Minha Querida Francesa Anastasia
10 Cap 10 - Traidor ou Confidente?
Notas iniciais

POV ANASTASIA
Já é cedo e estou a lavar as louças do café da manhã e a esquentar o Geheirote enquanto Christian já saiu para seus afazeres na SS.
Estou acompanhada de minha rádio clandestina que ecoa pela casa de forma sutil com seu swing enquanto eu penso na conversa que eu e Christian tivemos antes de levantarmos da minha cama.
FLASHBACK ON
Acabávamos de acordar e já me via enroscada no corpo de Christian enquanto nossos lábios eram ágeis a nos beijarmos. Christian é realmente muito intenso e seus lábios eram famintos, assim como seu corpo.
Sinto que minha respiração começa a faltar, Christian roubava-me o ar com muita facilidade, e eu não tenho prática com beijos, estava a começar com isso.
— Calma Ana, respire... – diz Christian com graça, colocando um fio de cabelo meu para trás da minha orelha.
— Você é muito intenso, Christian! – e solto um riso envergonhado. Já posso sentir meu rosto corar completamente.
— Já tem tempos que eu quero te tocar, te beijar, te ter só pra mim... Não reparastes? – diz com firmeza na voz e intensidade no olhar.
— Na verdade eu jamais pensei que sentiria atração por uma qualquer como eu... Tens uma mulher muito linda, tens todas a teus pés, porque logo eu? Seria muita presunção minha pensar algo assim... – digo com toda a verdade do meu coração. Sempre fui apaixonada por Christian, mas jamais pensaria que estaríamos como estamos nesse instante. Corpos nus entrelaçados trocando carícias e conversando sobre nossos sentimentos.
— Você sempre se mostrou muito profissional para mim depois que começou a trabalhar na mansão. Mostrou-se mais séria e afastou-se de mim. Nunca deixei de desejar-te, mas porque se afastou de mim? – ele me olha intensamente procurando respostas.
— Eu tenho medo – digo em quase um sussurro olhando em seus olhos o tempo todo, sendo levada por aquela imensidão cinza.
— Medo? Ora, Ana! Medo do que? – pergunta sem entender.
— De me magoar. De não ser levada a sério. Tu não podes me assumir e seja o que tivermos, será escondido. Posso magoar-me demais com o que acordei contigo ontem de termos algo tu e eu...
— Se eu te magoar, não será de propósito – diz Christian de modo firme enquanto me interrompe, olhando-me nos olhos com toda sua imponência.
Prefiro não continuar com esse assunto, até porque esse olhar de Christian me passa uma certeza tremenda, então decido confiar.
— Não sabia que querias beijar-me – digo com um sorriso muito feliz e satisfeito. Parecia um sonho pra mim.
— Não só beijar-te, mas te ter, te fazer minha! E tu não acreditas porque não vê seu valor. És linda, inteligente, meiga, dedicada e devo dizer que não aparentas a idade que tens, sabes disso não sabe? – diz Christian olhando-me com aquele sorriso que me deixa completamente sem fôlego.
— Espero que minha idade não seja um problema pra você... – olho-o no fundo dos olhos, preocupada que aquilo fosse um impedimento de nossa relação.
— Anastasia, eu sou um homem casado. Sua idade é o último dos meus problemas – diz com gracejo, chega até a rir – Eu sei o que estou fazendo. E você? Sabes? – pergunta-me e parece que está a me sondar.
— Christian, eu sou francesa e estou me relacionando com um nazista. Seu casamento é o último dos meus problemas... – o encaro com o mesmo gracejo. Mas percebo que os olhos de Christian mudam completamente, ficando cada vez mais negros.
— O que quis dizer com isso Anastasia? Como sabes do que se passa? Quem te contou? – e logo vai se sentando na cama um tanto furioso.
— Christian, eu não sou idiota. Achas que não entendo tudo o que fala ao telefone? Não entendo os mapas que você expõe no seu escritório? Que não leio os jornais que você tenta esconder de mim? – jogo contra ele.
— Anastasia, eu só estou te protegendo. No caso tentando!
— Me mantendo presa? Não me colocando a par das coisas que acontecem? Achas que fiquei como quando soube do sumiço da minha mãe? Só consigo pensar que ela chegue a algum lugar seguro e que não seja descoberta francesa em território alemão! – minha vontade de dizer que não apoio o regime totalitário nazista é enorme, mas eu me seguro. Seria como jogar tudo o que tivemos a noite no lixo. Christian é fascista e não iria perdoar-me tão cedo por alegar isso.
— Anastasia está zangada... O que fazer... – Christian começa a pensar e eu o interrompo.
— Que tal começar a me dizer tudo o que está acontecendo sem me esconder nada? É um ótimo começo! – digo certa de que aquilo realmente ia me deixar mais confiante.
— Tudo bem. Mas vamos falar disso depois que você for consultada pelo médico. Vou ligar para ele agora mesmo antes de sair para a SS... – diz Christian levantando da cama completamente nu caminhando até sua cueca com suas costas e bumbum definidos. Esse homem parece que foi moldado por anjos... É tão perfeito...
— Mas... A que horas o médico virá? – pergunto um tanto apreensiva.
— À tarde. Tenho que organizar um congresso para a tomada de algumas decisões. Se eu não conseguir voltar, vou pedir para Elliot vir e acompanhar-te. Tudo bem? – pergunta enquanto veste sua cueca e sua calça.
— Tudo bem... – e vou me levantando também indo até ele com um sorriso no rosto – Viu como podemos conversar e chegar a um acordo sem que você fique mandando em mim e decidindo o que é melhor pra mim? – digo enquanto envolvo seu pescoço com meus braços, dando beijinhos em seu queixo definido.
— Não me provoque, Anastasia... – diz enquanto acerta minha bunda com um tapa e logo aperta ali.
Sem que eu perceba, já nos beijávamos novamente.
FLASHBACK OFF
Penso que é um tanto injusto. Christian escondeu por anos a situação da França em relação à Alemanha e eu estou a esconder o que aconteceu comigo na noite de seu aniversário.
Eu realmente gostaria de contar, mas eu sei que não resultará em boa coisa. Christian é extremamente impulsivo e violento. Não se controlaria e poderia cometer uma loucura.
Não é o momento de contar-lhe.
Preciso ser paciente e aguardar o momento certo.
Tudo o que é feito no calor do momento não tem bons frutos.
~*~
— Elliot! Graças a Deus você chegou! – digo aliviada assim que abro a porta e o vejo entrar – Não quero encarar aquele médico sozinha!
— Ele já chegou Ana? – pergunta Elliot um tanto perdido enquanto tira seus casacos e os pendura no cabide do hall.
— Não, por isso estou comemorando! Você chegou primeiro! – e suspiro aliviada.
Beijo-lhe o rosto e Elliot sorri com meu gesto.
Logo em seguida o médico chega. Elliot o recebe e eu espero na sala.
— Boa tarde, Elliot! – diz o médico ao entrar cumprimentando.
— Ana, esse é o Dr. Flynn, médico de Christian e meu também. É de nossa confiança – diz Elliot.
— Boa tarde, Dr. Flynn – levanto e estendo-lhe a mão. Ele a aperta com sinal de cumprimento e sorri para mim.
— Muito prazer, Anastasia. Estava com Christian a pouco e ele já disse o que está se passando. Vou preparar a cama do quarto de hóspedes para examinar-te.
— Eu levo o senhor até lá – diz Elliot levando-o para o andar de cima.
Nesse mesmo instante vou correndo até o telefone do escritório de Christian e disco o número de seu departamento na SS rezando para que ele esteja livre para falar comigo. Como assim ele contou o que está se passando?! O que está se passando?!
— Departamento de inteligência da SS em que posso ajudar? – a telefonista atende meu chamado.
— Boa tarde, por gentileza Gruppenführer Grey? – pergunto de forma direta.
— Gruppenführer Grey está em convenção. Não pode atender-lhe. Quem seria? – Merda, merda, merda!
— Tudo bem, eu retorno mais tarde – e desligo o telefone rapidamente.
Merda! O que Christian falou com esse senhor sobre mim?!
Sudorese toma conta de meu corpo e começo a andar de um lado para o outro com nervosismo a flor da pele.
— Ana, o que está fazendo aí? – pergunta Elliot querendo rir.
— O que Christian falou de mim pra esse senhor? O que ele vai fazer comigo, Elliot? – minha voz falha enquanto eu falo, estou muito nervosa.
— Calma Aninha! Ele não vai machucar-te! Ele vai apenas lhe examinar! Christian disse a mim que como estas entrando na fase adulta, precisa de orientações sobre sua sexualidade, apenas isso! Agora vamos que Dr. Flynn está nos aguardando – diz Elliot com tranquilidade.
— Ok... Vou confiar em vocês... – digo um tanto apreensiva ainda e vou caminhando com Elliot até o andar de cima, entrando no quarto de hóspedes.
Vejo que Dr. Flynn montou uma maca especial no meio do quarto onde há dois suportes, um em cada ponta.
— Anastasia, eu vou pedir que você tire todas as suas roupas e coloque este avental por gentileza – Dr. Flynn me diz, entregando-me um avental hospitalar branco.
Vou até o banheiro ao lado, tiro minhas roupas e visto-me deste avental.
Sem demora, já estou de volta ao quarto com o meu coração palpitando de apreensão.
Mas preciso manter a calma, Elliot está aqui comigo.
— Muito bem, agora eu vou pedir para que você deite na maca e coloque as pernas nesses suportes bem aqui – diz Flynn com um rosto tranquilo.
Assim que ele me pede isso, olho para Elliot com apreensão.
— Está tudo bem, Aninha... – diz Elliot, estendendo-me a mão, ajudando-me a subir na maca.
— Seja o que Deus quiser... – e deito na maca, colocando minhas pernas em cima dos suportes, sentindo-me completamente exposta a um completo estranho.
Esta sensação causa-me desconforto, e piora quando sinto que Dr. Flynn começa a tocar-me para me examinar.
Meu impulso é de fechar minhas pernas no mesmo instante, mas Elliot aparece e segura minha mão e isso de certa forma me acalma.
— Já teve relações sexuais, Srta Anastasia? – pergunta-me Flynn e meu rosto fica vermelho igual a um tomate.
Olho para Elliot e ele fica tranquilo com a pergunta, então decido ser sincera.
— S-Sim, doutor... – digo com nervosismo.
Nesse momento, Elliot olha-me com os olhos arregalados e eu me ponho a corar novamente.
— Eu posso ver que sim... E foi recente... – diz Dr. Flynn e eu querendo que abra um buraco em baixo de mim onde eu possa me esconder os olhares questionadores de Elliot para mim.
— Tudo bem, Anastasia... Pode vestir-se. – diz Dr. Flynn ao terminar o exame.
No mesmo instante, eu corro para dentro do banheiro e me visto rapidamente.
Assim que eu saio do banheiro, despeço-me de Dr. Flynn e eu e Elliot o acompanhamos até a saída.
Quando Elliot fecha a porta, ele olha-me com... Espanto? Dor? Surpresa? Não entendo esse olhar... Nunca vi Elliot com essa expressão antes.
— Vou ser bem direto. Dr. Flynn falou comigo sobre seu exame e ele me disse que você sofreu violência sexual, Anastasia... Há indícios de lacerações no seu exame... – Elliot fala com preocupação.
Elliot não pode contar para Christian! Não pode!
Christian vai enlouquecer, vai ficar completamente maluco!
— Elliot, por favor, não conte ao Christian! – eu começo a chorar nesse mesmo instante. Não sei o que fazer, a única coisa que consigo fazer é chorar.
— Como você não quer que eu conte uma coisa grave dessas Anastasia? Quem fez essa merda com você?! Diga-me agora! – diz Elliot com certa autoridade. Nunca o vi dessa maneira.
— Está bem longe daqui! Por favor! Eu lhe conto tudo, mas por favor não conte ao Christian! Ele vai destruir tudo o que tiver pela frente! Ele vai perder a cabeça! – começo a implorar para Elliot e não consigo conter meus prantos que saem de forma desesperada de meus olhos.
Elliot respira fundo e senta no sofá com as mãos no rosto, ficando em silêncio por alguns instantes.
— Está bem. Conte-me tudo, Anastasia. Eu prometo que não vou falar com Christian – diz Elliot com certo desespero na voz, mas com convicção, o que me passa seriedade.
— Oh Elliot! Muito obrigada!!! – Ajoelho-me à sua frente e seguro uma de suas mãos, beijando-a em agradecimento.
— Ow, pare com isso, Ana! – diz Elliot, puxando-me para sentar ao seu lado no sofá – Quero que me conte tudo, do início ao fim.
E então conto à Elliot como, quando e onde aquele homem me estuprou e conto sobre Katherine estar envolvida. Conto-lhe também como esse homem é fisicamente, do que me lembro.
Elliot espanta-se com o que relato, mostrando indignação com o que estava ouvindo.
— Quando aquela mulher voltar... Eu vou vir ficar aqui Ana. Vou dormir nessa maldita sala todas as noites para proteger-te! Víbora! Monstruosa! Uma verdadeira cobra! A minha vontade é de ir até Lübbenau e... e... – Elliot levanta a desfere um soco contra uma parede. O soco que dá é tão forte que ouço a parede estremecer.
— Calma, Elliot! Por favor! – Levanto e vou atrás dele, verificando sua mão para ver se havia machucado.
— Ana... Se algo acontecer a você... Eu não sei o que eu faço... Quando essa mulher voltar... Eu não sei o que faço... – Elliot tremia de raiva e indignação enquanto eu o tentava acalmar.
— Respira, Elliot! Por favor, eu preciso que guarde esse segredo contigo! Não sabes como me tirou um peso por não poder falar disso com ninguém! Ajudou-me muito falar sobre isso com alguém! – digo tentando tranquiliza-lo.
— Ana, eu vou encontrar esse filho da puta e ele vai cuspir as próprias bolas! E quando essa víbora voltar, eu não vou desgrudar meus olhos de você, está entendendo? – diz Elliot com determinação.
— Para, Elliot! Eu estou a me relacionar com Christian!!! Enfim estou com a pessoa que eu amo!!!
— O que? Além de ser estuprada você está mantendo relações com Christian? – Elliot diz mais confuso ainda.
— Sim Elliot! Eu enfim estou com Christian! O amor da minha vida inteira! Eu não quero estragar isso! Eu não posso estragar!
— Estragar o que? – diz Christian assim que entra pela porta principal.
Eu e Elliot nos entreolhamos.
Ficamos quietos.
Não conseguimos proferir nenhuma palavra.
Apenas nos olhamos por longos minutos.
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