Eu simplesmente não existia. Era o limbo, tal como em vida me foi descrito. Nem calor, nem a falta dele, nem luz nem sua ausência. Mas o que são essas vozes? O que elas dizem? Ainda guardo a adrenalina dos últimos instantes, e por mais incrível que pareça, uma enorme fúria me domina. Vários sons de pessoas caminham depressa à minha volta. Fiquei certo tempo ali parado, tentando decifrar o que elas são. Talvez alguns minutos... Elas vinham e voltavam. Parecem agitadas, estão meio preocupadas. Mas acho que não podem me notar. Penso novamente no que me fez tomar essa decisão, e vejo que não havia mais como aguentar.

Meu último mês foi o que posso chamar de “epílogo”, quando me isolei do universo, deixando tudo aquilo que poderia me prender. Minha família, meus amigos... Apenas me afastei de tudo, e o pior é que não pareceram se importar... Isso não foi uma surpresa para mim.

Foi quando uma das vozes se aproximou subitamente e me chacoalhou.

- Vamos! Depressa! Eles vão nos pegar... Por deus! Acorde! Sei que você ainda está vivo!

E passando uma das mãos por baixo do meu braço e me segurando com a outra, a voz me arrancou do chão, enquanto eu me esforçava para ficar de pé. Mal conseguíamos dar alguns passos e vez ou outra minhas pernas não obedeciam. Ainda podia ouvir pessoas assustadas e aos poucos, minha visão até então escura, começou a reaparecer.

Em borrões tremidos eu podia distinguir uma rua de pedras, vultos correndo nas calçadas e um manto escuro sobre minhas costas. O homem que me carregava continuava a falar:

- Não posso crer no que vi há pouco! O que foi aquilo? Você devia estar maluco, sério! – e deixou escapar um riso curto que rapidamente foi substituído por um tom sério e firme.

- Olha, agora é o seguinte, preste bastante atenção! – o rapaz parou de repente e me virou de frente para ele.

Tentei esconder meu rosto, e por baixo do manto vi sua expressão de terror ao me observar. Deixou cair seu capuz pelos ombros e continuou:

-Continue abaixado, siga em frente até o número 73. Então entre no pequeno beco à direita e espere. Volto logo.

Então vestiu novamente o capuz e saiu correndo na direção contrária.

Além de bizarra, a ideia de aparentemente ainda estar vivo me assustava. Na verdade, nunca me senti tão vivo como naquele momento. O suor escorrendo pelo meu rosto era uma das provas. Continuei seguindo pelas sombras, com a impressão constante de estar sendo observado. Ainda era noite, uma baixa névoa cobria a parte mais baixa do vilarejo, e de onde eu estava, dava para ver o sino de uma igreja no alto de uma colina mais distante. Algo como ruínas de uma antiga fábrica se perdiam na neblina distante à minha esquerda.

As ruas estavam mortas, a cidade estava morta. Os gritos e a correria de momentos atrás cessaram sem que ao menos eu pudesse perceber. O único som audível, além de meus passos abafados, era o vento, chacoalhando as placas penduradas indicando pontos de comércio. Na medida em que as esquinas se aproximavam, aumentava a sensação de que algo me observava. O pequeno pedaço de mármore entalhado na parede de tijolos exibia o reluzente número 73. Mas antes de entrar no pequeno beco escuro, observei a rua, ainda deserta, mais uma vez. Procurei me esconder em meio a caixas de papelão e o beiral de uma janela lacrada com pedaços de madeira. Ainda estava perturbado. “Como pode ser possível alguém se jogar de uma altura daquelas e não morrer? E o mais incrível, sem se machucar?” Chequei minhas roupas e vi que estavam rasgadas, sujas de terra e curiosamente queimadas em alguns pontos. Mas nenhum ferimento aparente. A última cena que me lembro, foi da escuridão do penhasco se aproximando e o vento no meu rosto. Não senti nenhum impacto, nem dor. Parecia que eu nunca cheguei a cair, e sim planar suavemente até o local em que eu me encontrara há pouco. Quanto mais eu refletia e buscava explicações lógicas, menos aquilo tudo fazia sentido.

Passaram-se vários minutos de uma total tranquilidade e um silêncio assustador e nada me chamou a atenção além de uma coisa. Junto a sacolas de lixo arrumadas num canto mais escuro, perto de uma porta de madeira trabalhada, um pequeno objeto reluziu em um brilho ofuscante, refletido da luz dos postes.

Notas finais
Esse capítulo ainda não concluí, demorei postar, porque estava barrotado de trabalhos da faculdade e resolvi dar uma lapidada nos capitulos anteriores
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.