Minha Pessoa
9 Just a friend to you
Notas iniciais
A segunda-feira chegou e, como sempre, demos carona pra Regina. Na primeira aula, ela nos levou para o laboratório de anatomia. Não imaginei que teríamos aula prática tão cedo, mas não dá pra reclamar. Chegando lá pude perceber que haviam várias macas; todas elas tinham corpos, tampados, em cima. Assustada Anna falou:
— Gente, eu juro que vi o pé desse defunto mexendo — ela se referia ao corpo em frente à ela
— Para com isso Anna, você não consegue nos assustar — disse Elsa
— Não se preocupa amor! Se alguma coisa acontecer, eu estou aqui pra te proteger — complementou Kristoff enquanto se perdia em uma risada
— Ah gente, eu tô falando sério. Eu vi!
— Eu acredito — falou Ruby com uma cara espantada — eu vi a mão daquele ali mexer também — ela apontou na direção do corpo ao qual se referia
— Parem com isso, são só corpos sem vida, gente. Não são zumbis. Vocês não nos assustam — falou uma garota no outro lado da sala
Naquele instante todos os corpos se levantaram, de modo a ficarem sentados, com a coluna completamente ereta. O primeiro berro que ouvimos, foi o de Kristoff, estridente e ridiculamente agudo. Todos começaram a correr enquanto os corpos se levantavam, saindo das macas, ainda cobertos pelos lençóis, e os perseguiam. Eu fiquei ali mesmo, dando risada da situação. Não vou fingir que não me assusto com essas coisas, mas eu já sabia o que estava acontecendo. Tratava-se de um trote dos veteranos, ouvi Regina e minha mãe conversando sobre isso, eles pediram ajuda pra elas, já que minha mãe estaria dando aula para eles no momento do trote. Assim como eu, elas riam muito. Era inevitável. Mas quando perceberam que eu não tinha me assustado, elas pararam de rir e me encararam, com uma sincronia inimaginável.
— Rory, você não se assustou? — perguntou Regina
— Bom, digamos que é muito bom ter vocês sempre por perto. Eu tenho olhos e ouvidos sabiam? — perguntei com um tom irônico enquanto ria — ouvi vocês comentando sobre isso
— Pelo menos você não comentou com seus amigos e assim ainda teve graça — falou minha mãe
— Eu não faria isso! Não perderia a chance de vê-los assustados assim nunca.
Os veteranos pararam de perseguir os outros calouros. Pararam pra rir. Minha turma voltou ao laboratório quando percebeu que não estava mais sendo perseguida e, consequentemente, do que se tratava tudo aquilo.
Os veteranos riam deles, mas pararam pra desejar boas vindas e fazer toda uma apresentação pra nós.
Como na semana anterior, a aula do professor seguinte demorou demais pra acabar. Qualquer coisa que acontecesse antes da aula dele era muito divertido e o pobre homem não sabia conquistar os alunos como a Regina. Tudo naquela aula parecia chato demais. Finalmente, depois de incansáveis horas, aquela aula acabou e eu fui pra casa.
Mais tarde, depois das aulas vespertinas, Emma e Regina chegaram em casa também. A semana foi interrompida por dois feriados seguidos, um na terça e um na quarta, não lembro, ao certo, quais eram os feriados, porém sei que um deles era municipal e o outro, religioso.
Pedimos comida chinesa e, como sempre, maratonamos Grey's Anatomy, o que pode ser considerado estudo por mim. Somos do tipo que faz comentários enquanto assiste. Estávamos falando sobre o pai da Meredith e, claro, chegamos ao assunto Neal. Regina, até então, não sabia que ele tinha procurado Emma, ou melhor, sabia mas achava que isso não daria em nada, que era só papo furado. Vou dizer o que eu percebi: ela não ficou muito feliz em saber disso, muito menos ao perceber o brilho que havia nos olhos da minha mãe quando falava dele. A morena se alterou. Ela não gostava nem um pouco do meu pai, mas não entendi exatamente o porquê naquela hora. Afinal, ela sabia da história e temos que concordar, ele não foi tão culpado. Mas pra ela, ele era um monstro que acabou com nossas vidas, essa vida que ela começava a fazer parte agora, porque, como sabem, ela sumiu da vida da Emma também. Mas assim como com Neal, a loira não a culpava, conseguia perceber que foi muito bom pra amiga.
— Gina, você é minha pessoa, você tem que apoiar minhas decisões. A Cristina sempre apoiou o relacionamento da Meredith com o Derek, mesmo não gostando dele
— Mas isso é diferente e, também, eu tenho que te alertar quando não são as escolhas certas pra você — ela estava alterada, sua voz mostrava isso
— Pra mim? Ele nunca me fez mal, ele não teve culpa
— Eu não acredito nele, acho que ele distorceu o lado dele da história. E ele não é o Sol, você é. Se valoriza.
— Porque ele faria isso se não quisesse conhecer a Rory? Ele não teria pedido fotos dela durante anos, não teria nos procurado agora, não teria levado-a para conhecer toda a família dele e se divertir ontem
— Ele fez o que? Você deixou? Você foi junto?
— Qual o problema? Ele é o pai dela, tem seus direitos. Deixei sim, e o que que você tem a ver com isso?
— Regina parecia sem argumentos, então bufou
A “briga” foi interrompida pelo barulho do meu celular, anunciando uma ligação de Ruby. Ela estava nos convidando pra ir, novamente, ao karaokê. Sim, NOS convidando, ela incluiu as professoras no convite. Aproveitei a ideia pra fazer elas esquecerem o que estavam discutindo. Elas toparam e então nós nos arrumamos e uma hora depois, estávamos lá.
Ruby, Violet e Peter já haviam chegado, Anna e Kristoff chegaram logo depois de nós e Elsa não foi, pois ela já estava um pouco resfriada, de manhã, na aula. Optou por não sair de casa, até porque não conseguiria soltar sua linda voz com o nariz entupido. Anna explicou a situação da irmã e Ruby não gostou, mas aceitou
Regina, por incrível que pareça, foi a primeira a se candidatar para subir ao palco. Ela escolheu uma música da Meghan Trainor, intitulada Just a friend to you.
“Oh, oh, oh
(oh-oh-oh-oh)
Why you gotta hug me
Like that every time you see me?
Why you always making me laugh
Swear you're catching feelings
I loved you from the start
So it breaks my heart
When you say
I'm just a friend to you
Cause friends don't do the things we do
Everybody knows you love me too
Tryna be careful with the words I use
I say it cause I'm dying to
I'm so much more than just a friend to you
Mm, mm, mm
When there's other people around
You never wanna kiss me
You tell me it's too late to hang out
And you say you miss me
And I loved you from the start
So it breaks my heart
When you say
I'm just a friend to you
Cause friends don't do the things we do
Everybody knows you love me too
Tryna be careful with the words I use
I say it cause I'm dying to
I'm so much more than just a friend to you
You-oh-oh-oh-oh
You-oh-oh-oh-oh
You-oh-oh-oh-oh
You-oh-oh-oh-oh
You say
I'm just a friend to you
Friends don't do the things we do
Everybody knows you love me too
I tried to be careful with the words I use
I say it cause I'm dying to
I'm so much more than just a friend to you
A friend to you
A friend to you
(a friend to you...)”
(Oh oh oh
(oh-oh-oh-oh)
Porque você tem que me abraçar
Desse jeito toda que você me vê?
Por que você sempre me fazendo rir
Juro que você está coletando sentimentos
Eu te amei desde o início
Então, parte meu coração
Quando você diz
Que sou só uma amiga para você
Porque amigos não fazem as coisas que fazemos
Todo mundo sabe que me ama também
Tento ter cuidado com as palavras que uso
Eu digo isso porque estou morrendo de vontade
Eu sou muito mais do que só uma amiga para você
Mm, mm, mm
Quando tem outras pessoas por perto
Você nunca quer me beijar
Você me diz que é tarde demais para sair
E você diz que sente a minha falta
E eu te amei desde o início
Então, parte meu coração
Quando você diz
Que sou só uma amiga para você
Porque amigos não fazem as coisas que fazemos
Todo mundo sabe que me ama também
Tento ter cuidado com as palavras que uso
Eu digo isso porque estou morrendo de vontade
Eu sou muito mais do que só uma amiga para você
Você-oh-oh-oh-oh
Você-oh-oh-oh-oh
Você-oh-oh-oh-oh
Você-oh-oh-oh-oh
Você diz
Que sou só uma amiga para você
Amigos não fazem as coisas que fazemos
Todo mundo sabe que me ama também
Tento ter cuidado com as palavras que uso
Eu digo isso porque estou morrendo de vontade
Eu sou muito mais do que só uma amiga para você
Uma amiga para você
Uma amiga para você
(uma amiga para você...))
Ela cantou lindamente, tinha uma voz rouca que se assemelhava a da Meghan, mas ainda era mais grave, uma voz que, particularmente, acho linda. Agradável aos ouvidos.
A morena cantou com todo o sentimento de sua alma, ela sabia interpretar a letra, ela sabia o que significava cada palavra que cantava. Aparentemente, Emma também. A loira parecia muito confusa, confesso que eu também. Eu entendi a letra, mas não consegui interpretar. Ela estava cantando pra minha mãe? Era o que parecia, porque ela não desviou seu olhar dos olhos da loira, nem por um segundo.
No final da canção ela ainda soltou, em inglês mesmo
— I don’t wanna be just your person, I mean, I love being your person, but I’m so much more than this to you, I know I am, I know you do to, the sad thing is that you don't admit and this is making me cry, this is making me suffer, seeing you with other people, it hurts, so if you don't wanna lose me, please, tell me, before is too late.
(Eu não quero ser apenas sua pessoa, digo, eu amo ser sua pessoa, mas eu sou muito mais do que isso pra você, eu sei que sou, eu sei que você também sabe, a coisa triste é que você não admite e isso está me fazendo chorar, isso está me fazendo sofrer, vendo você com outras pessoas, isso dói, então se você não quer me perder, por favor, me diga, antes que seja tarde demais).
Regina saiu, do estabelecimento, com os olhos brilhando, brilhando porque estavam cheios de lágrimas, prestes a escorrer, bastava um piscar de olhos.
Emma foi atrás dela. Eu não podia perder o que estava acontecendo. Me levantei, como se não tivesse percebendo o que se passava, e disse que ia ao banheiro, que, por acaso, ou não, ficava na mesma direção da saída. Todos no local, e, consequentemente, na mesa, estavam de queixo caído, sem entender nada do que estava acontecendo. Mas o show continuou, Anna subiu ao palco e cantou uma música pra quebrar aquele clima. Eu segui meu rumo até a saída, me deparando com a loira abordando a morena, que se encontrava em lágrimas.
— Regina, — era raro ela chamar a amiga pelo nome, geralmente usava o apelido, então isso era realmente sério — o que foi aquilo? O que você quis dizer com essa música? Você sabe muito bem que eu entendi cada palavra, você não desviou os olhos de mim, então, o que está acontecendo? Você quer me dizer alguma coisa? — toda a raiva da briga anterior voltou
— Emma, me desculpa. Eu só não aguento mais. Eu não posso mais te ver assim. Eu não quero ser só sua pessoa. Eu quero ser seu amor, eu quero te fazer feliz como eu sei que você pode me fazer. Você sabe porque eu fui pra outro país? Porque eu percebi o quanto era apaixonada por você e você não correspondia, ou, pelo menos, não admitia. Foi tão bom pra mim, a distância me fez bem, eu conheci outras pessoas, conheci a irmã mais velha que minha mãe entregou para adoção quando era mais nova e ainda morava em Portugal. Eu virei uma cirurgiã de renome internacional. Mas a minha vida desmoronou com a morte de um paciente, e eu percebi o quanto sentia sua falta, por estar ali do meu lado e me consolar, me dar conselhos, me botar pra cima. Eu parei de operar por causa daquilo, eu não sabia o que faria da minha vida dali pra frente, então eu recebi uma proposta para trabalhar como professora em uma das universidades com maior renome no mundo, eu não pude recusar. Aí eu chego aqui e dou de cara com você, você foi me buscar no aeroporto. Você estava animada com a minha chegada. Você sabe porque eu não sorri de volta e porque eu não corri pros seus braços na hora em que te vi? Porque eu tive medo, eu fiquei desesperada achando que todos aqueles sentimentos voltariam. Mas não voltaram, eu te abracei e parecíamos só amigas, como tinha sido há muito tempo. Então eu achei que tinha passado e que agora eu conseguiria viver ao seu lado, o que seria bom, porque eu já tinha aceitado a oferta de emprego e não tinha mais volta, eles não achariam alguém tão em cima da hora. Mas aí você me beijou, não pelo motivo que eu queria, mas porque você queria se livrar de um babaca e eu não me importaria com isso, afinal, eu estava te livrando de um babaca, mas o meu medo virou realidade. Todos aqueles sentimentos, que estavam trancados, encontraram a chave da prisão e se libertaram, todos aqueles sentimentos vieram à tona de uma só vez. Novamente eu tentei ignorá los e consegui, por um tempo. Mas eu cansei de ver você se machucando enquanto eu estava ali, bem do seu lado, esperando que você correspondesse, ou talvez, quem sabe, assumisse que corresponde.
— Regina, me desculpa. Mas não é desse jeito que eu te amo. Não é assim que eu te vejo. Você é a minha pessoa, a minha morena, a minha melhor amiga. Eu quero passar o resto da minha vida com você, mas não desse jeito. Eu não posso te perder mais uma vez, eu senti muito a sua falta. Mas eu realmente lamento por não sentir o mesmo, por não reciprocar esse sentimento,
— Não Emma, você está mentindo, pra mim, pra você e pra todos. Eu sei que você me ama também. Você só não admite porque tem medo. Porque você ainda não se aceita, porque você ainda é homofóbica.
— Você sabe que isso não é verdade. Olha quantas vezes nós já fingimos ser um casal
— Isso não quer dizer nada. Só porque você finge, não quer dizer que aceita. Na verdade, algumas pessoas consideram isso muito ofensivo. Mas isso sempre foi uma ótima escapatória para você. Isso te ajudou a acreditar que não é homofóbica, mas você é, mesmo que negue. Fingir é uma coisa, se auto assumir é outra. Eu sei que esse processo é difícil, eu passei por isso. Eu tive anos pra aceitar que o que eu sentia era mais do que eu acreditava ser. Eu sei que você vai levar um tempo pra absorver tudo isso, e eu posso te dar esse espaço. Eu posso pegar um táxi ao invés de fazê-la desviar de sua rota só pra me buscar. Eu posso te deixar pensar. Porque eu sei que uma hora você vai entender, você vai aceitar e vai me deixar te amar. Porque eu te amo Emma. Eu te amo demais.
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