Minotauro
2 II - Leia
O dia de Leia não havia começado nada bem. Foi demitida da cafeteria onde trabalhava por chegar atrasada três vezes só naquela semana, não tinha dinheiro para pagar o aluguel de seu apartamento, sua iguana de estimação estava morta, sua banda favorita tinha se separado e sua colega de quarto foi presa por porte ilegal de armas.
Ah, claro, ela também foi nocauteada por três brutamontes num beco escuro e acordou em um labirinto tão branco e com uma iluminação tão forte que chegava a doer os olhos.
Já com os sentidos recuperados, Leia levantou-se e examinou seu próprio corpo, procurando por qualquer ferimento. Não vestia mais o uniforme da cafeteria, mas uma blusa branca e desnecessariamente pequena com um grande “8” estampado e calças camufladas, que nada camuflariam naquelas paredes brancas.
Leia tinha os cabelos curtos e loiros, os olhos verdes, a pele bronzeada e o corpo em excelente forma. Sempre se interessou muito por esportes e agora, aos dezoito anos, se preparava para cursar Educação Física na faculdade. Era uma mulher corajosa, de fato, e tão independente que, ao completar dezoito anos, tatuou um par de asas negras em suas costas, representando o pássaro que havia – finalmente – saído do ninho.
Sem qualquer sinal de ferimentos, Leia decidiu explorar o local. Andava pelos corredores vazios, mas tudo o que encontrava eram mais deles, todos idênticos.
Então, quando já perdia a esperança, virou à direita duas vezes e se deparou com uma menina frágil – que aparentava ser três ou quatro anos mais nova que ela – estirada no chão e pálida feito um fantasma.
– Nossa! O que houve? – Leia correu até a garota e ajoelhou-se a seu lado.
– Quem é você? – Foi tudo que ela conseguiu dizer.
– Eu sou Leia.
A garota riu.
– Tipo a princesa?
– Sim, meus pais eram fãs de Guerra nas Estrelas. – Leia revirou os olhos. – Você está bem?
– Acho que sim... – A jovem levantou vagarosamente. – Meu nome é Amelia.
– Amy. – Leia sorriu e elas trocaram um aperto de mão. – Tem alguma ideia de onde estamos?
– É tudo que eu tenho me perguntado desde que acordei. – Amelia mordeu o lábio inferior.
Leia observou as roupas que a garota vestia: eram iguais as dela, exceto pelo número em sua camisa, que era “7”.
– Seja o que for, têm pelo menos mais seis pessoas por aqui.
– Eu quero minha casa. – Amy lacrimejava. – Eu quero sair daqui.
– Calma, calma, não vamos nos desesperar. – Leia envolveu a recém-conhecida com seus braços. – Vai ficar tudo bem.
“Não, não vai.” uma voz rouca e grossa saiu de alguns alto-falantes que, até então, não tinham sido percebidos.
– O que foi isso? – Leia indagou.
– E-eu não...
“Bem vindos, senhoras e senhores, ao meu labirinto. Muitas perguntas devem estar passando por suas cabeças agora. Se perguntam onde estão, o que está acontecendo e o que aconteceu. Bom, tudo começou alguns anos atrás quando eu encontrei um pobre rapazinho perdido na floresta e o adotei. Oh, ele era adorável... Não imagino o motivo de seus pais terem o abandonado. Sim, ele tem algumas, hum, deformações, mas é isso que o faz especial.”
– Nós vamos morrer aqui. – Amélia sussurrou para si mesma.
“Como eu dizia, o meu filho, ao qual dei o nome de Minotauro, se sentia muito solitário. Aparentemente, as outras crianças não gostavam de brincar com ele e as mães o condenavam por causa de seus... chifres. Mas, por Deus, isso acontece nas melhores famílias, certo?”
– Não, não mesmo. – As duas sussurraram em uníssono.
“Vendo a solidão e o sofrimento de meu filho, decidi ajudá-lo. Construí este belo labirinto onde todos vocês, sete moças e sete rapazes, estão presos. Digamos que meu querido Minotauro quer brincar de pique-pega. E, de fato, ele é muito bom. Não perdeu uma única vez.”
Uma gota de suor escorreu pela testa de Leia.
“Se vocês, senhores e senhores, conseguirem fugir de meu filho e do labirinto, vocês vencem. Mas, caso ele consiga pegá-los... Bom, digamos que, na melhor das hipóteses, vocês ficarão presos aqui para sempre. Manterei meu nome em segredo, mas você podem me chamar de Rei Minos. Tenham um bom jogo e tentem não se machucar... muito.”
Então o silêncio – mais perturbador do que nunca – voltou.
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