Minha Pessoa
11 I Don't Want To
Notas iniciais
— Rory, eu sinto muito. Eu sei que você tenta ver a história pelos dois lados, mas infelizmente você não me conhece há tanto tempo pra entender que eu venho me torturando muito. Eu não posso mais fazer isso comigo. Eu juro que eu tentei, eu só não consigo mais. Eu vou dar um tempo para a Emma, eu ainda posso esperar um pouco por ela. Mas eu não posso fazer isso ao lado dela. Seria doloroso demais. É doloroso demais. A Emma precisa pensar em tudo isso e se eu estiver ao lado dela, como amiga, só tornará tudo mais confuso. Mas você tem razão, ela precisa de alguém ao lado dela. Por isso você está aqui, Rory. Você veio até aqui defendê-la, veio até aqui porque a ama. Mas você deveria estar lá, ao lado dela, apoiando-a enquanto eu não estou por perto. Sabemos que você é a melhor amiga dela. Você esteve ali nos 18 anos em que eu estive fora, você conhece a Emma melhor do que eu, você conviveu com ela, todos os dias, por 18 anos. Eu convivi com ela, quase todos os dias, por 17 anos. Parece pouca diferença, mas isso foi 18 anos atrás. Ela mudou, eu mudei e agora ela não precisa de mim, ela precisa de você. Vá cuidar dela — eu a abracei bem forte e disse:
— Obrigada, vou sentir sua falta lá em casa, então vou ajudá-la o quanto eu puder. Pra que você volte o mais rápido possível
— Deseja um café, para se acalmar?
— Não, obrigada. Emma me espera
— Tudo bem então, te vejo por aí — sorriu fraco
“Caramba, ela tem razão. Coitada, acho que só piorei a situação dela. Devo ter feito ela se sentir muito mal. Eu a deixei arrasada, estou me sentindo péssima. Eu realmente fui lá pra defender minha mãe”. Foi o que eu pensei no elevador. Pouco? Sim , mas não dá pra pensar muito no caminho do 1º andar para o térreo né?
Passei voando pelo Hall, me despedi do recepcionista e fui direto para onde o carro deveria estar. Deveria, mas não estava. Eu tinha certeza que havia deixado ali. Eu deveria começar a olhar as placas nas vagas, antes que o carro fosse guinchado. Lá de cima, pude ouvir Regina gritar:
— RORY, CHAMEI UM UBER PARA VOCÊ — ela riu da minha situação — ESTÁ QUASE CHEGANDO — ela disse mais algumas informações sobre o carro, o nome do motorista e entrou logo depois que eu agradeci. Já estava na hora de eu baixar aquele aplicativo de uma vez por todas. Não era sempre que eu tinha dinheiro pro táxi.
Cheguei em casa e fui conversar com Emma.
— Mãe, temos que conversar sobre o que aconteceu ontem à noite
— Mas por que? Eu já te pedi desculpas e você já me perdoou
— Não sobre isso, é sobre o que aconteceu entre você e Regina
— Como assim? O que você tem a ver com isso? E por que voltou, “do rolê” — soltou em tom de deboche — falando disso?
— Eu não saí pra “um rolê” com meus amigos — ela me interrompeu
— Eu sei, Violet ligou perguntando por você — falou mostrando sua superioridade de mãe — Por que mentiu pra mim? Aonde você foi?
— Calma, eu vou te explicar tudo — fui interrompida novamente
— Acho bom mesmo
— Posso prosseguir? Ou vai continuar dando sermão sem entender? — ela fechou a cara
— Continua vai
— Obrigada — disse ironicamente — eu fui falar com a Regina — deixei que ela me interrompesse novamente
— Por que? O que você tem com isso? Você nem sabe o que aconteceu
— Eu escutei tudo, mãe. Cada palavra pronunciada na discussão de vocês e acho que precisamos falar sobre isso. Eu já falei com a Regina, entendi o lado dela. Você precisa falar sobre isso com alguém. Então estou aqui.
— Você enlouqueceu? Eu não tenho o que falar disso. Foi tudo tão estranho e repentino. Eu nunca imaginaria
— Mãe, qual é? Você sabe que é verdade. Você a ama também
— Amo, claro que sim. Ela é a minha melhor amiga, sempre foi
— Você sabe que estamos falando de outro tipo de amor
— Mas eu não sinto isso, eu não amo ela desse jeito
— Ama sim. Você só não admite, mãe. Você não vê o que sempre esteve na sua frente. Esteve na sua cara, o tempo inteiro.
— Isso é ridículo! Claro que não
— Você não é nem capaz de usar um argumento decente. Estou começando a achar que você sempre soube desse sentimento que ela nutre por você. E sempre ignorou porque não quer ter que admitir
— Isso é um absurdo!
— Como acabei de falar, você só ridiculariza e utiliza argumentos que, na verdade, nem argumentos são. Isso não vai funcionar. Você precisa admitir pra si mesma e falar com ela. Antes que seja tarde demais. Ela disse que te espera, mas eu acredito que ela não vai aguentar muito mais. Ela já aguentou tanto. Se você não admitir, você vai perdê-la.
— Mas Rory, eu…
— Você pode pensar um pouco, me chame se precisar. Só não demore demais.
Fui para meu quarto e tudo o que escutei pelo resto do dia, foram portas batendo, pela casa toda. Ela tem essa mania, eu também. Ficamos mal humoradas e batemos portas pra chamar atenção e descontar a raiva em algo. As únicas palavras que trocamos, depois daquilo, foram sobre o almoço. Não podíamos ir a um restaurante, estávamos sem carro e eu tentei desconsiderar essa ideia para que ela não descobrisse. Eu iria buscar o carro durante a tarde. Só precisava pesquisar um pouco pra descobrir o que tinha acontecido com ele. Acabamos optando por fazer a lasanha de microondas. Não tínhamos muitas opções. Era feriado e, de acordo com meu conhecimento, não há nenhum restaurante próximo que faça entregas durante o dia. Aquela lasanha salvou meu pescoço. Emma pretendia sair pra comer fora.
Almoçamos caladas. Cada uma em sua cadeira, como se não houvesse ninguém ao lado. Depois eu lavei a louça e saí em busca do carro. Até estranhei ela não ter percebido que voltei sem ele, melhor pra mim. Chamei um Uber, chegou rápido e ele me levou até o “depósito?”. Não sei como chama o lugar, mas enfim, onde o carro estava. Passei o resto do dia lá, foi uma chatice. Primeiro tive que esperar abrirem porque esqueci de olhar o horário de feriado, que pra minha sorte, abria mais tarde. Pra ajudar, o cara ainda se atrasou “por causa do trânsito”, o trânsito que a cidade não tinha porque todos resolveram emendar os feriados com segunda-feira e, consequentemente, o final de semana anterior. Eram cinco dias livres. Todos foram para o litoral, eu tive aula. Não estou reclamando, mas estou me desviando do assunto. Enfim, mostra documento aqui, preenche papelada ali, vende um rim pra pagar pra tirar o carro de lá e, finalmente, cinco horas depois de sair de casa, eu cheguei ao lar. Ainda do lado de fora, pela janela, pude avistar uma cena muito estranha. Meu pai estava lá. Sentado ao lado da minha mãe, cada um em uma poltrona. Ele segurava, em suas mãos, uma pequena caixinha preta. Dentro dela, um anel. Um solitário de ouro branco com uma pequena e linda pedra, não entendo muito disso, mas me parecia um diamante. Naquela hora eu não soube como reagir. O que era aquilo? Não era o que parecia né? Só me faltava essa.
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