Minha redenção

16 Preso à teia, um pássaro bicolor.


Notas iniciais
Neste capítulo nós decidimos fazer algo um tanto diferente: vamos contar o mesmo período de tempo mas relatado por três personagens diferentes: Sebastian, Ciel e Claude. Em alguns momentos a cena vista por uma personagem reinicia quando o pov muda pois o novo protagonista tem um ponto de vista diferente. O motivo disso é justamente inserir o leitor na tensão do momento. As emoções de cada uma das personagens é tão diferente da do outro que com certeza um narrador onisciente ou o ponto de vista apenas de um deles seria mutilar as cenas. Então, aqui estamos nós mostrando a vocês exatamente o ponto de vista de cada um dos três. Beijos Miyuki ki e Chibi Lord

Claude

Eu havia estacionado meu carro próximo à casa de Ciel, perto o suficiente para eu observá-la, longe o suficiente para não ser observado. Já encontrava- me ali há algum tempo esperando como faz a aranha em sua teia.

A última vez que pusera meus olhos no menino fora na quinta feira, no vestiário. Como fora delicioso tocá-lo, sentir o gosto de sua pele... Ah! Maldita hora em que alguém teve de surgir e eu tive de largar o meu passarinho assustado. Ele correu, bateu suas asas e desapareceu. Eu soube, depois, que foi encontrado em pânico por alguns funcionários e levado para casa. Ele nada dissera à coordenação da escola. Eu ri comigo mesmo. Eu sabia que ele não diria. Esse era o meu jogo. Assim fora com todos os outros que eu já caçara. Eu os cerco e estendo sobre eles a minha presença, paralisando-os, fascinando-os de modo que eles se tornem cada vez mais indefesos e deixando-os à minha mercê. Os meninos são como passarinhos, frágeis, que desejam ser livres mas eu os mantenho em gaiolas até o canto deles não me agradar mais.

Este passarinho, no entanto, também me fascinara... belo entre os belos... seu rosto era angelical, os cabelos de um tom escuro e raro, uma pele clara e perfeita como porcelana, pequeno, delgado, como uma delicada obra de arte... os olhos eram lindas safiras. Isso já fora o suficiente para que eu o desejasse mas então o meu passarinho se tornara ainda mais raro e especial: ele se tornara bicolor.

Quão me fascinava e povoava as minhas fantasias aqueles olhos descombinantes, um azul como o mar, o outro violeta intenso, irreal! Quando eu os vislumbrei eu decidi que aquele belo exemplar seria meu.

A cada dia o meu desejo aumentava, ah... ele estava sempre em minha mente. Nos meus sonhos eu o via, eu o tocava, eu o possuía.

Fechei meus olhos e suguei o ar por entre os meus dentes, a simples idéia me fazendo enrijecer entre as pernas. Ciel abaixo de mim, as mão atadas, arqueando o corpo em desespero, chorando, o pavor o tornando ainda mais belo. Gemendo súplicas enquanto eu o fazia meu. Esses sonhos roubando a minha calma, me fazendo apressar a minha caçada. Quando ele não veio para a escola no dia seguinte, sexta feira, eu quase não suportei. Consegui seu endereço nos arquivos da Weston e decidi ampliar a área do meu campo de caça.

No entanto eu não o vira durante todo o sábado e já pensava que este domingo fosse ser entediante, nenhum passarinho interessante à vista... Mas então, o meu pequeno pássaro bicolor deu o ar de sua graça! Eu o vi sair da casa em companhia do tio e um cão Husky. Eles entraram no carro e partiram.

E eu os segui.

Sebastian

Eu estava definitivamente ferrado. Depois de ser posto contra a parede por meu sobrinho e acabar aceitando dar de mim aquilo que ele quisesse, eu era agora arrastado para um passeio saudável de domingo. Ciel queria levar Sky ao parque, onde inúmeros donos levavam seus cachorros para brincar. Depois de nos organizarmos coloquei ambos no carro e dirigi para o parque municipal. O cachorro, preso a uma coleira no banco de trás, babava todo o meu estofado. As unhas compridas arranhavam o couro, mas mesmo assim eu não conseguia parar de sorrir. Ciel tinha uma expressão adoravelmente tímida no rosto, a cada instante que nossos olhos se cruzavam suas bochechas se rosavam, era exatamente como um primeiro encontro. Ao chegarmos ao parque caminhamos até uma área tranquila e eu me sentei em um banco de concreto. Ao meu lado uma bolsa pequena de mão, com objetos que poderiam ser úteis: um agasalho para ele, uma vasilha pequena para darmos água a Sky, um pouco de ração para o cão, porque Ciel julgou injusto a senhora Coburgo preparar lanches para nós e Sky não ter nada para comer no passeio.

Assim era o meu menino.

Ainda havia um PSP de que ele não abria mão e um livro que poderia até me interessar se a vista à minha disposição não fosse tão bela. O meu sobrinho corria pela grama verdinha e o cão o perseguia, correndo com a língua de fora.

Ciel sorria. Ria alegremente, os cabelos bagunçados dançando ao vento. Oh, minha nossa... eu estava tão apaixonado! E, pela primeira vez na minha vida, essa pessoa parecia aceitar meus sentimentos.

Eu me sentia como se pudesse conquistar o mundo.

Instantes depois um Ciel suado e sorridente sentava-se na grama, entre o espaço de meus pés. A cabeça voltada para cima, os olhos semicerrados por causa da luz do sol, os braços circulando minhas canelas. Ele gostava tanto de contato, coisas assim que eu não era acostumado. Nunca me fora permitido tocar em quem eu queria. E agora aquele a quem mais quero me toca por vontade própria.

– Está cansado? – perguntei colocando os cabelos dele para trás com a mão, para que pudesse apreciar melhor aquele rosto esculpido com perfeição. Ele apenas fez um movimento afirmativo com a cabeça.

– Quer um pouco de água? — dessa vez ele negou, os olhos agora bem abertos, ambas as cores tão lindas me esquadrinhando minuciosamente.

– Acho que quero um sorvete. – e ele lambeu os lábios ao terminar de falar e eu engoli em seco.

– Certo! Então levante e vamos lá buscar. — ele levantou-se, sentando ao meu lado e apoiando a cabeça em meu ombro.

–Estou cansado, tio Sebastian, pode buscar para mim? Por favor? — eu sorri. Eu realmente estava ferrado e completamente preso.

– Está bem, mas não saia daqui, está certo?

– Eu não vou sair daqui, tio, eu prometo.

– E não fale com ninguém, eu não demoro.

–Tio, vá logo — ele disse rindo — eu quero o meu sorvete.

–Está bem, está bem. — levantei as mãos rendido e comecei a me afastar. O nosso cão, que descansava perto de nós, começou a me seguir e eu o espantei, dizendo a ele para ficar com Ciel.

– Leve-o, tio, ele está com saudades suas. Faz muito tempo que você não passeia com ele. – meu sobrinho disse e então acabei pegando a guia do cão e fui até o quiosque que ficava próximo à entrada do parque.

Claude

Minha chance havia surgido. O tio do menino havia finalmente se afastado. Meu domingo, que prometia ser entediante, acabara de se tornar interessante. E eu pretendia torná-lo ainda mais.

O homem se afastou. Eu o queria longe. Eu o detestara! Ele fazia meu Ciel exibir um comportamento alegre que eu jamais vira. Isso tornara aquele pequeno algo ainda mais comparável ao sabor sublime do pecado. A expressão de felicidade em seu rosto. Aquela era uma alegria verdadeira. E, oh, quanto maior fosse a alegria, mais amargas seriam as lágrimas, mais alto seria o choro. Não há nada melhor neste universo do que o prazer de se caçar e uma caça saudável é sempre mais deliciosa. E quanto maior for o risco maior será a satisfação.

Fui até ele em silêncio. Eu me encontrava agora às costas do menino. Ele prestava atenção a um joguinho qualquer e nem me notou. Passei por ele, agarrando seu braço e fazendo o pequeno vídeo game cair no chão.

– Olá, Ciel. – sussurrei e o sorriso em meu rosto era verdadeiramente satisfeito. E ver o rostinho alegre se encher de surpresa e em seguida de choque, de medo, fez com que eu sorrisse ainda mais.

Com força fiz com que o menino se levantasse do banco. Os pés pequenos tropeçaram pelo caminho.

–Por favor! Por favor, me solte! Largue-me!! – ele implorou...

Isso, criança, implore. Implore mais. Me deixe ainda mais faminto por você.

Eu o arrastei pela grama. Existia um banheiro público, para o uso dos visitantes do parque ali nas proximidades. Estava em reforma e por isso estaria vazio. Eu levei Ciel para lá. Se ele fugiu de mim aquele dia na escola e agora faltava às aulas para me evitar, quem é que me garantiria que eu teria outra chance como esta? Eu deveria aproveitar! Eu iria à forra!

– Não! Me solta! Meu tio vai matar você!! — ele gritou, o tom já choroso me fazia vibrar por dentro. Aquele rosto de querubim retorcido em pavor, as mãos pequenas firmemente agarradas à barra da camisa, para impedir-me de removê-la.

Eu ri.

Ri verdadeiramente. Aquela criança estava desesperada.

Estávamos a algumas dezenas de metros de distância de onde eu o capturara, em uma cabine particular do banheiro, e até aquele homem odioso nos achar eu já teria me saciado por completo daquele pequeno. Segurei com força o seu rosto, apertando seu maxilar. Ele soltou um gemido de dor e eu puxei com força suas mãos da camisa. Puxei-a bruscamente de seu corpo, fazendo os seus braços se elevarem acima da cabeça.

– O Titio não está aqui agora para te proteger, acho que vai ser mais fácil se você cooperar. – Eu disse a ele mas era mentira, de maneira alguma seria fácil. Eu não permitiria. Eu queria as lágrimas, o pavor, saborear a dor. Eu faria ser mais que especial, seria algo para eu me lembrar por toda a minha vida!

Ciel

Eu estava tão feliz!

E o motivo desta felicidade era o meu tio. Porque ele não iria mais me mandar para longe dele e, principalmente, porque ele era novamente o meu tio Sebastian. Aquele a quem eu tanto amava.

Depois daquele dia, em que o confrontei e o beijei, ele não mais fugia de mim, não mais me evitava. Conversamos um pouco e ele não mais me mandaria para longe. Era algo um tanto estranho mas decidimos seguir em frente e juntos. Eu precisava dele, ele também precisava de mim e ambos sabíamos disso. Ele voltara a ser amável comigo e agora ele aceitava meus abraços. E, pensei corando, vez ou outra, receoso, dava-me pequeninos beijos, doces e carinhosos, que eu aprendera a gostar rápido até demais.

Eu me sentia feliz também porque agora eu teria oportunidade de entender meus sentimentos. E porque nós nos entenderíamos um ao outro. Cuidaríamos um do outro.

Peguei meu PSP e fiquei lá, sentado no banco do parque, sorrindo sozinho enquanto jogava, sem verdadeiramente prestar atenção ao jogo ou a qualquer coisa ao meu redor. Bruscamente, meu braço foi agarrado e dois olhos dourados cintilaram diante do meu rosto.

– Olá, Ciel! — Aquela voz tão odiada e temida e aquele sorriso que povoava meus pesadelos. Era o prof. Faustus. Eu fiquei paralisado por um momento, estarrecido, sem ação e no seguinte ele estava me puxando pelo braço, me levando com ele.

– Por favor, me solte! — eu gritei, mas ele não se deteve. Olhei ao meu redor em busca de ajuda e para meu total horror, percebi que não havia ninguém por perto. Estávamos em um parque. Como podia não haver ninguém ali naquele momento?! Meu tio não estava .Tentei fincar os meus pés no chão e puxar no sentido contrário. Tentei pará -lo, lutar, me desvencilhar, mas ele era tão maior e mais forte do que eu. Sua mão se fechara tal uma garra, seus dedos se enterrando no meu braço e me machucando. Fui arrastado como um boneco, gritando, implorando para que ele me soltasse sem sucesso.

Em meu pavor eu nem consegui ver para onde ele havia me levado. Estávamos, de repente, em algum lugar fechado, talvez um banheiro, eu não sabia! Ele me jogou contra a parede e já estava sobre mim, Suas mãos agarraram a minha camisa e ele tentou puxá-la. Eu a segurei com força e me debati, eu não podia deixar ele fazer aquilo.

– Não!! Me solta! Meu tio vai matar você!! – eu gritei e senti as lágrimas se formando em meus olhos. Meu tio! Onde estava o meu tio?! Ele agarrou meu rosto com força. A dor me fez vacilar por um momento e ele violentamente puxou minha camisa arrancando-a de mim, meus braços enroscados nela, puxados acima da minha cabeça. Preso naquelas mãos.

Gritei mais uma vez e ele cobriu a minha boca com a mão, calando-me. Ele forçou meu pescoço para trás enquanto sussurrava em meu ouvido.

– Por mais que eu ame ouvi-lo cantar, meu passarinho, hoje você deve ficar quieto... – ele riu e sua boca foi para o meu pescoço, sua língua nojenta em mim. Ele forçou sua perna entre as minhas, abrindo-as, me desestabilizando, ao mesmo tempo em que me puxava para si. Me tocou, me explorou.

Medo, nojo, horror, pânico! Meu coração martelou meu peito, eu sentia o sangue latejar em meus ouvidos, o ar me faltava. O que seria de mim? Eu não conseguia fazer nada para me defender, apenas me debati em seus braços, lutei para escapar, tentando segurá-lo desesperado. As lágrimas rolaram pelo meu rosto e então eu ouvi, não muito longe, um latido.

Era Sky.

Eu o reconheci. Abri meus olhos e olhei para uma pequenina abertura de ventilação, quase um metro acima de mim. Eu queria gritar e chamar a atenção mas a mão do professor Faustus cobria firmemente a minha boca. Eu sentia seus dedos marcando a minha bochecha, sua outra mão me tocava e sua boca deslizava pelo meu peito. Se Sky estava ali perto, meu tio também estaria. Eu precisava chamar a sua atenção de qualquer jeito, eu precisava que ele viesse me salvar deste monstro imundo.

– Cieel! — então eu ouvi a voz do meu tio. Ele me chamava, ele me procurava, me debati com ainda mais força mas não obtive nenhum resultado além de fazer rir o meu agressor.

– Cieeeell!! — a voz de meu tio soou novamente, um pouco mais distante. Ele estava se afastando! Ele não me encontraria! O professor faria o que quisesse comigo! Eu precisava fazer alguma coisa antes que fosse tarde demais.

Eu abri minha boca sob aquela mão e cravei meus dentes com toda a força que eu ainda tinha em um dos dedos. Faustus grunhiu em dor e a removeu rapidamente e nesta hora eu gritei.

– Aquiii!!! Estou aqui!!! Tio Sebastian, socorro!! — eu gritei com todas as minhas forças, a garganta ardendo com o esforço. Um segundo depois uma violenta bofetada atingiu meu rosto, me silenciando e as mãos do meu agressor se fecharam em torno do meu pescoço.

– Moleque maldito! — ele sibilou baixo — eu vou fazer você pagar por isso!

E ele apertou, e minha boca se abriu em busca de ar. Eu não podia respirar, eu ia morrer. Vi diante de mim o rosto do meu tio, belo e gentil, e meu coração doeu porque eu iria morrer e não iria vê-lo nunca mais.

Houve, então, um imenso estrondo e a porta se abriu bruscamente.

Meu tio estava ali, arfando, parado na soleira da porta escancarada. O prof. Faustus soltou meu pescoço e eu suguei o ar ruidosamente.

Meus olhos encontraram os de meu tio Sebastian.

– T-tio... — eu consegui dizer, enquanto tossia, o ar voltando a encher os meus pulmões. E eu vi a expressão em seu rosto.

Eu estava salvo.

Notas finais
Calma, respirem. 1...2...3... respirem... Isso, assim mesmo... agora, não nos matem, por favor! XD Finalmente o professor Faustus se revela em toda a sua monstruosidade. E vejamos como reagirá Sebastian depois de presenciar este ataque a Ciel. Eis que ele se depara com um monstro de verdade a machucar quem ele tanto ama. Sentimos por ter feito Ciel passar por algo tão horrendo, de verdade nós nos agoniamos com ele mas não havia como uma coisa como essa não acontecer. ao menos Sebastian agora sabe o que Ciel tem sofrido em silêncio por tanto tempo. Queremos agradecer por todos os reviews maravilhosos e as 4 recomendações que recebemos! Obrigada, Mandy, Cat PhantoMic, Skorgiia e James Martin Cumberbatch! Não temos palavras para descrever a nossa alegria. Beijos amamos todos vocês, nossos leitores Miyukiki