Minkis Mackenzie

Novembro de 2018

O dia amanheceu nublado, o céu estava totalmente cinza, combinando com a situação. Acordei desanimada, não havia motivos para estar feliz e radiante naquele momento, nossa amiga havia falecido, e hoje era o enterro dela.

Sentei-me na cama, respirei fundo e abri meus olhos. Fui em direção ao banheiro, lavei meu rosto, na tentativa de deixa-lo mais apresentável. Entrei no box e tomei um banho quente e demorado, com a esperança que tudo que estava acontecendo fosse embora junto com a fumaça. Voltei ao meu quarto, abrindo meu guarda roupa e me deparando com a roupa, infelizmente, “perfeita” para a situação. Peguei o vestido preto, ele era tão lindo! Não esperava ter que usá-lo nesse dia, quem sabe em uma futura festa? Thay havia me presenteado com aquele vestido, achava justo usá-lo naquela data.

Vesti a peça de roupa, pegando as sapatilhas pretas, que estavam perto do meu criado-mudo e as calcei. Fiz um penteado, e sinceramente, ele poderia ser considerado minha marca registrada. O coque, eu sempre usava ele, que tal diferenciar? Acho que não, mas quem sabe um dia?

Saí do iglu, era cedo, mas não demoraria muito para o enterro, então, me apressei, afinal, o evento seria no Dojô, e eu moro na estação de esqui. No meio do caminho, encontrei meus dois amigos, Greeny e Juan, que estavam tão abalados quanto eu.

O caminho foi completamente silencioso, ninguém pensava em abrir o bico para falar uma palavra, não estava em um momento bom para conversarmos.

Quando chegamos no local, avistamos outros pinguins. Muitos estavam chorando, e outros estavam apenas com expressões tristes. Ficamos um pouco afastados dos outros, aguardando o evento começar. E não demorou tanto, o caixão estava à nossa frente, e não tinha coragem de chegar perto. Nem arrisquei dar um passo, eu poderia começar a chorar mais do que estava. Não tinha coragem, via todos os pinguins se aproximarem e olharem para a pinguim, chorando e claramente abalados, como seria que ela estava?

A curiosidade não conseguia ultrapassar outro sentimento, eu não conseguia andar naquela direção, simplesmente não era possível. Talvez fosse melhor, caso olhasse, iria ficar com aquela imagem na minha cabeça por semanas, provavelmente teria sonhos.

Quando o caixão foi colocado na cova, diversas lágrimas saíram dos meus olhos. Tentava limpá-las com minhas nadadeiras, mas não era possível, elas não paravam. Enquanto uma era secada, outras cinco saíam.

Antes de cobrirem o buraco com terra, jogamos sua flor favorita em sinal de agradecimento pela pinguim, uma homenagem. Diversas margaridas eram arremessadas, as flores se acumulavam sob o caixão, até que mais nenhuma planta foi colocada e a terra cobriu a cova.

Todos presentes batem palmas, inclusive nós, os amigos dela. As lágrimas saíam na mesma velocidade em que batia palmas, não conseguia ter controle delas. As palmas foram cessadas, e os pinguins foram se retirando lentamente, apenas deixando nós três no local.

Quando ia abrir meu bico para falar que iria para meu iglu, uma luz branca veio em nossa direção. Fiquei totalmente assustada, fechei meus olhos e tentei olhar em direção. Quando abri meus olhos, encontrei uma mansão nas montanhas, perto do Dojô, onde estávamos. Formamos uma roda e Juan falou:

— Melhor não.

Quando estávamos nos preparando para seguirmos o caminho de nossos iglus, um pinguim aparece em nossa frente, se apresentando:

— Olá. Eu sou Jeon.

Nos entreolhamos, o que aquele pinguim queria conosco? Sorri, respondendo:

— Olá, sou Minkinha.

Depois que me apresentei, meus amigos fizeram o mesmo, e outro pinguim arregalou os olhos, mas em seguida, sorriu

— Eu era o namorado da Thay, e vocês eram os amigos dela, certo? Bem, obrigada por cuidarem dela por todos esses anos, de verdade.

O pinguim terminou de falar, e o sorriso ainda estava em seu bico, junto com algumas lágrimas em seus olhos. Ele foi até o túmulo de Thay, e acabei me virando, para ver o que ele iria fazer. Acabei não percebendo, mas sua nadadeira estava em um punho, parecia estar segurando algo com muita força.

O garoto se abaixou, tirando a terra de onde estava enterrado o caixão da pinguim, o que ele estava fazendo? Quando Greeny ia andar em sua direção, o pinguim parou de cavar e colocou uma pedrinha na madeira.

Acabei dando um pequeno sorriso, mas resolvi parar de olhar, não queria chorar mais ainda. Virei meu corpo, acenando para os outros dois pinguins, como se estivesse dizendo um “tchau”. Iniciando minha caminhada até minha casa.

Quando cheguei na minha residência, fui diretamente para o banheiro, precisava de outro banho para me acalmar. Enquanto as gotas de água molhavam meu corpo, comecei a pensar. Não pensava em algo fixo, meus pensamentos eram totalmente aleatórios naquele momento, estava tentando não pensar na morte de Thay. Não sei o que levou a pensar nisso, mas acabei imaginando Thay como o ator Nicolas Cage. Balancei minha cabeça negativamente, como se estivesse espantando aquilo da mente. Não! Eu não poderia pensar nisso, vai que aquilo era considerado como uma falta de respeito.

Enrolei-me em uma toalha, indo para o meu quarto. Dessa vez, não vesti nenhuma roupa preta, e sim, uma roupa quente. O inverno estava se aproximando, faltava apenas um mês, mas o frio já estava presente. Vesti-me com uma calça preta, uma blusa branca, um tênis preto e um casaco vermelho. Estava totalmente pronta para sair, enquanto passava pela minha sala, parei perto da porta. Iria esquecer minha mochila! Nela, havia algumas coisas minhas, como livros. Saí do iglu, indo em direção ao Centro, em mais um dia de trabalho. Não estava cem por cento bem para voltar ao trabalho, mas estava feliz, desde a chegada das bruxas, nunca mais havia pisado no café.

O caminho foi rápido, o Centro não é tão distante da estação de esqui, em comparação ao Dojô. Abri a porta do estabelecimento, estava vazio. Estranhei, pensava que pelo menos um pinguim estaria presente, nem que fosse um cliente, um colega de trabalho ou um dos funcionários do Club Penguin News, já que a redação do jornal é no andar de cima.

Coloquei minha mochila no local dos funcionários, e peguei meu avental, que estava no mesmo cômodo. Saí da pequena sala, indo para o balcão, colocando meu “uniforme”.

Fiquei alguns minutos, esperando a entrada de algum pinguim, mas ninguém entrava. Poxa! Espero que não seja folga! Olhei para o relógio que está na parede que tem uma janela e vi o horário, onze horas! Provavelmente demoraria alguns minutos para algum funcionário chegar, quem sabe uns vinte minutos?

Revirei meus olhos, ótimo, mais alguns minutos sem companhia e nada para fazer! Iria continuar reclamando na minha mente, se não fosse pelo sino que tem em cima da porta, sinalizando a entrada de alguém. Quando olho, vejo Juan, finalmente! Respiro aliviada, mas o pinguim começa a gritar:

— Perdão, chefe! Eu me atrasei mas prometo que faço hora extra!

Olhei para o pinguim, confusa. Ele estava louco?

— Juan, você não está atrasado.

O pinguim olhou para mim, mais confuso ainda.

— Não?

E eu neguei com a cabeça, fazendo o mais velho suspirar aliviado.

— Graças a Sensei!

Coloquei a nadadeira na frente do meu bico, rindo da reação dele.

— Mas então, só tem você aqui?

Juan perguntou, bem mais calmo do que antes, andando em direção à sala dos funcionários.

— Sim! Cheguei cedo.

Juan abriu um sorriso forçado, tirando a mochila das costas e colocando em um dos cabides, pegando seu avental e saindo da sala.

— O que você pensa em fazer por enquanto?

Ele pergunta, olhando em minha direção enquanto amarrava o avental.

— Não sei. Pensei em fazer um chocolate quente para tomar, quer?

O pinguim afirma, fazendo movimentos com a cabeça repetidamente. Viro para as máquinas, andando até uma especifica, a de chocolate quente.

Enquanto fazia as duas bebidas, apenas era possível escutar o pé de Juan batendo contra o chão de madeira do local. Coloquei o líquido em duas canecas, e andei em direção ao pinguim.

Sentei-me em um dos sofás de coloração vermelha que estavam presentes no estabelecimento. Entreguei uma das canecas para o outro pinguim, começamos a beber o líquido calmamente, apreciando o gosto. Senti meu interior esquentar aos poucos, e a sensação me faz ter um flashback de dezembro do ano passado.

Terminamos nossas bebidas, entreguei minha caneca ao pinguim, que as colocou na pia. Ele começou a conversar comigo, na tentativa de fazer o tempo passar, e algo que me surpreendeu foi que em momento algum o assunto “Thay” foi tocado. Nós precisávamos esquecer um pouco disso, claro, que era normal sofrer por conta disso, nossa amiga havia falecido, mas era bom esquecer um pouco disso.

Aos poucos, funcionários do café e da redação do jornal foram chegando, fazendo o dia de trabalho começar de vez. E sinceramente, o dia foi excelente, consegui esquecer um pouco dos eventos recentes, e me divertir, algo que não era possível há meses.

Dezembro de 2018

Um mês havia se passado, as férias haviam chegado, uma data tão esperada para todos os pinguins. Nesse mês tinha vários eventos importantes, como por exemplo, o Natal, ano novo e o solstício de inverno. Mas uma data recente completava um ano naquele mês, o ataque dos encapuzados. Não acreditava que fazia um ano do ocorrido, parecia tão recente! E pensando bem, que bom que isso não é algo tão recente, só de pensar naquilo, me arrepio.

Muitas coisas estavam acontecendo na ilha, em especial, os preparativos para o solstício. Era uma das minhas épocas favoritas, afinal, poderíamos pintar nosso corpo! Já estava pensando no que poderia pintar, já vi várias fotos no Pengoogle e no Penterest e fiz uma lista das minhas pinturas favoritas. Todos estavam muito animados, era uma época animadora, e a felicidade dos pinguins se espalhava pouco a pouco. Mas, Greeny não estava muito animado, na verdade, ele estava bem longe de estar animado. Ele ainda estava muito abalado pela morte da Thay, claro que eu também estava, assim como Juan, mas ele estava muito, e isso estava fazendo mal para ele. Ele estava perdendo muitos momentos bons, perdendo festas e comemorações, e a única coisa que eu esperava no momento era que o pinguim se animasse, que não ficasse tão morto pela perda da amiga, e que pudesse comemorar junto a nós e aos outros moradores da ilha.