Minha Pessoa
13 The Story Of Us
Notas iniciais
Naquela noite nós não conseguimos dormir direito, a ansiedade tomou conta de nós e acabamos levantando muito mais cedo do que o normal. Isso é muito estranho porque geralmente somos duas dorminhocas preguiçosas, mas o que se faz quando não se consegue dormir? Seria bom poder adiantar o tempo em horas como essas.
Podíamos fazer toda a nossa rotina diária com calma, mas não fizemos. A ansiedade era tanta que fizemos tudo rápido, tomamos café frio, comemos qualquer cereal que tivesse no armário (essa parte era igual todos os dias), fizemos nossa higiene pessoal normalmente,e tudo mais, mas não economizamos tempo na escolha de roupas e na hora de arrumar a cara de sono — com enormes olheiras — usando aquele reboco básico. Mesmo assim, ficamos prontas muito antes da hora e não conseguimos esperar, indo direto para a universidade, numa iludida esperança de que já encontraríamos elas lá.
É claro que isso não aconteceu. Fomos até a sala onde eu teria aula com Regina e lá esperamos por incontáveis minutos, horas, eu não sei, perdi a noção do tempo, porém pareciam meses de uma enorme ansiedade nos atingindo. O lugar estava completamente vazio, não tinha nenhuma alma viva por lá, nem sei como já estava tudo aberto. Aos poucos alguns estudantes e professores começaram a aparecer pelos corredores até que não se ouvia mais o som do silêncio, apenas pessoas falando por todo o lugar. A sala foi enchendo aos poucos, Ruby, Kristoff e as gêmeas já estavam por lá, mas quem mais precisávamos que estivesse ainda não tinha aparecido.
Ruby me explicava que, por mensagens, Violet avisou sua falta nas primeiras aulas daquele dia devido a um impedimento no caminho, fazendo-a se atrasar. Enquanto isso, Peter adentrou a sala seguido por Ingrid, alguns instantes depois. Eu comecei a falar com ele e explicar tudo o que estava sentindo. Felizmente, ele entendeu melhor do que eu imaginava, já que, na verdade, ele já tinha reparado na minha ligação com a Violet e disse que só queria me ver feliz e que se era isso que eu queria, ele ficaria feliz por mim. Eu fiquei muito feliz mesmo, não imaginei que ele seria tão compreensivo.
As coisas estavam favoráveis pra mim, foi bom ter o atraso de Violet, assim ela não esteve por perto enquanto eu falava com Peter. Mas pra minha mãe as coisas não pareciam tão favoráveis assim, e não estavam. Duas perguntas que não estavam só presentes em nossas cabeças, mas na de todos os que estavam na sala era “O que a Ingrid está fazendo aqui?” E “Cadê a Regina?”. Eu e minha mãe chamamos a outra loira e começamos a fazer essas perguntas e mais algumas:
— Me perdoe se estou sendo indelicada, professora. Mas o que você faz aqui? E onde está a Regina? Essa nossa primeira aula deveria ser com ela
— Escute, eu sei que vocês alunos amam a Regina mais do que qualquer outro professor nessa universidade, mas infelizmente ela não estará presente nas aulas dessa semana e eu vou substituir ela em algumas das turmas que encaixam com meus horários.
— Mas por que ela não está aqui? — foi a vez de Emma perguntar, muito preocupada por sinal
— Ela está fazendo uma viagem a Portugal — Emma não foi capaz de pensar racionalmente naquele momento. Ela não pensou em perguntar por quanto tempo ela ficaria ou o que fazia lá. Sua mente entrou em desespero e eu sei exatamente o que se passava dentro daquela cabeça.
Para explicar melhor a situação e as dúvidas e preocupações que preocupavam a cabeça de Emma, além de algumas situações que ocorrerão daqui pra frente, eu acho bom contar um pouco mais sobre a vida da Regina antes de tudo isso acontecer.
Ela brasileira, filha de pais portugueses. Nascida em Portugal, mas viveu a maior parte de sua infância e vida na antiga colônia, então se auto considera brasileira. Seus pais eram casados e moravam felizes em Portugal, até que Cora, sua mãe, decidiu que queria tentar algo novo, uma vida nova em um país diferente. A barreira da língua as trouxe para o Brasil. Henry amava muito a esposa e a filha e entendia a vontade de mudança de Cora. Ela sempre comentou que gostaria de se mudar. Mas Henry não deixaria Portugal por motivo algum. O casal se divorciou amigavelmente e as duas morenas se mudaram para outro continente. Cora comprou a casa em frente à de meus avós e foi pra lá com a filha. Na primeira semana os vizinhos já fizeram amizade e com as meninas não foi diferente. Apesar da diferença de idade e consequentemente que turmas na escola, elas viraram melhores amigas.
Regina às vezes voltava pra Portugal nas férias, para ver o pai e toda sua família. Devido a qualidade de ensino do outro país e alguns problemas pessoais envolvendo a paixão pela então melhor amiga, ela tomou a decisão de cursar medicina em sua terra natal enquanto morava com seu pai. No decorrer desse tempo ela acabou conhecendo Zelena, sua irmã mais velha por parte de mãe. Cora era muito jovem quando engravidou da primeira filha, então decidiu entregá-la para a adoção, para que tivesse uma vida melhor e depois possivelmente procurasse pela mãe. A ruiva conheceu Regina por acaso, ficaram próximas e acabou descobrindo ser a irmã por quem tanto procurava. A mãe queria rever a filha depois, uma mulher crescida, bem criada e não escondeu sua identidade no momento da entrega. Os pais adotivos de Zelena sempre abriram o jogo, não escondendo da filha que era adotada. Assim, ela iniciou sua curiosa busca atrás da família que a deixou, procurando por respostas.
Zelena acabou descobrindo que tinha uma irmã caçula, só não sabia que ela e sua mãe estavam do outro lado do oceano. Quando já muito amiga de sua irmã, ela acabou desabafando sobre a busca e a mais nova decidiu ajudar. A verdade acabou se revelando quando Zelena pronunciou o nome de sua mãe biológica. Depois disso, Cora voltou ao país para reencontrar a filha mais velha e acabou reatando com seu ex marido, nunca mais saindo de lá. Apesar de tudo, Regina sentia que tinha deixado algo inacabado no Brasil, ou melhor, sentia que aqui era seu verdadeiro lar.
Então decidiu voltar pra fazer internato, residência, especializações e qualquer trabalho aqui, até porque com suas ótimas notas recebeu uma ótima oferta de continuar seus estudos em um dos melhores hospitais escola do país. Ela nunca deixaria essa oportunidade passar. Com todas as descobertas e felicidade que teve em seu país de origem, ela já havia superado a paixão não correspondida por sua melhor amiga, até saber que agora ela era uma jovem mãe solteira porque o babaca que a engravidou não teve a decência de ser pai.
Depois de todo esse tempo ela decidiu procurar pela antiga paixão nas redes sociais que estavam começando a nascer na época e foi lá, vendo uma foto da linda garotinha em seus braços (sim, essa sou eu e eu estou me elogiando), foi investigando mais no perfil da loira e do cara que a conheceu em sua despedida, que ela conseguiu todas essas informações sem nem mesmo entrar em contato. Ela não podia fazer isso. Não podia se afogar em ilusões novamente. A irmã mais velha se tornou uma confidente e a ajudou superar tudo e focar nos estudos, mesmo que ainda estivesse em Portugal. As tecnologias que vinham surgindo só ajudavam com a parte da distância. Com o passar dos anos, Regina foi ficando sem tempo devido ao trabalho, Zelena passava maior parte do tempo com o novo namorado e o fuso horário também não colaborava.
Quando já uma cirurgiã cardíaca renomada no país e no mundo, Regina viu seu chão cair e ficou devastada com a perda de um menino órfão que era seu paciente desde o internato. Ela tratava o pequeno Henrique, carinhosamente apelidado com o nome do seu pai, como se fosse seu filho e não suportou o fato de não ter sido capaz de salvá-lo. Parou de operar e apesar de manter um contato, mesmo que pouco com a irmã, não conseguiu superar a perda do garotinho. Ficou meses em casa e sumiu das revistas de medicina com suas incríveis pesquisas. A essa altura eu já era fã dela, acompanhava seu trabalho desde quando ela apareceu ali pela primeira vez, porque desde pequena eu sabia que ia ser médica e também não foi por falta de influência materna. Emma estranhou muito o “desaparecimento” de Regina dos artigos científicos. Ela quis muito entrar em contato, mas não sabia como até que a vaga de professor abriu na universidade. Ela imaginou que seria a oportunidade perfeita e tinha razão. Daí pra frente vocês já sabem tudo o que aconteceu, ou pelo menos toda a parte importante. Regina decidiu voltar pra Lisboa quando recebeu um envelope, vindo de sua irmã mais velha.
Sabendo de toda essa história (bom, não exatamente desse jeito como a parte da paixão, mas acho que deu pra me entender), minha mãe acabou pensando que Regina tinha voltado pra ficar em seu país de origem. Acho que com o desespero ela não deu atenção total a fala da Ingrid “Ela está fazendo uma viagem a Portugal”.
Emma não pensou em mim, não pensou em seu emprego, não pensou em dinheiro, não pensou em nada além de que tinha que ir atrás do amor da sua vida, que ela mesma afastou. Saiu em disparada. Rumo? O aeroporto mais próximo e o destino final, Lisboa, é claro. Sem nem levar bagagem. Ela nem pensou em perguntar se o endereço era o mesmo que ela tinha de anos atrás ou algo do tipo, apenas sumiu.
Eu não me preocupei com nada dessa situação, até que cheguei em casa e percebi que não tinha a chave, porque ela levou pra Portugal. Eu poderia me virar sozinha. Mesmo sem ela falar uma palavra sequer, eu sabia que tinha ido pra Lisboa. Ficar sozinha por um tempo seria até bom, se ao menos eu pudesse entrar em casa. O carro ficou parado no estacionamento da universidade por alguns dias, já que a chave dele também estava com a mamãe e a reserva estava em casa.
Violet acabou não chegando para as duas últimas aulas também, então resolvi ir até sua casa e implorar por um lugar pra ficar. Ao chegar lá fui recebida por uma mulher que se apresentou como mãe ela, mas não era a mãe que eu conhecia. Ela nunca comentou que tinha duas mães e que elas eram lésbicas, isso me fez tão feliz. Não teríamos problemas familiares se ela realmente sentisse o mesmo. Ela me permitiu entrar, chamou Violet e convidou para o almoço. Não quis ser grosseira e estava morta de fome, decidi não recusar. Depois da refeição nós passamos horas conversando. Expliquei tudo, desde o início. Toda a história de minha mãe e Regina, tudo o que estava acontecendo ainda inclusive. Falei que não queria cometer a mesma burrada que minha mãe, o que é fato. Esclareci que já tinha conversado com Peter e tudo mais até que cheguei ao ponto de perguntar se era mesmo recíproco o sentimento, ela apenas me respondeu com um sorriso seguido do melhor beijo que já recebi. Então eu tive que quebrar o clima pra perguntar se poderia ficar ali por tempo indeterminado devido às loucuras da minha mãe. Eu nem pensei em ligar pra ela, talvez porque não estava com o celular em mãos, já que esqueci em casa na correria daquela manhã. Além do que, achei que ela estaria incomunicável dentro de um avião. Minha mãe devia estar mandando mensagens como louca, mas eu não pensei nisso. Tinha uma ilusão de que ela chegaria no aeroporto, teria um voo saindo naquele instante, ela teria entrado e a noite já estaria em seu destino e feliz da vida ao falar com Regina, mas não foi exatamente isso que aconteceu.
Toda a história de Regina eu contei baseada no que me contaram e a partir daqui não será diferente, já que eu não estive presente nos locais e momentos para saber exatamente e detalhadamente o que aconteceu do meu ponto de vista.
Os voos para Lisboa geralmente saem à noite, com esse não foi diferente. Ela passou horas esperando sozinha no aeroporto. Quando já no avião, esperou mais ainda porque uma outra aeronave que traria muitos passageiros que iriam pra Lisboa pegando conexão aqui estava atrasada e a companhia aérea teria mais gastos se os deixassem do que se os esperassem.
Depois de quase nove horas dentro de uma caixa de metal voadora, ela finalmente desembarcou em Lisboa, só não sabia que estava na cidade errada. Lá pelas dez horas da manhã, considerando o fuso horário de lá, umas duas da tarde para ela, ao tocar a campainha do antigo endereço de Regina, mamãe foi recepcionada por um senhor que imaginava ser o pai da morena, pelas fotos que havia visto dos dois juntos. Com um sorriso no rosto, uma calma impressionante e com um sotaque que não a fazia duvidar de onde estava, o homem falou:
— Boa tarde! Mas que moça gira, em que posso ajudar-lhe?
— Boa tarde, senhor! Sou Emma Swan — os olhos do homem se arregalaram, ele sabia exatamente de quem se tratava.
— A melhor amiga de minha filha, correto?
— Isso mesmo — respondeu — Por enquanto — sussurrou para si
— Desculpe-me, não entendi a última parte
— Ah… nada não. O senhor é Henry Mills, certo?
— Isso mesmo
— Sabe me dizer onde posso encontrar a Regina? Ela está por aqui?
— Sinto muito, menina. Mas minha Regina está a ir para Porto com a mãe.
— O que ela vai fazer no porto?
— Não não. Não no porto, em Porto. Uma cidade ao norte de Portugal.
— Ah sim. Você sabe me dizer como posso chegar até lá o mais rápido possível?
— Tu podes pegar um avião, autocarro ou comboio. Os voos são os mais ligeiros, mas podem te custar mais. Os autocarros levam mais tempo, mas saem a cada hora. Os comboios podem ser muito confortáveis, mas não muito frequentes.
— Desculpa, como? O que são autocarros e comboios?
— Autocarros… como lhe explicar? — pensava — Grandes carros que levam muitas pessoas.
— Ônibus?
— Sim, acho que é assim que chamam no Brasil. E os comboios andam por trilhos
— Ah sim, os trens. Obrigada Henry. — se retirou, chamou um táxi e seguiu em direção à estação ferroviária.
Lá ela descobriu que ouveram algumas falhas nos trilhos e que os trens pararam de funcionar por tempo indeterminado, até que todos os problemas fossem solucionados. Com a notícia, ela decidiu seguir para a rodoviária e assim pegar um ônibus. Mesmo com duas horas somadas no tempo de viagem, ela estaria em Porto até o fim do dia — ou era isso que pensava -. Os trajetos que fez somaram mais tempo e ela acabou tendo que pegar o ônibus das quatro da tarde. Era o único que fazia um caminho diferente, passava por uma outra rodovia no interior e fazia mais paradas para pegar mais passageiros nesse percurso, mas ainda era a melhor opção, já que, mesmo assim, chegava antes dos outros. Além de que, seu cartão (o único internacional que possuía) não tinha limite suficiente para mais uma passagem de avião. Apesar de pouco, ela até tinha dinheiro na carteira. Mas o que se faz com Reais na Europa? Eles virariam nada na troca por Euros.
Teria ocorrido tudo bem e ela estaria em Porto no horário planejado se não tivesse ocorrido tantos imprevistos. Foi bem na parte mais vazia do trajeto que o veículo furou o pneu e pra sorte deles, era um dos poucos lugares em que não se tinha sinal de celular. Eu quis rir muito quando ouvi essa história sair da boca de Emma, quase não acreditei. Ela sempre quis ser uma personagem de um filme de comédia romântica, e nessa horas parecia fazer mesmo. Tudo dava errado pra ela corrigir o erro que cometeu. Aquela estrada era pouquíssimo utilizada, se dessem sorte um carro passaria por ali em algum momento, mas não tiveram. Acabaram no ônibus mesmo, se alimentaram do que levaram nas bagagens (ou seja, ela passou fome) e no dia seguinte esperaram até que o ônibus do mesmo horário passasse.
Eu ainda me pergunto como não sentiram a falta da chegada de um ônibus na rodoviária do destino e não enviaram ninguém para descobrir o motivo, mas agora não importa porque pelo menos aquele ônibus passava todo dia. Por mais um azar do destino, o ônibus passou, mas estava lotado e não podia levar mais nenhum passageiro sequer, só que prometeram ligar para pedir ajuda assim que estivessem em um lugar que pegasse área de celular.
Mais algumas horas se passaram e finalmente apareceu um carro, de dentro dele saíram aqueles que seriam responsáveis por realizar a troca de pneu. Depois de tudo pronto o “autocarro” seguiu viagem e passadas algumas horas mais, finalmente chegou em seu destino. Porto é uma cidade linda, colorida e alegre, coisa que não se percebe tão facilmente a noite. Sim, eles chegaram tarde. O outro ônibus saiu atrasado da rodoviária, aí somam-se os tempos de viagem até chegar onde eles estavam, mais até achar área, depois até o carro chegar e ainda a retomada da viagem para o destino final. Já era quarta-feira, estava no final do dia, Emma estava morta de cansaço e não tinha onde ficar. Ela comprou briga com a empresa, devido a todo o atraso e acabou conseguindo que pagassem sua estada e jantar no hotel por uma noite (ela ameaçou processá-los, mas nunca faria isso). Ela chegou no hotel, comeu como nunca antes, tomou um banho e caiu na cama.
No dia seguinte e bem descansada ela procuraria sua amada. Devido às noites anteriores mal dormidas, que somavam a falta de sono pelo fuso horário e todos os contratempos que surgiram no caminho, ela foi levantar quando deveria estar almoçando. Minha mãe me fazia morrer de tanto rir quando contava cada detalhe dessa viagem maluca. Dormiu usando o roupão do hotel porque lavou as roupas, que já usava há três dias, e deixou-as secando no banheiro. Todo o tempo em que ela esteve dormindo não foi suficiente para que elas secassem completamente e o secador de cabelo colocado no banheiro do quarto veio a calhar para terminar.
Antes de tudo ela teve que ligar para a recepção, explicar e se desculpar pela situação e a demora no checkout. Felizmente eles entenderam e deram até às 14 horas para que ela saísse do quarto com seus pertences (bolsa com celular, seu carregador, carteira, as malditas chaves de casa e do carro, algumas maquiagens e o passaporte que sempre estava ali) e realizasse o checkout sem pagar uma diária a mais, que ela não teria como bancar.
Emma tinha mais duas horas para sair do quarto, levou uma e meia apenas para terminar de secar suas vestimentas com aquele minúsculo secador de cabelo que acabou “salvando sua vida”. A outra meia hora ela usou pra dar um trato no cabelo lavado com shampoo de hotel e passar uma maquiagem pra esconder as olheiras que demonstravam todo o estresse que ela tinha passado nos últimos dias. O celular passou todo o tempo carregando e já tinha 100% de bateria, que era praticamente inútil já que eu não conseguia responder meu WhatsApp e chamadas internacionais custariam muito caro.
Ela poderia ter mandado uma mensagem para a Regina, mas estragaria toda a surpresa. Mais pontual do que nunca, ela chegou na recepção, realizou o checkout e saiu sem rumo já que se esqueceu completamente de pedir o endereço para Henry. Sua sorte foi reconhecer a mulher que atravessava a rua naquele momento. Na luz do Sol era mais fácil de apreciar a beleza da cidade, e foi olhando para os lados e admirando as construções a sua volta que ela reparou e reconheceu a ex vizinha. Morena, pele clara, olhos escuros… não, não era a Regina, mas se assemelhava muito a ela, tinha os mesmos traços, exceto por algumas rugas que demonstravam que essa mulher era um pouco mais velha.
— CORA! — mamãe berrou correndo atrás dela
Cora se virou e olhou surpresa para Emma. Com um sotaque misturado entre o português de seu país e do lugar no qual morou por anos, ela falou:
— Emma! Mas que surpresa, o que faz por aqui, querida?
— Estou procurando pela Gina, você sabe onde ela está?
— Ela voltou para Lisboa
— O que? Só pode estar de brincadeira comigo!
— Não se preocupe, ela deve voltar amanhã. Estará aqui para o casamento, acredita que a noiva esqueceu o vestido? Só essa minha filha mesmo — falou rindo sozinha. Emma forçou um sorriso e entrou em transe. “Que casamento?”, “Quem vai se casar?”, “A Regina?”, “Ah meu Deus, não não não não não”.
— Ah é, só ela mesmo — comentou sem pensar. Cora franziu a testa em sinal de dúvida, como se estivesse se perguntando alguma coisa.
— Você veio para o casamento, querida? Regina comentou que reencontrou você e que tinham se reaproximado, mas não sabia que viria para a festa. Não sabia que conhecia Zelena — Cora claramente não estava atualizada sobre a situação das duas, ela não sabia do sentimento que nutriam uma pela outra.
— Eeh… sim, eu vim para o casamento — “Quem é Zelena?” Minha mãe sabia sobre a irmã de Regina, mas não lembrava seu nome, muito menos na hora do desespero, Regina iria se casar. “Era Zelena a outra noiva?”
— Ótimo, está hospedada naquele hotel? — apontou na direção do lugar de onde Emma tinha saído
— Não, na verdade eu acabei de realizar o checkout
— Mas onde estão suas bagagens? Onde vai ficar agora? Aah que bobeira minha, Regina deve ter te convidado para ficar conosco. Vamos! Busque suas malas que eu pego o carro
— Foram extraviadas — falou sem parar para pensar no que dizia
— O que?
— Minhas malas foram extraviadas — reforçou
— Aah mas que azar! E o seu vestido? Meu Deus! Compraremos um novo agora — puxou minha mãe pela mão e a levou para uma loja
Depois de dar uma olhada geral nas peças da loja, Cora escolheu um vestido lilás e disse:
— Esse é lindo! Não achas? Experimente! — minha mãe só seguiu para o provador, colocou a peça e saiu pedindo ajuda para fechar. Cora desviou o olhar do vestido que segurava em suas mãos e olhou para o que minha mãe estava vestindo — Lindo! — afirmou contente — Eu sabia que ficaria bom em ti. Gostastes?
— Eh… claro, está ótimo — ela não se importava, nem sabia o que estava fazendo, só seguia Cora
— Levaremos este — disse para a vendedora, pagou, Emma colocou a roupa anterior e a mais velha seguiu puxando minha mãe pela mão mais uma vez
Foram até o carro e seguiram para a casa em que ficariam naqueles dias. Ao chegar, Cora foi mostrando o lugar para Emma e falando sem parar
— Casa linda, não? É dos pais adotivos de Zelena. Eles não moram aqui, só passam férias de vez em quando. Imagina, um lugar enorme desses pra três pessoas passarem férias. Bom, quatro agora. Grande parte dos convidados da família estão aqui, já que viemos de Lisboa para passar a semana dos preparativos — andavam pelo lugar enorme que mais parecia um castelo do que uma casa — A festa será lá embaixo — apontou para a área dos jardins, que estava sendo arrumada para a comemoração, pela janela — E aqui é onde você vai dormir, acomode-se! — mostrou o quarto enorme, digno de princesa — O jantar é servido às sete em ponto.
— Tudo bem, obrigada — respondeu ainda no transe, tentando absorver tudo o que acontecia. Se ela ao menos tivesse prestado atenção nas dicas que recebia com as falas e expressões de Cora.
As sete ela desceu para o jantar, mas não encontrou nenhum rosto conhecido, nem mesmo Cora. Escutava-se algumas conversas entre os demais convidados presentes na mesa. Falavam sobre como Zelena estaria linda no casamento e como Greg era um ótimo partido. Emma escutava tudo e não processava nada. Ficava apenas perdida em seus pensamentos e no seu mundinho da Lua. Terminou sua refeição e subiu para o quarto. Nunca foi uma pessoa muito extrovertida ou simpática, muito menos agora. Podem estar se perguntando como eu sei sobre as conversas ao fundo que ela não dava atenção e coisas do tipo. Como eu sei se Emma não pode me contar? Eu não posso contar uma história que não presenciei tendo apenas um ponto de vista. Digamos que eu tenho meus contatos.
Emma chegou no quarto, caiu na cama e pegou no sono fácil ao vestir uma das camisolas (camisola do português brasileiro mesmo, isso é óbvio mas não custa ressaltar) de seda que Cora a entregou ao mostrar o quarto. No dia seguinte acordou com batidas na porta, atendeu depois de alguns bocejos e espreguiçadas enquanto vestia um roupão. Cora adentrou o quarto sem pedir permissão e foi abrindo as cortinas, deixando a luz do dia entrar.
— Que carinha de sono, vamos acordar de vez. Troque-se, hoje é dia de spa. Essa cara de cansaço pede pra relaxar um pouco, aproveite que os pais da noiva estão pagando para todos — colocou a mão direita no lado esquerdo da boca e sussurrou — eles têm muito dinheiro. Eu fiz o certo ao entregá-la para a adoção, ela teve uma vida e tanto — afirmou confiante apenas para si, Emma não foi capaz de escutar — Regina e Zelena já estão lá curtindo o dia de princesas. Só faltamos nós, a van com todas as outras convidadas está nos esperando lá embaixo, agilize.
Cora tratava Emma como filha, convivência. Minha mãe passava muito tempo na casa de Regina e vice-versa quando mais jovem e meus avós também tratavam Regina assim. Eram uma grande família, vizinhos amigos que viviam se encontrando porque tinham uma amizade e tanto, não apenas suas filhas. Se afastaram um pouco quando Regina foi estudar em Portugal e Cora mudou para um apartamento menor, mais ainda quando voltou para Portugal também. Mesmo depois de tantos anos sem se ver, nada mudou. Até porque Cora não sabia de tudo o que aconteceu enquanto Regina estava de volta no Brasil.
Emma se arrumou rápido (com mais roupas que Cora lhe entregou), pegou alguns biscoitos que tinha no quarto mesmo e saiu rumo à van. Logo chegaram no spa. Minha mãe esperava encontrar Regina e finalmente conseguir falar tudo o que precisava. Mas mesmo depois de tudo, ela teria que esperar mais. Eram muitas convidadas em um único spa, tiveram que dividir em várias seções, vários grupos, cada um fazia uma coisa diferente e claro que Regina estava em um grupo diferente de Emma, então acabaram não se encontrando durante o dia inteiro.
No final do dia, cansada de tanto relaxar (eu juro que tentei entender isso, mas realmente não consegui) Emma chegou no quarto, caiu na cama e dormiu assim mesmo. Só acordou no sábado do mesmo jeito que no dia anterior. Cora bateu na porta, a loira bocejou, se espreguiçou, levantou e abriu a porta. A mais velha novamente, dessa vez toda arrumada, entrou sem pedir permissão, abriu as cortinas e começou a falar:
— Menina, você não recebeu o planejamento dos eventos juntou com o convite? Dorme demais e está sempre atrasada. Não planeja ir na cerimônia?
— Planejo sim, eu não posso faltar nessa cerimônia mesmo
— Então agilize, seu vestido está no closet. Tome um iogurte, tem alguns ali no frigobar. Os profissionais de beleza já terminaram com as outras convidadas e te esperam lá embaixo. Vou mandar um chofer te esperar também para que se atrase o mínimo possível. Eu tenho que ir agora, a mãe da noiva não pode se atrasar. Te espero lá — jogou um beijo no ar e se retirou.
Minha mãe queria gritar, mas sabia que não ajudaria, então agilizou para se arrumar. Tomou o iogurte, um banho também, escovou os dentes e desceu indo ao encontro dos maquiadores e cabeleireiros. Eles trabalharam o mais rápido que puderam e quando Emma, já pronta, ia se retirar indo até o carro que a esperava o maquiador perguntou:
— Meu amor, estás a ir com estes sapatos? — apontou para os pés da loira. Minha mãe olhou na direção que ele apontava e viu as pantufas que usava. Colocou a mão na testa “como podemos esquecer dos sapatos?”
— Tome os meus, veja se te servem — disse a cabeleireira. Emma os colocou e apesar de estarem um pouco soltos, dava para usar. Muito melhor do que nada
— Serviram, posso mesmo usar?
— Claro, Zelena pode me entregar depois
— Tudo bem, eu deixo com ela — “seja lá quem ela for” — muito obrigada — e saiu correndo mais uma vez. Uma cena de Cinderella se passou em minha cabeça quando ela falou que o salto caiu de seus pés ao descer as escadas, mas sem seu príncipe encantado ela teve que voltar e buscar para então seguir até sua carruagem — pisa fundo — disse para o motorista ao entrar no veículo.
— Como?
— Desculpa, eu sempre quis dizer isso. Me sinto em um filme, como eu sempre quis. Por favor, vá o mais rápido que conseguir — então o homem “pisou fundo” em direção a Igreja do Bonfim. Já atrasada, ela chegou e saiu correndo novamente. Sem saber em que parte da cerimônia estavam ou quem estava realmente se casando, ela abriu as portas da igreja com toda a força que tinha e disse — Desculpem-me, estou atrasada — todos se viraram em sua direção principalmente pelo som estrondoso que a batida das portas fez. Lá de cima do altar, Regina não podia estar mais chocada, a expressão de seu rosto demonstrava isso claramente. Expressava dúvida, alegria e raiva, tudo em uma única “cara”.
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