Minotauro
3 III - Evan
Notas iniciais
Assustado e extremamente confuso, Evan andava pelos corredores infindáveis do labirinto à procura de uma única alma viva para ajudá-lo a sair daquele inferno limpo e iluminado. Arrumava seus pensamentos: estava preso em um labirinto e uma criatura teoricamente humana e definitivamente macabra o perseguia. É, o mundo dá voltas.
Fitou o grande "2" estampado em sua camisa e pensou em sua vida no mundo exterior. Não sabia quanto tempo passaria encarcerado e não queria esquecê-la.
Pensou na sua casa, na sua escola, nos seus amigos, em seu pai e em sua mãe, que já estava morta há tempos, mas você nunca pode esquecer de onde veio. Quando percebeu, estava tamborilando sua perna direita. Lembrou de seu piano. Evan tocava música clássica desde os seis anos e, após dez anos de prática e trabalho duro, ele beirava a perfeição.
Seus olhos eram cinzas como a tempestade, seus cabelos eram castanhos e sua pele tinha um bronzeado saudável. Seu queixo era quadrado e liso, porque achava feio usar barba. Evan Lumière, o estudante esquisito de música clássica.
Lembrou-se também da canção que estava compondo e a cantarolava enquanto caminhava. Era importante manter a calma, mesmo sabendo que as chances de morrer eram altíssimas.
- Tem alguém aí? — ele ouviu alguém gritar.
- Aqui! — respondeu.
- Onde? Continue falando e seguirei sua voz.
- Hm... Olá, meu nome é Evan, eu gosto de panquecas e, hm, estou feliz por encontrar alguém. Por favor, não me mate.
E de um dos corredores saiu um garoto macérrimo, pálido. Seu cabelo estava milimetricamente aparado, seus olhos eram opacos e em sua camisa lia-se "5".
- Olá, Evan. — ele sorriu, olhando para o nada. — Meu nome é Jean-Jacques.
- Jean o que?
- Pode me chamar de Jack. — ele sorriu. — Então, nós estamos em uma enrascada, não é?
- Perfeitamente colocado, Cinco.
- Cinco? — Jean-Jacques ou Jack ou quem fosse parecia confuso.
- O número em sua camisa... — Evan apontou.
- Evan. — Jack parecia desconfortável. — Caso não tenha visto, eu sou cego.
Evan congelou por um momento.
- Perdão, eu não quis ofender, eu sinto mu...
- Relaxa, cara. — Jack deu dois tapas no ombro de Evan. — Temos maiores preocupações agora.
- Certo. — Evan encarava os a íris fosca de Jack. — O que faremos?
- Sugiro que exploremos o local. Aliás, acho que é a única coisa que podemos fazer.
Evan assentiu e os dois caminharam o que podiam ter sido quilômetros, como também podiam ter sido metros. A agonia que sentiam em seus corações era tanta que mal conseguiam calcular distâncias.
- Você está ouvindo isso? — Jack parou.
- O que? — Evan indagou.
O cego hesitou.
- Gritos.
- Eu não ouço nada.
- Vamos.
Seguiram a direção do som até que, finalmente, chegaram ao início do corredor sem saída e o que viram — ou melhor, o que Evan viu — não era nada agradável.
Uma criatura de dois metros de altura estava de costas para os dois e segurava uma menina, que não devia ter mais que onze anos e que usava o número nove, pelo pescoço com suas mãos grossas e grandes. Suas costas eram peludas e seu corpo era tão músculoso que suas veias e artérias enormes se destacavam em sua pele áspera. Não vestia nada, apenas uma tanga de couro marrom, o que, infelizmente, não os deixava menos assustados.
Evan não conseguiu ver seu rosto, mas percebeu os dois grandes e afiados chifres que saíam de sua testa.
- Fuja. — Evan sussurrou e os dois saíram correndo de uma forma nada heroica enquanto uma inocente criança dava seus últimos suspiros nas mãos de um monstro.
E correram até seus pulmões não aguentarem mais, com Evan sempre indicado em qual direção Jack deveria virar. Era frustrante. Uma criança tão jovem morrendo daquele jeito agonizante, sem saber onde estava, querendo voltar a sua casa e sentir mais uma vez o doce beijo de sua mãe na bochecha e o abraço acolhedor de seu pai. Seu corpo apodreceria em um labirinto subterrâneo e nunca descansaria em paz e com dignidade.
Exaustos e ofegantes, sentaram no chão por alguns segundos, o que foi tempo suficiente para Jack ouvir outros sons.
- Passos. — ele disse, precisamente.
- O QUE? — Evan entrou em desespero, imaginando que alguma aberração gigante estivesse por perto.
- Calma, cara. — Jean-Jacques riu. — São muitos leves para um monstro daqueles.
- Mas... Como você sabe? Nem chegou a vê-lo.
- Mas eu o ouvi. — sorriu. — E senti o chão vibrar. Sou cego desde que nasci e meus sentidos são bastante apurados. Fique tranquilo, pela leveza dos passos, são garotas. Talvez bailarinos.
Dito e feito, duas garotas apareceram. Uma delas era magra, pequena e parecia tão sensível e amedrontada que dava pena. Já a outra era o seu oposto, tinha um olhar confiante, o corpo forte, o queixo erguido e um cabelo que parecia o da Miley Cyrus.
- Seres humanos! — a garota menor exclamou e abraçou os dois sem mesmo conhecê-los. Parecia tão aliviada...
"Que abraço bom" Evan pensou.
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