Minha Primeira Ficção
3 beco caído, número 73
Eu simplesmente não existia. Era o limbo, tal como em vida me foi descrito. Nem calor, nem a falta dele, nem luz nem sua ausência. Mas o que são essas vozes? O que elas dizem? Ainda guardo a adrenalina dos últimos instantes, e por mais incrível que pareça, uma enorme fúria me domina. Vários sons de pessoas caminham depressa à minha volta. Fiquei certo tempo ali parado, tentando decifrar o que elas são. Talvez alguns minutos... Elas vinham e voltavam. Parecem agitadas, estão meio preocupadas. Mas acho que não podem me notar. Penso novamente no que me fez tomar essa decisão, e vejo que não havia mais como aguentar.
Meu último mês foi o que posso chamar de “epílogo”, quando me isolei do universo, deixando tudo aquilo que poderia me prender. Minha família, meus amigos... Apenas me afastei de tudo, e o pior é que não pareceram se importar... Isso não foi uma surpresa para mim.
Foi quando uma das vozes se aproximou subitamente e me chacoalhou.
- Vamos! Depressa! Eles vão nos pegar... Por deus! Acorde! Sei que você ainda está vivo!
E passando uma das mãos por baixo do meu braço e me segurando com a outra, a voz me arrancou do chão, enquanto eu me esforçava para ficar de pé. Mal conseguíamos dar alguns passos e vez ou outra minhas pernas não obedeciam. Ainda podia ouvir pessoas assustadas e aos poucos, minha visão até então escura, começou a reaparecer.
Em borrões tremidos eu podia distinguir uma rua de pedras, vultos correndo nas calçadas e um manto escuro sobre minhas costas. O homem que me carregava continuava a falar:
- Não posso crer no que vi há pouco! O que foi aquilo? Você devia estar maluco, sério! – e deixou escapar um riso curto que rapidamente foi substituído por um tom sério e firme.
- Olha, agora é o seguinte, preste bastante atenção! – o rapaz parou de repente e me virou de frente para ele.
Tentei esconder meu rosto, e por baixo do manto vi sua expressão de terror ao me observar. Deixou cair seu capuz pelos ombros e continuou:
-Continue abaixado, siga em frente até o número 73. Então entre no pequeno beco à direita e espere. Volto logo.
Então vestiu novamente o capuz e saiu correndo na direção contrária.
Além de bizarra, a ideia de aparentemente ainda estar vivo me assustava. Na verdade, nunca me senti tão vivo como naquele momento. O suor escorrendo pelo meu rosto era uma das provas. Continuei seguindo pelas sombras, com a impressão constante de estar sendo observado. Ainda era noite, uma baixa névoa cobria a parte mais baixa do vilarejo, e de onde eu estava, dava para ver o sino de uma igreja no alto de uma colina mais distante. Algo como ruínas de uma antiga fábrica se perdiam na neblina distante à minha esquerda.
As ruas estavam mortas, a cidade estava morta. Os gritos e a correria de momentos atrás cessaram sem que ao menos eu pudesse perceber. O único som audível, além de meus passos abafados, era o vento, chacoalhando as placas penduradas indicando pontos de comércio. Na medida em que as esquinas se aproximavam, aumentava a sensação de que algo me observava. O pequeno pedaço de mármore entalhado na parede de tijolos exibia o reluzente número 73. Mas antes de entrar no pequeno beco escuro, observei a rua, ainda deserta, mais uma vez. Procurei me esconder em meio a caixas de papelão e o beiral de uma janela lacrada com pedaços de madeira. Ainda estava perturbado. “Como pode ser possível alguém se jogar de uma altura daquelas e não morrer? E o mais incrível, sem se machucar?” Chequei minhas roupas e vi que estavam rasgadas, sujas de terra e curiosamente queimadas em alguns pontos. Mas nenhum ferimento aparente. A última cena que me lembro, foi da escuridão do penhasco se aproximando e o vento no meu rosto. Não senti nenhum impacto, nem dor. Parecia que eu nunca cheguei a cair, e sim planar suavemente até o local em que eu me encontrara há pouco. Quanto mais eu refletia e buscava explicações lógicas, menos aquilo tudo fazia sentido.
Passaram-se vários minutos de uma total tranquilidade e um silêncio assustador e nada me chamou a atenção além de uma coisa. Junto a sacolas de lixo arrumadas num canto mais escuro, perto de uma porta de madeira trabalhada, um pequeno objeto reluziu em um brilho ofuscante, refletido da luz dos postes.
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