaginar algo sendo feito contra as duas, o coração de Vitor se aperta e tem vontade de gritar ainda mais. Porém ele não o faz. Valentina havia conversando com Vitor antes dele embarcar para Chicago atrás do filho, e havia pedido calma e lembrado de como ela própria foi cega ao não reconhecer o sobrenome do marido quando se casou. Ela estava cega por amor e provavelmente foi o que aconteceu com Ian. É lógico que eles iriam cair em cima de Ian, mas não seria agora. Não quando ele provavelmente estaria em choque com tudo aquilo.
Vitor então respirou fundo.
— Recomponha-se, filho. A Cosa Nostra está prestes a entrar em guerra.
***
Sophie acariciava os fios negros do cabelo de sua filha enquanto Anthony e Ethan andavam de um lado para o outro quase formando um buraco no barraco que haviam conseguido de última hora naquela cidade. Ah! Como ela queria se infiltrar na cabeça de Emily e saber tudo que se passava... E os homens da família não ajudavam em nada.
— Como pôde não ter notado?
— Que história é essa de que estava na Itália?
— Você colocou todos nós em perigo, Emily. Tem ideia disso?
— Poderia ter se machucado. Poderia ter morrido...
— Esse filho da mãe terá o que merece.
— Mas, Emily ainda assim poderia ter percebido. Estava óbvio. Sabia que daria errado deixa-la estudar dentro do território inimigo.
— Saímos dos Estados Unidos por uma razão bem óbvia.
Emily não conseguia escutar nada com tantas vozes ao pé de seu ouvido. A verdade é que nenhuma delas eram importantes naquele momento. Sua cabeça vagava em outro lugar. Enquanto iam em direção aquele barraco, ela soube os detalhes do que realmente estava acontecendo. E aquilo doeu. Como nunca imaginou que doeria. Caramba! Ela o deixou entrar em sua vida! Ela se apaixonou por ele! Ele a enganou descaradamente. Como pôde? Sentia a raiva tomar conta de seu corpo, mas quando seus ouvidos finalmente se deram conta do que os homens da família falavam, essa raiva tomou uma proporção ainda maior, que a fez se desvencilhar dos braços da mãe e se levantar.
— Já chega! Eu entendi, dei mancada. Mas, não ouse dizer que coloquei a família em perigo. Meu avô fez isso muito antes de mim. Não levarei a culpa por ele. Querem se matar enquanto a Cosa Nostra arma uma emboscada para nos pegar? Fiquem a vontade, assim poupa o esforço deles. Já devem ter se cansado enquanto me enganavam, vocês estariam fazendo um favor. – Gritou fazendo com que todos finalmente se calassem. Seu pai, Ethan, a encara com fogo nos olhos, mas isso não é o suficiente para intimidá-la.
— Onde está indo? – Ele pergunta quando ela se afasta pegando as chaves de seu carro.
— Atrás de Chloe. Ela está em nosso apartamento e Ian sabe onde moro. – Sussurrou, tentando fazer parecer que estava tudo bem. Se soubessem de Lorenzo, as coisas piorariam. E já estava ouvindo o suficiente pelas duas. Hannah, que tentava não se intrometer na discussão, sorri de lado para a sobrinha. Realmente estava preocupada com a filha, mas todos pareciam mais preocupados com o que acontecerá a partir de agora.
— Eu vou com você, meu amor. – Diz Sophie, mas a morena lhe interrompe.
— Não precisa, mãe. Vou ficar bem.
O trânsito parecia não querer colaborar com Emily, que tentava dirigir às pressas. Não queria ficar parada muito tempo. Sabia o que aconteceria se isso ocorresse. Sua mente tentava inutilmente se concentrar em Chloe, que ainda estava alheia a todo o ocorrido. E Lorenzo estava com ela. Céus! Isso dará problema. Assim que consegue chegar até o prédio onde mora, ela corre até o apartamento, já segurando a arma que havia trazido com força enquanto arrombava a porta apontando na direção dele. Eles estavam deitados no sofá, assistindo a um filme aleatório na TV, mas o barulho fez com que os dois se levantassem.
— Que porra é essa? – Ele perguntou encarando Emily em choque.
— Já pode parar com o teatrinho, eu descobri tudo! – Exclamou a morena. Chloe caminha até a prima, a olhando como se ela estivesse louca.
— O que está fazendo?
— Ele não é quem a gente pensa que é! Você e Ian vão se arrepender por cada segundo pelo que fizeram. – Gritou ela extremamente irritada. Oh não! Emy havia descoberto tudo sobre a máfia, imaginou Lorenzo.
— Tudo bem, onde conseguiu essa arma? – Perguntou tentando se aproximar, mas ela destrava a arma depois de puxar a ruiva para seu lado.
— Já disse que não precisa mais manter o teatro. Achou que iria fazer a gente de otária por quanto tempo, hein? Acabou pra vocês! Eu vou sair com ela e se der um passo, atiro em você sem hesitar. E acredite, sou boa de mira. – Avisou já puxando Chloe para fora.
— Ei, me solta! – Gritou a prima extremamente irritada. – O que está acontecendo?
Emily estava tão irritada, que não queria economizar palavras, mas escolheu todas com extremo cuidado. Foi explicando tudo aos poucos para a prima, enquanto as mesmas já estavam no carro. O olhar da ruiva parecia estar acompanhando tudo a sua volta, mas quando mais ela falava, mais o vinco em sua testa se aumentava. Logo lágrimas começam a se acumular em seus olhos, ainda sem acreditar em absolutamente nada que escutava. Os olhos de Emily,no entanto, permaneciam imóveis, sem derramar sequer uma gota. Não daria mais esse gostinho a Ian. Não enquanto não se vingasse. Ele transformou ela em uma garotinha boba e apaixonada, mas pagaria bem caro por isso.
Sentia-se uma idiota no meio de toda a família que a enchia de perguntas e lorotas. Se bem que algumas nem eram lorotas, e essas eles faziam questão de esfregar em seu rosto com força. Havia pisado feio na bola. Pior. Havia colocado sua família em risco, por mais que odiasse admitir. O que havia feito? Céus! Ela estava na casa deles há poucas horas atrás! Precisava contornar tudo isso e concentrar sua raiva em algo ainda maior. Assim que estacionam na porta do barraco, Emily caminha em direção a um de seus capangas.
— Senhorita. – Saudou elegantemente, mas logo se virou para ela quando viu que a mesma gostaria de dizer algo.
— Mande preparar todos os homens. E avisem eles que a partir de agora, quem está no comando da máfia sou eu.
— Me desculpe? – Ele pareceu confuso, mas não tanto quanto Chloe.
— Se não estiver feliz com isso, pega descendo porque subindo é contramão e eu não tenho tempo para ladainha. – Diz em português, demonstrando sua irritação. – Preciso repetir? Quem tá no comando sou eu! E se mais alguém estiver insatisfeito, manda meter o pé, porque eu não vou perder tempo com esse tipo de gente. Do meu lado eu só quero gente leal.
— Sim, senhorita. – Sussurrou já correndo para acatar as ordens de sua nova líder, mesmo estando chocado com a notícia.
— Emily...
— Fique tranquila, Chloe. Vou consertar a burrada na qual nos metemos. Vai dar tudo certo. Espero que não se importe em ser meu braço direito tão repentinamente... Preparada para a enxurrada de perguntas que terá que enfrentar? – A ruiva nega.
— Eles...?
— Não, não sabem. E para o bem da sua sanidade, não precisam saber. Já estou ouvindo o suficiente por nós duas. – Diz Emily sorrindo de lado tentando passar alguma confiança.
— Estou com você.
— Sei disso. Somos só nós duas até que tudo seja resolvido. Não confie em ninguém. – A morena parecia decidida a colocar um basta em tudo.
— Você está bem? – Chloe não conseguia se preocupar com outra coisa se não essa.
— Vou ficar. Primeiro preciso matar Ian Chiacchio. Ele será um aviso de que ninguém nos engana fácil e saí impune depois... E sei exatamente como faremos isso. – Sussurrou ela enquanto puxa a prima para dentro. A mesma é recebida com um abraço caloroso dos pais.
Emily ignora todos os olhares pesados sobre si, caminhando até o centro daquela sala improvisada, se apoiando em uma mesinha.
— Filha, eu...
— Já pedi para avisar a todos os homens que acabo de assumir totalmente o poder da máfia. Tio Ben, quero todos os relatórios sobre a organização comigo até o fim do dia de amanhã. Que se foda os rituais estúpidos, estamos em uma nova era agora. E ao invés de ficarmos apontando o dedo para mim, vamos concentrar nossas mentes em um problema maior. – Diz ela interrompendo seu próprio pai. Todos a encaram completamente tensos.
— Já tem alguma ideia em mente? – Pergunta Sophie recebendo olhares reprovadores.
— Tenho. Mas, vou precisar da ajuda de vocês. Está na hora de colocar um fim nessa guerra. Só que não vou sair dela sem saber de toda a verdade. E irei arrancar ela de Ian por bem ou por mal. – Avisou categórica.
***
Emily mandou uma mensagem para o celular de Ian por um celular descartável. Nele estava escrito o que queria. Ian mal acreditou na audácia dela. Quando ele saiu do museu, foi acompanhado do pai e de uma comitiva ainda maior que a de Augustos para sua casa, onde tomou um banho rápido. Nesse tempo, Lorenzo havia chegado atordoado, mas seu tio o colocou a par de tudo.
— Estamos em guerra com Emily e Chloe? – Lorenzo ri, pasmo. Ele não acreditava que aquilo podia ser real.
— Estamos em guerra com a Máfia Gavin Brian, e elas fazem parte dela. – Vitor explica, tendo calma. A verdade é que ele queria socar o sobrinho e o filho, vontade essa que dá e passa – como disse Valentina ao telefone minutos atrás.
Lorenzo ficou estático, sentou-se em um sofá na sala e ali ficou pensando e pensando até Ian descer as escadas e puxá-lo para seu escritório. Lorenzo lê a mensagem e ouve Ian contar o plano que acabara de elaborar. No final, Lorenzo já estava convencido de que aquilo tudo estava mesmo acontecendo, mas não conseguia acreditar nas palavras de Ian.
— Vai mesmo conseguir matá-la, Ian?
Ian encarou o primo e engoliu em seco.
— Ou ela, ou eu.
Ian juntou cerca de cinquenta homens e saiu da sua casa armado até os dentes. Disse ao pai que iria buscar respostas. Vitor insistiu em ir, ou que esperassem Augustos voltar da sua busca, porém Ian disse que não faria nada demais, apenas se encontraria com alguns fornecedores e os homens eram para lhe dar segurança. Vitor assentiu, até porque ele teria que lidar com uma chuva de telefonemas das demais casas da Cosa Nostra.
O endereço dado por Emily era bem longe do centro de Chicago, ou dos bairros movimentados, ela escolheu um lugar afastado e fez bem. Não queria ter mortes de inocentes nessa briga. Enquanto dirigia o carro, sozinho, ele tentava imaginar qual a cilada que a família Gavin havia elaborado. Pois nem ferrando havia sido Emily que havia lhe enviado a mensagem por vontade própria, pedindo para conversar. Ele não era tão burro assim. E muito menos estúpido por ir desacompanhado, como dizia o torpedo. Mas ele iria entrar sozinho na tal casa, veria o que estaria esperando por ele, mas ao seu sinal, seus homens atacariam. E ele mataria quem estivesse pela frente.
Estacionou o carro preto na porta da casa, desceu e olhou ao redor. Tudo quieto. Ao longe, no meio da mata, viu uma luz se acender e se apagar rapidamente. Esse era o sinal de que seus homens estavam em posição.
***
Chloe se esconde em um dos cantos mais escuros daquele lugar, já com a arma apontada em direção a entrada daquela casa abandonada, pronta para proteger Emily caso algo desse errado. Estava completamente concentrada quando vê uma sombra se aproximando. Lorenzo. Não esperava vê-lo novamente. Na verdade, desejava isso com todas as forças. Se sentia tão envergonhada e tão usada. Não demorou muito para notar que estava chorando novamente, mas antes que ele notasse sua presença, ela sai dos arbustos apontando a arma em sua direção.
— Vai atirar em mim? – Perguntou ele quando seus olhos finalmente se encontram. A ruiva respira fundo, tentando inutilmente fazer as mãos pararem de tremer.
— Eu vou. – Sussurrou ela. E lá estava. Ao contrário de Ian, Lorenzo sabia, sabia que havia algo errado, algo mal contado. Aquilo que Augustos dizia não parecia se encaixar em nada com o perfil de sua Chloe. Tudo bem, é certo que ela faz parte de uma máfia inimiga, mas.... Tramar tudo aquilo? Ela jamais seria capaz. Exigiria muito esforço da parte dela atuar como se sentisse alguma coisa por ele.
— Então atira. – Falou se aproximando cada vez mais dela, até sentir o cano frio da arma em seu peito. – Atira, Chloe.
— Acha que não tenho coragem? – Perguntou ela. Os lábios tremendo, denunciando a força que fazia para não derramar mais lágrimas, mas o choro caia contra a vontade dela.
— Acho. Depois de tudo que aconteceu conosco, acredita mesmo que te enganei? Porque eu não acredito que tenha feito isso comigo. – Murmurou Lorenzo.
— Você dúvida muito da minha capacidade. – Ele quis rir. Era incrível como a ruiva tentava manter a pose mesmo com os olhos demonstrando o contrário.
— Na verdade... – Em um movimento rápido, Lorenzo toma a arma de Chloe, virando o revólver na direção dela enquanto usa a outra mão para segurar delicadamente um de seus braços. – Duvido que tenha tamanha capacidade de não sentir nada. Você pode até ter me enganado... Mas, vai mesmo dizer que não sentiu absolutamente nada durante o processo? Porque eu sei que senti alguma coisa.
— Não caio mais nesse seu papinho.
— Chloe, olha bem em meus olhos e procure a mentira na qual tanto quer acreditar. É só procurar. Eu estou bem aqui. – Ele falava com tanta naturalidade, que nem parecia estar ocorrendo algum tiroteio em volta deles. Emily e Ian deviam estar se matando, mas por que Chloe não tinha a coragem de fazer o mesmo? Seus olhos analisavam os de Lorenzo com cuidado, trazendo uma série de lembranças que refrescavam a sua memória aos poucos.
Ele procurou ser paciente... Procurou esperar que ela dissesse ou fizesse algo, mas não suportou aquela distância entre os dois, por menor que fosse. Em uma fração de segundos, a arma estava no chão e seus lábios estavam colados aos dela, a puxando para o melhor beijo que dera em toda sua existência. Um beijo desesperado, repentino e apaixonado, que definia perfeitamente o que a boca não conseguia reproduzir em palavras. Um beijo que poderia ter durado ainda mais tempo se Chloe não o afastasse e corresse dali, esquecendo de devolver a Lorenzo o coração que ele havia deixado com ela há mais tempo do que imaginava.
***
Emily ouve o som de um carro chegando e seu coração salta. Mas ela trata de se recompor logo. Nada de vacilar, ou de voltar atrás. Seu plano acaba de ser colocado em prática e sua família toda estava ali pra isso. Executar o plano. E por mais que Emily tente focar nisso, no plano, seu coração bate rápido desesperado por Ian. Céus, ela nunca desejou um abraço dele como agora. Será por isso que Ian a abraçou daquele jeito naquela tarde? Será que ele também sentia isso? Talvez ele também não sabia de nada, talvez fosse tudo uma grande coincidência, um acaso do destino... Não! Emily fecha os olhos com força e afasta aquelas inseguranças dos seus pensamentos. Era sempre assim. Uma hora o odiava mais que tudo, e na outra tentava desesperadamente uma válvula de escape. E com Ian era a mesma coisa.
Quando Ian entra na casa, Emily respira fundo. Era chegada a hora. Ela estava no segundo andar da casa, no antigo quarto de casal. A casa era grande, padrão classe média alta, mas havia sido abandonada há anos. Por isso, a maioria dos moveis estavam cobertos por lençóis brancos empoeirados. Na maioria dos cômodos as lâmpadas estavam queimadas, e outras apenas precisavam ser enroscadas para acenderem. Um truque esperto, pensou ele. Assim vai sinalizando por onde passa. E assim ele fez. Iria jogar o jogo de Emily e sua família, mas ele daria a cartada final. Quando viu que o andar de baixo estava vazio, começou a subir as escadas. Segurava a Glock com firmeza e o dedo estava no gatilho, não iria vacilar. Caminhou por entre os cômodos do segundo andar até chega na suíte principal, encontrando Emily sentada em frente a uma penteadeira o encarando pelo espelho. Por mais que ambos negassem, seus corações bateram mais rápidos, e não foi por causa da adrenalina.
— Ian Chiacchio Denaro Baldocchi. – a voz de Emily era calma e suave, naquele momento ela interpretaria uma personagem, já que ela em si não teria forças para fazer o que devia.
— Emily Gavin Hanswere– rebateu Ian a encarando pelo espelho.
Emily girava sua arma sobre a pequena e delicada mesa enquanto analisava Ian, que empunhava sua arma enquanto vasculhava o restante do quarto a procura de alguém. Vê-lo daquela maneira lhe causou estranheza, mas olhando bem, parecia fazer parte dele. O crime.
— Estamos sozinhos. Eu não disse que seria apenas eu e você? – provocou ela.
Ian riu.
— Eu e você e as pessoas pelas quais servimos.
— Eu sirvo apenas para mim mesma, Ian Baldocchi. — Emily quase cuspiu o sobrenome. – E você, para quem serve?
Emily se levanta e se vira para Ian. Eles se encaram. Emily veste roupas pretas e justas. Sexy. Muito diferente do vestido florido que vestia antes. Será que ela mentiu até no jeito de se vestir?
— Eu sirvo para a organização mafiosa mais antiga que existe, Emily. – Ian dá um passo a frente. – Eu sirvo a milhares de homens e mulheres que sabem o que fazem e fazem com maestria. Eles enganam, eles mentem, eles roubam, eles matam... – mais um passo. – Eu sirvo aquele que tem mais poder, mais influencia mais respeito. Sirvo aquele que mata quem o desonra. Eu sirvo a Máfia! – seu tom de voz é baixa, mais ameaçador, porém Emily não se intimida.
— Você serve à Cosa Nostra! – rebate ela, em fúria.
— Eu sou a Cosa Nostra! – o grito de Ian faz Emily se arrepiar. Os olhos claros que antes a faziam se sentir como se estivesse em casa, agora a faz temer. – E você, — apontou o dedo em direção a morena. – vai se arrepender pelo que fez.
Emily esboça uma careta. O que ela fez? Que maldito! Agora a culpa era dela? Infeliz, desgraçado!
— Você vai deixar a minha família em paz, Ian. Ou eu juro que
— Vai me matar? – grita ele.
A pergunta de Ian faz os dois prenderem a respiração. Teriam ambos coragem para tal ato? Os olhos de Emily brilham, cheios d’água. Ela respira fundo. Ian percebe. Emily aponta a arma e mira.
— Sem pensar duas vezes.
Estaria Emily mentindo?
— Ótimo. – Ian responde seco. Mas ele não se segura e seus olhos avermelham. Ele encara Emily apontando aquela arma para ele, a segurando com firmeza, sem tremer. Ele aperta a sua com força, mas não tem coragem de mirar.
— Eu te levei para minha casa, — começa, se aproximando. – te apresentei a minha família. Deixei você com a minha irmã. Se você tivesse tocado em um só fio de cabelo de Alicia...
— Eu nunca machucaria aquela criança, eu nun...
Tiros são disparados e Emily se distrai e olha para trás, Ian aproveita e avança sobre ela, segurando sua mão que manejava a arma. Empurra-a contra parede e arma dispara, atingindo o teto. Ian bate com força a mão dela contra a parede e a arma cai. Emily acerta um golpe com o joelho na barriga de Ian, que recua. Ela corre em direção a arma, que caiu perto da porta. Sem pensar duas vezes Ian atira, mas não a certa. A morena corre pelo corredor e Ian a segue, que a alcança perto da escada. Os dois caem e começam a desferir golpes. Boca. Orelha. Olhos. Barriga. Eles não pensam. Apenas executam. Lá fora, um verdadeiro tiroteio havia começado. Mas eles não ligavam. Apenas tentavam o máximo agredir um ao outro, ferir-se tão grave, que a dor que sentiam emocionalmente poderia finalmente ser sentida de forma válida.
— Mentiroso! – Emily grita, recuperando sua arma e atirando em direção de Ian.
A essa altura eles já estavam no andar de baixo, Ian se abaixa atrás do balcão da cozinha e ouve o som de vidros quebrarem. Copos, pratos. Emily estava atirando pra valer.
— Eu vou acabar com aquilo que meu avô não pode finalizar anos atrás. Você pode ter certeza disso! – Ian gritou de volta, não entendo o porque dele ser o mentiroso da história.
A munição de Emily acaba e Ian aproveita para correr até ela. Sua arma havia caído e rolado pela sala e assim que Emily recarrega, os dois caem sobre o chão. A arma de Emily fica fora de seu alcance e eles tentam livrar-se um do outro a procura dela.
— Eu acreditei em você! – Emily grita, aplicando um golpe de judô em Ian, que se desvencilha rápido e se levanta, Emily agarrada a sua cintura, eles se encaram.
— Você mente bem. – Ian a joga contra um espelho da sala e ela grita sentindo cortes por seu corpo. Ian corre e pega sua arma, quando vira para trás Emily havia feito o mesmo.
Eles se encaram. Armas carregadas e destravadas. O ódio emanando de ambos. Eles precisavam apenas apertar o gatilho e aquele que tiver sido o mais rápido ganha. Mas ninguém aperta. Ninguém faz nada. As lágrimas escorrem pelo rosto de Emily, ela chora e sente raiva disso. Mas ela não consegue evitar. Ela está ali, apontando uma arma para o homem que ama, cacete! Ela não pode evitar. Ela só quer que tudo aquilo acabe, porém ela não tem coragem. Ian não se meche. Seus olhos também estão marejados. Ele tenta se esforça para olhar Emily com ódio, mas nesse momento ele não consegue.
— Atira! – Emily grita, quebrando o silencio entre eles, suas lagrimas rolam. – Vai, atira, seu desgraçado. Atira!
Ian não esboça reação.
— O que você está esperando, Ian?! Atira. Acaba logo com isso. Atira!
Então Ian abaixa sua arma, deixando Emily sem reação. Ela soluça com o choro, mas não consegue fazer o mesmo. Ian quer chorar, seu peito dói.
— Eu acreditei em você, Emily... – o tom de sua voz mostra a decepção que ele sente. Ele esta desolado. – Eu vim aqui essa noite pra matar você, — conta. – Mas eu não consigo! E o pior de tudo é que eu também não quero.
Emily chora ainda mais, mas aperta com força a arma em sua mão.
— Você quer? – pergunta ele.
Emily abre a boca, mas não diz nada. Sua cabeça dói com tudo aquilo. O que ele está fazendo, afinal. Porque esta sendo gentil? Porque lhe diz tudo aquilo? E porque diabos ele não atirou? Ah, Ian, o que você está fazendo...
Antes que Emily possa enfim lhe dar uma resposta, ela vê Ian empunhar sua arma tão rápido e atirar que ela só consegue fechar seus olhos e esperar que ele a acerte e acabe logo com aquilo. Mas o tira não é pra ela. Um homem cai morto logo atrás dela. Um homem da Cosa Nostra. Ela olha confusa para Ian.
— O que... – ela tenta, mas sua voz morre, sua visão está embargada por conta do choro.
Ian passa as mãos pelo cabelo e a olha de uma forma tão, tão... Emily não consegue decifrar. Ian se aproxima dela e abaixa sua arma e de forma desesperada a beija. E Emily permite.
— Vá embora, Emily. – Ian diz, segurando o rosto da morena a centímetros do seu, Emily o encara. – Saia daqui e leve seus homens. Desapareça da minha vida, porque eu juro pela minha vida que a próxima vez que nos encontrarmos eu vou matar você.
O pedido de Ian é desesperador. Ele chora. Ela chora.
— Eu vou voltar Ian. – ela diz.
Emily o olha com ternura, e com todo amor que tem por ele, ela não pode mentir. Ian dá um sorriso fraco.
— Eu sei que vai. – ele acaricia seu rosto. – É por isso que dei o aviso.
Um minuto. Exatamente um minuto se passa até Emily se afastar de Ian e correr em direção aos fundos, onde consegue escapar. Ian fica ali até que Lorenzo aparece e o encontra remexendo com os pés alguns cacos de vidros no chão. Seus olhos se encontram. Lorenzo pensa no pior quando percebe que seu primo havia chorado.
— Eu não consegui. – Ian diz, acalmando Lorenzo. Ian respira fundo, e a partir daquele momento, Emily não era mais a garota que conhecera na rua da boate, ou aquela que ele tentou reconquistar, muito menos a mulher linda e encantadora que apresentará a sua família. Emily, agora, era sua inimiga. E ele tinha que se conformar. – Mas é só uma questão de tempo. – disse por fim.
E era.
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