Minha redenção
17 Quem realmente é o monstro?
Notas iniciais
Eu voltei para perto de Ciel com Sky, nervoso, tentando escapar da coleira, e dois sorvetes, um em cada mão, derretendo. A guia do cão envolta em meu pulso. Enquanto eu esperava o preparo das casquinhas notei que Sky ficara agitado, puxando a guia, e chorando baixinho. Portanto eu me apressei a voltar. O banco onde deixei Ciel sentado minutos atrás estava vazio. Meu coração falhou uma batida. Olhei ao redor, nem sinal dele. Cheguei perto o suficiente para notar com pavor o PSP caído, abandonado na grama. Ciel nunca o deixaria ali. Algo em meu interior me deu a sensação real de que meu menino não tinha se afastado por conta própria e o pior, de repente eu tinha a absoluta certeza de que meu sobrinho corria risco. Que ele precisava desesperadamente de mim, assim como eu de o encontrar. Mais uma vez olhei ao redor já entrando em desespero, minha mão direita esmagando a casquinha, fazendo com que a massa cremosa de chocolate escorresse pelos meus dedos. A outra simplesmente soltou o outro sorvete e também a guia de Sky. O cão parecia desesperado para se ver livre. Ele saiu correndo em disparada pelo parque e eu não tardei em o seguir, correndo com as vistas embaçadas pelas lágrimas que queriam cair. Minha garganta trancada, um bolo quase me impedindo de respirar. Era como se o mundo, recentemente colorido, voltasse a ser preto e branco. Tudo, sem Ciel e com a possibilidade dele estar em perigo, se tornava desesperador, o solo abaixo de meus pés se tornava mais duro, o ar mais denso.
Corri atrás do cachorro. Ele latia também aflito, fazendo com que a minha situação só piorasse. Eu já não conseguia manter o ritmo. Parei em meio à minha busca, apoiei as mãos nos joelhos, respirando com dificuldade, o pranto já livre. A hipótese de viver uma vida sem a minha criança me apavorava, deixava minhas pernas pesadas, me impossibilitava de correr à sua procura, me ajoelhei no chão.
– Cieel! — gritei alto, meu peito se enchendo de agonia, eu não via um futuro sem meu pequeno. Eu não via a possibilidade de continuar vivendo sem ele. Agarrei a grama, arrancando generosos tufos do manto verde.
– Cieeeell!! — gritei mais uma vez, tão alto que minha garganta reclamou.
"Aqui!!!" e então eu ouvi! "Estou aqui!!!" a voz do meu menino, clamando por mim, amedrontada e abafada. "Tio Sebastian, socorro!!"
Só então eu fiquei consciente do mundo que me cercava. Perdido em minha dor eu não notara um banheiro público que estava em reforma a metros de mim. Não notara que Sky arranhava a porta, desesperado para entrar. Era de lá que a voz do meu sobrinho me chamava. Corri para o banheiro e arrombei a porta como se esta fosse de papel. A única cabine com a porta fechada foi o alvo de minha atenção e então, com brutalidade, eu a abri.
Dentro daquele cubículo apertado estava Ciel.
Os seus olhos, cheios de lágrimas, me visualizaram como se eu fosse um anjo e ele, com dificuldade , sibilou o meu nome. Demorou só um instante para que a noção do que acontecia me atingisse.
Foi como um caminhão se chocando contra meu corpo, destruindo todo e qualquer auto controle que pudesse existir em mim e de repente a única coisa que me importava era acabar com a raça do ser asqueroso que tocava em minha criança.
Puxei a gola da camiseta do verme imundo que ousara macular meu Ciel. O arrastei de lá. Com força e em um movimento só eu o joguei para fora do banheiro. Chutei sua boca no momento que o corpo tocou o solo, sentei-me em cima de sua cintura, meus braços se movimentando por impulso, realizando sozinhos os movimentos. Eu socava seu rosto, gritando xingamentos que nem me lembrava de já os ter ouvido. Mal sentia a pele dele ceder abaixo de minhas mãos. O sangue jorrava e sujava a minha pele e em instantes o corpo já não mais se debatia, já não mais gritava de dor a cada vez que meu punho fechado o acertava. Soquei o maxilar e senti alguns dos dentes daquele ser miserável amolecerem. Minhas próprias mãos já doíam. Eu enxergava tudo em vermelho, a adrenalina a mil. A raiva o medo, todos os sentimentos borbulhavam dentro do meu interior, deixando-me descontrolado, fora de mim.
Eu queria matar aquele infeliz.
Eu cheguei a fechar minhas mãos em volta do pescoço do corpo já inerte abaixo de mim. Sim, eu iria matá-lo e não sentiria o menor remorso. Jamais aceitaria que alguém fizesse algo contra Ciel e continuasse a viver. Eu não me importaria de mofar o resto de minha vida na prisão se pudesse ter o prazer de acabar com a existência daquele miserável. E eu teria sucesso em meu intuito se não fosse tirado de cima dele por um guarda do parque. Só então notei que pessoas haviam surgido, atraídas pela luta. Havia uma mulher com sua bicicleta, o rosto com uma expressão de pavor, um homem que parecia estar correndo com um celular nas mãos. Vários curiosos e mais guardas chegando.
– Liga para a polícia e para uma ambulância! -um dos guardas que me segurava disse. Eu me debatia, eu queira era terminar o que eu estava fazendo.
–Você vai para cadeia, monstro! — um outro bradou.
– Não!! – eu ouvi e só então eu vi Ciel. — Meu tio não é um monstro!!!
Ele estava lá, sem camisa, os olhos vermelhos e cheios de lágrimas, ajoelhado e abraçado a Sky que rosnava para quem ousasse se aproximar.
– Ele me salvou!! Ele é meu tio e me salvou!!
Eu queria chorar, Ciel me defendia. Frágil e ferido ele estava lá para me defender.
– Diga-nos o que aconteceu. — a mulher perguntou abandonando a bicicleta e se ajoelhando próximo ao menino. Ciel estava ajoelhado no chão, realmente perto de mim.
Eu queria tanto tocá-lo. Abraçá-lo, protegê-lo...
– Ele me atacou. – Meu sobrinho apontou para o homem desacordado e mergulhado em uma poça de sangue. — E o meu tio Sebastian me salvou. — ele repetiu, mas sem me olhar e eu, de repente, senti uma falta tremenda daqueles olhos descombinantes.
Ciel permaneceu parado no mesmo lugar, estático, tremendo, com os braços envoltos ao pescoço do cão. Pessoas se aglomeravam. A ambulância chegou juntamente com os policiais. Eu mal tinha forças para explicar os acontecimentos, mas eu era o responsável naquela situação. Ciel dependia de mim e enquanto os paramédicos colocavam o infeliz dentro da ambulância eu fui brevemente interrogado. Contei que havia levado meu sobrinho ao parque, que em certo momento me afastara com o cão para buscar sorvetes e que quando regressei Ciel tinha sumido. Saí a sua procura, acabei por ouvir seus pedidos por socorro e o encontrei sendo assediado fisicamente pelo homem que acabara deixando desacordado no chão.
–Precisamos ligar imediatamente para os responsáveis do menino. — um dos policiais disse enquanto eu era encaminhado para meu carro.
Seguiríamos eu e Sky a viatura de polícia até a delegacia. Ciel iria com os policiais.
– Eu sou o responsável dele. – eu respondi enquanto colocava o cachorro no banco de trás.
–E onde estão os pais? — o policial perguntou.
– São falecidos. – respondi apertando a chave em minhas mãos. Uma vergonha imensa dentro de mim por ter falhado em minha promessa de defender Ciel a qualquer custo. Vincent nunca deixaria que algo assim acontecesse.
– Pobre garoto. — o homem disse com um suspiro. — Nos siga. – ele ajuntou apontando para a viatura.
Mas a verdade é que não era necessário que ele me falasse para os seguir. Eu os seguiria até o outro lado do mundo, afinal Ciel estava com eles.
xxx
Já passava das cinco horas da tarde quando eu terminei meu depoimento em presença de meu advogado.
William T. Spears era um homem sisudo e de aparência fria que cobrava rios de dinheiro para atuar em processos que saiam da área comercial. Mas ele era o advogado da empresa e eu confiava muitíssimo nele. Já quando liguei, ele me alertou para não responder a nenhuma questão até que ele chegasse. Ciel e eu permanecemos em uma sala de espera, ele ainda agarrado ao cão e evitando me olhar e eu me sentindo um lixo por ter falhado em protegê-lo. Uma policial parada à porta impedia que ficássemos a sós. William chegou trazendo biscoitos e um suco para Ciel e um café para mim. Neste momento notei as minhas mãos ainda sujas.
– Ciel, eu vou lavar minhas mãos mas eu voltarei rápido, está bem? Will vai ficar aqui com você. – ele me olhou por um breve instante e concordou com a cabeça. A policial me indicou um lavabo onde pude enfim lavar as mãos e remover o sangue daquele desgraçado que estava cobrindo meus dedos. Quando a água se tingiu de vermelho eu refleti chocado que eu nunca antes havia tido um episódio de fúria cega como aquele.
Voltei rapidamente para a pequena sala e então fomos chamados para a sala de interrogatórios.
O desgaste de contar e ouvir a mesma história uma dúzia de vezes, de reviver os acontecimentos, me deixou acabado, tanto física quanto psicologicamente. Foi aberto um processo contra o homem que, segundo o depoimento de Ciel, era seu professor. Eu não me surpreendi. De imediato me lembrei do homem que eu havia visto chamando por meu sobrinho na escola há algum tempo atrás e de como ele correra apavorado em minha direção ao ouvi-lo. Agora existia um nome por detrás do homem a odiar. Claude Faustus, professor de história, lecionando a mais de oito anos na escola conceituada Weston. Ciel também contou que aquela não havia sido a primeira vez que fora vítima de Claude. Ele contou que até mesmo fora atacado no vestiário da própria escola, mas que conseguira fugir. Quando perguntado do porquê de não ter contado a ninguém ele disse ter tido medo e vergonha.
Algo que me cortou o coração, foi saber exatamente a data deste acontecimento. Foi quando, em prantos, Ciel me pedira para que ficasse com ele.
E eu o havia deixado só...
Ao término dos dois depoimentos e da abertura do inquérito Ciel deveria passar pelo exame de corpo de delito, para que as provas das agressões fossem anexadas à acusação.
Neste momento Ciel entrou em desespero, chorando e dizendo que não queria. Todos eram solidários com a criança que passara por um grande trauma e agora se negava ser tocado por um adulto. Mas, ninguém ficou como eu, apavorado, temeroso, amedrontado...
E se meu pequeno não me permitisse mais de tocá-lo?
Como poderia eu viver depois de sentir o gosto daqueles lábios doces, a maciez daquela pele de alabastro?
Acabei por me amaldiçoar por ficar pensando em mim numa hora como aquela, a culpa fez com que uma forte queimação em meu estômago se iniciasse. Eu estava sendo tão egoísta, não deveria me preocupar com estas questões, não deveria me preocupar com aquilo de que poderia vir a sentir falta. Minha única preocupação deveria ser Ciel e seu bem estar.
– E se o seu tio for junto? – disse a enfermeira que acompanhava o perito médico designado para realizar o exame.
Ele me olhou, aquelas imensas esferas de cores diferentes implorando por mim e eu me adiantei.
– Eu vou. – afirmei tomando-o pela mão e entrando antes de todos na pequena sala que era preparada para isso. Uma sala que fazia as vezes de um consultório médico dentro do prédio que servia como delegacia. A enfermeira entrou em seguida, pegou a mãozinha do meu menino e levou-o para que ficasse sob as luzes.
–Vamos ver, eu vou ter de te tocar está bem ? Mas não vou te machucar. — o médico disse. Ciel anuiu com a cabeça e ele abriu a camisa que meu pequeno usava, que pertencia a outra pessoa, já que a dele havia se perdido na confusão.
– Fotografe aqui, Marie. — o perito sinalizou o pescoço. Minha garganta trancou, havia marcas de dedos rodeando o fino pescoço. Ciel virou o rosto quando eu procurei seus olhos. As bochechas rosadas pela vergonha. Seus olhos mais uma vez repletos de lágrimas.
– Agora levante os braços...
Senti vontade de asfixiar aquele monstro com o travesseiro do maldito hospital no qual ele devia estar internado. As costelas de Ciel estavam marcadas.
– Calma, você está indo bem... — a enfermeira sussurrou quando um soluço se fez ouvir.
Como aquelas mãos ousaram marcar meu anjo?!
Aquele ser desprezível deveria pagar com a vida e não só com a liberdade.
– Levante o queixo, por favor. — o médico pediu. Sob a luz a marca dos dedos na bochecha direita ficava mais evidente. Ele havia batido em Ciel. Senti meu sangue ferver e mordi com tanta força meus lábios que eles romperam.
– Só mais um pouquinho. — a jovem moça disse.
Notei lágrimas pequeninas rolarem dos olhos da minha amada criança e então uma mão pequenina e fria procurou a minha. Segurei-a com força, acariciando-a, levando os dedinhos próximo à minha boca e os beijando delicadamente.
Depois de mais algumas fotos eu saí da sala com Ciel em meu colo. Ele se agarrou a mim como um frágil e dependente bebê. William nos esperava, segurando a guia de Sky.
–Vamos, estão liberados. — o advogado disse e eu suspirei aliviado, acariciando a cabeça de Ciel, apoiada em meu ombro.
– O senhor foi um verdadeiro herói. — um dos policiais me deu um tapinha nas costas na saída. -Desculpe-nos por toda aquela brutalidade...
Agradeci com um aceno de cabeça. Mas penso o que aquele nobre homem da lei faria a mim se soubesse que eu, assim como aquele monstro, também ansiava com todas as minhas forças, tocar de forma suja e profana esse doce anjo em meus braços.
Fale com o autor