Minha Doce Menina.
115 Escolha.
Folhas secas caíam sobre o chão e pétalas de rosas voavam contra ela. De repente observou que o chão estava vermelho, imaginou que era por causa das flores, mas depois percebeu que era seu sangue. Um dor insuportável tomou conta do seu corpo e em seguida estava caindo em um profundo abismo e ninguém veio salvá-la.
E mais uma vez Rin acordava aos prantos, completamente apavorada pelo sonho. No mesmo dia, Sesshoumaru começou a agir.
– Com que frequência isso tem acontecido, Rin-sama? – Questionou Yosuke que estava sentado a cadeira frente à mesa de Sesshoumaru.
– Desde quando voltava de viagem com Kaname. Na mata eu fiquei presa em uma espécie de ilusão e desde então tenho esses malditos sonhos que me perturbam a noite. – Revelou Rin sentindo-se tremer pelas lembranças terríveis.
– Não importa qual seja a situação, todas as vezes que a senhora se deita para dormir, acorda neste terrível pesadelo.
– Sim, Yosuke. – Confirmou aflita.
– Entendo... – O youkai pareceu analisar toda a situação e ficou em silêncio por longos momentos.
– Isto é trabalho de youkais.
– Certamente, Sesshoumaru-sama. – Yosuke confirmou e Rin olhou para seu marido.
– Por que alguém estaria atrás de mim? – Rin quis saber. – Não me diga que é Kagura ou mesmo...
– Isto não tem a ver com você. É apenas uma maneira de me atingir. – Acrescentou Sesshoumaru.
Batidas na porta puderam ser ouvidas e depois do comando de Rin ressoar pelo local uma youkai entrou reverenciando a todos.
– Rin-sama, gostaríamos de saber se já podemos banhar e alimentar ao príncipe Hideaki. Dentro de alguns momentos seu treinamento estará encerrado.
– Eu mesma farei isso. Pode se retirar. – Ela orientou e a empregada saiu do local. Rin olhou para Sesshoumaru e depois para Yosuke. – Preciso ir agora. Até breve, Yosuke.
– Até breve, Rin-sama. – O youkai a reverenciou.
Depois que saiu da sala de negócios, Yosuke e Sesshoumaru se encararam e finalmente poderiam falar abertamente sobre a situação.
– Existe algum domínio mental sobre ela, algum indício de que está sobre os poderes do inimigo. – Questionou Sesshoumaru com seu habitual tom frio e cortante.
– Não, senhor. Rin-sama está completamente livre de qualquer comando. – Afirmou Yosuke.
– Mai. – Foi tudo o que ele conseguiu dizer em meio ao ódio que sentia.
– Quem quer que esta youkai tenha contratado, não é alguém inexperiente. Esse youkai tem poderes formidáveis e está rondando todo o território sem que qualquer um de nós consiga perceber.
– Ele está agindo à distância. – Falou Sesshoumaru.
– Sim e é isso que me intriga: se ele está tão distante, como é capaz de alcançá-la?
– Existe um elo entre Rin e o inimigo. – Constatou Sesshoumaru.
– E o que seria este elo? – Indagou Yosuke.
Sesshoumaru não disse qualquer outra coisa. Guardaria suas suspeitas para si e no momento certo agiria.
– Utilize seus poderes para ficar atento a qualquer alteração próxima ao castelo, principalmente no horário em que os humanos costumam dormir. Se encontrar o inimigo, mantenha-o vivo. Ele é minha presa. – Ordenou Sesshoumaru.
– Sim, senhor.
– Encerramos este assunto por hoje. Você está dispensado.
– Obrigado Sesshoumaru-sama, com sua licença. – Yosuke se levantou e o reverenciou, depois saiu do recinto.
O Inu youkai virou-se para a janela e perdeu seu olhar nas nuvens brancas sobre o céu azul. Seus olhos estavam em fendas e o ódio lhe subia a garganta. Mai pagaria por tudo o que estava fazendo Rin passar e pagaria muito caro, mas primeiro ele se livraria do opressor.
*
Yosuke chegou em casa e constatou que Nobuko estava no jardim. Não se aproximou dela, pois imaginou que a mesma poderia estar em um momento de reflexão. Iria subir e se banhar, mas foi impedido por Kori que parou em sua presença.
– Yosuke-sama, preciso lhe dizer algo.
– Diga. – O youkai ordenou em atenção.
– Nobuko-sama estava muito nervosa pouco antes do senhor chegar e chorava.
– O que aconteceu com ela? – Questionou preocupado.
– Ela queria comer terra e madeira senhor. Estávamos de olho em seu comportamente caso sentisse alguma coisa e não permitimos que ela comesse. No mesmo instante começou a chorar e ameaçou contar tudo ao senhor. – A expressão no rosto de Kori era seríssima, mas Yosuke não pôde deixar de sorrir.
No mesmo instante o youkai virou-se para a direção em que sua mulher estava e constatou que seu estado havia se alterado drásticamente desde o momento em que saíra de casa.
– Papai. – Chamou Kenichi se aproximando do youkai. – O senhor já sabe o que aconteceu mais cedo?
– Sim, meu filho.
– Por que a mamãe queria comer terra e madeira? – Questionou preocupado e olhou na direção em que ela estava.
– Porque durante a gravidez, fêmeas humanas sentem desejos estranhos. Isto é algo natural. Vamos até ela. Sua mãe está prestes a comer um pedaço da casca de uma árvore. – O youkai virou-se para sua empregada. – Não se preocupe Kori. Já resolverei esta questão.
– Sim, senhor. – E a empregada saiu da presença de Yosuke no mesmo instante.
O pai e seu filho caminharam em direção a sua humana no jardim e ela estava parada de frente para uma árvore. Estava prestes a arrancar uma casca de árvore quando a voz de Yosuke fez com que ela se assustasse e virasse para trás.
Ela estava com a madeira na mão e Kenichi olhou imediatamente para seu pai esperando que ele fizesse qualquer coisa, mas antes que pudesse pensar em falar os olhos de Nobuko se encheram de lágrimas e ela chorou silenciosamente.
– Por que está chorando, mamãe? – Perguntou o hanyo preocupado.
– Eu quero comer, mas vocês não deixam! – Ela soluçava em meio as lágrimas.
Um leve sorriso surgiu dos lábios de Yosuke enquanto Nobuko chorava. Era bem verdade que durante a gravidez de Kenichi eles não estavam próximos para adquirirem essas experiências, mas ele não conseguia classificar aquilo como algo bizarro. Ela estava gerando seu filho, o fruto de seu amor, a prova de sua união.
Segurou a mão de sua esposa e a levou até um dos bancos próximos a ele. No mesmo instante se sentou e a colocou sentada em seu colo. Kenichi se aproximou de ambos e olhava atenciosamente sua mãe.
– Olhe para mim, Nobuko. – Yosuke ordenou e com relutância ela obedeceu. – Quando as fêmeas humanas estão grávidas, elas podem sentir vontades que nunca antes sentiram, mas é preciso não ultrapassar o limite do adequado.
– Mas eu quero muito, Yosuke! – Ela reclamou ainda com lágrimas caindo de seus olhos.
– Eu sei que sim, mas você não deve fazer isso. Gostaria que Kenichi comesse terra ou mesmo pedaços de madeira? – Ela balançou a cabeça negativamente. – Então entregue a madeira ao nosso filho e dê sua palavra de que isso não voltará a acontecer.
Nobuko olhou para Kenichi e com relutância entregou a madeira a ele. As palavras queriam sair de seus lábios, mas ela não conseguia. O desejo era muito grande.
– Mamãe, isso não fará bem a senhora e nem ao meu irmão irmãozinho. – O pequeno hanyo alisou a barriga da humana e Yosuke fez o mesmo.
Naquele momento Nobuko sentiu-se completamente especial e cheia de carinho. Mesmo que Yosuke não pronunciasse as palavras “eu te amo”, não significava que ele não a amasse. Cada dia que se passava ele demonstrava um novo gesto de amor e carinho para com ela e Kenichi fazia o mesmo.
Sentindo as duas mãos dos dois seres que mais amava em sua vida sobre a barriga onde gerava o terceiro, não pôde deixar de sorrir em meio ao choro. Descançou a cabeça no ombro de Yosuke e sentiu-se ser consolada por ele e acarinhada por seu filho. Saciar um desejo é muito bom, mas sentir-se amada é muito melhor.
*
Natsumi estava no quarto com sua mãe enquanto a mesma terminava de se alimentar. Do lado de fora, Raiden ouvia toda a conversa das duas, que era basicamente sua filha falando o tempo todo enquanto sua mãe comia.
Durante os dias que se seguiram depois da recuperação e do posicionamento de Akiyo com relação ao que fazer, Raiden estava sentindo seu afastamento gradativo com relação a ele. Não só pelo fato de que Akiyo não conseguia relaxar em sua presença, mas pelo fato dela simplesmente parecer não mais se alterar.
Mesmo que tentasse negar, sentia falta de quando seu coração disparava quando se aproximava e da forma como suas bochechas ficavam vermelhas quando dizia alguma coisa que a envergonhava. Isso tudo havia ficado no passado e ele sentia falta.
Esperou que uma de suas empregadas viesse até o quarto para recolher a bamdeja e depois de alguns instantes entrou no dormitório. Akiyo apenas o acompanhou com o olhar, mas Natsumi estava aflita com medo do que viria a seguir.
– Está na hora de se preparar para domir. – Ele alertou a filha. – Seiko já a espera no quarto.
– Está bem, papai. – A hanyo aproximou-se de sua mãe e lhe deu um abraço. – Boa noite mamãe. Se precisar de alguma coisa, pode me chamar.
– Sim, meu amor. – Akiyo beijou sua testa e lhe abraçou fortemente. – Boa noite.
A pequenina saiu do quarto e caminhou em direção ao seu deixando os pais sozinhos. Akiyo sabia o que viria a seguir, mas não evitar o nervosismo. Não demorou muito até que Raiden fechasse a porta e agora estivessem os dois frente a frente.
O youkai se aproximou da humana e sentou-se na cama. No mesmo instante ela se ajeitou preparada para ouvir tudo o que ele tinha a dizer. Seu coração estava disparado naquele momento.
– Depois do tempo em que me retirei para pensar e analisar a situação que me propôs, cheguei a uma conclusão: acredito que não seja uma característica youkai perdoar e esquecer. – Todas as esperanças de Akiyo se partiram com essa fala. – Não existe nada que me faça esquecer tudo o que houve no nosso passado e não existe nada que me faça duvidar do que pode acontecer no nosso futuro. Percebo que o caminho que nos trouxe até onde estamos está repleto de dúvidas e desconfianças. Você poderia lidar com isso? Você viveria ao meu lado sabendo que eu sempre desconfiarei de você? Seu amor por mim seria capaz de tal renúncia? Será que ainda existe amor entre nós? Depois de tantas idas e vindas será que realmente devemos ficar juntos? Você poderia esquecer todo o mal que causamos um ao outro e recomeçaria nossa relação?
A pergunta de Raiden foi respondida pelo silêncio de Akiyo. A humana sequer olhava em seus olhos. Os pensamentos que ele teve não eram novos para ela, por isso não insistiu em reatar seu relacionamento quando finalmente voltaram a morar juntos. Depois de tantos anos separados, depois de tantas brigas e situações mal resolvidas, será que deveriam voltar a ficar juntos?
Esta era uma pergunta que os dois amantes não sabiam responder.
*
A noite já havia caído sobre as Terras do Oeste e Rin estava olhando o céu pela janela quando Sesshoumaru entrou no quarto. De longe ele podia dizer que ela não estava em um estado normal. Primeiro, porque estava acordada até aquela hora e segundo pela forma como suas sobrancelhas estavam unidas em preocupação. Assim que o youkai entrou no quarto, a humana virou-se para trás.
– Sesshoumaru, conte-me o que está acontecendo. – Rin estava muito nervosa.
– Existe uma ordem de youkais que não se agrada da nossa união. Durante minha ultima viagem com Hideaki, estive na presença dos mesmos e uma youkai que não foi rejeitada pelo meu pai afrontou-me dizendo que mataria a você e a cria que você carrega. Os sonhos que você tem são realizados por poderes youkais o que significa que nosso inimigo está bem próximo. – As mãos de Rin começaram a tremer.
– Então tudo isso… Tudo o que está acontecendo é porque nós dois nos unimos? – Era difícil para Rin aceitar, mas era a verdade.
– Sim. – No instante da confirmação, Rin jogou-se sobre a cama desolada.
– Por que, Sesshoumaru? – Seu olhar era perdido. – Nós nunca teremos um momento de paz? Nós nunca poderemos ser felizes sem a intenvenção de qualquer inimigo?
– Não.
A humana colocou a mão sobre seu ventre que já era notável devido aos quatro meses de gestação. Olhou para o marido no mesmo instante.
– Eu só quero ser feliz com você e com a nossa família. O que há de errado nisso?
Sesshoumaru segurou uma das mãos de Rin e a colocou em pé. Depois, deu-lhe um abraço aconchegante onde ela pôde sentir uma onda de calor invadir-lhe e circular pelo corpo.
– Nada irá acontecer a você ou aos nosso filhos. – Ele prometeu.
– Eu acredito em você, meu amor. Nunca duvidei que me protegeria. Você sempre me salvou, você sempre esteve por perto. Não há motivos para desacreditar disto, mas não posso deixar de me sentir assim.
– Entendo. – Ele apenas concordou.
– Só continue me abraçando, por favor. – Ela pediu e ele apertou um pouco mais o abraço.
Ser esposa de um youkai não era uma tarefa fácil. Ser esposa de um youkai como Sesshoumaru era uma tarefa quase impossível, mas havia algo que tornava tudo aquilo maravilhoso.Rin soltou-se do abraço e encarou os orbes dourados de Sesshoumaru. Ele continuou olhando para ela até que sentiu suas mãos tocarem seu rosto. Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios, embora seus olhos estivessem tristes.
– Tudo isso vale a pena por você. Qualquer sacrifício, qualquer dor vale a pena por você. Eu não trocaria um único dia da minha vida ao seu lado por nada. Eu te amo, Sesshoumaru e te amarei para sempre.
O Inu Dai Youkai olhava atentamente para Rin. Depois de mirar seus lindos olhos castanhos por longos momentos, ele a pegou nos braços e a deitou na cama onde a beijava incansavelmente. Naquela noite Sesshoumaru e Rin fizeram amor por longos momentos até que seus corpos se cansaram e descansaram.
A humana não sabia, mas ela não era a única a viver uma vida de renúncias. Envolver-se com humanos nunca era algo bom, mas envolver-se com ela foi a melhor escolha da sua vida.
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