Minha redenção
18 Em meio à escuridão, esclarecimentos.
Notas iniciais
Já era noite quando estacionei o carro em frente de casa. Minhas mãos apertaram o volante e olhei pelo retrovisor. Ciel, no banco de trás, tinha um olhar apavorado.
O que eu mais receava no momento é que ele, depois do trauma, viesse a me temer. Suspirei, abrindo a porta e desci do carro. Abri a porta de trás e puxei o cachorro que se negava a abandonar Ciel. Sky desceu do carro, mas se manteve em guarda parado ao lado do automóvel. Eu não sabia bem como lidar com aquela situação, tudo que eu mais queria era abraçar bem apertado meu menino, mas temia que agora ele me visse também como um monstro.
– Ciel? — eu chamei. Apesar de acordado ele se mantinha imóvel. Os olhos tão belos parados no tempo, fixos em nada e a respiração irregular. Aquela situação me assustava.
Como se lidava com aquilo? Eu me sentia tão fraco por nunca saber como agir com Ciel. Eu o amava tanto, mas parecia que meu amor de nada servia, já que eu me sentia um incapaz diante dele.
Mas desta vez eu não desistiria. Eu não abandonaria o meu menino sozinho à própria dor. Ao menos não desta vez. O puxei delicadamente pela mão e o tirei de dentro do carro, me ajoelhei à sua frente e o envolvi nos braços.
– Me perdoe... Me perdoe por ter falhado em te proteger. — pedi com a voz baixa ao ouvido dele.
Minha mão obrigou a cabecinha a se apoiar em meu ombro e inúmeros minutos se passaram. Eu fiquei lá apreciando a paz que aquele corpo pequeno e quente podia me trazer, acariciando os fios de seus cabelos e beijando vez ou outra o topo da cabeça.
E então o som de soluços se fez ouvir. Ciel chorava e eu bem sabia que aquilo era do que ele precisava e eu também. Ambos nos entregamos. Deixando que o líquido salgado que saia livremente de nossos olhos levasse embora aquela sensação mútua de vergonha que sentíamos um do outro. O segurei firmemente e o ergui, as pernas dele se enlaçaram em minha cintura quando levantei. Comecei a andar nos levando, finalmente depois de um dia terrível, para nossa casa.
A senhora Coburgo veio correndo, alarmada. Eu ligara para ela e a avisara de onde estávamos e o que havia acontecido. Ele acercou-se de nós e suas mãos enrugadas acariciavam Ciel enquanto ela perguntava, desesperada, se ele estava bem. Meu pequeno ocultou o rosto em meu pescoço e voltou a soluçar e eu fiz um gesto pedindo calma à velha governanta.
– Deixe-nos a sós por enquanto... mais tarde conversaremos. – eu murmurei e dando de costas subi as escadas de nossa casa, levando Ciel até o meu quarto.
Já em meu banheiro coloquei Ciel sentado sobre o assento, e liguei a água para encher a banheira. A sra. Coburgo, preocupada, estava à porta do quarto e pedi que ela alimentasse Sky, preparasse um lanche para Ciel e que depois nos deixasse pelo resto da noite.
– Levanta. — sussurrei para o pequeno. Eu precisava, desesperadamente, ver Ciel livre de toda a sujeira, do que aquele ser abjeto pudesse ter feito a ele. Meu menino se levantou e eu tirei-lhe a blusa que eu nem sabia a quem pertencia. Retirei dele a bermuda e junto a roupa íntima, ele ficou vermelho de vergonha, e manteve a cabeça baixa durante todo o tempo. Usei a mão para medir a temperatura da água e o coloquei dentro da banheira. Me ajoelhei ao lado desta, peguei a esponja e coloquei o sabonete líquido. Ia começar a banhá-lo, mas voltei a pensar no sangue que sujara minhas mãos naquele dia. O sangue daquele imundo.
– Parece que eu também preciso de um banho. – eu disse, me levantei e me afastei. Ciel ergueu a cabeça, arregalou os olhos e agarrou com as mãos trêmulas a beirada da banheira.
– Não!! Por favor, não me deixe aqui sozinho!! — pediu suplicante. Ele julgou que eu o abandonaria novamente e eu sorri para ele com carinho para tranquilizá-lo. Me aproximei da pia e lavei as mãos. Ao terminar comecei a me despir.
–Não se preocupe. Eu nunca mais vou te deixar sozinho. Nunca mais. — permaneci com a roupa íntima, mas entrei junto de Ciel na banheira. Fiquei de frente para ele. Minhas pernas, grandes demais, invadindo o seu espaço.
–Acho que isso não vai dar certo. — comentei e o pequeno então se aproximou e sentou-se de costas para mim, entre minhas pernas. Apoiou-se em meu peito, fazendo com que a minha respiração se acelerasse. Engoli em seco. Busquei novamente a esponja esquecida num canto e comecei a massagear com ela, suavemente, as costas e os ombros do meu menino.
Senti Ciel relaxar aos poucos e aquilo me agradou. Era um alívio saber que meus toques não o assustavam.
–Tudo bem se não quiser ir na aula amanhã. — ele se arrepiou quando enxaguei sua nuca usando as mãos — Aliás, tudo bem se quiser trocar de escola.
– Não, tudo bem. — ele respondeu baixinho. — Agora não há mais nada lá que me assuste... e Alois está lá. Não quero deixá-lo.
– Ah, sim... Alois. — eu resmunguei, deixando transparecer um pouco de ciúme em minha fala. O menino soltou uma fraca risadinha. Mas não me magoei por ser para ele um motivo de graça.
Mas eu ainda me sentia receoso de como ele reagiria a mim deste dia em diante. Ele tremia levemente e julguei que fosse porque eu o tocava enquanto o banhava.
– Eu acho que sou um estúpido... depois de tudo a última coisa que você deve querer é alguém te tocando. E eu ainda entro aqui. Me desculpe...
– Não... Eu gosto quando são as suas mãos que me tocam. — ele pegou minha mão que estava próxima à sua costela, e a trouxe até o seu peito, pousando-a bem no meio, onde eu podia sentir seu coraçãozinho acelerado, igualmente como o meu estava. — Eu gosto porque... faz com que eu sinta uma coisa boa aqui. Me deixa feliz. — ele sussurrou e eu corei com a tímida declaração.
– É bom saber isso. — eu disse pousando um beijo delicado no ombro.
E então, vencendo minha inibição eu o abracei apertado, fazendo com que um pouco de água caísse para fora da banheira.
–Você também me faz muito feliz, Ciel. -sussurrei próximo ao seu ouvido. -Na verdade, você é o único motivo para a felicidade em minha vida.
– Mesmo que eu só lhe cause problemas? — ele perguntou e era uma verdade.
Ciel causara um enorme problema em minha vida.
Ele causara em mim o vício, a dependência e sem muito esforço me tornara um prisioneiro seu.
– Mesmo assim! — eu falei em tom de brincadeira e ele sorriu.
Terminamos o banho, eu saí primeiro me sequei e coloquei a calça do pijama que ainda estava no banheiro. Depois peguei outra toalha, enrolando-a em Ciel quando ele se levantou da banheira.
Eu era um homem bastante organizado, por vezes chato com esse negócio de arrumação, mas não me importei em colocar uma criança molhada em minha cama, nem mesmo com a barra da toalha de banho que, úmida, molhou meu edredom limpinho. Apesar de tudo o que havia acontecido, de ter passado por momentos desesperadores, de ter achado que perderia minha criança, de ter sentido raiva como nunca senti em minha vida e ter sentido também o gosto amargo do medo, agora eu me sentia leve.
Pois sabia que Ciel estava seguro. Eu o protegeria, custasse o que custasse. Sequei, bagunçado propositadamente seus cabelos e ele fez um bico adorável.
– Está na hora de cortar, não acha? Está comprido demais, entra nos seus olhos. Parece cabelo de menina. — brinquei com ele.
– Eu fico bonito assim. — ele disse sem dar muita importância e eu ri. Não porque fora engraçado, ou porque não era verdade, mas sim porque Ciel era belo de qualquer modo.
– Certo, certo. — peguei uma camisa minha, grande e folgada e coloquei nele. -Agora...
Eu me afastei buscando em cima de uma pequena mesa o lanche que a Senhora Coburgo havia preparado. Ela o deixara lá e se retirara como eu havia pedido.
Eram sanduíches e leite quente com mel. Sorri porque ela sabia exatamente o que era necessário para uma criança se acalmar e ter assim uma boa noite de sono. Certamente instinto de mãe.
– Não, eu não quero comer.- ele empurrou o prato quando o ofereci a ele. Sentei-me na cama ao seu lado.
– Se não comer, vai continuar tampinha assim.
– Eu não vou comer se você não comer também. – ele pegou o sanduíche de minha mão, me olhando desafiador, e me ofereceu. – Você também precisa.
Segurei sua mão, levei o pão até minha boca e o mordi com meus olhos cravados nele. Depois desse episódio de pequena birra ele comeu. Deitei-me na cama e o puxei para que ele ficasse ao meu lado, coloquei o copo com leite em suas mãos e ele fez uma carinha de desentendido.
– O que é isso? -perguntou tomando um mínimo gole.
– É leite quente com mel. Ajuda a dormir, eu e seu pai bebíamos isso sempre antes de dormir. — acariciei o rosto dele, tirando os fios revoltos da face angelical enquanto ele bebia.
Depois que tomou tudo, ele se acomodou por vontade própria junto a mim como um gatinho. Se remexeu algumas vezes até achar a posição perfeitamente confortável e pegou no sono.
Eu por outro lado, lutei contra a vontade de cair no sono. Preferi apreciar a face serena adormecida. A verdade era que temia dormir e acordar sem meu pequeno céu.
Ciel
Despertei assustado no meio da noite, arfando, tremendo, pois apesar do prof. Faustus não poder mais me machucar, em meus sonhos ele ainda tinha o poder de me ferir.
– Ciel, está tudo bem! Foi apenas um sonho. — a voz cheia de preocupação do meu tio soou próxima ao meu ouvido — eu estou aqui... ninguém mais vai te machucar. Eu prometo!
Engoli, e lambi meus lábios e concordei com a cabeça. E então percebi onde eu estava.
Eu estava na cama de meu tio e ele me aninhava contra o seu peito. Suspirei aliviado e recostei meu rosto naquele tórax. Eu usava apenas uma camisa larga do meu tio e mais nada, por que ele não me deixara sequer para ir até meu quarto buscar um pijama meu.
Eu estava tão grato por ele estar ali comigo daquela maneira. A terrível experiência do dia ainda me fazendo tremer um pouco. Enterrei meu nariz na camisa dele aspirando aquele cheiro bom que me acalmava.
– Eu tive tanto medo... — sussurrei baixinho.
– Eu sei... — meu tio sussurrou de volta para mim, me puxando para mais perto — eu não consigo me perdoar... Você passou por tudo aquilo... eu devia ter te levado comigo, deixado Sky, ter percebido. Qualquer coisa! E naquele dia que você precisou tanto de mim eu te deixei... — sua voz era triste e isso me magoou.
Porque eu não queria que ele se sentisse assim, nada do que houve havia sido culpa dele. Estendi minha mão e acariciei seu rosto, fazendo -o olhar para mim.
– Não foi sua culpa, tio Sebastian... — ele me olhou e beijou a palma da minha mão — Você sempre cuida de mim. — Seus olhos estavam nos meus, aqueles olhos castanhos, belos e gentis. A boca dele quente e macia contra a minha palma.
– Eu pensei que ia morrer... — Eu disse e ele fechou os olhos como se aquilo o ferisse profundamente, então eu levantei minha outra mão e segurei seu rosto levemente, fazendo-o olhar de novo para mim. — E eu tive tanto medo porque eu nunca mais iria te ver. Não poder estar com você é o que mais me assustou... eu quero sempre estar com você...
Ele abriu os olhos e me encarou como se ainda estivesse compreendendo as minhas palavras. Senti meu rosto esquentar enquanto me aproximei e depositei um pequenino beijo nos lábios dele .
– O que mais me apavora é ter de me separar de você... — Eu disse num fio de voz.
Aquilo era verdade. Meu tio se tornara para mim, neste tempo que vivíamos juntos, o meu pai, o meu refúgio, a minha proteção, a minha alegria. E eu descobria a cada carinho, toque e olhar... a cada pequenino beijo que não era só isso.
Era algo maior, diferente e indescritível.
Talvez Alois estivesse certo. Eu estava apaixonado.
Meu tio ficou estático com meu gesto mas sorriu -me pouco depois e eu lhe sorri de volta. Eu o queria sempre sorrindo, sempre comigo. E então ele ficou sério.
– Ciel — ele sussurrou — por que não me contou sobre aquele homem? Ele o atacou na escola e o assediava. Por que não me disse?
Tirei minhas mãos do seu rosto e desviei o olhar.
Como dizer a ele que a natureza do nosso relacionamento era o motivo que mais me impediu de procurá — lo? Que eu me sentia perdido, confuso, que eu temia o julgamento dele?
– Ciel... — ele disse com sua voz grave, segurando meu queixo e me forçando a encará -lo — me fale... Por quê?
– Eu... eu tinha muito medo... — respondi e meu rosto queimava. Olhei para o lado mesmo ele tentando me fazer olhar para ele.
– Aquele desgraçado te ameaçava? — ele falou e pude sentir a vibração da raiva em sua voz.
– Eu tinha medo... de te contar. Eu queria contar! Mas eu tinha medo que você pensasse mal de mim...
– O quê? — ele pareceu confuso.
– Por que eu sempre tento te abraçar e ficar com você... e aconteceram aquelas coisas entre nós, e você passou a me evitar... Como se fosse minha culpa. E mesmo eu sabendo disso eu ainda te procurava e queria estar com você... Mas isso é apenas com você, porque eu realmente gosto de você, tio... Eu tive medo de você pensar que ele me procurava porque eu o abraçasse e procurasse assim como eu fiz com v-.
Antes que eu terminasse de falar meu tio ergueu-se rápido me fazendo cair sobre o colchão. Um instante depois ele estava sobre mim, suas mãos ao lado da minha cabeça e seu corpo enorme sobre o meu. Eu o fitei com olhos arregalados.
– Ciel! Eu jamais pensaria mal de você! — ele disse e seu tom era de reprovação — Jamais! Entendeu?
Eu o olhei e ele me encarou muito sério, suas sobrancelhas franzidas.
Ele não me culpava, ele não me acusava. E isso me aliviou de uma forma tão profunda. Minha visão se turvou com as lágrimas e eu respondi com os lábios tremendo.
– Entendi... me desculpa... e obrigado....
Seu olhar se abrandou e ele se deitou de novo e me puxou de volta para seus braços. Senti seu nariz roçando meu cabelo, cheirando e depositando beijos.
– Eu jamais pensaria isso de você, meu Ciel... mas fiz você pensar essas coisas por causa da minha fraqueza... eu devo pedir desculpas também...
Eu o abracei. Como aquela conversa me fazia bem. Como desfez meses e meses de angústia que me assombraram. Apesar de tudo o que houve, neste momento eu senti paz.
– Ciel, me prometa: se alguém te ameaçar, fizer mal, te magoar... Você irá me contar. Está bem?
– Sim...
– Promete?
– Eu prometo.
– Então está bem... e eu prometo que sempre estarei aqui para você...
– E eu estarei para você, tio Sebastian...
Ele me sorriu e afagou meus cabelos.
– É a nossa promessa... — e suavemente sua boca procurou a minha. E ele me beijou com carinho. Momentos depois ele se afastou.
– Durma, meu pequeno... Você precisa descansar depois de tudo o que passou. Eu estarei aqui. Durma tranquilo.
Eu me acomodei em seus braços e sussurrei antes de adormecer.
– Eu te amo... tio Sebastian...
Agora eu sabia o que eu sentia.
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