Mini Contos
1 Vitória Póstuma
Notas iniciais
Deu um passo no assoalho velho como um peão é arrastado mais uma casa no tabuleiro. O peso fez os gemidos já costumeiros soarem naquela casa. Vazia, eram os únicos sons que a preenchiam. Sentiu pena, raiva, angústia, tristeza e enjoo. Sentiu o cansaço nas pernas e sentou junto ao corrimão do terceiro degrau. A poeira lhe alcançou as narinas. O jogo era o mesmo de antes, quem aguentava mais tempo prendendo a respiração. A piscina de folhas dizia que por ali várias vezes eles treinaram e competiram.
Não havia completado duas semanas, mas as coisas mudaram em uma velocidade assustadora. Desconfortável, essa era a verdade. A sua. O papel de parede tinha mais marcas que os pulsos e mais registros que o álbum de fotos. Os lábios ainda vermelhos e cortados da noite em que se despediram se contorceu em um sorriso nostálgico. As lágrimas escorreram pelas marcas que deixaram nos últimos dias.
Subiu os degraus no silêncio do canto dos pássaros, esperando abrir a porta e encontrar ele deitado na cama, com suas roupas largas e fone alto demais para ouvir. Nem mesmo os casacos estavam no chão. A porta não tinha sido fechada. Não havia música. Não havia vida. Encarou o amontoado de folhas pela janela raramente aberta em dias nublados como aquele.
Desceu os degraus e abriu a porta que levava ao jogo preferido dele. Seria sua única vitória. Nunca havia conseguido segurar o fôlego por tanto tempo.
Notas finais
Espero você no próximo, não morra até lá.
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