Minha redenção
35 Segredos descobertos.
Notas iniciais
Preso em uma alegre e frágil realidade.
Rodeado por uma delicada felicidade.
Não consigo permanecer consciente,
me entorpecendo pelas substâncias alucinógenas
que seu sorriso me proporciona.
Meu torpor será a minha ruína.
Meu fechar de olhos será minha aniquilação.
Prenda-se a mim,
pois minhas mãos estão tão ocupadas em lhe acariciar
que estão fracas para lhe segurar.
~Chibi Lord
Sebastian
Levantei do chão, limpando com tapinhas as calças sujas de terra. Segui Ciel para dentro de nossa casa. Ele ia à frente mostrando a direção, lançava-me sorrisos deslumbrantes pelo caminho. Risadinhas gostosas.
Eu me sentia o homem mais feliz do mundo. Eu lhe sorria acanhado.
Na verdade queria o pegar em meu colo e o carregar para meu quarto. E lá fazer com ele coisas que me nego mencionar. Mas era um sábado e a Senhora Coburgo só saía da residência aos domingos.
Juro que se não precisasse e se Ciel não gostasse tanto da mulher eu já teria dispensado seus serviços. Porque eu era assim, egoísta a ponto de prejudicar terceiros.
Mas como um bom tio eu fui ajudar meu amado sobrinho no banho.
Em outros lares certamente auxiliar um menino de seus quatorze anos seria considerado estranho. Mas naquele nosso pequeno mundo, que parecia protegido por um redoma, era perfeitamente aceitável.
Até mesmo a Sra. Coburgo não via problemas em que eu me certificasse de estar tudo sob controle na hora do banho do menor. Talvez, quem sabe, a mulher tenha se tornado tão superprotetora quanto eu ou o cão que segue Ciel fielmente ao seu lado.
No quarto ele escolhia a roupa que vestiria, enquanto a governanta e eu discutíamos o que teria para o jantar. Eu não me importava, poderia ser o que meu sobrinho quisesse. Ele era, afinal, muito melhor em decidir por comidas mais saudáveis.
Sky roía, entediado, a um de seus brinquedos. Deitado em sua cama, fazia aquele barulhinho irritante de apito. Toda vez que o osso de borracha esvaziava e se enchia de ar eu revirava os olhos e Ciel sorria.
A senhora Coburgo se foi, disse que daria início ao jantar. Eu não sei porque alguém começava a cozinhar as três da tarde, mas não questionei. Ela levou Sky, dizendo que alimentaria ao cão e eu resmunguei que não tinha necessidade já que o cachorro estava em demasiado gordo. E Ciel fechou a expressão, muito bravo por eu ter ofendido a condição física de seu cão de guarda. Mas o cachorro estava mesmo acima do peso. O que eu deveria fazer?
Fiquei olhando para a janela enquanto me perdia em pensamentos. Ciel odiava quando eu ficava assim. Ele dizia ter medo das coisas que se passavam em minha cabeça e que eu me nego a lhe contar, mas não conseguia evitar.
Por mais que minha felicidade fosse verdadeira e sem precedentes, ainda assim... era tão delicada e quebradiça quanto um cristal à beira de um precipício.
E isso constantemente me assustava. Pois eu sabia que faria mais do que aquilo dito como possível para manter minha felicidade.
Eu me negaria a viver sem Ciel.
–Tio? — ele chamou, a voz alta. Ele já estava no banho. Fui para a porta do banheiro o observei. A pele rosada pelo calor da água e as bochechas coradas de vergonha. O vapor do calor da água deixando os espelhos do banheiro embaçados. Eu estava ficando tonto e não era por causa do vapor.
– Que filme vai querer assistir? — perguntei para me distrair.
– O que está em cartaz? — ele devolveu com outra pergunta, já desligando a água e eu me precipitei para pegar a toalha para secá-lo.
– Eu não sei. — disse começando a secar seus cabelos.
–Então decidimos quando chegarmos lá, pode ser? — falou meu pequeno e eu me ajoelhei no piso para passar a toalha fofa pelos braços delicados.
– Pode ser.
Eu não conseguia formular grandes frases com ele nu na minha frente,eu apenas me concentrava em me manter controlado.
Os braços já secos envolveram meu pescoço, enquanto eu me atrevia em descer a toalha felpuda pela cintura.
– Ou talvez possamos assistir a um filme em meu quarto? – perguntei já cedendo aos encantos de meu bebê. Deixei que meu nariz se perdesse nos prazeres aromáticos que aquele fino pescoço podia me proporcionar...
–Ahn... — Ciel gemeu baixinho, as mãozinhas apertando minhas costas. –N-não podemos, você sabe... — ele reclamou, se soltando de meus braços.
Passei as mãos pelos meus cabelos, frustrado e chateado.
Porque, sim, ele estava certo. Não podíamos.
–Acho que você deveria ir tomar um banho. — Ciel disse piscando um dos olhos pra mim. E eu sorri doloroso, bufando e saindo do quarto dele para ir pro meu próprio tomar um banho. O som de sua risadinha me acompanhando até o meu destino. Minha imaginação perdida nas curvas e na maciez de seu corpo perfeito. Mesmo que aquela já não fosse a minha vontade, ainda assim eu o fiz. Fui comportadamente banhar-me para sairmos.
Ciel e eu saímos de casa, era perto das quatro horas da tarde. O sol brilhava grandioso no céu mesmo que o clima fosse meio frio. Ciel vestia uma calça simples jeans, All Star vermelhos e uma camisa polo preta. Ele era tão maduro para se vestir, provavelmente era a convivência com alguém que vive praticamente dentro de um terno. Mesmo que eu não usasse um naquela tarde.
Eu vestia uma calça simples preta, uma camisa de botões e mangas compridas, arregaçadas e sapatos. Eu não me atrevia a usar um tênis, só para praticar caminhadas.
Nós fomos ao cinema, assistimos ao filme que meu pequeno escolheu. O qual não me interessava.
Não que eu não gostasse de super heróis, mas ver Ciel comentar o quanto um dos atores do filme era bonito me fez perder qualquer interesse no filme.
Quando este acabou fomos dar uma volta pelas redondezas. Era quase sete horas e já estava escuro, mas o clima estava agradável, o que era quase um milagre se tratando de Londres, sempre tão cinza e chuvosa.
Na manhã seguinte não havia trabalho ou aula e Ciel tinha um sorriso tão bonito enquanto caminhava, fascinado, pelas bugigangas da feira de antiguidades ao ar livre que eu não tinha pressa em levá-lo para casa.
Ele caminhava à minha frente sorrindo e comentando quando algo chamava a sua atenção e eu só sabia sorrir, tão feliz e encantando com toda a sua doçura que nada mais no mundo chamava a minha atenção.
Somente a doce criança de olhos descombinantes.
Ciel avaliava um brinquedo antigo em uma banca. Perguntou ao vendedor como é que se jogava aquilo. Eu sorri, Ciel amava jogos, não importava se eles pertencessem a eras mais antigas.
– Esse jogo de tabuleiro se chama Senet. — disse o vendedor e Ciel circulou o bracinho no meu, me puxando para mais perto. — Significa “Jogo de passagem” é originário do antigo Egito. Muito popular na época, mas pouco se sabe sobre suas regras ou quanto à jogabilidade.
Ciel tinha os olhinhos brilhantes enquanto a mão livre agraciava o objeto inanimado com um carinho feito pelas pontinhas dos dedos.
– É tão bonito! -murmurou e eu concordei com a cabeça, era realmente uma peça bonita.
–Você o quer? — perguntei a ele. Seu sorriso aumentou e ele fez um movimento afirmativo com a cabeça.
Eu paguei o preço que o homem me pediu pela peça, este o colocou em uma sacola e entregou a Ciel que carregou a sacola com alegria.
Eu era mesmo um bobo! Um bobo apaixonado que achava a minha criança a mais especial entre todos os humanos. Embasbacado pelo fato de ter a honra de amar alguém tão singular.
Um jovem de quatorze anos que se vestia como um adulto, que gostava de antiguidades e filmes de super heróis. E amava jogos mas preferia anéis usados a vídeo games novinhos. Ciel era perfeito.
–Sebastian? — uma mulher me chamou. Quando vi quem era sorri fracamente. Não queria tê-la encontrado. Era a doutora Durless caminhando, assim como nós, despreocupada pela feira.
– Que coincidência o encontrar. — nos apertamos as mãos em um cumprimento respeitoso e pelo cantos dos olhos eu vi Ciel me encarar com olhos questionadores e avaliativos.
– Sim, uma enorme coincidência. — respondi por educação. — Como está?
– Eu estou bem. — ela observou-me atentamente e eu gelei.
Situação nada boa. Ela era a minha psicóloga, de quem eu fugira os últimos meses. A última vez que conversamos foi por meio de telefone. Quando eu liguei a ela para explicar que deveria me afastar de nossas consultas por um breve tempo. Expliquei que o motivo era uma desgraça acontecida ao meu sobrinho e ela gentilmente me indicou um colega para que Ciel se consultasse. E nunca mais a procurei.
–E você deve ser Ciel, estou certa? — ela perguntou admirada.
Todos ficavam. Ciel tinha uma beleza digna da realeza, incomum para o padrão da maioria dos ingleses. E os olhos de cores diferentes, um tão azul quanto uma safira e o outro violeta como ametista, sempre chamavam a atenção. Isso somado ao contraste dos cabelos escuros e a pele branca como leite.
Ele confirmou com a cabeça se apertando mais contra mim.
Depois de tudo Ciel desenvolvera problemas para se relacionar com estranhos.
–Você realmente é tão belo quanto seu tio comentou.
Ah... agora ela tinha conquistado a sua curiosidade.
Apesar de me sentir feliz por saber que meu pequeno tinha aquela curiosidade apenas por assuntos e pessoas relacionadas a mim, eu não gostava que ele ficasse próximo de quem lhe podia revelar verdades assustadoras sobre mim.
Eu queria que ele tivesse uma imagem perfeita minha desenhada em sua mente.
–E você quem é? — ele perguntou arrebitando o narizinho.
Oh! Tão fofo, encenando seu papel de namorado ciumento, que eu nem consegui o frear na atitude descortês, sorrindo como o dono idiota de um filhotinho que brinca com uma bolinha.
– Me chamo Angelina Durless, sou a...
– Uma amiga minha, Ciel. Angelina é uma amiga minha. — eu a interrompi bruscamente. Não queria que ela falasse que era minha psicóloga. Não queria que Ciel pensasse que eu tinha problemas.
Angelina me olhou de relance, uma expressão desentendida em seu rosto. Até que sorriu, confirmando a Ciel a minha pequena mentira.
O pequeno levantou a cabeça me encarando demoradamente até sorrir de um modo que me deixou temeroso. Eu conhecia aquele sorriso.
–Nós estávamos indo tomar um chá. Não gostaria de nos acompanhar? — ele perguntou a mulher, que sorriu-lhe doce.
Ela achou que o ato do garoto se devia ao fato dele ser um pequeno cavalheiro, despercebida de que era só uma tática para sondar qualquer informação que a mulher tivesse de mim.
Eu fiquei seriamente perturbado mas não havia como inventar uma desculpa para que ela não nos acompanhasse sem que ambos notassem meu ato deliberado de fugir da minha médica. Isso seria um problema pois meu sobrinho iria querer saber mais tarde o motivo de não querer que minha "amiga" nos acompanhasse e minha psicóloga me interrogaria em dias futuros sobre o porque de não querer revelar a ele a natureza de meus negócios com ela. Ciel segurava o meu braço e sugeriu com o mais belo dos sorrisos, parecendo um anjo, mas com um brilho suave de possessividade no olhar.
– Bem perto há uma casa de chá excelente. Sempre que estamos por aqui tio Sebastian me leva pra comer a deliciosa torta de maçãs da casa. Tenho certeza de que você iria adorar srta. Durless.
– De fato, eu adoraria acompanhá — los. Você se importaria, Sebastian?
– Ah, de maneira alguma. Seria um prazer. — sorri educadamente.
Nos dirigimos até a casa de chá. Ela não estava cheia, talvez pelo horário. Pedimos chá e torta de maçã para três. A doutora Durless sentou-se diante de nós dois. Ciel se sentou ao meu lado e comia sua fatia de torta conversando com ela. Nada de incomum, nada de perguntas sobre mim ou como eu a conheci e então sorvi o chá sentindo a tensão ceder um pouco.
Angelina
Andando pela feira de antiguidades eu encontrei Sebastian, meu paciente de tantos anos. Paciente que agora fugia de suas consultas. Fiquei surpresa ao vê-lo andando pelas ruas acompanhado por um menino e ainda mais surpresa ao perceber o sorriso em seu rosto. Era tão difícil vê-lo sorrindo daquela forma tão espontânea. Decidi me aproximar e cumprimentá-lo.
– Sebastian? — Ele pareceu espantado ao me ver e seu sorriso não era mais o de antes e sim o que ele sempre costumava trazer: polido, educado e sem sinceridade. — Que coincidência encontrá-lo.
Ele me saudou e cumprimentou sem grande entusiasmo e o menino que o acompanhava segurou seu braço e nos olhou de forma inquisitiva.
– Você deve ser o Ciel, estou certa? – me inclinei para o garoto. Ele era um menino muito belo, de traços delicados que me lembravam como Sebastian devia ter sido na infância. Só podia ser o filho de Vincent, o homem que era a razão de todas as dores do meu paciente. Ele me olhou e eu me espantei ao constatar que seus olhos tinham cores diferentes. Esse detalhe o fazia ter uma beleza quase irreal. Ele se encolheu junto ao tio ao notar a forma como eu o observava então eu tentei amenizar o fato — Você realmente é tão belo quanto seu tio comentou.
Ele sorriu educadamente e eu vi um brilho surgir em seu olhar.
– E você quem é? – ele perguntou levantando o rostinho para mim como se eu fosse uma intrusa. Sorri porque apesar de ser um gesto um tanto rude eu notara que era apenas ciúmes do tio.
– Me chamo Angelina Durless, sou a...
– Uma amiga minha, Ciel! Uma amiga minha.
Isso me surpreendeu muito mais que o gesto da criança. Sebastian soou nervoso e eu não pude entender o porquê dele não me apresentar como sua psicóloga. Mas decidi entrar em seu jogo. Com certeza devia haver uma razão para tudo isso. Concordei sorrindo mas o menino pareceu notar de imediato toda a situação. Ele, então convidou-me para os acompanhar em um chá. Eu deveria recusar mas a perspectiva de observar e entender o que estava havendo acabou por suplantar minha discrição. Aceitei, para desconforto de Sebastian.
Busquei na lembrança que Sebastian me havia dito, há vários meses atrás, que seu sobrinho sofrera um ataque sexual de um professor e eu lhe recomendei levar o garoto a um profissional amigo meu, expert em ajudar crianças que sofreram abusos. Logo depois ele deixou de vir à suas consultas.
Chegamos ao café e pedimos chá e doces para nós três. Conforme a conversa avançava notei Sebastian relaxar visivelmente e Ciel também. O menino, na verdade, era encantador. Falava com graça e seu sorriso cativava. Sorri ao recordar como Sebastian sempre descrevera seu irmão e amor como uma pessoa que encantava a todos com seu belo sorriso. Ciel deve ter puxado isso do pai. E perto de seu sobrinho, Sebastian parecia ser outra pessoa. Ele sorria com frequência ao se dirigir ao adolescente e na verdade pude notar seus olhares cheios de amor e admiração.
Ciel por sua vez, retribuía os olhares do tio com outros tão repletos de amor quanto os do mais velho. Para ser sincera, em alguns momentos, era como se eu não estivesse ali tão entretidos eles ficavam um pelo outro.
– É realmente bom ver o quanto você está mudado, Sebastian. Tão mais alegre e espontâneo. E o mérito desta mudança é todo seu, Ciel. Seu tio costumava ser tão sério e calado.
– Eu devo tudo ao meu sobrinho, Angelina. – ele respondeu com um sorriso sincero.
Tudo parecia tão perfeito e encantador, porque eu tinha uma sensação de desconforto? Um homem que se decepcionara no amor e que optara por viver em solidão, que acaba por receber uma criança para cuidar e sua vida adquire sentido. Uma história linda de superação. Então por quê?
Foi então que eu notei.
Havia um pouco de açúcar sujando o queixo do menino, Sebastian levou a mão ao rosto do jovem para limpar, eu pude jurar que houve ali uma disfarçada carícia. Ciel olhou para ele enquanto o tio o fazia e os dedos do mais velho roçaram os lábios do menor ao se retirarem. Sebastian, então, trouxe os dedos á própria boca e lambeu o açúcar. Até aí nada demais, não fosse a impressão estranha que os olhares de ambos me causaram. Tudo não durou mais que poucos segundos e em seguida eles já agiam normalmente como qualquer tio e sobrinho.
Não pude deixar de refletir se isso não poderia evoluir para algo... incorreto.
Sebastian é alguém com problemas em se relacionar com outras pessoas. Não poderia ele vir a desenvolver um sentimento impróprio para com o sobrinho? Com o agravante de Ciel ser tão parecido assim com seu pai? E o menino não havia passado por um trauma sexual? Isso não o influenciaria a se apegar em demasia ao tio e protetor?
E se Ciel, por causa de seu problema e pelo carinho do tio, levasse esse sentimento para outro patamar? Ambos precisam de ajuda, refleti por fim.
Sebastian precisa de ajuda para se manter firme e saber direcionar seu amor pelo menino para o caminho certo e Ciel precisa de ajuda para superar a dependência que criou pelo tio. Não é bom para um jovenzinho ter somente olhos afetuosos direcionados a um homem já adulto. Ambos precisam entender quais são os verdadeiros sentimentos que devem manter e qual a real natureza de seu relacionamento. Um relacionamento paternal.
Sem controle tudo poderia evoluir para outra situação de abuso ou de amor idealizado e irreal.
Acredito que nada de grave tenha acontecido, pois Sebastian não é um homem de tendências violentas. Demonstra ser extremamente carinhoso com o menino. Imagino ser impossível que venha a fazer algo de ruim a ele e Ciel não se mostraria tão confortável ao lado do homem se este o houvesse feito alguma coisa. Ainda mais por já ter conhecido avanços impróprios de outro homem.
Mas acredito que possa a vir acontecer algo de grave.
Ciel se levantou e pediu licença para ir ao toalete. Excelente, eu gostaria de dar uma palavra a sós com Sebastian. Mal o menino se retirou eu principiei.
– Seu sobrinho é um menino adorável.
– Sim, ele é. — ele sorriu.
– É realmente terrível pensar que ele foi vítima de algo tão horrendo quanto um ataque sexual.
Sebastian enrijeceu na cadeira. Toda a sua postura mudou.
– Eu falhei em protegê-lo. Se eu não o tivesse deixado sozinho naquele dia... Sua voz estava repleta de dor e raiva.
– Não se culpe.
Ele suspirou longamente e passou a mão pelos cabelos negros, olhando para a mesa.
– Sebastian, Ciel está tendo acompanhamento psicológico?
Ele não respondeu e nem me olhou nos olhos portanto eu já soube a resposta.
– Não entendo essa sua reticência em levá-lo a um profissional, Sebastian. É para o bem dele.
– Eu sei. Mas ele tem ido bem, parece já ter superado tudo. – ele disse e eu percebi que nem ele acreditava em suas próprias palavras.
– Sebastian, o menino pode estar guardando tudo dentro de si, sofrendo em silêncio e você talvez nem saiba.
– Eu... eu vou levá-lo. Você está certa.
– Eu fico mais aliviada. – respondi sorrindo para dar a ele mais confiança. Ciel já estava de volta e fingimos falar sobre amenidades.
– Está tudo bem? – Ciel perguntou para seu tio com um olhar de preocupação e eu achei impressionante como o garoto conhecia bem Sebastian. – Vocês estavam conversando sobre?
– Apenas sobre política, Ciel. Isso sempre desanima qualquer um. – eu brinquei e Sebastian concordou prontamente. Notei que o jovem percebia que estávamos disfarçando por sua expressão mas ele nada disse.
Terminamos o chá e pagamos a conta. Nos despedimos na porta do café e então eu me dirigi ao pequeno.
– Ciel, eu vou deixar com você o meu cartão. Guarde-o. Se algum dia você quiser conversar com alguém pode me ligar a hora que quiser, Tem meu telefone e um celular. Eu sou psicóloga. – entreguei ao menino o meu cartão profissional. Caso Sebastian não o levasse para ver alguém o próprio Ciel teria o meu contato. Ele leu as informações contidas no cartão e abriu-me um sorriso tão doce que até eu me peguei a sorrir como uma tola.
– Muito obrigado, Srta. Durless. Ligarei se algum dia eu precisar.
Tão suave e cheio de vida estava seu rosto que eu pensei que talvez minhas suspeitas e receios fossem infundados afinal de contas. Nos despedimos e eu parti.
Eu já estava longe e então não pude ver Sebastian retirar o cartão das mãos de seu sobrinho com um sorriso e dizer que o guardaria na carteira para não perder.
E ele amassar o papel e o atirar a uma lixeira, sem que Ciel o notasse.
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