Miranda: Starve
23 Sangria Tulips
Greeny Wicked
Eu estava destruído, acabado. Nada ajudaria, era como se alguém tivesse me apunhalado, aquelas palavras me machucavam muito e eu estava cansado de me ferir por causa delas. Eu fiquei praticamente a madrugada inteira chorando, Thay tentava me consolar, mas nada mudaria meu pensamento, eu queria morrer.
Logo que o sol começou a surgir no horizonte eu tive que sair da mansão, eu queria ter ficado, mas Thay não queria que eu morresse, ainda não.
Abri a porta de madeira farpada e desci as escadarias enquanto os fundos da casa viravam pó e se dissipava no ar, eu ainda achava aquilo bizarro. Parecia que os raios do sol queimavam aquilo, era estranho.
Logo que saí fui andando pela ilha, eu estava desmotivado, só queria que a minha hora chegasse logo.
***
Há 3 anos.
Era meio do ano de 2015, desde a última revelação que tive em minha vida tudo mudou. Elizabeth e Lucy não pouparam detalhes aquele dia. Eu me sentia mal em tê-las feito desaparecer, digo, deixei-as invisíveis para que nunca enxergassem a si mesmas, não era nada agradável.
Era estranho pensar que há uns meses eu usava cores claras e roupas mais simples e comuns, agora eu só me sentia bem de preto ou verde, talvez um pouco de roxo escuro também.
Aquele dia seria o começo do Festival do Equinócio de Primavera, os pinguins usavam cores claras e pastéis, pintando seus corpos com flores, peixes e tudo que consideravam característico dessa nova estação. E embora eu tenha desistido das cores pastéis, esse festival era um dos meus favoritos, parece que os pinguins se conectam mais com a natureza nessa época, essa é uma das coisas que eu mais gosto.
Eu me preparava cultivando várias rosas, girassóis, antúrios e margaridas, minhas flores favoritas, mas com certeza a rosa era minha favorita.
Como meu iglu era nas montanhas eu precisava fazer um longo percurso para poder ir no Centro ou no Plaza, lá eu podia comprar fertilizantes e até algumas tintas.
Logo que cheguei na montanha mais baixa, – aquela que os pinguins cometem no Morro-Abaixo –, eu peguei um teleférico. Me sentei na esquerda e fiquei esperando que o ligassem, mas como estava muito vazio ainda não podiam.
Fiquei uns dez minutos aguardando, até que uma pinguim de penas amarelas, cabelos escuros e uns óculos redondo chegou. Ela vestia uma blusa de hóquei azul e um sapato azul de cadarço preto.
— Bom dia! — Disse ela se ajeitando na cadeira ao meu lado.
— Ahm... Bom dia. — Respondi indo um pouco mais para o lado.
— Só tem você aqui? — Perguntou.
— Sim... Faz uns dez minutos que não aparece ninguém, por isso ainda não ligaram.
— Ah, sim! — Respondeu ela. — Espero que não demore, eu tenho aula daqui uns dez minutos...
Eu não sabia o que responder a ela, eu não gostava de alongar muito uma conversa que eu sabia que não daria em nada.
— O sol está lindo hoje! Amanhã é o dia do Equinócio... Você gosta do festival? — Perguntou.
— Gosto sim, parece que todos ficam mais amigos da terra, valorizam mais a beleza natural que tem na ilha...
— Concordo com você! Eu gosto bastante também, estou ansiosa para fazer umas pinturas na nadadeira e no rosto... Você faz?
— Às vezes, provavelmente farei esse ano, estou indo para o Plaza comprar algumas tintas!
— Eu tenho algumas do ano passado no meu iglu, espero que dure mais um tempão! — A garota respondeu pegando seu celular para ver as horas — Ah não! Falta cinco minutos e ainda não ligaram esse negócio, que saco! — Continuou.
— Acho que você vai ter que ir a pé... Se quiser eu te acompanho até metade do caminho.
— Vou ter que aceitar, amigo... Qual é o seu nome?
— Greeny Wicked. E o seu?
— Pode me chamar de Minkis, Minkis Mackenzie.
***
Eu estava desejando que alguém me empurrasse de um penhasco, ou que alguma doença perigosa me atingisse, mas eu sabia que isso não aconteceria, bem, esses são alguns privilégios de ser uma bruxa, qualquer doença muito perigosa acaba não sendo tão fatal.
Durante a madrugada a mansão tinha se movido para a montanha mais alta, eu demoraria um pouco para descer tudo.
Ao longo do caminho vi alguns pinguins protestando, como se a Grande Fome fosse culpa do governo, mas junto aos protestos tinham pinguins caindo ao chão, desidratados, eles só bebiam água desde o início da crise, uma hora a conta ia chegar.
Aquela cena ficou na minha mente por um bom tempo, quando finalmente cheguei ao Centro percebi que estava pior ainda, tinham pinguins caídos por todos os lados, outros rezando, outros revoltados, me assustava pensar que algum dia eu poderia me juntar a eles.
Eu pretendia ficar no Centro, mas tudo aquilo me assustava, eu precisava me distanciar ou fazer alguma coisa.
Com os minérios negros eu me teletransporte para o meu iglu presenciando outra cena que eu jamais imaginaria, todas as plantas, cada folha, cada galho, cada flor e cada fruto, estava tudo seco e podre, tudo tinha morrido. Comecei a chorar, o ladrão de alimentos e possivelmente o terceiro cavalo matou todas as minhas plantas. Eu sentia uma mistura de tristeza e ódio. Assim que olhei mais de perto percebi que tinha mais sal do que o normal, com certeza foi por pura perversidade.
Minhas lágrimas pingavam na terra, eu tinha cultivado aquilo por longos quatro anos e aquelas sementes só germinaram por causa da minha magia, agora só me restava uma terra pobre e plantas mortas.
Me levantei do jardim, não era hora de desistir, eu mesmo iria achar esse cavalo, e depois eu o mataria. Seria seu fim.
Fora esse ódio existia outra coisa que me perturbava, as cenas que vi pela ilha, aqueles pinguins caindo no chão sem vida, sem energia, sem família, sem sustentação.
Era 7h da manhã e o sol já estava caindo, olhei em meu calendário: 20 de dezembro, naquele dia a luz do sol duraria apenas seis horas, no dia seguinte seria o solstício, ou seja, o dia em que tudo ficaria escuro.
Tradicionalmente nós estaríamos nos preparando fazendo comidas, instalando luzes e comprando tintas para as pinturas corporais, mas estava tudo destruído, vazio e morto.
Eu estava com muita fome, então fui em minha despensa ver o que ainda restava. Me surpreendi com a quantidade de alimentos que ainda tinha, tudo aquilo poderia durar um mês e meio. Mas eu me sentia mal em ter toda fartura, sendo que tinha pinguins caindo no chão, bastante famintos.
Me veio uma ideia em mente, mandei e-mail para uma conhecida por seu trabalho delicioso com bolos, salgados e outros doces.
Enquanto aguardava sua resposta eu peguei cada farinha, cada ovo, cada ingrediente que eu poderia juntar e criar algum novo, empacotei cada uma dessas e coisas e empilhei na minha sala de estar.
Não demorou muito para meu celular notificar a resposta da confeiteira, ela concordou com minha ideia, pouco tempo depois iria para o meu iglu, onde iriámos levar todos os alimentos para o Centro, ali organizaríamos um pequeno festival do solstício, com comida para todos.
“Olá Greeny Wicked,
Me encanta ver sua força de vontade em ajudar esses pinguins, você é muito solidário mesmo com todos os comentários maldosos e preconceitos.
Também levarei algumas coisas que restaram na minha despensa para poder te ajudar, juntos faremos um festival incrível.
Convidei mais alguns amigos que trabalham nesse ramo, todos concordaram!
Esperamos te encontrar daqui a pouco.
Mary Vegan.”
Aproximadamente uma hora depois, Mary e seus colegas, Steve, Louis e Katy chegaram em meu iglu, eles tinham trago pequenas carroças para conseguirem levar tudo de uma vez.
Coloquei cada um dos meus pacotes em uma delas e nós descemos. Para ajudar no percurso talvez eu tenha feito alguns feitiços de teletransporte.
Assim que chegamos os pinguins se animaram, os que estavam caídos no chão levantaram a cabeça e arregalaram os olhos, então Mary começou a falar:
— Olá, amigos! Eu em conjunto com mais alguns amigos trouxemos algumas coisas para vocês, para nós! A bruxa que foi tão criticada, Greeny Wicked foi quem deu essa ideia, ideia de ajudá-los a sobreviver. Nós reorganizaremos esse festival e faremos cada prato tradicional! As regras são simples: enquanto alguns fazem os pratos, outros decoram o lugar com qualquer coisa que verem pela frente, esculturas, tapetes, qualquer coisa é bem-vinda! Podem ir em seus iglus se preferirem! O intuito disso é recuperar a magia que o solstício tem! Vamos lá, meus amigos! É hora de celebrar!
Assim que terminou todos os pinguins começaram a correr felizes, alguns foram em seus iglus pegarem cadeiras, outros pegaram mesas e outros instalaram luzes no lugar.
Eu, Mary, Steve, Katy e Louis montamos uma mesa improvisada, tiramos algumas coisas do Café e criamos uma bancada bem grande no Centro. Distribuímos cada ingrediente.
Fizemos tortas, bolos, pizzas e assamos alguns peixes. O cheiro era maravilhoso, me lembrou o meu primeiro solstício quando eu ainda era pequeno e vivia com minha Babá, Sonja.
Os pinguins decoravam o lugar aguardando poder degustar os maravilhosos pratos, dava para ver que eles salivavam e desejavam as comidas.
Eu e meus novos amigos dividimos os pratos e acendemos velas para deixar a mesa mais bonita.
Enquanto terminávamos a decoração dos pratos, os pinguins também terminavam de espalhar fotos de outros festivais, o clima estava muito bom.
O céu estava nublado e tinha um tom avermelhado, eu me sentia meio desconfortável por causa do vermelho, aquilo me trazia más lembranças.
Vermelho sangue se tornou uma cor odiosa para mim.
Quando terminamos tudo, ligamos um rádio e colocamos músicas natalinas assistimos os pinguins finalmente felizes. Alguns já degustavam alguns pratos, outros preferiam dançar primeiro.
Eu não podia ficar mais feliz naquele dia, ou talvez podia... Se meus melhores amigos estivessem comigo ali cantando, dançando e comendo também. Me sentei em uma cadeira contemplando tudo, comi poucas coisas para deixar para quem mais precisava.
Enquanto estava distraído olhando para o céu, eu senti uma nadadeira tocar nas minhas costas, quando me virei era uma pinguim pequena, a mesma que vi na Mina cantando um poema sobre Miranda, ela segurava um buquê de flores coberto por uma espécie de véu.
Ela sorriu me entregando, agradecendo pelo festival. Eu a agradeci pelo buquê e então tentei sentir o aroma das flores para tentar adivinhar qual era, eu amava fazer isso.
Mas quando tirei o tecido que as cobria, acabei me assustando. Eram tulipas, esse tipo de flor não nascia na ilha há um bom tempo, principalmente aquelas naquele tom, vermelho sangria.
Sem contar que nada florescia no frio que presenciávamos. Minhas penas arrepiaram, me deixando confuso. Há muito tempo atrás as tulipas cor-de-sangue pararam de nascer, antes mesmo do meu nascimento, o último registro tinha sido antes da criação do Club Penguin, como isso era possível? Ainda mais agora? Aquilo era um milagre do solstício ou era um sinal do Apocalipse?
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