Minha Pessoa
12 A Rosa e o Beija Flor
Notas iniciais
Entrei já tirando satisfações. Aquilo não podia ser real. Meus olhos não acreditavam no que viam.
— O que está acontecendo aqui? — Emma me olhou confusa
— Do que você está falando?
— Desse anel. Do que mais seria? — os dois começaram a rir da minha cara. A mesma cara que se fechou esperando respostas.
— Seu pai está me pedindo divórcio enquanto me mostra o anel que comprou para a próxima vítima — eles gargalharam novamente.
— Do que você está falando? Desde quando vocês são casados? Por que eu não sabia disso? Por que ele não me apresentou sua namorada? O que está acontecendo? — eu estava muito confusa. Eles pareciam calmos, como se aquilo fosse normal.
— Senta aqui — ela pediu apoiando a mão no espaço ao seu lado, indicando para que eu me sentasse ali. Eu sentei.
— Seu pai e eu nos casamos quando descobrimos que você estava a caminho. Bom, não tecnicamente. Apenas em um guardanapo qualquer, mas ele quis falar comigo pra assinar um guardanapo de divórcio antes de pedir a Tamara em casamento.
— É sério isso? Por que eu acho que vocês estão curtindo com a minha cara? Há uma semana você tinha raiva dele por ter se aproximado, e agora são amiguinhos?
— É sério sim. Fizemos isso na felicidade do momento. Dois jovens apaixonados e abobados. Aí seu pai precisou voltar pra cá e acabou não dando certo. O problema de ainda depender do dinheiro dos pais. Não que você tenha que se rebelar e sair de casa — falou preocupada e já se arrependendo do que tinha dito anteriormente — por favor, não faça isso — concordei com a cabeça, para que ela não se preocupasse e seguisse explicando a situação — agora nós dois seguimos em frente e Neal pretende se casar com outra mulher. Então veio me pedir o divórcio. Eu estava brava porque não sabia o que tinha acontecido, porque ele tinha parado de responder. Mas ele me explicou tudo, se desculpou pelo ocorrido e eu não tenho porque rejeitar o pedido de desculpas, considerando que ele não teve culpa alguma.
— Mas por que o anel? Por que eu não sabia disso? Por que esconderam de mim por tanto tempo? Ele apareceu aqui só pra isso?
— Não Rory, meu amor. Eu realmente queria te conhecer. Na verdade, minha namorada me incentivou a fazer isso. Venho conversando com sua mãe há um tempo. Falamos sobre nossos namoros e consequentemente sobre a Tamara. Ela quer muito te conhecer também. E eu vim aqui assinar um novo guardanapo e também, mostrar o anel à Emma, pedir uma opinião, ideias de como fazer o pedido. Como uma sonhadora incurável, ela tem muitas ideias e muita criatividade pra isso, além do bom gosto para falar sobre.
— Tamara é aquela moça negra, linda que vi no domingo, na fazenda?
— Provavelmente sim
— Por que não me apresentou a ela?
— Lembra que marcamos de última hora? Ela queria muito te conhecer, mas tinha outro compromisso. Até achei que ela já teria saído na hora em que chegamos. Provavelmente esqueceu de comentar que encontrou com você.
— Ah tá. Ainda estou chateada por não me contarem isso e gostaria muito de saber por que eu só te conheci agora se vocês já vem se falando “há um bom tempo” - fiz aspas com os dedos — mas pelo menos não é o que eu estava imaginando
— Você achou mesmo que estava pedindo a Emma em casamento?
— Achei, parecia mesmo isso — ele riu
— Eu não me arriscaria a fazer isso com a Regina por perto. Sei desse sentimento — Emma ficou boquiaberta
— Do que você está falando? De onde você tirou isso? — ela se alterou
— Qual é Emma? Isso foi sempre muito claro pra todos. Vocês se amam. Eu só tive chance com você porque ela estava em outro continente, em outro hemisfério.
— Rory, o que você falou pra ele?
— Nada, nem teria como. Você que estava com ele até agora, esqueceu?
— Qual é o problema de vocês? Por que acham isso?
— Emma, sempre foi óbvio. Ninguém precisou me falar. Aliás, o que aconteceu que eu não sei?
— História pra outra hora — falei curta e grossa
Passamos horas a fio discutindo tudo isso, casamento, sentimentos, tirando satisfações (eu principalmente). Até que Neal foi embora, eu fui para o meu quarto e minha mãe ficou andando pela casa, batendo portas.
Passamos o resto do feriado sem trocar nem uma palavra. Almocei qualquer coisa, ela fez o mesmo. Continuava batendo portas por todo lugar que passava. Imagino que fosse uma mistura de raiva de todos com saudade da Regina. Ela sabia da verdade, só precisava passar pelo processo de aceitação.
Quinta e sexta-feira não foram muito diferentes. Fomos para a universidade sem trocar uma sequer palavra. Tentei respeitar o espaço dela. Se ela não falasse, eu não falaria. Obviamente não passamos no hotel para pegar Regina, como fazíamos antes. Aqueles dias pareciam ser os mais longos que já vivi. As horas não passavam, eu encontrava Regina no corredor e não trocávamos nenhuma palavra também. Minto, um “bom dia” saía, mas só. Nas aulas não ficava tão estranho, tínhamos uma relação mais normal de aluna e professora, ao invés de eu sendo a filha da mulher por quem ela é apaixonada.
Passaram-se algumas semanas desse jeito, poucas palavras entre todas nós. Na verdade, nos últimos dias Emma me chamava pra conversar e em um sexta-feira voltamos juntas pra casa, na hora do almoço. Antes paramos em um restaurante, conversamos um pouco, mas isso é irrelevante. Passei a tarde fazendo vários nadas, ela também. Enquanto eu maratonei diversas de minhas muitas séries, ela se deitou na rede e ficou lá a tarde inteira, com os fones ligados, sem dar a mínima importância para o que acontecia ao seu redor. Apenas olhando fixamente para a casa do vizinho da frente. Ele tinha acabado de colocar uma placa de vende-se. Imagino que isso a fez lembrar que esse era o dia que ela e Regina tinham combinado de ver casas para a morena algumas semanas atrás. Acredito que naquela tarde ela só pensou nisso.
Nesse tempo, Regina foi se aproximando de Ingrid. Elas andavam juntas pelos corredores e riam muito, pareciam amigas de longa data. Fiquei feliz por ela. Eu a conhecia há pouco tempo, mas gostava muito dela e queria vê-la feliz. Nas redes sociais, elas postavam inúmeras fotos juntas. Sempre fazendo coisas divertidas, que normalmente a morena faria com minha mãe. Essa que chorava de raiva cada vez que via uma dessas fotos. Aposto que ela colocaria a reação Grrrr se tivesse coragem, pois é certeza que vontade não faltava. Mas ela não tinha razão alguma, sejamos sinceros. Não pode impedir Regina de ter amigas, até porque ela “tinha” Regina e a rejeitou. Claro que eu entendo que ela precisa se aceitar, mas… aah eu já nem sei mais o que estou dizendo. Me perco demais em meus pensamentos, olha o desvio de atenção aí. Voltando ao que imagino que estivesse falando, acho que ela é ciumenta demais quanto à morena e isso só prova mais ainda que tem algum sentimento diferente, além da amizade.
Emma nunca foi ciumenta a esse nível antes. Ela tinha algumas amigas, bom não exatamente amigas, colegas de trabalho. A Ingrid era uma delas, sempre conversavam sobre as aulas, os alunos, mas apenas na universidade, não eram amigas fora dali e Emma não tinha ciúme delas. Era uma relação muito diferente. Eu nunca tinha visto minha mãe assim antes. Nem de mim ela tinha tanto ciúme e eu acho que isso tudo é pelo sentimento de culpa. Ela não é uma pessoa possessiva, do tipo que impediria o parceiro de sair com amigos, mas imagino que ela se sentia pior desse jeito porque sabia que a culpa era dela e que se ela tivesse se tocado antes, isso não estaria acontecendo.
Além de passar grande parte do seu tempo stalkeando a morena, minha mãe ainda assistiu muito Grey's Anatomy. Já perdi a conta de quantas vezes assistimos a série inteira, mas dessa vez ela olhou Callie de outra forma. Naquela vez ela parou pra reparar tudo e se colocar no lugar dela. Acho que ajudou-a de muitas formas.
Eu poderia detalhar mais do que aconteceu dia após dia neste período de aceitação, mas seria cansativo, maçante, chato, tedioso, monótono e qualquer outro sinônimo dessas palavras que você conheça. Em casa era um enorme silêncio nos primeiros meses, depois ela passou a falar mais comigo, mas sobre outros assuntos. O contato com meu pai não se perdeu. Nós nos falávamos de vez em quando. Eu conheci a noiva dele, os dois me contaram a história do pedido que minha mãe ajudou a planejar, nos convidaram para o casamento e tudo mais. De vez em quando passavam os finais de semana conosco. Eram as poucas vezes que Emma e eu ficávamos no mesmo cômodo e interagíamos uma com a outra. Essas eram algumas das vezes. Com tempo ela foi se acalmando, as portas pararam de soltar os estrondosos sons das batidas, o silêncio se fazia um pouco menos presente quando ela resolvia me chamar pra conversar, sempre sobre outros assuntos. As coisas foram voltando ao normal aos poucos. Eu já conseguia convidar meus amigos para irem lá sem que eu passasse vergonha por ela.
A Violet ia muito lá. Íamos ao shopping, ao cinema, a shows. Na maioria das vezes ela era a única da turma que se interessava em ir comigo, mas parou quando eu comecei a dar uma chance para as investidas do Peter. Bom, eu parei de convidar já que não queria que ela se sentisse desconfortável conosco e também porque ela se afastou um pouco de mim por conta própria depois que eu e o Peter nos aproximamos. Ele ia lá pra casa quase todo final de semana, a partir daí, e passávamos os dias comendo em frente à televisão. Eu não tinha me tocado do porquê do afastamento de quem eu achava ser minha melhor amiga, até que, em um domingo à noite, Emma veio falar comigo.
— Hei! Filha, por que a Violet não parece mais por aqui? Nunca mais vi vocês saindo juntas. O que foi que aconteceu, vocês brigaram?
— Não, é que ela se afastou
— Mas por que?
— Eu não sei, foi depois que eu e o Peter começamos a sair
— Ah entendi
— Entendeu o que?
— Você está passando pela mesma situação que eu.
— Como assim?
— Você achava que ela era sua melhor amiga, não?
— Sim, achava que poderia contar com ela pra tudo, inclusive para falar sobre garotos. Mas não foi o que aconteceu. Aonde você quer chegar com isso?
— Foi vendo vocês assim que eu percebi a enorme merda que tenho feito.
— Como assim? O que você viu em nós, mãe? Eu não estou te entendendo.
— Para de me interromper e me deixe explicar, talvez assim você entenda.
— Tá bom, desculpa. Continue.
— Eu reparei que ao lado do Peter você não é tão feliz quanto ao lado da Violet. Você só está com ele porque cansou de fingir que não reparava nas investidas do garoto. Ou talvez porque, assim como eu, não quis aceitar que estava… que está apaixonada pela sua melhor amiga. Com o Peter, mesmo fazendo as coisas que você mais gosta, não parece tão feliz como com a Violet, mesmo fazendo coisas que odeia. Porque a pessoa que te faz companhia pode mudar totalmente o momento pra você. Ela se afastou porque sabe o que sente, mesmo que não saiba realmente… Isso pareceu confuso. Deixe-me recomeçar. O nosso inconsciente sabe que estamos apaixonadas por nossas melhores amigas e não quer aceitar isso. E nossa consciência não sabe lidar com a situação quando a expomos jogando na cara. Mas a ligação com o inconsciente sabe é verdade. Só demora pra aceitar. O dela sabe e aceita, mas percebeu sua aproximação do Peter e resolveu se afastar para não acabar se machucando. Acho que nós temos que fazer alguma coisa quanto a isso. Você tem que cuidar pra não machucar o Peter, ele realmente parece gostar de você. Mas não pode ficar presa em um relacionamento no qual não se sente confortável. E aposto que ele gostaria de saber que está com alguém que não divide do mesmo sentimento. Eu não gostaria de estar com alguém que não não me amasse de forma recíproca e por isso entendi o afastamento de Violet e Regina. Nós sabemos o que temos que fazer, só falta tomar coragem. Amanhã é segunda, você tem aula com a Regina, né?
— Sim - apenas respondi tentando absorver tudo o que ela me disse. Minha mãe me deu o mesmo sermão que eu lhe tinha dado alguns meses atrás? Como eu não me toquei? Ela tinha razão, a companhia da Violet era muito melhor que a do Peter. Não que ele não fosse legal, mas ele não é ela.
— Eu tenho que agir logo, antes que essa relação com a Ingrid vire algo mais.
— O que? Eu acho que elas são apenas amigas.
— Eu também achava que nós éramos e essa é a grande questão. Vou tentar não agir impulsivamente e apenas ter uma conversa sensata com a Gina. Você deveria fazer o mesmo com Violet, mas antes o Peter — suspirei
— Isso vai ser difícil, mas você tem toda razão. Obrigada mãe! — sorri
— Eu é que agradeço, meu amor — ela me puxou para um forte e longo abraço — Eu te amo — sussurrou em meu ouvido
— Eu também te amo — sussurrei de volta. Nos soltamos, segui para meu quarto, me deitei, fechei os olhos. Ela entrou no cômodo, me deu um beijo de boa noite na testa e disse:
— Durma bem, meu anjo. Amanhã será um dia e a tanto para nós duas. Boa noite
— Boa noite, mãe — ela apagou a luz e se retirou, rumo a seu quarto
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