Minha redenção
34 À espreita, o mal.
Notas iniciais
Meu interior é putrido.
Meu desejo é impuro. Minha alma lamacenta.
Meu lamento clama por seu nome. O querer me corrói.
Minhas mãos imundas anseiam por profanar sua tez.
Meus lábios almejam o torturar.
O quero. O quero.
O quero tanto que nem sei mais quem sou.
Um louco, um monstro. Um errante pecador.
Desejando mais do que tudo meu pequeno senhor.
~Chibi Lord
Claude
Ali estava eu, escondido próximo à casa de meu pequeno pássaro bicolor. Observando atentamente.
Fazia poucos dias que eu havia conseguido sair da penitenciária Kelvin.
Sorri. Entre planejar e executar o meu plano se passou um bom tempo. Desta vez eu não fiz nada apressadamente. Observei a rotina diária dos carcereiros, dos guardas, dos outros condenados. Mentalmente simulei todos os passos que eu deveria dar. Sabia que não seria fácil e que eu poderia até mesmo perder a minha vida nesta tentativa.
Mas de fato eu pouco me importava com isso. Minha vida já estava perdida, ali confinada. Todos os dias iguais, na aborrecida e odiada repetição de uma rotina cansativa e enfadonha. Sempre os mesmos rostos, as mesmas pessoas, as mesmas conversas. Eu os detestava. Eram todos como insetos que eu tinha de suportar.
A única razão que me mantinha era a perspectiva de rever Ciel.
E não só revê-lo, mas tomá-lo, possuí-lo. Recuperar o que me pertencia.
Sim, eu estava obcecado.
Relembrei os fatos daquele dia em minha mente.
Finalmente o dia chegara. Eu estaria no primeiro turno de trabalho na cozinha naquela manhã, ou seja, fora de minha cela. Então eu havia afrouxado a conexão com a tubulação de gás na noite anterior, deixando que ele escapasse livremente.
Os carcereiros vieram nos buscar para o trabalho mas a caminho das cozinhas eu me joguei ao chão simulando um mal súbito. Fui recolhido e seria conduzido a enfermaria enquanto os outros seguiram para seu destino. Eu não tinha remorso algum de saber para o que eles iriam.
Nenhum deles me importava. Eu sorri enquanto era amparado por um dos carcereiros. Um homem com aproximadamente o meu tamanho e justamente o que mais facilitaria as coisas pra mim.
Fiquei atento. Esperei pelo resultado de minhas ações com esperança de sobreviver.
Pouco depois a imensa explosão. Toda a estrutura do prédio tremeu e fomos lançados ao chão apesar de estarmos distantes do local. Me recuperei rápido do choque, afinal eu sabia o que ia acontecer. Já o homem que me conduzia, não.
Me lancei sobre o desorientado carcereiro e o soquei até que ele ficasse desacordado.
E em seguida o estrangulei com os cadarços dos próprios sapatos. Ele não poderia mais revelar quem o atacara. Retirei suas roupas e as vesti rapidamente. Sorri ao encontrar as chaves de seu carro nos bolsos da calça.
Sujei meu rosto com o sangue dele para que não me reconhecessem e corri para me afastar do local do meu crime
Tudo estava um caos. Carcereiros e guardas desesperados gritando para que evacuassem o prédio, feridos por toda parte e pessoas gritando sobre haver muitos corpos. Nenhum deles parou para realmente me olhar. Tudo que viam era um carcereiro com o rosto banhado em sangue. Me disseram pra correr para fora e buscar socorro médico e assim eu o fiz. Mas antes fui até a sala dos guardas, que estava vazia devido à confusão, e me apoderei de uma arma e alguma munição.
Ah! A emoção ao por meus pés para fora daquele lugar maldito. Se não fosse pela nuvem de poeira e fumaça que subira com a explosão eu veria o céu azul sobre mim. Minha liberdade!
Corri para os estacionamentos e encontrei o carro do homem que eu matara. Foi bem fácil. Eu ouvira o tolo se gabar tantas vezes de seu carro novo que sabia perfeitamente o modelo e a cor.
Entrei e dei a partida. Dirigi até a saída onde havia uma imensa confusão. Ambulâncias, carros de bombeiros e até a imprensa já chegavam ao local. Meu coração batia acelerado, o medo de ser descoberto me dominando. Controlei a onda de pânico respirando fundo e seguindo com meu plano. Consegui passar, não sem alguma dificuldade, por toda a confusão e finalmente segui em frente.
Ri. Ri histericamente ao tomar a estrada, limpando meu rosto no uniforme. Eu conseguira! Eles não perceberiam minha fuga até ser tarde demais. Eu vencera esta partida.
Eu deveria fugir, me esconder, talvez deixar a Inglaterra. Seria o mais sensato a fazer. Não deveria esperar que minha fuga fosse notada e eu começasse a ser caçado. Mas deixei de lado a sensatez. Eu precisava pelo menos ver Ciel uma última vez. Depois eu partiria e retornaria dentro de alguns anos, quando ninguém mais se lembrasse de mim. E então eu poderia me vingar. E com este pensamento segui para Londres.
Afastei as lembranças de mim ao perceber movimento no jardim. Alguém saíra para fora.
E então eu o vi!
Meu Ciel saíra finalmente!
Ele trajava uma camisa azul e bermudas jeans, um enorme Husky saíra com ele e o cão pulava animado ao redor do menino.
Ah! Tão lindo o meu pequeno pássaro! Ele sorria para o animal. A luz do sol banhava seu corpo delgado. Ele crescera um pouco desde que eu o tivera em minhas mãos. Apesar disso ainda tinha a adorável aparência de querubim. Ele afastou os macios fios escuros dos olhos com a mão e eu pude apreciar-lhe as faces rosadas e macias e os olhos lindos que me aprisionavam o desejo.
Desejo tê-lo, tocá-lo, traçar com minhas mãos os contornos daquele corpo, de encher a pele acetinada e branca de marcas vermelhas. De sugar e apertar, morder, enquanto seu corpo treme e os seus olhos se enchem de medo e lágrimas.
Me senti enrijecer apenas com o pensamento.
Ele estava ali, ao meu alcance, bastava que eu o pegasse. Eu só estaria recuperando o que era meu. Como eu fugiria levando comigo um garoto? Detalhes! Apenas detalhes que não me interessavam, eu daria um jeito. Sim, eu daria. O que fazer depois era algo que eu pensaria depois! Agora eu tinha meu passarinho ali, ao alcance de minha rede, se eu o pegasse finalmente provaria todas as delícias que seu corpo me prometia.
Respirei fundo e avancei um passo, o cão seria um problema mas um tiro certeiro daria conta de tudo. Eu teria de ser rápido pois o barulho atrairia os vizinhos. Ia avançar mais um passo mas a porta da casa se abriu e eu recuei de volta para as sombras que me ocultavam.
Era o maldito tio!
Como eu odiava aquele homem. Ele saiu e Ciel sorriu-lhe. Ele foi até os fundos e voltou trazendo ferramentas de jardinagem. Decidi aguardar. Talvez ele saísse de perto do meu pássaro e eu teria nova chance de arrebatar o pequeno senhor dos meus desejos.
Sebastian
–Você gosta de fazer isso? — meu pequeno me questionou, um ar duvidoso de quem realmente duvida de uma resposta positiva.
–Sim... Não é divertido? — perguntei enquanto escavava com uma pequena pá para colocar a muda de plantinha. Ciel torceu o narizinho gracioso, rindo baixinho. As mãos com luvas para jardinagem sujas de terra úmida. Ele passou o antebraço na testa, mesmo que fosse frio suávamos pelo esforço de mexer na terra. Tínhamos um jardineiro, mas eu costumava mexer com minhas próprias mãos. Eu gostava da natureza. Gostava de fazer caminhadas, observar os pássaros e de cuidar de um pequeno jardim. Sorri doce para meu menino. O sol brilhava, era primavera a estação das flores, e eu juro que se tivesse o talento necessário plantaria Ciel próximo às flores.
– Eu não me importo de fato. — ele falou. — Se você gosta, eu gosto. — o sorriso era compreensivo.
Essa doçura, essa complacência. Era um traço forte da personalidade de meu pequeno e tenho certeza que ele a herdara de Rachel.
–Podemos fazer algo que queira à tarde. O que me diz? — perguntei tirando a franja do rosto pequeno e acabando por sujar de terra a testa do meu anjo.
–Podemos ir ao cinema? — Ciel pediu esperançoso e eu ri do fato de que ele me pedia algo sempre com aquela expressão de quem duvidava de que seu desejo fosse ser atendido.
Ciel fingia muito bem não saber que, de mim, ele sempre teria tudo o que quisesse.
–Podemos. — disse eu tentando em vão limpar a sua testa suja.
Ciel, então, notou meu pequeno erro, levando a mão até a testa e acabando por a sujar ainda mais.
– Olha o que você fez. — me acusou, falsamente emburrado.
Voltou-se para mim com uma porção de terra nas mãos, passando o barro em meu peito. Rindo da própria peripécia. Eu ri também junto dele, o pegando em meus braços e sujando-lhe com o barro as bochechas também.
–Não tente se vingar de mim. Você é pequeno demais. -falei aninhando-o, prendendo-o em meu colo, as pernas se debatiam enquanto ele ria tentando se soltar.
– Eu não preciso "tentar me vingar" — disse sapeca. — Eu tenho uma arma muito melhor.
–Ah é, e o que seria essa arma? — perguntei o ajeitando em meu colo.
Meu doce garotinho olhou para os lados verificando se alguém poderia nos ver, mordendo o lábios e rindo baixinho. Antes de fechar os olhos e selar nossos lábios em um toque meigo, delicado e singelo que me enchia de amor e ternura. Eu rapidamente aceitei a boca macia, saboreando o gosto dele, aprofundando o beijo mais do que seria prudente, afinal estávamos no jardim e não dentro da casa.
– Não preciso de vingança quando estou com você. — ele se afastou um pouco e disse com a boquinha a centímetros da minha, a respiração acelerada e quentinha. -Pois é só te tocar assim. -tocou a boquinha avermelhada na minha novamente em um toque superficial. — Que eu tenho o que eu quiser.
E se afastou, levantando do meu colo e indo de encontro à porta de vidro que dava para a copa. Me deixando boquiaberto. Riu me chamando com o dedinho.
–Vem me dar banho... Eu quero ir ao cinema agora.
E eu suspirei embasbacado.
Claude
Eu os observei por todo o tempo em que estiveram trabalhando no jardim. Meus olhos cravados na figura do menino de olhos bicolores. Em determinado momento eles principiaram a brincar e Ciel sujou com terra a camisa de seu tio. Eles fingiram lutar e o homem por mim odiado puxou meu objeto de desejo para os seus braços. Aquilo me fez redobrar a minha atenção mas o que houve depois me chocou por completo.
Meu Ciel riu e depois olhou para os lados como se procurasse alguém e minha mente me fez imaginar que ele me buscava com seus olhos lindos. Ridículo, pensei logo em seguida, ele nem sabe que estou aqui.
Pouco depois ele aproximou-se daquele homem e eu vi seus lábios se tocarem em um beijo.
Um beijo!
Apertei os olhos, respirando ruidosamente. Meu peito se enchendo de um lamaçal de sentimentos. Aquilo não deveria estar acontecendo, não poderia ser real.
O sangue em meu corpo parecia correr enlouquecidamente pelas minhas veias em uma velocidade entorpecedora. Meu amado e delicado pássaro bicolor... Entregue de forma que não poderia sequer imaginar. Nem em meus piores sonhos ou pesadelos. Nada! Nada antes vivenciado em Minha existência me preparou para aquele nefasto acontecimento.
Meu passarinho, de asas em tons únicos e fascinantes, como um pequeno e alegre querubim, acolhido em outros braços. Braços que não eram meus. Tendo sua boca roubada, por outros lábios que não os meus!
Tapei minha boca com a mão, senão por certo eu gritaria. Eu tinha em meu interior a queimação proveniente da excitação. A fúria fazia meus olhos lacrimejam. Aqueles pequeninos lábios tocando de forma tão... Tão sedenta outros lábios que os correspondiam à altura.
E aquele outro predador colhendo as dádivas que deveriam ser minhas e só minhas.
Tudo tão... tão indevido.
Como? Como poderia ser isso o melhor para meu pequeno passarinho?
Eu era o monstro ali? Eu era o incorreto?
Mas na verdade que segredos eram escondidos atrás daquela bela fachada de homem respeitável?
Eu poderia até sentir algum respeito ou uma espécie de admiração por tal. Afinal, de uma forma respeitosamente inteligente, ele alcançara o seu objetivo. Encoberto por pesadas camadas de uma falsa moralidade.
Mas era seco o meu coração.
Eu era somente desprezo agora.
Por ambos.
Pelo homem que não executava de forma satisfatória aquilo que me movia, que me tomava o que eu tanto queria.
E pelo jovem senhor de meus mais mundanos desejos.
Ele pertencia a mim! Eu estava disposto a me afastar para, em um futuro breve, regressar para perto dele. E ele de uma forma terrível me ferira, causando-me uma dor excruciante. Eu simplesmente não conseguia entender o que acontecia.
Eu queria mais do que tudo que já quis nessa vida tirar dos braços alheios aquele que era meu e fazer ambos pagarem.
O tio, pagaria por ser um homem fraco que se deixou domar com apenas fracas batidas de asas frágeis. Ele merecia cair de joelhos aos meus pés vendo-me ensinar a ele como se conduz um querubim ao calvário.
E meu pequeno deveria aprender quem era o seu dono. Quem era o único que poderia tocá-lo. Eu o faria chorar e se arrepender antes de torná-lo meu. Eu o faria gemer sob mim pedidos de perdão. Eu o possuiria vezes e vezes sem conta, sem piedade.
Mas eu o faria odiar aquele homem e antes de prendê-lo em uma pequena gaiola.
Meus planos mudaram. Meu querer agora era fazer os dois ter aquilo que mereciam.
E eu o Faria.
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