Miraculous - Broken Pieces
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O Lado Dele
Depois daquele dia, os meus foram preenchidos com risos e felicidade.
Kagami é tão parecida comigo. Por isso, posso descontrair quando estou com ela. Não tenho de fingir que estou bem ou ter medo de partilhar os meus problemas. Porque ela sabe como é.
Segundo o que ouço, isto que estou a ter com a Kagami chama-se “namoriscar”.
— Não é amizade. – dissera-me Nino – Mas também ainda não se pode chamar de namorar.
Eu limitei-me a encolher os ombros porque, para dizer a verdade, não percebo muito dessas coisas. O que sei é que estou entusiasmado. Todos os dias acordo com um sorriso na cara, ansioso para as próximas atividades que faria com a Kagami.
Talvez seja isto o que significa amar alguém de verdade. Talvez aquilo que senti pela Ladybug não tenha sido nada para além de um tipo de obsessão, como fãs sentem pelos seus ídolos.
Mas não gosto de pensar nisso. Não gosto de pensar no que senti por ela. Porque, quando o faço, quando tento convencer-me que o que sentia por ela não era realmente amor, sinto o meu coração a rachar mais um bocado.
Por isso, sorrio sempre que a vejo e tento empurra-la para longe da minha vida como Adrien.
Mas ela parecia triste. Já a tinha visto deprimida, a duvidar dela própria, e do mundo que a tinha escolhido para ser uma heroína. Mas nunca tão triste, de coração partido.
— Sabes que podes contar-me. – disse-lhe eu, um dia, mas ela limitou-se a olhar para mim de lado.
— Só estou contente por tu teres finalmente arranjado uma namorada. – disse-me ela, pois tinha-lhe dito à alguns momentos da minha relação com Kagami. Apesar de, claro, não ter mencionado nomes.
— Obrigado, Ladybug.
Desde que tinha começado a passar mais tempo com Kagami, comecei a fazer um esforço para não a tratar por M’lady. Mas também custava.
A conversa ficou por aí, mas eu conheço um coração partido quando o vejo e, por detrás da máscara, a rapariga que um dia tinha amado estava com ele em pedaços.
— Não deves perguntar-lhe mais do que já perguntaste. – avisou-me Plagg, um dia – Não tens nada a ver com isso.
— Mas eu sou o companheiro dela.
— E nada mais.
Resignado, concordei com o meu kwami. Também não quero magoá-la mais do que ela já estava magoada e, tal como tinha prometido a mim mesmo, não queria pensar nela depois do meu trabalho como Cat Noir acabar.
Mas, vê-la tão miserável…
— Adrien?
Ao ouvir a voz de Kagami ao meu lado, assustei-me. Esqueci-me completamente que ela estava ao meu lado. Senti-me a corar quando ela me deu a mão e pensei que isso era uma estupidez.
Só estás a corar porque te esqueceste que estavas num encontro com ela, disse uma vozinha irritante na minha cabeça. A mesma vozinha que me lembrava o quanto estava apaixonado pela Ladybug, sempre que tentava tirá-la da minha cabeça.
Tão apaixonado que estavas, dizia a voz, em tom de troça, Mas não demoraste muito a trocá-la por outra depois de descobrires que ela tinha alguém de quem gosta.
— Ainda a amo. – murmurei para mim mesmo, depois das aulas, deitado na minha cama.
Amo. Amo-a mais do que me amo. Acho que nunca vou amar ninguém tanto quanto a amo a ela. Mas estava na hora de pôr aqueles sentimentos dentro de uma caixa, num canto do meu coração. Olhar para eles como memórias preciosas, e focar-me em Kagami. Não era justo pensar na Ladybug, enquanto estava com a Kagami. Ela não merecia isso.
Quando paramos em frente à escola, ela largou-me a mão rapidamente e sorriu.
— Desculpa. – pediu ela – A minha mãe deve estar a chegar e…
— Eu percebo.
Ela anuiu ligeiramente com a cabeça e, tal como fazia sempre que me acompanhava a pé até à escola, pôs-se em bicos de pés e beijou-me na face.
Já toda a gente sabia e toda a gente aceitava o que eu e a Kagami temos. O que, para dizer a verdade, eu ainda não sei muito bem o que é.
Pelo canto do olho, vejo a bicicleta de Luka a aproximar-se. Desde algumas semanas atrás, ele vinha trazer Marinette à escola. O que, pelo meu ponto de vista, é bom, porque agora já não chega atrasada.
Mesmo assim, sinto-me a franzir as sobrancelhas, porque sei o que vem a seguir. Luka para em frente à escola, deixa-a sair e os dois ficam a conversar durante um bocado, até a campainha tocar. Depois, como se namorassem há meses, ele punha gentilmente as mãos na face, sorria e beijava-a. Não como a Kagami e eu nos beijamos. Um beijo entre amantes
Ela corava sempre um bocado quando ele fazia aquilo mas, quando ele se afastava, ela sorria sempre que ele se afastava. Da primeira vez que vi aquilo, quase tinha caído das escadas.
Segundo o que Alya lhe tinha dito, Marintte e Luka tinham começado a namorar pouco tempo depois de eu começar a ter encontros regulares com a Kagami.
Também ninguém tinha ficado chocado quando descobriram que a Marinette estava a namorar com o Luka.
— Estou tão contente por ela. – disse Kagami, ao agarrar-se ao meu braço. Quando olhei para ela, ela tinha um sorriso doce na cara – Eu pensei que ela gostava de ti.
Kagami e Marinette tinham-se tornado boas amigas, por isso, eu tinha conhecimento de que, às vezes, Kagami sentia-se mal por ter de escolher estar comigo ou com a Marinette.
— Mas eles parecem contentes. – comentei, enquanto a Marinette subia as escadas, ainda a acenar para Luka, que acenava de volta.
Kagami anuiu em concordância. – São perfeitos um para o outro.
E, por algum motivo que ainda desconheço, isso não me agradou.
…
O Lado Dela
Depois daquele dia, os meus têm sido miseráveis. Tento sorrir, e tem funcionado. Ninguém descobre.
Sim, ninguém descobriu, a não ser ele. Claro que não esperava menos dele. Afinal, ele conhece-me melhor do que ninguém. No entanto, depois de ele me dizer que tinha finalmente arranjado uma namorada, não podia dizer ao Cat Noir que estava com o coração partido.
— Sabes que podes contar-me. – disse-me. E, na minha cabeça, eu contava-lhe tudo, ele abraçava-me e dizia-me que ia ficar tudo bem e, finalmente, o meu mundo ficaria um bocadinho melhor.
No entanto, eu não quis deixá-lo em baixo, quando ele parecia tão infeliz, por isso não o fiz e, em vez disso, fui até à única pessoa que me viu chorar. Luka.
O Luka e eu somos parecidos. Pelo menos, foi o que ouvi dizer. Mas não sinto por ele o que ainda sinto pelo Adrien. E não lhe podia mentir sobre isso. Por isso, quando ele confessou que gostava de mim, como eu gostava do Adrien, eu disse-lhe que não o via dessa maneira. No entanto, ele…
— Eu sei que gostas do Adrien, mas pareces triste e eu não aguento ver-te assim. – disse-me ele, numa voz calma e confiante – Deixa-me amar-te. Fazer-te feliz. Eu tenho amor suficiente para nós dois.
Mas eu abanei a cabeça. Não o podia magoar daquela maneira, porque ele era muito importante para mim. Mesmo que ele dissesse aquilo. Mesmo que dissesse que não precisava que eu tivesse sentimentos por ele, naquele momento…
— Aquilo pareceu um pedido de casamento. – disse-me Tikki, depois de chegarmos a casa, nesse dia – Porque é que não lhe dás uma hipótese?
— Não posso, Tikki. – respondi-lhe – Ele é muito importante para mim.
— Esses sentimentos podem tornar-se em algo mais, se lhes deres oportunidade. – mencionou Tikki – Precisas de tentar esquecer o Adrien. E o Luka pode ajudar-te.
Não disse mais nada sobre o assunto e fui dormir. Mas, quando me encontrei outra vez com o Luka e, eventualmente, o tópico voltou, disse que estava disposta a sair com ele, mas que ainda amava o Adrien. E que, provavelmente, nunca amaria ninguém como o amo a ele.
— Marinette, eu não estou a pedir que esqueças o Adrien. – ele pegou-me nas mãos e beijou-as – Aliás, ele será sempre uma parte importante da tua vida. Por isso, espero que o guardes aqui. – com cuidado, levou as pontas dos dedos ao meu peito. Senti-me a corar – O que eu estou a pedir, é que me deias um pouco de espaço para entrar, também.
Ser um ano mais velho devia fazer muita diferença, foi o que pensei na altura, porque ninguém tinha falado comigo assim. Nem o Cat Noir.
Dei comigo própria a aceitar, antes de perceber que o estava a fazer.
— Ótimo. – com um sorriso brilhante na cara, ele beijou-me as mãos uma última vez, mas não as largou – Espero que não te importes que te vá levar e buscar à escola. Mesmo que seja de bicicleta…
Reparei que estava a sorrir, o que foi quase um choque, já que não o fazia há alguns dias. Afinal, uma pessoa que se sente constantemente miserável, não tinha vontade para sorrir.
As coisas foram evoluindo, a partir daí.
Tal como prometido, ele não me pressionou e não esperou nada de mim, que não fosse uma amizade. A única coisa que tinha mudado era a frequência com que saíamos.
— Eu trago-a de volta, em segurança. – prometeu Luka, ao meu pai, depois de pedir para sairmos juntos à noite. Surpreendi-me quando ele virou-se para a minha mãe e fez uma vénia – Prometo que nada de mal lhe acontecerá.
Eu levei as duas mãos à boca e senti a minha face quente. Nunca tinha visto o Luka assim, antes. Ele era sempre tão calmo e composto, mas parecia tão nervoso, naquele momento.
A minha mãe soltou um risinho e olhou para o meu pai, que também sorria, afetuosamente.
— Levanta a cabeça, rapaz. – disse o meu pai – Vou confiar em ti. Trá-la a casa antes das nove.
Luka olhou para ele com um sorriso, mas voltou imediatamente a fazer uma vénia. – Não o vou desapontar, senhor!
Quando saímos para a rua, eu ainda tinha a face vermelha, mas Luka parecia mais calmo.
— Estava tão nervoso. – ele olhou para mim de lado, com um sorriso um tanto vitorioso, o que me fez sorrir também – Espero que não se tenha notado.
— Nem um bocadinho. – respondi, e ri-me, contente quando ele se riu também.
Foi nessa noite que aconteceu. Estávamos à porta de minha casa depois de vermos o filme que tínhamos ido ver. Eu ia-me despedir-me dele, com um abraço, como sempre fazíamos, quando ele disse: — Marinette…posso beijar-te?
Nesse momento, tenho a certeza que todo o sangue no meu corpo subiu para as minhas faces. Era assim que funcionava? Porque nos filmes o primeiro beijo era sempre impulsivo. Mas ele estava a perguntar-me.
— Não quero fazer nada que não gostes, Marinette. – explicou-me – É um pedido egoísta, eu sei. Porque ainda gostas do Adrien. Mas tinha de te dizer.
Naquele aspeto, eu e o Luka eramos muito diferentes. Ele dizia sempre o que pensava e o que dizia, enquanto que eu…no que constava a rapazes de que amava, não conseguia exprimir-me de todo.
— Beija-me. – o que disse foi um choque para mim mesma, mas talvez mais para Luka, que parecia ter visto um fantasma.
Mas eu limitei-me a fechar os olhos e a esticar a cabeça na sua direção. Que fosse, era no que estava a pensar. Não iria ter o meu primeiro beijo com o Adrien, de qualquer maneira.
Ouviu-o a soltar uma pequena gargalhada, senti a mão dele a pousar no meu ombro e os lábios na face. Gentilmente, como se uma borboleta de algodão tivesse pousado na minha pele. Quando abri os olhos, ele afastou-se, sorrindo perante a minha expressão de confusão.
— Estavas a pensar no Adrien, não estavas? – perguntou, mas não esperou por resposta – Sei que disse que não estava à espera que me ames, ou que esqueças o Adrien, mas não quero que estejas a pensar nele, durante o nosso primeiro beijo.
Despediu-se e foi embora, deixando-me a pensar em muitas coisas. A partir daí, sempre que nos encontrávamos, ele perguntava “Posso beijar-te?” mas, mesmo com permissão, nunca o fazia nos lábios.
Até que um dia, estávamos no meu sitio especial, em frente ao rio, eu a desenhar e ele a tocar guitarra calmamente quando, de súbito, sem parar de tocar, ele perguntou “Posso beijar-te?”
Eu sorri, ainda com a melodia que ele tinha estado a tocar na cabeça, e anui, à espera de sentir os lábios dele a pousarem na pele da minha face. No entanto, ele parou de tocar, o que não era costume quando me beijava na face e, portanto, fez-me olhar para ele.
— Posso beijar-te… — ele pousou gentilmente o dedo calejado pelas cordas da guitarra nos meus lábios — …aqui?
Com nada na minha mente e o coração a martelar no meu peito, eu anui, chocada comigo própria. Senti-me desajeitada, como se dissesse alguma coisa, nada de jeito sairia. Não me mexi, com medo de estragar aquele momento.
E ele não sorriu. Uma coisa estranha da parte dele. Porque normalmente isso só acontecia quando ele estava nervoso e eu não via razão para ele estar. Afinal, nas conversas que tínhamos, ele tinha confessado que tinha tido duas namoradas antes de mim.
Quando o vi pousar a guitarra, tive o instinto de fechar os olhos, mas vê-lo daquela maneira, um pouco desajeitado e corado, era fascinante.
O beijo não tinha sido apaixonado nem ardente. Apenas um encostar de lábios que provavelmente tinha demorado não mais de cinco segundos e as mãos dele limitaram-se a pousar nos meus ombros. Ele sabia que eu entraria em pânico se acontecesse mais do que aquilo, e fiquei agradecida, por ele não ter ido mais longe.
Constrangido, depois do beijo, ele endireitou-se e voltou a pegar na guitarra, com a cara vermelha e um pequeno sorriso nos lábios. E eu dei por mim a sorrir também e a voltar ao desenho, como se aquilo fosse a coisa mais natural de sempre.
Os beijos, claro, foram aumentando, não só em frequência como também em intensidade. Mas ele nunca deixou de pedir “Posso beijar-te?” o que eu achava querido e, às vezes, um pouco irritante.
Um dia, depois de ter descido da bicicleta, em frente à escola, ele pediu-me para me aproximar-me dele e sussurrou-me ao ouvido “Posso beijar-te?” Eu corei e vi-o corar um pouco também, quando me afastei.
Demorei alguns segundos a pensar mas, quando ouvi a campainha a tocar, anuí finalmente com a cabeça, vendo-o sorrir como uma criança que recebe o que quer para o Natal.
Tal como fazia muitas vezes, ele emoldurou-me a face com as mãos e beijou-me ternamente.
Não me importei quando ouvi sussurros à minha volta porque, quando nos beijávamos, só existíamos nós os dois.
Mesmo depois de me voltar e ver Adrien e Kagami a olhar para mim, não me senti embaraçada. Mas, ao vê-los sorrir e a acenarem na minha direção, ouvi o meu coração a quebrar mais um bocadinho.
Fale com o autor