Miranda: Midwinter
14 Dreams
Juan Hussie
Foi um grande alívio termos encontrado o iglu de Minkis ali, bem naquela hora. Eu me sentia bem desconfortável grande parte do tempo, pois estávamos entrando em iglus desconhecidos e, de certa forma, os roubando, por mais que ninguém estivesse mais lá e talvez os donos estivessem em perigo.
Eu teria bem menos peso na consciência se ficasse no iglu de uma amiga, uma pessoa conhecida. E o melhor é que tínhamos mais noção de onde estávamos: a Estação de Esqui. O iglu dela ficava alguns metros ao lado da cabana, bem na borda da floresta que havia ali.
A própria Minkis não parecia acreditar. Tínhamos andado tanto... Fiquei imaginando qual rota tínhamos tomado para chegar ali. Demos uma volta pelo Forte Nevado? Ou fomos pelo ancoradouro? Ou talvez fomos por um local mais longe ainda?
Aquela ilha parecia tão grande sem termos um mapa... Eu estava totalmente perdido.
Mas, por fim, adentramos aquele iglu. A porta era feita de madeira e tinha um tom avermelhado, e Minkis usou sua chave para abri-la. Assim, não precisamos arrombar, o que era ótimo, pois não chamaria nossa atenção com barulhos.
— Ah, lar, doce lar! — Minkis disse com um pequeno sorriso no rosto ao entrar no local. Observei os diversos tipos de decorações que lá se encontravam.
Logo ao lado da porta, uma janela de tamanho médio era tampada parcialmente por uma cortina de cor vinho com detalhes vermelhos. Do lado oposto a ela, estava uma lareira branca, em frente a dois sofás semelhantes a melancias.
Do lado direito da lareira estava um vaso bege com uma planta de um verde vivo, inteira daquela cor.
Também foi possível ver uma jukebox que aparentava ser bem velha, mas, de acordo com Minkis, ela ainda funcionava. Em cima dela, havia um gancho que segurava diversos casacos de uma enorme variedade de cores.
No chão, bem em frente à porta, um capacho dizia “Seja bem vindo!”
Fui andando, tentando absorver todos aqueles detalhes, quando vi que estávamos chegando à cozinha. Ela era separada da sala por uma bancada que tinha um vaso azul com dois girassóis, as flores preferidas de Minkis. A decoração era bem simples e comum de uma cozinha: geladeira, fogão, pia de madeira clara, uma mesa de vidro, etc.
Depois, chegamos até o quarto, que era a cara de Minkis. Dois sofás grandes de bananas, juntos, formavam uma cama em uma das paredes. No canto direito do cômodo estava uma mesa de madeira escura com um computador em cima e um puff rosa na frente. Imaginei que aquele não seria o melhor objeto para ser usado como uma cadeira. Ao lado esquerdo do computador estava um guarda-roupa rosa com detalhes azuis e um abajur rosado que para funcionar precisaria ser ligado à tomada.
Era um lugar bem agradável, mas estava bastante empoeirado devido a ter ficado tanto tempo abandonado. Após entrar nele, já senti uma sensação de claustrofobia e um cheiro ruim de lugar abandonado, mas logo isso passou.
— Seu iglu é muito legal, Minkis! — Elogiei.
— Nossa, parece que faz tanto tempo que não venho aqui... — Thay comentou.
— Bom, se tudo der certo, vamos ter um pouco de comida guardada e poderemos ficar aqui durante alguns dias...
Depois que Minkis disse a última frase, nos direcionamos à cozinha. Ao olhar pela janela, vi que ela dava visão à estação de esqui. A grande Cabana era uma construção bem simples, feita de troncos de pinheiros, cheia de janelas para todos os lados. Ela tinha uma chaminé que surgia no meio da neve de seu telhado, mas nenhuma fumaça saía de lá. E, bem ao lado dela, estava um prédio de dois ou três andares cheio de coisas dentro: A Estranha Parafernália Falante.
Um lugar bem curioso onde ficava a entrada secreta para a Elite Penguin Force, uma agência secreta que agia no Club Penguin para nos proteger dos perigos. Mas, pelo jeito, parecia que ela não estava funcionando naquele momento. Seria ótimo se tivesse mais alguém junto a nós para enfrentar esse vilão, alguém como os principais agentes de lá: Gary, Cara do Foguete, Dot... Seria muito bom... Mas não tínhamos nenhum sinal deles.
Enquanto eu pensava, Minkis procurou algumas coisas no fundo de seu armário da cozinha e preparou um prato de cookies e três copos de leite para nós três. Começamos a comer, quando eu fui o primeiro a quebrar o silêncio:
— Então... A gente não falou nada depois de ontem... Pensaram alguma coisa nova sobre o caso da Lina? — Perguntei às duas.
— Eu acho bem estranho... Ela era nossa amiga, certo? Por que ela faria isso? Será que ela realmente está trabalhando junto com aquele pinguim? Acho que estamos só sendo muito precipitados... — Thay disse.
— Eu não sei... Eu realmente prefiro acreditar que ela não tenha nada a ver com isso. Mas não temos mais nenhuma prova... E nenhuma teoria válida. — Minkis falou.
— É, seria bom se conseguíssemos algo que pudesse nos dar mais pistas. Algo concreto, que possamos ver com nossos próprios olhos, alguma coisa tipo... — Foi aí que pensei em algo. É claro, a resposta estava bem em nossa frente! “...Câmeras!”
As duas olharam para mim, surpresas. Nós estávamos cada um em um dos lados da mesa de vidro.
— Onde iríamos conseguir câmeras? — Thay perguntou.
— Ali! — Eu disse, apontando para a janela com a minha nadadeira. “A Estranha Parafernália Falante! Se nós conseguirmos entrar, podemos chegar até o QG. Lá nós vamos ter várias câmeras da ilha toda e poderemos investigar melhor!” Expliquei, animado.
— Sim! E, além disso, podemos usar uma invenção do Gary pra tornar o pozinho de teleporte útil novamente! — Minkis adicionou.
— Sim, sim, é uma boa ideia, mas espera. Nós precisamos tomar cuidado. E se o Encapuzado estiver tomando conta do QG? Não seria perigoso a gente entrar lá e encontrar ele? — Thay disse.
Depois disso, ficamos em silêncio por alguns segundos.
— A gente pode observar e ver se tem algum padrão para o Encapuzado passar por aqui... Tipo... Deve haver horários... — Minkis deu a ideia.
— Sim, boa ideia! — Thay disse. “O problema é que vai demorar muitos dias para vermos se realmente tem um padrão...”
— Não importa! O que importa é que vamos conseguir salvar todos, independentemente do tempo que leve! — Eu disse, determinado, até ver algo pela janela. Era ele. Eu apenas fiquei em silêncio e apontei para lá. Minkis e Thay se entreolharam, e, depois, olharam para onde eu apontava.
O Encapuzado estava passando pela Estação de Esqui bem naquele momento. Era provavelmente uma hora depois do amanhecer. Podíamos usar aquilo a nosso favor. Ele andou por todos os lados, olhou pela janela da Cabana, passou em frente à Estranha Parafernália Falante, depois deu meia volta e andou até a Floresta Puffle, um local que era acessível pela Estação de Esqui. Esperamos alguns minutos até ele voltar de lá e depois subir a montanha pelas escadas. Depois de mais alguns minutos, ele desceu e jogou uma esfera em si mesmo, desaparecendo logo em seguida.
— Ele deve estar procurando a gente... Não sabia que ele andava de dia. Para mim, ele só saía à noite — comentei.
— Ou talvez nós só víamos à noite. O local em que estávamos era um local onde ele só rondava de noite, a não ser que algo que chamasse a atenção — Minkis disse, me fazendo lembrar os pinguins do iglu ao lado do iglu de férias que desapareceram em plena luz do sol. — Talvez ele passa por aqui nesse horário. Mas é melhor esperar por pelo menos mais um dia...
— Espera, mas agora ele deveria estar nos procurando, após nossa ‘fuga’ ontem à noite. Acho que não tenha um padrão de horários, apesar de tudo — Thay opinou.
Aquilo estava cada vez mais complexo para nossas mentes.
***
Há 9 anos...
Enquanto eu ainda estava estudando, eu conhecia um pinguim, e eu era muito... próximo dele. Naquela época eu era obcecado por sonhos. Adorava dormir e saber os milhares de pensamentos misturados que minha mente iria me mostrar.
E eu adorava contar meus sonhos para esse pinguim. Como acabei de dizer, nós éramos muito próximos e sempre trabalhávamos juntos, por mais que fôssemos de salas diferentes, já que ele era dois anos mais velho.
E na maioria das vezes nós escrevíamos histórias sobre nossos sonhos. Ele também gostava de saber sobre isso, e tinham dias que passávamos horas discutindo sobre o que seria isso. Também falávamos sobre universos paralelos e sobre o que faríamos se descobríssemos que nosso universo era apenas um coma.
Ele também gostava de invenções, e adorava tecnologia. Seus pensamentos eram muito grandiosos, enquanto os meus eram mais de boa, eu simplesmente gostaria de viver feliz no mundo sem atrapalhar ninguém.
“No futuro eu vou ser um cientista! Serei famoso no mundo inteiro, trarei coisas para facilitar a vida de todos!” Ele dizia.
Eu ficava bastante orgulhoso por toda aquela determinação. Era algo feliz de se ver.
“O que você fizer, eu vou te ajudar!” Eu dizia, o apoiando. Nós éramos muito felizes juntos.
Sim, seria tudo perfeito, incrível, pelo resto de nossas vidas.
Nós estaríamos sempre unidos.
Até um dia calmo e chuvoso...
***
Atualmente...
Ficamos o resto do dia discutindo teorias, até que o sol começou a se abaixar no horizonte. E foi aí que o vimos novamente. O Encapuzado chegou ali na Estação de Esqui e fez a mesma coisa: Andou até a Cabana, a Parafernália, foi até a Floresta Puffle e depois subiu a Montanha.
Parecia que ele realmente seguia um padrão. Resolvemos aguardar o próximo dia para ter certeza.
Acordamos bem ao nascer do sol. Ficamos de olho na janela. Eu me sentei em cima de uma bancada e me apoiei na parede enquanto observava. Minkis ficou na cadeira da mesa de vidro e Thay apenas se apoiou na frente da janela com suas nadadeiras e olhou para fora. Enquanto estávamos lá, discutimos mais e mais teorias, mas nunca realmente chegávamos a um lugar. Realmente não tínhamos provas suficientes. Até que, uma hora após o nascer do sol, praticamente no mesmo horário que no dia anterior, o Encapuzado apareceu. E fez a mesma rota. Talvez era uma coincidência, mas eu preferi acreditar que ele estava seguindo um padrão. De qualquer maneira, seria melhor esperar mais um dia.
— Vamos daqui a uma hora. — Ouvi uma voz dizer ao meu lado. Era Thay.
— O quê? Não é melhor esperarmos mais um dia? — Minkis perguntou.
— Não. Eu apenas... Sinto. Eu sinto que algo vai dar errado se esperarmos mais. Temos que ir hoje, daqui a uma hora. Vai dar tudo certo, eu sei. Eu consigo sentir! — Ela disse, sendo bem convincente.
— Certo, certo. Se você diz, é melhor irmos — concordei. Nós três nos preparamos nessa hora que esperaríamos. Pegamos três mochilas, uma para cada um de nós, e resolvemos preparar mais uma para caso encontrássemos algum pinguim perdido. Eu abri a caixinha da Dimensão das Caixas, com ela virada para cima, obviamente, impedindo que a água saísse, e, com um pouco de dificuldade, coloquei as quatro mochilas lá. Quando precisássemos, era só colocarmos a nadadeira lá dentro e pegar o que queríamos. Era perfeito!
Minkis ficou um pouco triste de abandonar o iglu depois de tão pouco tempo, mas ela precisava fazer aquilo. E, quando finalmente Thay disse que sentia que era a hora, saímos do iglu.
Fomos andando calmamente, impedindo que algo que fizéssemos chamasse a atenção para nós. Fomos andando até a Cabana, e quando chegamos lá, nos encostamos em sua parede e observamos os arredores. Nenhum sinal de perigo.
Quando vimos que era seguro, começamos a andar por trás da Cabana, atentos a qualquer barulho. Como Thay dissera, tudo deu certo, e logo chegamos à Estranha Parafernália Falante. Aquele lugar era muito maior de perto. Sua porta era de vidro, e ao lado dela se encontravam dois telefones gigantes, daqueles que são ligados por um fio em espiral. Eles serviam de decorações. A Parafernália na verdade era uma agência de telefones, feita para disfarças a Elite Penguin Force.
Por sorte, a porta estava aberta e conseguimos entrar apenas a empurrando. A cena à minha frente foi bem surpreendente. O local que geralmente era cheio de computadores, papéis jogados para todos os lados e cadeiras desarrumadas, agora estava cheio de plantas para todos os lados. Plantas de todos os tons de verde cobriam o lugar, com suas vinhas se espalhando por toda a sala e tomando conta dos computadores. Eu até confundiria aquilo com uma floresta se não soubesse onde estava.
Outra coisa que também me chamou a atenção foram os diversos doces jogados pelo lugar. Balas, pirulitos, chocolates...
— Mas o quê... — Eu falei, enquanto me aproximava para pegar um dos doces. Mas, ao tentar tocá-lo, algo me impediu. Parecia que um feitiço não me deixava tocar o objeto.
Aquilo foi bem intrigante, até que olhei em direção à cachoeira que ficava bem no centro de uma das quatro paredes da construção. Normalmente, ela se abria e revelava ser a passagem escondida para o Quartel General da EPF, mas daquela vez algo diferente aconteceu. Alguém surgia no meio de uma fumaça, como se tivesse se teletransportado. Imaginei que fosse o Encapuzado o indivíduo que tinha aparecido, por isso fiquei muito nervoso por um segundo.
Mas quando vi quem realmente era, minha reação foi outra. Era um sentimento de alegria, raiva e ódio ao mesmo tempo. Não era possível, não podia ser... Nada mais fazia sentido.
Ele fazia algo com as nadadeiras, algo que parecia tirar o feitiço de proteção que me impedira de tocar o doce.
Era Greeny. No QG, usando magia.
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