Minha Doce Menina.
114 Próximo.
Poucos segundos podem parecer eternos principalmente se você está olhando nos olhos de alguém que imaginou nunca mais poder ver. Naquele momento Raiden não conseguia pensar em qualquer outra coisa além de poder admirar os lindos olhos cor de mel de Akiyo. Ele poderia fazer inúmeras juras de amor. Ele poderia beijá-la infinitamente, mas preferia apenas olhá-la.
Lágrimas quentes rolaram pelos olhos de Akiyo enquanto ela olhava para Raiden. Ela chorava por constatar que o youkai que ela amou ainda vivia dentro daquele ser frio e consumido pelo ódio que quase a violentou e matou.
Raiden estendeu sua mão e acariciou o rosto da jovem fazendo com que ela derramasse mais lágrimas. Ele secou todas elas e ainda havia um sorriso em seu rosto. Jurou a si mesmo que nunca mais se permitiria fazer mal a ela. Mesmo que Akiyo nunca o perdoasse ao saber o que ele planejava fazer a seu respeito, ele a protegeria. Vê-la retornar para si era o suficiente para ele naquele momento.
– Não chore. – Ele ainda secava suas lágrimas. – Nada de ruim vai te acontecer, eu prometo.
As lágrimas ainda rolavam enquanto ela estendeu a mão trêmula e pôs sobre a dele, que acariciava seu rosto, e fechou seus olhos. Sua mão era quente, seu toque era cuidadoso. Ela sentiu como se estivesse voltado no tempo, antes de cometer seus pecados.
Sua marca permitiu que ela ouvisse as palavras de Raiden e sentisse cada um de seus toques mesmo não podendo reagir. Ela sentia também o sentimento em suas palavras e o peso de sua decisão. Ela sentiu seus lábios tocarem os dela em um beijo singelo, mas repleto de sentimentos. Ela sentiu tudo.
Fracamente apertou a mão de Raiden e a retirou de seu rosto. Colocou-a sobre a cama e afastou a sua mão da dele. O youkai olhava sem entendê-la e só depois que seu olhar havia se cruzado tudo se fez claro.
Ela sentia tudo. Inclusive o ódio e o instinto assassino que o tomara antes que sua marca a tivesse tomado inconsciente. Se aquilo não houvesse acontecido, o que ele faria? Ele a violentaria? Ele a espancaria até a morte? Ele nunca mais a permitiria ver sua filha?
O arrependimento de Raiden estava claro para Akiyo, mas seus verdadeiros sentimentos, não. As lágrimas caíam de seus olhos, contudo o olhar que ela lhe direcionara era completamente decidido. Tudo o que aconteceu foi por causa da cegueira de seu ciúme e desconfiança, somado ao ódio que nutria por suas ações do passado.
Dali para frente seria diferente: ou Raiden a perdoava e esquecia ou ela trataria de esquecê-lo.
*
Os dias que se seguiram ao dia de seu retorno foram maravilhosos. Rin teve muito tempo para matar a saudade de Sesshoumaru e de seu filho. As coisas estavam começando a voltar ao normal e dali para frente teria a vida que sempre sonhou. Sem dúvidas, sem questionamentos. Só com Sesshoumaru e ela.
Acordou de manhã e foi até a janela de seu quarto. Viu que o dia que nasceu estava lindo e viu Kaname. Olhou outra vez para a direção em que observava antes. Obteve a certeza de que aquele era Kaname. O que ele poderia ainda estar fazendo ali? Acaso havia esquecido que ela já havia se decidido?
Fez seu desjejum, obteve sua higiene e foi ao seu encontro. Caminhou pelo jardim na esperança de que ele estivesse lá e não demorou muito até encontrá-lo. Quando se encararam, ficaram por longos momentos assim, até que ela reassumiu sua posição decidida.
– Bom dia. – Disse seriamente. Ele não se indignou a responder. Ela continuou. – Não será mais necessário seu treinamento. Eu não preciso. Sesshoumaru sempre me defendeu e sei que estou segura com ele. – Kaname sorriu de lado. Aquele era um sorriso cruel.
– Não será necessário me expulsar, garotinha. – Ele usou a ultima palavra para que ela sentisse que não passava de uma simples humana e que não poderia atingi-lo. – Eu mesmo vim até aqui para dizer a Sesshoumaru que cansei de brincar de luta com sua adorada esposa. Recuso-me a continuar treinando você.
– Ótimo. Poupou-me de um difícil trabalho e de árduas explicações.
– Oh, eu sei! – Ele debochou dela. – Certamente você não saberia lhe dizer como foi difícil resistir a mim quando...
– Nem se atreva a continuar! – Rin o ameaçou. – Eu nunca lhe prometi amor. Eu nunca lhe prometi carinho. Quando nos envolvemos eu já era casada e jamais trairia Sesshoumaru.
– É claro que não. Isto não é típico da meiga e doce Rin. – Neste instante, a senhora das Terras do Oeste se irritou.
– O que você queria Kaname? Queria que eu abandonasse a minha família? Queria que eu abandonasse o grande amor da minha vida? Queria que eu abandonasse o único a qual amei e me entreguei? Ele é o youkai que me amou, que me marcou e me permitiu ser mãe e viver em uma família feliz. Muito antes disso ele cuidou de mim, quando eu era apenas uma garotinha. O que eu sinto por Sesshoumaru está muito além de qualquer atração que eu tenha sentido por você e é isso que você não entende. O que sinto por ele não é uma mera paixão, é amor.
Kaname recusou-se a continuar ali. Deu início a sua caminhada, mas não antes de ouvir Rin dizer:
– E você não sabe o que é amar, já que matou a única fêmea que lhe despertou esse sentimento.
O youkai foi consumido por um ódio enorme e em uma velocidade impressionante aproximou-se dela.
– O que você sabe sobre mim? O que você sabe sobre meu passado? Nada. Você é apenas uma mulher que acredita ser superior as outras por se deitar todos os dias ao lado de um youkai.
– Está vendo? – Rin retomou sua postura calma e doce. – Você não consegue perceber o que é amar alguém incondicionalmente. Você sempre olha para tudo como se fosse uma escalada para o poder. Nos seus pensamentos sempre há maldade. – Ela tocou seu rosto. – Perdoe-me se por algum momento eu mexi com sua cabeça ou com seus sentimentos que eu sei que existem, mas em nenhum momento eu disse que me entregaria a você.
Os olhos de Rin brilharam nesse momento e os dele irradiavam ódio. Ela encerrou o toque e se afastou dele.
– Eu lhe desejo toda a sorte do mundo. Espero que um dia você encontre com alguém que o faça sentir tudo o que eu sinto por Sesshoumaru. Seja feliz, Kaname.
A nobre senhora passou por ele encerrando todos os assuntos que deveriam ser tratados. Ele não sentia qualquer hesitação nela. Quando descobriu que estava grávida, Rin percebeu a tolice que estava cometendo
Rin continuava caminhando enquanto Kaname a observava e de repente sentiu-se ser empurrada e tudo ao seu redor ficou completamente escuro. Ela teve a sensação de estar caindo. Gritou e gritou, mas ninguém vinha salvá-la. Até que sentiu algo quente escorrer por suas pernas e depois uma dor terrível tomá-la. A dor transferiu-se a seu peito quando percebeu o que estava acontecendo. Rin estava perdendo seu bebê.
Continuou gritando para que todos pudessem salvá-la, mas ninguém vinha até ela. Continuava caindo em altíssima velocidade e não havia qualquer lugar para se segurar. Sesshoumaru tinha que vir salvá-la. Alguém tinha que vir salvá-la. Sentiu outra dor muito forte e viu o chão aproximar-se de si. Gritou em alta voz.
– Rin! – Chamou Sesshoumaru e ela despertou exasperada do sono.
Sua roupa estava ensopada, seu corpo estava quente e ela estava completamente fora de si.
– Não! Não! Não! – Ela gritava e chorava ao mesmo tempo.
– O que aconteceu, Rin. – Questionou o youkai sentado ao lado dela na cama. O dia acabara de nascer.
Ela se jogou aos braços do youkai e manteve-se ali por longos momentos. Tocou sua barriga e ainda podia sentir seu filho lá. Estava completamente desesperada e não parava de chorar.
Seu choro não era somente pelo pesadelo. Chorava pelo que havia acabado de perceber. Todo aquele sonho foi outro terrível aviso. Desde sua conversa com Kaname até sua queda. Quem quer que estivesse por trás daquilo, sabia das intenções da humana de procurá-lo para terminar de maneira amigável aquela situação.
Alguém estava brincando com sua mente e esse alguém estava muito próximo.
*
O entardecer já havia caído e Nobuko não havia voltado para casa. Ela saiu pouco antes do horário do almoço e disse que não precisava de companhia, que não iria muito longe. Kenichi estava muito preocupado e não passou despercebido ao seu pai. Por também estar preocupado com ela o youkai decidiu ir procurá-la.
Desde o dia em que conversaram no quarto, Nobuko sentia-se bem melhor mesmo que ainda sofresse por estar separada dele. Não sabia por qual motivo ela havia decidido sair, mas ainda assim a humana continuava calada e distante.
Procurou-a com seus poderes e logo a encontrou. Caminhou em direção a ela e não demorou muito até que a encontrasse. Nobuko estava sentada em um banco que ficava abaixo de uma árvore e olhava para o horizonte, onde o sol estava se pondo. Ele parou a alguns metros de distancia e continuou a observá-la.
Um leve vento soprou naquele local e fez com que Nobuko se arrepiasse. Ela olhou para seus braços e pensou em como gostaria de estar nos braços de Yosuke. Ainda se lembrava de seus beijos e seus abraços. Não havia como não se aquecer neles.
–Sente-se bem disposta hoje? – Yosuke questionou retirando-a de seus pensamentos e fazendo com que ela se sobressaltasse.
– Sim, eu só... – A humana parou de falar quando olhou para ele e viu seu rosto bem próximo ao dela. Ele havia parado atrás de si e falava ao seu ouvido.
Os dois continuaram daquela forma por mais algum tempo, até que os olhos de Yosuke descessem ainda aos lábios de Nobuko. Ele voltou a olhá-la e percebeu que um beijo era tudo o que ela queria naquele momento. Mesmo assim ele se afastou e olhou o pôr do sol que ela admirava. Era uma bela paisagem com certeza.
– Vamos voltar. Kenichi está preocupado com você.
Ela se levantou e começaria a caminhar se não tivesse sentido uma forte tontura. Por ter ficado muito tempo sentada o movimento rápido fez com que sua cabeça girasse. Colocou a mão sobre a mesma e percebeu que perdeu um pouco de seu equilíbrio.
– Ai... – Pronunciou e antes mesmo que pudesse pensar, Yosuke estava próximo a ela.
– O que está sentindo? – Indagou preocupado.
– Somente uma tontura, vai passar.
A humana continuou de olhos fechados até que estivesse perfeitamente bem para voltar a caminhar. Quando se sentiu melhor, abriu os olhos e viu o quanto Yosuke estava próximo a ela. Sentiu seu rosto esquentar, mas também se sentiu ser levada por aquele olhar. Sorriu de lado ao constatar o quanto ele ficava preocupado com ela.
– Por quê? – Era a única coisa que conseguia dizer. Yosuke sabia muito bem do que ela falava, mas preferia não responder. Afastou-se dela e lhe deu as costas, voltando a caminhar. – Por que você ainda me mantém aqui? Por que você ainda se preocupa comigo quando não pretende mais me amar?
Ele parou de caminhar e ficou parado por longos momentos. O vento agitou os longos cabelos negros azulados de Yosuke e ele manteve-se em silêncio até que decidiu responder.
– Existem coisas que nem mesmo eu consigo mudar. Você é uma delas. O sentimento que despertou em mim também. – As batidas do coração de Nobuko dispararam ao ouvir aquilo.
– O que quer dizer com isso? – Questionou nervosa.
– O que você entendeu. – Ela ficou ainda mais nervosa.
– Se é isso mesmo que entendi, então por qual razão ainda estamos separados?
Yosuke virou-se para ela e caminhou em sua direção. Quando estavam bem próximos, ele tocou seu rosto e o acariciou.
– Você não é capaz de ver meus sentimentos. Tudo o que você enxerga é o seu próprio sofrimento e o seu ódio pelos outros. Você nunca vê o amor. – Ele foi direto.
– Eu vejo o amor que sinto por você e o vejo negá-lo a todo tempo. Não importa quantas súplicas eu faça, não importa o quanto eu esteja desesperada, você nunca aceita o meu amor. – As palavras de Nobuko eram repletas de dor, ela olhava para baixo nesse momento.
– E não aceitarei mais até que você entenda que tudo o que houve no passado está morto e enterrado para mim. Não aceitarei até que você perceba que embora tenha perdoado, nunca esqueceu os fatos. Enquanto você não aprender a perdoar e esquecer eu não me envolverei com você.
– Como posso perdoar e esquecer?! – Ela levantou o olhar. Sua voz se alterou um pouco. – Como posso ter a certeza de que você está comigo a noite e quando sai...
– O meu amor por você não permitiria que eu a magoasse dessa maneira outra vez. – Yosuke a interrompeu e ela ficou sem palavras. – Assumi meus erros e tentei concertá-los. Amei a você durante todos esses anos em que estivemos separados. Provei a você que não existe outra fêmea em minha vida, mas você preferiu acreditar que existe.
Yosuke encostou sua testa a dela e fechou os olhos. Tocou o ventre da jovem e sentiu seu filho. Depois segurou com força sua cintura. Abriu os olhos e olhou para Nobuko. Cedendo ao desejo de seu coração, ele beijou seus lábios de maneira doce e apaixonada que foi suficiente para retirar o fôlego da jovem. Ele segurava seu rosto e ela envolveu sua cintura. Os dois se beijaram por longos minutos, até que ele encerrou o carinho.
– Se precisar de um abrigo, se precisar de alguém que a proteja, defenda e aqueça, se precisar de um abraço ou um beijo, se precisar de alguém para conversar eu estarei aqui para você. Serei seu abrigo na tempestade, sua vontade e força de prosseguir e viver, serei o grande amor que você nunca irá esquecer, mas para isso você precisa parar de olhar para trás. Precisa aprender a olhar para frente. Precisa perdoar e esquecer.
O youkai retirou suas mãos da humana e deu início a caminhada em direção a sua casa. Nobuko continuou parada, completamente tocada pelas palavras que ele usara. Naquele mesmo instante seu coração foi preenchido por um sentimento quente e reconfortante. Yosuke estava disposto a esquecer tudo o que se passou se ela esquecesse também. Seus olhos arderam pela emoção e ela começou a caminhar em sua direção.
Não havia mais dúvidas. Definitivamente Yosuke a amava.
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