Minha Doce Menina.
112 O terrível aviso.
A caminhada pareceu muito rápida. Talvez isso fosse devido ao fato de ela pedir aos céus para que a matassem muito antes de chegar ao local de destino. As lágrimas ainda rolavam por seu rosto e o fato de Yosuke sequer dirigir um olhar em sua direção apenas piorava a situação. Já estavam se aproximando da casa de Raiden, quando o mesmo apareceu ante a eles ainda no caminho.
Os dois youkais se encararam seriamente e por longos segundos, até que Raiden desviou seu olhar para mirar Nobuko. Tentou entender o motivo das lágrimas que molhavam seu rosto e sua roupa, mas não encontrou motivo aparente. Yosuke percebendo o que havia acontecido ali e tratou de sanar suas dúvidas.
– Nobuko. – Ele chamou com a voz fria e cortante. – Diga a Raiden o que você leu. – A humana continuou em silêncio e tudo o que os dois ouviram foram suas lágrimas. Yosuke estava perdendo a paciência. – Diga. – Ele lhe direcionou um olhar cruel.
– A carta que eu havia lido... – Ela começou a contragosto. – A carta de Akiyo realmente falava todas aquelas coisas que lhe disse. – Ela soluçou alto. – Todavia, foi enviada há anos atrás, quando Natsumi ainda era um bebê.
No mesmo instante os olhos de Raiden se arregalaram um pouco. Aquilo não poderia ser verdade, ele não queria acreditar. Nobuko continuou.
– Yosuke saia todas as tardes para ir até suas irmãs e ele sequer fazia esse caminho. Somente no momento em que os encontramos ele estava ali, porque sentiu o cheiro de Akiyo e sentiu algo se aproximar dela rapidamente. – Nobuko terminou de falar e continuou olhando para Raiden enquanto chorava. Ela percebeu que de espantada, sua expressão passou a furiosa.
O youkai deu um passo à frente e sua energia sinistra estava completamente transtornada. Um raio cortou o céu naquele momento.
– Como você ousa...
– Você não irá tocar nela Raiden. – Yosuke pronunciou-se parando frente à Nobuko. A humana já estava de olhos fechados esperando o que quer que viesse a seguir.
– Essa maldita mulher que você tomou veio até aqui e me enganou! Como pôde permitir que ela ainda vivesse? – Raiden transbordava fúria.
– Ela está gerando meu filho em seu ventre. É o único motivo de ainda estar comigo. – Outra vez Nobuko preferiu a morta a ouvir as palavras de Yosuke. – Entretanto, mesmo que ela tenha mais uma vez armado contra Akiyo, você deveria saber que a mesma não estava se encontrando comigo e muito menos se deitando comigo outra vez.
As palavras de Yosuke eram as que Raiden desejava nunca mais ouvir.
– Agora nós iremos até Akiyo. Nobuko irá lhe pedir desculpas, de joelhos. – Nobuko arregalou os olhos. Nunca pensou que seria submetida a tal humilhação.
Raiden fechou os olhos tentando se controlar e virou-se para trás olhando em direção a sua casa. No mesmo instante ele sentiu como se tudo estivesse perdido para sempre e que ele deveria morrer e não Akiyo.
Como se uma corda sufocasse sua garganta o youkai olhou na direção em que ela estava e fechou os olhos sentindo o peso do remorso. Ela não havia errado. Ele sim. Tudo que ela tentou fazer foi dar um lar e uma família para sua filha. Agora ela havia partido pela segunda vez e assim como na primeira, ele permitiu que isso acontecesse. Mas agora era diferente, da primeira ela ainda podia voltar.
– Onde está Akiyo? – Questionou Yosuke e Raiden se virou para ele com dor em seus olhos. Nobuko viu aquele olhar e suas lágrimas cessaram. Akiyo estaria morta?
– Você a matou Raiden? – Ela interrogou sentindo algo dentro de si mover. Raiden continuou em silêncio. – Responda-me. Você a matou Raiden? – E mediante o silêncio do youkai, tanto a humana quanto seu marido sentiram algo dentro de si.
*
Todos estavam ali para sua despedida e como sempre a menina odiava essa parte. Tanto ela quanto Kagome eram muito emotivas e sempre acabavam chorando. Inuyasha parecia irritar-se toda vez que a humana começava com suas crises e emocionais e por isso fechou os olhos e cruzou os braços.
Não demorou muito para que Kaname se aproximasse e olhasse a Rin com uma expressão diferente no rosto. A humana tinha muito que lhe dizer e seria bem sincera naquilo, seguiria seu coração.
– Venha nos ver outras vezes, Rin-chan! – Gritou Kagome enquanto a outra se afastava. – E traga Hideaki e Sesshoumaru.
– Keh! Como você é tola Kagome! Até parece que Sesshoumaru virá aqui! – Inuyasha se manifestou.
– Mas não custa tentar e com esse comportamento com certeza ele não virá. – Provocou a humana.
– Que comportamento? Sesshoumaru é um metido e eu é que estou errado? Você é mesmo uma tola Kagome! Por isso não me espanta o fato de algumas pessoas terem tentado matar você!
– Inuyasha... – O tom de voz de Kagome já dizia o que viria a seguir. – OSWARI!
De longe, Rin sorria ao ouvir o grito da amiga e as risadas de Miroku, Sango, Kohaku, Shippou e Kaede. Kaname continuava a caminhando a frente sem qualquer tipo de manifestação e parecia muito mais interessado em chegar as Terras do Oeste.
Quando estavam a certa distância e já estava muito tarde para caminhar, o youkai parou sinalizando que eles descansariam. Rin ficou um pouco incomodada, mas ao pensar em tudo o que havia acontecido nos últimos tempos à coragem encheu seu peito.
– Kaname nós precisamos conversar. – O youkai permaneceu da mesma maneira que estava e não diria sequer uma palavra. – Kaname... – Ela chamou e ele continuou de olhos fechados.
Rin se levantou e se aproximou dele. Chamou-o mais algumas vezes e percebeu que ele parecia não ouvi-la. Tocou o ombro do youkai e mesmo assim ele não se moveu. Olhou ao seu redor e percebeu que as árvores que antes balançavam, agora estavam paradas. Um sentimento horrível tomou o coração da jovem.
– O que está acontecendo? – Questionou a si mesma com medo e ao olhar para trás o sentimento apenas aumentou. Havia uma silhueta parada bem atrás de si e caminhava em sua direção.
A humana deu passos para trás completamente aterrorizada com o que aquilo poderia ser. Sem saber o que fazer, gritou por Kaname mais algumas vezes e mesmo assim ele não a respondeu.
– Ele não a ouvirá minha nobre senhora. – O tom de voz era debochado e Rin podia sentir que aquela sombra caminhava em sua direção para matá-la. – Muito em breve eu voltarei para pegar você. – E o ser tocou seu ombro fazendo com que ela despertasse daquele terrível pesadelo.
Rin deu um salto para trás e viu que os olhos de Kaname a fitavam. Ela estava de pé frente a ele e havia tirado a mão de seu ombro. Ao ver os olhos de Rin, o youkai se preocupou. A humana começou a tremer e no mesmo instante seus olhos encheram-se de lágrimas. Colocou a mão sobre a boca e Kaname viu seu desespero. Levantou-se rapidamente.
– O que aconteceu Rin. – A voz era firme.
– Alguém... Tem alguém vindo atrás de mim... – Ela dizia chorando.
– Como pode dizer isso? Acaso sente alguém se aproximar? – Ele questionou intrigado.
– Você estava paralisado Kaname, tudo estava. Eu toquei em você e o ser apareceu me ameaçando. Disse que você não me ouviria. – Rin ainda tremia e seus olhos olhavam desesperados para qualquer canto.
– Eu respondi todas as vezes que você me chamou. Você parecia não me ouvir. – O youkai tinha os olhos em fendas.
– Não! Você não me ouvia, estava complemente parado e... – Rin desabou a chorar. O que estava acontecendo?
Kaname afastou-se dela e fechou os olhos. Ali, no meio da mata, na noite escura, ele procurava por indícios de qualquer presença, mas não encontrava. Talvez aquilo tudo fosse apenas um engano de Rin. Ele só conhecia uma pessoa que usava aquele tipo de poder, mas este alguém já estava morto há muito tempo.
*
Controlando sua energia sinistra, Yosuke adentrou a casa de Raiden sendo seguido por ele e por Nobuko. Quando estava no corredor, Natsumi aproximou-se do mesmo com os olhos marejados. Yosuke teve de se controlar por ela. A menina apenas estendeu os braços em sua direção pedindo colo e ele a segurou.
Natsumi o abraçou apertado e nem fez questão de olhar para Nobuko ou mesmo para seu pai. Ela só queria o apoio de alguém que saberia cuidar de sua mãe.
– Por favor. – Pediu com a voz embargada. – Traga a minha mamãe de volta e quando ela acordar, leve a gente embora. – Agora ela olhou para os olhos de Yosuke. – A minha mamãe não é feliz aqui. Ela sempre chora e fica machucada. Nunca pode brincar comigo porque tem que ficar deitada e agora ela não quer acordar mais. – A voz da menina sumiu nesta ultima frase. – Por favor, faz a minha mamãe acordar. – Natsumi entregou-se ao choro. – Eu não quero que ela fique dormindo para sempre.
A hanyo entregou-se ao choro e abraçou o youkai. Este, por sua vez retribuiu o abraço e virou-se para trás encontrando os olhares de Nobuko e Raiden. Certamente eles não sabiam o que haviam feito e não tinham noção do que a morte de Akiyo poderia significar. Virou-se para frente outra vez e colocou Natsumi no chão.
– Eu tentarei Natsumi. Prometo a você que tentarei. – A menina concordou com um aceno e caminhou em direção ao seu quarto. Olhou para Nobuko antes de entrar no recinto. A humana sentiu-se um monstro.
Quando entrou no quarto rapidamente Yosuke aproximou-se da cama. Sentou-se na mesma e fechou os olhos.
– Ela não está morta. – Afirmou Raiden. – Ela está em algum lugar onde nem Natsumi e nem eu conseguimos encontrá-la. Talvez você consiga.
O youkai continuou em silêncio e segurou com força a mão de Akiyo. Ele procurava por qualquer indício de sua consciência, mas não conseguia encontrá-la. Onde Akiyo poderia estar?
Abriu os olhos e mirou o rosto da mulher que estava deitada na cama. Mais uma vez tentou encontrá-la e não conseguia. Notou que Nobuko estava bem atenta a tudo aquilo e parecia muito interessada no fato dela estar viva ou não. Completamente irritado ele se levantou e a puxou pelo braço até perto da cama. A humana esperava por tudo.
– Olhe bem para ela e diga o que vê. – A voz era apenas uma onda de ódio. Ela não disse sequer uma palavra. – Olhe para ela e diga o que vê. – Ele a sacudiu e a humana teve de falar.
– Eu vejo a mulher que você e Raiden tanto amam adormecida, mas tinha esperanças de que ela estivesse morta. – Ela disse por fim sem qualquer indício de arrependimento na voz.
– Pois eu vou lhe dizer o que vejo. – O youkai a puxou para perto de si e falou ao seu ouvido. – Eu vejo o resultado de toda sua estupidez e egoísmo. Eu vejo o resultado de anos de inveja e agora bem perto de você, vejo o resultado do resto de sua vida cheia de remorso e culpa. Realmente é inútil pedir desculpas. Você não merece isso dela. – O youkai a empurrou para longe de Akiyo e ela decidiu sair do quarto.
Depois, virou-se para Raiden e mais uma vez os dois se encararam. Yosuke não conseguia acreditar e muito menos se conformar como o quão longe o ciúme e o ódio levaram aos dois.
– Se Akiyo não sobreviver a isso, se de alguma maneira ela nunca mais voltar, eu não encostarei um dedo em você. Não entrarei em uma luta.
– E por que não? – Raiden questionou.
– Primeiro, porque certamente ela não gostaria disso e segundo você terá de conviver com o peso dessa responsabilidade. Foi a sua marca que a deixou dessa maneira. – Ele se aproximou do youkai e olhou bem em seus olhos: Onde foi parar todo o amor que sentia por ela?
Yosuke saiu do quarto deixando Raiden mergulhando em pensamentos. Aquela pergunta era a que ele mais queria poder responder.
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