Notas iniciais
Acontecimentos estranhos pelo mundo intrigam Antônio Mello, que tenta encontrar alguma ligação entre eles. Ou pelo menos prevê-los.

O frio veio de repente. Em questão de minutos, estavam todos tremendo. O murmúrio era muito alto, havia algo errado do lado de fora do escritório. Estava acontecendo novamente. Passos rápidos, coração palpitando, suor escorrendo e medo. Ao sair pelo enorme arco lateral, trabalhado em gesso, uma coisa incrível fez todo mundo parar num instante e olhar para o céu.

-O que é ela e o que ela faz aqui tão ao sul? Não é possível!

-É linda! Nunca havia visto uma assim antes!

-Senhor, telefonema do primeiro ministro.

Antônio Mello, agente e fundador do setor de inteligência da Divisão Nacional de Pesquisas Espaciais e Científicas, estava perplexo com o que via. Algo como uma aurora boreal em chamas, dispersando-se em tamanhos e formas variadas e incomuns. Era majestosa e brilhava mais que o céu azul da tarde. Uma beleza jamais vista. Era ao mesmo tempo incrível e assustadora.

-Passe a ligação para meu escritório.

Depois de alguns instantes, pasmo com o que via, Antônio se vira e pergunta para uma cientista que observava também boquiaberta:

- Com licença, você viu como aquilo surgiu?

A garota não esboçou reação, apenas movimentou delicadamente os lábios secos de frio e disse algumas palavras:

-Nós estávamos comentando sobre o frio que veio de repente, então ela simplesmente apareceu como se o céu estivesse sendo rasgado em chamas, foi...

Antes que ela terminasse de falar, todos caíram no chão. Um som estridente quebrou o som das vozes, e a bela forma que dançava sobre todos, se dissolveu em segundos e desapareceu. Instantes depois, o lugar foi dominado novamente por um frio repentino. Uma grande parte das pessoas que ali estavam, correram para dentro do edifício que abrigava a sede do Centro de Pesquisas Espaciais Científicas.

Construído em um local isolado da área urbana, há cerca de quinze anos atrás, o SSRC sempre foi um destaque na paisagem que o rodeia. Uma mistura de uma arquitetura que lembra as construções do antigo império romano oriental com uma paisagem composta basicamente por colinas e lagos, cercados por uma vegetação baixa, onde se erguiam coníferas típicas do sul canadense. Não era de se suspeitar que ali se encontrasse um dos centros de pesquisas mais avançados do mundo, baseado em computação quântica. Os avanços em descobertas e estudos espaciais dos últimos dez anos vieram, na maioria, daquele lugar. Antônio Mello fez a escolha certa quando decidiu dar seguimento à ideologia de seu pai, o responsável pela primeira viagem tripulada, bem sucedida a marte no ano de 2014.

Um astrofísico de respeito, George Mello Fagonatti ergueu em apenas dois anos, uma pesquisa que lhe rendeu um Nobel de física quântica, ao produzir um computador com capacidade de processamento inimaginável. Cinco anos depois, ao tentar modificar seu LHC (acelerador de partículas) pessoal, gerou uma pequena supernova que destruiu sua casa e sua pesquisa. Aquele nunca foi um projeto legal, George apenas queria provar que é possível dar origem a novos elementos. Mas nunca obteve autorização para isso. Por sorte, Antônio se interessava pelos assuntos de seu pai e conseguiu, ao longo de algum tempo, recuperá-la e dar continuidade ao projeto, criando assim o SSRC.

Subitamente, adentrando o edifício, Antônio se vê de certa forma angustiado, pois sabia que Ernesto o questionaria sobre o ocorrido. “Certamente ele me questionará se já tenho alguma resposta para os eventos que vem acontecendo. E certamente... não saberei dizer.” Isso era frustrante. Os eventos possuíam características em comum, mas não podiam ser previstos, tampouco compreendidos. Em Washington foram os anéis em torno do sol, causando escuridão. No Japão o mar apagou... No Brasil não foi menos estranho: Uma forte nevasca atingiu toda a faixa litorânea.

- Primeiro Ministro, aqui é Antônio Mello. – e pigarreou.

- Não é de seu costume fazer-me esperar, Antônio. – Com um ligeiro ar de impaciência – O motivo desta ligação, não é diretamente ligado à aurora, como deve imaginar. Sei que teme por tudo isso, e espero que esteja fazendo o possível para descobrir o que está acontecendo.

E sem qualquer tipo de pausa, continuou:

- Mas o que realmente me faz pegar o telefone e discar esse número é o desejo de compartilhar com você uma informação que presumo já ser de seu conhecimento, mas de qualquer forma, não pude deixar de notar.

Uma longa pausa esfria ainda mais o clima do escritório. Como se o Primeiro Ministro, Ernesto aguardasse alguma manifestação do outro lado da linha. Mas durante poucos instantes, houve apenas o silêncio. Até que Antônio quebra o gelo:

- Desculpe Ernesto, qual informação?

- Creio que reparaste em um detalhe: 25 de novembro de 2033, a população de Washington vê, em poucos minutos o dia se tornar noite. Três anéis escuros se formam ao redor do sol bloqueando sua luz, mas não sua forma. Tudo começou por volta das quatorze horas.

- 28 de novembro, Trabalhadores de uma doca no sul do Japão ficam assustados com o tom negro que o mar adquiriu após as duas da tarde.

- E no dia 01 de dezembro, mais precisamente às 14:00 o tempo fecha em toda a costa brasileira.

- E adivinha que dia é hoje? Aliás, que horas são?

- Quatro de dezembro, 14h20min senhor. – Antônio obviamente já havia feito a ligação entre os números

- Com um espaço de três dias, sempre na mesma hora. – Ernesto parecia pensar em voz alta.

- O que está acontecendo com a Terra? – disse o ministro sem esconder sua preocupação.

- Eu realmente gostaria muito de ter a resposta senhor, acredite.

- Bom, seja como for, estou recrutando uma equipe de cientistas e alunos de universidades de todo o continente para auxiliá-lo em sua pesquisa. Acredito que esteja inteirado da urgência que este caso exige. Não sabemos, ou melhor, agora nós sabemos quando pode acontecer um novo evento. Mas não sabemos suas consequências. Preciso de respostas.