Juan Hussie

Novembro de 2018

Tudo estava tenso após o enterro de Thay. Eu visitei seu túmulo durante todos os dias daquela semana, apenas observando e me culpando por não ter conseguido fazer nada. Mesmo sabendo... Eu podia ter tentado remontar o portal desde o meu primeiro dia na Club Penguin Island. Mas...

Eu sou tão idiota.

— Então... Thay — eu disse em frente ao seu túmulo — Saudades de você. Quem diria que a última vez que nós nos falaríamos seria no iglu do Greeny. Tanta coisa aconteceu, não? Sabe, eu lembro de quando a gente se conheceu. Você estava tão animada para ir naquele show dos coreanos... Meu amigo tinha dois ingressos, e, como eu não curtia eles, eu não estava muito animado para ir. Mas quando você descobriu que ele tinha um ingresso sobrando, nossa... Foi um escândalo só. Que bom que tudo deu certo...

Uma lágrima escorreu por meu rosto. Relembrar aquilo, dizer aquelas palavras era tão... doloroso. Mas, mesmo assim, eu me sentia melhor. Eu gostava de acreditar que o espírito da minha amiga estava me observando ali e ouvindo tudo o que eu dizia. Eu queria tanto abraçá-la...

Mas eu não podia. Ela não estava ali. Eu estava sozinho. Deixei mais uma margarida no túmulo, assim como em todos os outros dias. Seria muito bom se ela visse aquilo...

Me pus em direção ao meu iglu no ancoradouro. Depois de alguns minutos de caminhada, passei pelo Centro e vi Minkis passando por ali. Parecia que ela tinha ficado mais tempo trabalhando no café aquele dia. Nosso horário geralmente ia até as 3 da tarde nas segundas-feiras.

Quando olhei para ela, percebi que eu não podia mais adiar.

— Minkis, oi! — exclamei. Ela se virou para mim em um segundo e abriu um pequeno sorriso. Ela provavelmente estava sendo apenas educada.

— Oi, Juan.

— Então... Você tem um tempo livre agora? — perguntei.

— Na verdade, eu não tenho nada para fazer.

— Vamos ligar para o Greeny, então. Eu acho que... estou pronto para conversar sobre aquilo.

Minkis pareceu um pouco surpresa. Eu tinha evitado falar sobre a Club Penguin Island desde que tinha voltado. Era simplesmente... muita coisa.

Ligamos para Greeny e o aguardamos em frente ao meu iglu. Já estava começando a anoitecer, e ainda não eram nem cinco horas. Estávamos indo para o inverno, então cada dia começava a durar menos. Quando o terceiro pinguim chegou, eu abri a porta e pudemos todos nos acomodar nos sofás da sala. Eu fui até a cozinha preparar um chocolate quente para todos. Após a bebida ficar pronta, levei para a sala de estar e entreguei os copos para meus amigos.

— Então, o que foi? Você disse que tinha algo importante para falar — Greeny perguntou.

— É... Eu preciso falar sobre a... a... — eu hesitava em falar o nome. Aquele nome que assombrava minhas noites — Miranda.

Eu percebi que hesitei após falar o nome, mas Greeny e Minkis pareciam não ter entendido nada.

— Bom, Dylan me contou várias coisas enquanto estive na Club Penguin Island. Mas as principais são sobre essa entidade. Ela é como uma deusa... e um demônio ao mesmo tempo. — Agora meus amigos pareciam mais interessados na história — Bom, ele disse que, no passado, ela tentou destruir todos os pinguins, mas foi impedida por um grupo de pinguins poderosos. Então, ela foi presa por correntes em outra dimensão e morta.

Greeny parecia muito curioso sobre a história.

— Essa dimensão é a... “Club Penguin Island”. Quer dizer, esse foi o nome que o Dylan deu a ela — prossegui — Bom, vocês devem imaginar que uma divindade não pode ser realmente morta, não é? Ela ficou, tipo, igual a um espírito. Foi aí que ela teve o objetivo de voltar à vida e se libertar de todas as correntes, mas não seria nada fácil. Durante gerações que se passaram por todos esses séculos, ela procurou fazer acordos com pinguins ambiciosos, que queriam tudo para si, ou até mesmo pinguins comuns. Mas sempre algo dava errado antes que a corrente pudesse ser quebrada.

— Como seriam exatamente esses acordos? — Minkis perguntou.

— É bem simples. O pinguim faria algo que destruiria a corrente dela em troca de algo que ele quisesse muito. Por exemplo, Dylan queria muito a Club Penguin Island. Miranda deu isso a ele e a corrente foi quebrada, assim que o portal foi aberto. Na verdade, o portal de Dylan leva até a dimensão onde está o espírito da Miranda. E é por ele que ela vai passar se for libertada.

Os dois pareciam cada vez mais assustados enquanto eu continuava.

— Com esses acordos, Miranda teria seus cavalos do Apocalipse.

— Apocalipse!? — Minkis exclamou — I-isso não é... O fim do mundo?

Eu assenti com a cabeça.

— Dylan foi o primeiro cavalo. Eu imagino que, enquanto estive fora, vocês lidaram com alguns problemas bem grandes que vieram com... consequências terríveis — falei, pensando em Thay, segurando uma lágrima em meu olho — Parece que agora a segunda corrente já foi quebrada.

— E quantas correntes são? — Greeny perguntou.

— Dylan encontrou três, mas podem ter muito mais. O terceiro cavalo pode chegar a qualquer momento. E depois... Miranda.

Agora que meus amigos sabiam quem era aquela entidade, eles pareciam bem mais preocupados ao ouvir seu nome. Enquanto eu ia para a cozinha pegar brownies para comermos, Greeny se preparou para contar tudo sobre o ataque das bruxas, que estava acontecendo até cinco dias atrás.

Em alguns minutos, eu já sabia de tudo. Sobre Marcus, a barreira de gelo que surgiu em volta da ilha, o caçador de bruxas, a incriminação de Minkis... E sobre meu amigo abrindo um portal para levar todas as bruxas embora.

— Ah, por falar nisso... Esqueci de contar sobre como eu voltei para cá — falei — Vocês devem ter reparado que o Dylan não veio comigo, é óbvio. Bom, a gente tava tentando remontar o portal pela ICP já faziam alguns dias, quando eu vi um novo portal se abrindo do nada, e logo depois vi as bruxas passando por ele. Gritei pra Dylan, para corrermos e entrarmos lá, dizendo que era o portal de volta para o CP. Eu consegui correr, mas, quando já estava com o pé dentro dele, vi o chão se levantar, levando Dylan de volta para o píer da ilha. Já era tarde demais e eu não pude ajudar ele. Miranda tinha impedido que ele saísse. É... foi assim que eu voltei.

Minkis se levantou e sentou-se ao meu lado, colocando a nadadeira em meu ombro.

— Ele não era tão ruim, pelo que você contou. Ele te ajudou bastante lá na Ilha do Club Penguin. Sinto muito, Juan.

Nós nos abraçamos, e Greeny se juntou a nós em seguida. Mas eu sentia que não era querido ali. Nós estamos melhores sem ele, a voz de Minkis que eu tinha ouvido em meu sonho ecoava. Será que era verdade? Ou apenas um sonho me enganando? Será que meus amigos gostavam de mim ou só estavam fingindo, e só me usando para se confortarem com a morte de Thay?

Afastei esses pensamentos e apenas continuei os abraçando. Nós precisávamos ficar unidos a qualquer custo.

Dezembro de 2018

O Festival do Solstício de Inverno era definitivamente um dos meus feriados favoritos. Seus preparativos já começavam na primeira semana de dezembro. Sua principal área geralmente era em torno do ancoradouro, afinal aquele era um lugar livre e bem espaçoso. O centro do festival cobriria toda a parte da estação de esqui, da praia e do Centro, também. Os diversos iglus por ali, inclusive o meu e o de Minkis, eram os que mais ficavam decorados.

Era bom saber que, apesar dos problemas envolvendo bruxas perversas e uma barreira de gelo, todos ainda pareciam querer seguir em frente.

A lenha era trazida da floresta para fazer as dezenas de grandes fogueiras que seriam colocadas em volta para que não ficasse frio e os pinguins pudessem andar livremente com roupas curtas.

As luzes que tinham sido quebradas após a explosão de magia das bruxas no 31 de outubro já tinham, em sua maioria, sido consertadas. Era muito necessário, já que a cada dia que passava, a luz do sol durava menos tempo. No começo de dezembro, ela já ficava por menos de oito horas. Os dias seriam cada vez menores até o dia 21. Seria um dia com suas 24 horas no escuro. A partir do dia 22, cada dia a luz duraria mais tempo.

O lado bom é que toda a ilha iria brilhar com suas luzes coloridas, que já eram colocadas também para celebrar o Natal. Além disso, lampiões eram colocados no chão e em postes por todos os lados. Embora um dia que seria inteiramente uma noite logo chegaria, aquela ilha não ficaria escura.

Pinheiros eram levados até aquela área e decorados com vários pisca-piscas. Banquinhos eram colocados por todos os lados, para as pessoas aproveitarem. Barracas eram montadas, pois elas venderiam comida e ofereceriam jogos para as pessoas. Caixas de som eram trazidas, pois elas animariam tudo com música. Era uma enorme animação, e eu não conseguia evitar ficar empolgado.

A parte mais legal do festival eram as pinturas: os pinguins usavam tinta para desenhar planetas, estrelas e luas em suas penas. Vários desenhos dos astros eram feitos em azul escuro, em homenagem à noite, e muitos pinguins passavam semanas planejando. Enquanto alguns faziam suas próprias pinturas em casas, os salões de beleza se empolgavam, sabendo que o número de clientes logo cresceria.

Uma tinta especial que brilhava era ostentada pelos pinguins mais ricos, que podiam cobrir seus corpos inteiros com ela. No entanto, todas as tintas usadas eram temporárias, afinal pintar a pele permanentemente era ilegal.

Desde criança eu adorava o festival. Me coloria e sorria enquanto corria pelo meu iglu, esperando que meus pais saíssem para e poder ir junto... Ah, aquela época tudo era tão bom. Tinha sido bom eu ter ido visitar meus pais alguns dias durante esse mês de novembro. Eles tinham ficado muito preocupados comigo após meu desaparecimento.

Parecia que os dias seriam calmos. Teríamos um tempo para relaxar... Era o que pensávamos, até sabermos sobre um pronunciamento do governo.

***

O pronunciamento foi anunciado um dia antes de acontecer. Eu e meus amigos combinamos de ir ver juntos, e nos sentamos em uma das fileiras do meio para descobrirmos o que estava acontecendo.

— Ah, então você é uma das bruxas que estava ameaçando o Club Penguin mês passado? — um pinguim gritou ao reconhecer Greeny.

— Ignora — Minkis disse para o amigo, quando percebeu que ele olhava de cara feia em direção a quem tinha feito o comentário.

Esperamos alguns minutos até a primeira-ministra, Tia Arctic, começar a falar:

— Agradeço o comparecimento de todos. Eu sou a primeira-ministra Tia Arctic. Receio que não venho trazer notícias sobre o Festival do Solstício, nem mesmo notícias boas.

Ela começou a falar sobre os acontecimentos recentes da ilha, focando principalmente na barreira de gelo que tinha aparecido em volta dela no começo do mês de outubro.

— O inevitável aconteceu, e os grãos começaram a morrer. Todos sabem que nossa ilha, por sua posição geográfica, não aproveita a agricultura como sua principal atividade. Grande parte da comida é obtida através da pesca e da importação dos outros países. Após o aparecimento da barreira, os barcos não conseguiram mais chegar aqui, e por isso tentamos aumentar nossa produção. — Ela parecia bem tensa enquanto falava aquilo — No entanto, os grãos estão morrendo, e as invenções que permite que eles cresçam não estão mais funcionando muito bem. O que a barreira mais atrapalhou é que ela limitou o número de peixes. Poucas partes do mar sobraram para dentro dela, e apenas alguns peixes restam. Até que uma providência seja tomada, precisaremos utilizar a comida dos supermercados e a grande reserva do estoque que o governo tem.

O pronunciamento durou mais alguns minutos, talvez meia hora. Ela disse estatísticas e deu mais informações. Os pinguins pareciam um pouco assustados, mas, como o estoque duraria por mais um mês, resolveram aproveitar o festival enquanto podiam.

Para evitar que os mais ricos comprassem tudo que tinha no supermercado enquanto tinham tempo, o governo fez um acordo com eles para que eles não vendessem muito para apenas um cliente. Ou, senão, muita comida ficaria concentrada em poucas pessoas.

Tentamos não nos preocupar. Não tinha motivo para mais preocupações no meio de tudo que estava acontecendo. Mas não pudemos evitar ao saber sobre mais um pronunciamento que ocorreria no dia seguinte.