Minha Doce Menina.
113 Indestrutível.
Já era fim de tarde enquanto caminhavam pela floresta e Rin ia logo atrás de Kaname. Ela estava terrivelmente apavorada e sentindo que algo poderia vir contra ela a qualquer momento. Kaname estava em completa atenção e procurava saber quem poderia ter colocado Rin em uma ilusão sem nem mesmo revelar sua presença.
De repente, um arbusto se moveu e Rin olhou para trás completamente apavorada. Temia que a ameaça fosse cumprida e quando seus olhos encararam o ser que a olhava, todo o sentimento de medo se dissipou. Aquele que estava ali era Sesshoumaru.
No mesmo instante a humana correu até ele e se jogou em seus braços. O youkai continuou imóvel. Rin o abraçou apertado e começou a chorar. Como não conseguia ficar parado em sua presença, Sesshoumaru rodeou um de seus braços ao redor da sua cintura e fechou os olhos. Rin estava a salvo.
– Sesshoumaru eu tive tanto medo! – A humana chorava enquanto estava nos braços do youkai.
– Não se preocupe Rin. Não deixarei que nada de ruim aconteça a você. – O youkai se limitou a dizer enquanto ela apertava o abraço e afundava o rosto em seu peito.
Kaname estava parado mais a frente e observava aos dois. De longe se podia ver que ela o amava incondicionalmente, poderia se dizer que o amava até mais do que a si mesma. Também era perceptível que Sesshoumaru nutria um forte sentimento por ela.
Quem diria? Um youkai que odiava humanos e uma menina que tinha motivos para odiar youkais agora estavam juntos, casados, com um filho e outro a caminho. Enquanto viajava com Rin, Kaname pôde perceber que mesmo quando ela percebeu alguma atração por ele, nunca cogitou a possibilidade de trair Sesshoumaru. Rin sempre pensava em seu marido. Sempre o envolvia nas conversar, sempre o colocava em algum assunto. Agora olhando os dois juntos ele percebeu que mesmo estando longe Sesshoumaru ainda pensava em Rin.
Foi exatamente naquele momento que ele percebeu que não tinha chances. O amor de Sesshoumaru e Rin era indestrutível. O laço que os unia era inquebrável. A união que mantinham era indissolúvel.
Kaname estava preparado para sair dali quando sentiu uma presença muito forte próxima a eles. Virou-se para trás e Sesshoumaru levantou seus olhos na mesma direção que ele olhava. Os dois youkais se miraram pela primeira vez e entendiam mesmo que não por palavras o que estava acontecendo: alguém perseguia a Rin.
– Vamos voltar para casa. Rin, você vai em Ah-Uh.
– Sim meu amor. – Foi tudo o que ela respondeu e pouco depois o dragão de duas cabeças estava próximo a eles. Rin subiu no mesmo e foi para sua casa.
Hideaki estava sentado à espera do retorno de sua mão na sala de estar observando Jaken andar de um lado para outro impaciente. O pequeno hanyo herdara muitas coisas do pai e a capacidade de manter-se intransponível era uma delas.
Suas orelhinhas se mexeram quando ouviu o barulho do vôo de Ah-Uh e em seguida sentiu o cheiro de sua mãe. Correu até ela no mesmo instante e só o que conseguiu ver foi o dragão fazer sua aterrissagem.
– Meu filhote... – Sussurrou Rin em um tom doce e um sorriso quando viu seu pequenino esperando por ela.
Assim que desceu do dragão, Hideaki correu em direção a sua mãe e a abraçou muito forte.
– Está tudo bem com a senhora, não é mamãe?
– Sim, meu príncipe. Como você está? Senti muito a sua falta. – Rin se abaixou e o abraçou outra vez. O menino correspondeu ao abraço.
Sesshoumaru se aproximou deles e observou a cena. Tinha que conversar com Rin, mas sabia que naquele primeiro momento suas atenções seriam todas voltadas para Hideaki. Os três entraram em casa e eram seguidos por Kaname. O youkai continuava a observá-los e sentia-se terrivelmente incomodado com tudo aquilo. Isto não passou despercebido a Sesshoumaru.
Enquanto Sesshoumaru e Kaname dirigiram-se até a sala de negócios, Rin ficou sentada juntamente com Hideaki na sala de estar. Ela estava ansiosa para passar longos momentos com seu filho. Sentiu muito a sua falta. O pequeno sentou-se ao seu lado e ambos e abraçaram. Ele tinha a cabeça no peito da mãe e ela tinha cabeça apoiada na dele.
– Então, meu amor, como foi à viagem com seu pai? – Questionou Rin.
– Foi muito boa, mamãe. Eu viajei por vários lugares e vi vários youkais diferentes. Jaken-sama me disse que muito além do que os meus olhos podem ver se estendia a soberania e o domínio do papai. – O hanyo ficou em silêncio. – O que isso quer dizer? – Rin sorriu.
– Quer dizer que o lugar onde seu pai governa é muito grande, meu amor. Nós sequer conhecemos a metade. – A humana o explicou.
– Ele disse que eu tenho que treinar muito para ser como o papai e... – Hideaki parou de falar. – Mamãe, que cheiro é esse na senhora? – Rin o soltou de seu abraço.
– Cheiro em mim? – Questionou confusa olhando para si mesma.
– É. Tem um cheiro diferente na senhora que eu senti desde que desceu de Ah-Uh. – Ele olhava sua barriga. – E tem alguma coisa aqui. – Tocou seu ventre. Rin sorriu largamente no mesmo instante.
– Parece que você não precisará se esforçar muito para ser como seu pai. – Hideaki olhou para ela. – Meu amor, bem aqui dentro de mim está sendo gerada uma criança que daqui a algum tempo irá nascer.
– A senhora está esperando um bebê? – Ele questionou intrigado.
– Sim, meu amor. Ele será seu irmãozinho ou sua irmãzinha. – Rin sorriu para ele.
Hideaki pensou um pouco sobre tudo aquilo e fechou os olhos sentindo o pequeno ser que havia na barriga de sua mãe. Depois de alguns minutos ele olhou para ela e sorriu. Rin sabia que seu filho jamais iria se opôr a ter um irmão.
Continuaram na sala por longos momentos até que Kaname e Sesshoumaru apareceram diante deles. Mais uma vez o olhar de Kaname em direção a Rin e seu ambiente familiar era suspeito aos olhos de Sesshoumaru.
– Aconteceu alguma coisa, meu amor? – Indagou Rin.
– Não. Está dispensado, Kaname. – Ele se dirigiu ao youkai.
– Certo Sesshoumaru. Até logo. – Virou-se para sair da presença de todos.
– Kaname. – A voz de Rin o parou. – Obrigada. – O youkai apenas concordou com uma cena de cabeça e saiu. Aquela situação com Rin terminaria ali.
A humana e seu filho continuaram conversando por longos momentos até que subiram a seus aposentos e foram se banhar. Depois disto jantaram e mesmo na hora de dormir ainda tinham muito que conversar. Rin ficou bastante tempo no quarto com seu filho e depois foi para seu próprio aposento onde Sesshoumaru a esperava na sacada.
A humana colocou a vestimenta correta para se deitar e aproximou-se do marido, desejando aproveitar ao máximo o reencontro que tiveram. Sentou-se em seu colo e enlaçou seu pescoço.
– Meu amor, por que não entra comigo e vamos aproveitar ainda mais esta noite? – O youkai continuou olhando a frente com uma expressão fria no rosto.
Rin sabia muito bem de suas manhas e sabia também como fazer com que ele cedesse a ela. Beijou levemente seu pescoço e dava leves sucções. À medida que a humana aumentava a intensidade, Sesshoumaru sentia sua vontade natural de possuí-la aumentar ainda mais. Ele fechou os olhos enquanto ela continuava com as carícias.
– Vamos, meu bem. Eu preciso de você. – Ela segurou seu rosto fazendo com que ele a olhasse. O youkai agora tinha os olhos dourados mergulhados em intenções maldosas, ou bondosas dadas as circunstancias de que o que ele pretendia fazer seria bom para os dois.
– Vamos. – Limitou-se a responder e a humana se levantou.
Eles caminharam e entraram no quarto. Rin fechou a porta. Antes que pudesse se virar as mãos de Sesshoumaru já estavam em seu corpo e seu rosto já estava mergulhado em seu pescoço. Rin se limitou a fechar os olhos e sentir as investidas do youkai. Ele segurava seu corpo com força. Alisava suas coxas, segurava seu seio, beijava e lambia seu pescoço.
Virou-a de frente e abriu seu quimono enquanto beijava com intensidade os lábios de sua mulher. Rin, exatamente como na gravidez de Hideaki, tinha as emoções à flor da pele e tudo o que desejava fazer era deixar Sesshoumaru tomar seu corpo da maneira que quisesse.
Ele a pegou no colo e a levou até a cama, onde beijou todo o seu corpo de forma lenta e provocativa. A humana queria de todas as maneiras retirar as roupas do youkai que a impediam de senti-lo completamente. Sesshoumaru parou o que fazia e permitiu que ela o despisse.
A humana retirou sua vestimenta com urgência e levantou-se para beijar cada parte do corpo másculo e forte do youkai. Ele segurou a cabeça da jovem com suas mãos e emaranhou seus dedos nos longos e lisos frios negros. Sentiu Rin subir e tomar seus lábios.
Ele segurou com força seu corpo que já estava ficando vermelho, ela o envolveu outra vez em um abraço apertado. O youkai alisou sua cocha e estendeu sua perna apertando-a. Rin gemeu e jogou a cabeça para trás nesse momento enquanto ele beijava seu pescoço. A mão que a apertava fez o caminho entre as coxas de Rin e acariciou sua intimidade. Ela arfou e quando olhou para o youkai seu corpo estava pegando fogo.
Antes que pedisse ele já havia a deitado na cama e a acariciava rapidamente. Ela estava indo à loucura e antes que pudesse falar o youkai a penetrou de forma forte e profunda fazendo com que ela contorcesse seu corpo e gemesse alto ansiando pelas estocadas que sempre a levavam ao prazer máximo.
Sesshoumaru investia sobre ela do jeito que a menina gostava e ele adorava ver a forma como ela gemia seu nome em meio aos delírios de prazer. Fortificou e acelerou seus movimentos fazendo com que arranhasse suas costas em reação. Ele afundou seu rosto no pescoço da jovem e sentiu seu sangue youkai tomar seu corpo enquanto o interior da mulher se contraia e ela tinha espasmos. O prazer máximo havia chegado e ambos soltaram um gemido de satisfação enquanto a semente de Sesshoumaru saia de si e inundava o interior de Rin.
O youkai ainda manteve-se nela e depois depositou um beijo carinho em seus lábios. Rin fechou os olhos e ele se retirou de seu corpo deitando-se ao lado. Aproveitaria aquele momento para conversar com ela, mas percebeu que era inútil. Assim como na gravidez de Hideaki, a humana estava terrivelmente sonolenta. Ela se aconchegou em seu peito e dormiu rapidamente. Ele alisava seus cabelos enquanto sentia a respiração de Rin desacelerar.
Pensou que realmente era melhor deixar aquela conversa para depois, aquele era o momento de aproveitar a presença de sua esposa e deixar que ela desfrutasse do conforto de sua casa. Nada melhor do que isso naquele momento para sua amada.
[...]
Desde o dia em que tivera que ir até a casa de Akiyo para pedir-lhe desculpas e encontrou a humana deitada na cama como se estivesse morta, Nobuko ficou completamente estagnada. No primeiro momento tudo o que sentia era o peso de anos de sofrimento sair de suas costas, mas depois um peso maior ainda tomou seu lugar.
O clima na casa estava péssimo. Yosuke mantinha-se cada vez mais frio e distante a ponto de sequer olhá-la nos olhos ou dirigir-lhe uma palavra. Isso a machucava e feria, mas ele parecia não se importar. Nobuko tentou nos primeiros momentos uma aproximação, mas ele a afastava simplesmente por não suportar sua presença. A humana sabia que se não fosse o filho que estava em seu ventre ele nunca mais veria tanto a Kenichi quanto a ele e isso doía.
A tristeza em que ela se encontrou dissipou qualquer vontade que a humana tinha de viver e manter-se bem. Ela tomava banho para livrar-se das marcas de suas lágrimas em seu rosto, mas as bandejas de comida sempre voltavam intactas. A cama de seu quarto não precisava mais ser arrumada e ela só pensava em isolar-se do mundo.
Por quê?
Era a pergunta que sondava a escuridão que envolvia aquele quarto. Por que ela não podia ter o amor daquele a quem amava até mais que a si mesma. Esse amor febril e doentio, que a fez cometer inúmeras loucuras e foi capaz de transformá-la, agora se agitava em seu coração o que ocasionava em seu choro. Ele também se agitava em seu estômago que a fazia vomitar, ele se agitava em todo seu corpo que a fazia fraquejar e mergulhar cada vez mais no profundo buraco de dor que suas próprias mãos também ajudaram a cavar.
Não havia motivos para viver, a menos que alguém pudesse lhe ajudar.
Batidas puderam ser ouvidas na porta e a humana sequer se moveu no acolchoado e pequeno sofá em seu quarto. Ela nem se indignou a responder, continuava olhando sem piscar para o dia do lado de fora de seu mundo de solidão.
As batidas insistiram e ela permaneceu ali, até que ouviu a porta ser aberta e passos lentos em sua direção. Estava acostumada com eles, normalmente os empregados passavam direto por ela para fazerem suas coisas. Virou-se para o lado e viu aqueles olhos mirarem-na com emoção. Esta não era uma emoção linda, mas sim triste. Nunca imaginou receber aquele olhar de seu próprio filho.
Kenichi observou sua mãe atentamente. Ela ainda o olhava seriamente e não se deu ao trabalho de lhe dizer qualquer coisa. Ele havia treinado o que falar, mas agora que colocara os olhos nela tudo perdeu o sentido.
Sua mãe que era tão linda agora tinha os olhos fundos e com olheiras. As maçãs de seu rosto haviam diminuído e ela estava muito mais magra do que era antes. Os cabelos que outrora eram brilhantes, agora haviam perdido a cor e tudo o que o menino conseguia ver era que aquilo não estava certo.
Aproximou-se dela e lhe segurou a mão. A mulher continuava olhando sua cria sem qualquer tipo de reação. Não sabia o que ele faria a seguir, mas aquilo não mudava em nada seu estado interior. Tudo o que ela precisava era de amor.
– Mamãe... – Kenichi iniciou com a voz infantil. Ele olhava para a mão que segurava. Os dedos que o acariciavam e que eram tão macios estavam ásperos e frios. – Mamãe o que está acontecendo?
Nobuko continuou em silêncio encarando seu filho que embora estivesse com a expressão intransponível que herdou do pai, estava aflito por dentro.
– Mamãe, por favor, fale comigo. – Ele implorou e mesmo assim ela não respondeu. – Por que não quer mais sair deste quarto? Por que não está mais comendo? Por que não está mais dormindo? Eu sei de tudo mamãe. Eu sempre fico vigiando a senhora. – Ele acariciou seu rosto e uma pontada de dor atingiu o peito da humana.
Ela bem que queria falar, mas não conseguia. Havia se travado em seu modo de defesa de maneira que só havia um que podia salvá-la. Do lado de fora estava seu salvador, encostado a parede com os olhos fechados ouvindo o que se seguia dentro do recinto.
– Eu não quero te ver assim. – O menino agora tinha a voz embargada e os sentimentos à flor da pele. – Mamãe eu sinto sua falta. Eu quero que a senhora esteja comigo. Eu quero que as coisas voltem a ser como eram antes. – Ele olhou para ela e os belos orbes que herdou do pai tinham mais brilho devido às lágrimas. – Eu não me importo se a senhora fez coisas feias, eu não me importo se a senhora magoou alguém, eu não me importo se a senhora brigou. Eu só quero a minha mãe.
Os olhos de Nobuko encharcaram-se e seu lábio inferior começou a tremer pela vontade de chorar.
– Por favor, mamãe, coma um pouquinho. Eu trouxe algo para a senhora. – Ele apontou a bandeja sobre a mesa atrás dela. – Meu irmão está aí dentro e a senhora tem que cuidar dele.
– É a única coisa que importa para seu pai, meu amor. Esse filho.
– Não é verdade, mamãe. O papai todos os dias manda trazer comida para a senhora e pergunta sobre sua saúde. Ele sempre pede para que eu a vigie e sempre me pergunta se tudo ocorreu bem. – Nesse exato momento Yosuke entrou no quarto. Seu olhar era duro na direção de Nobuko, mas ficou claro para ela que Kenichi pediu para arranjar o que seu pai já havia decido fazer.
Nobuko baixou a cabeça e deixou que as suas mais novas companheiras rolassem por seu rosto. Estava ficando acostumada com as lágrimas. Toda a dor que estava sentindo cessou quando sentiu o corpo quente de seu filho envolvê-la.
– Não chore mais mamãe. Eu amo você. Vou ficar aqui todos os momentos que a senhora precisar. Não vou deixar que fique sozinha. – Ele apertou o abraço e a mulher entregou-se ao choro abraçando seu filho também.
Yosuke sabia o quanto Kenichi estava sofrendo pela ausência de sua mãe e havia decido falar com ela sobre o assunto. Não somente por isso, mas porque independente de tudo ele a amava e não suportava vê-la definhar. Ele estava indo falar com ela, quando Kenichi o parou no caminho para fazer isso. As ações dos pais sempre atingem seus filhos.
Ela chorou como nunca antes. Chorou como uma criança que precisa de colo. Chorou como desabafo. Chorou para aliviar a dor.
– Perdoe a mamãe filho... Perdoe a mamãe... – Era tudo o que ela conseguia dizer. – Eu amo você... Sempre vou amar você... Perdoe a mamãe...
– Não tem problema mãe. – O pequeno apertou o abraço.
– Eu amo você... Eu amo você... – Nobuko dizia entre as lágrimas.
Eles continuaram assim por bastante tempo e ela chorava cada vez mais, até que o youkai decidiu intervir.
– Kenichi, vá para seu quarto, por favor. – O hanyo olhou para sua mãe e depois para seu pai. Beijou a mão de sua genitora e saiu do cômodo com receio, mas ficaria atento a qualquer coisa.
Nobuko levantou os olhos para o youkai que caminhou em sua direção. Ele parou bem próximo a ela e depois de alguns segundos a abraçou fortemente. Fechou os olhos e respirou. Estava muito preocupado.
– Não faça isso, Nobuko. Não faça isso. – Foi tudo o que ele disse e ela continuou chorando.
A mulher havia pensado em várias coisas para dar fim aquela tortura e inclusive cogitou a possibilidade de tirar a própria vida, mas sabia que Yosuke a impediria.
– Você nunca vai me perdoar... Você nunca... – Ela não conseguia dizer muitas palavras entre o choro.
Ele continuou abraçado a ela enquanto as pernas da moça fraquejavam devido à intensidade de seu lamento. Naquela noite ele a colocou em seu colo e a ninou como uma criança. Ela chorou até pegar no sono. Na manhã seguinte acordou sozinha na cama. Sentia-se melhor, mas ainda estava sozinha. O que poderia esperar? Havia perdido a confiança de Yosuke e isso era dolorido de mais, contudo assim como o tempo passa certamente aquele sofrimento também ia passar. Pelo menos era o que ela esperava.
[...]
O vento passava pelos corredores e podia-se ouvir o barulho das cortinas mexendo. Do lado de fora a noite não era convidativa e muito menos bela. Talvez fosse, mas para olhos como os de Raiden a beleza havia se perdido.
Ele estava parado a janela do quarto e esperava ouvir qualquer coisa diferente desta vez. Não queria ouvir a voz de seus empregados, não queria ouvir suas ações. Não suportava ouvir o choro de sua filha e lhe doía ouvir as palavras de todos aqueles que levara até aquele quarto para examinar a mulher que ali estava e continuava desacordada.
As respostas era as mesmas, as soluções também. Ninguém sabia encontrá-la, ninguém podia salvá-la a não ser ele mesmo. Raiden tentou várias vezes, mais não conseguiu. Ele se aproximou dela, tocou sua marca e nada aconteceu.
A única solução que havia em sua mente era inaceitável. Todavia, era a mais provável. Se a fonte de seu sofrimento era sua marca, eliminá-la deveria ser a solução. Ele gostaria de ter certeza.
Aproximou-se dela e sentou na cama. Olhou mais uma vez seu lindo rosto. Ela costumava sorrir sempre quando estava na presença das pessoas, mas depois de tanto maltratá-la o sorriso que ele um dia adorou admirar havia se perdido. Talvez houvesse se perdido para sempre. Raiden não podia mais continuar com a dúvida. Perdê-la para a morte era melhor do que tê-la viva e inconsciente, o que poderia ser um estado permanente.
Ele desceu o quimono de Akiyo até pouco abaixo de seu ombro e estalou seus dedos. Iria perfurar a carne da humana e remover a marca, provavelmente não haveria resistência de sua parte.
Aquele pensamento fez o coração de Raiden pulsar mais forte e sua mão repousar sobre a cicatriz. Ali, no exato momento em que deveria terminar com aquilo se deu conta de que não podia. Não conseguia.
Sorriu de sua própria covardia e mais uma vez olhou para ela. Se realmente deveria fazer aquilo, diria primeiro o que queria dizer a muito tempo, mas seu orgulho nunca permitiu.
– Uma traição sem qualquer motivo aparente. Uma paixão sem qualquer explicação. O abandono de um lar e desculpas ridículas. Palavras e juramentos feitos com fundamentos de amor que eu nunca acreditei. Durante todo o momento em que estivemos juntos você nunca se entregou totalmente a mim. Sempre manteve seus segredos enquanto eu me lançava ao que estava sentindo. Você nunca me amou integralmente. Só fez isso depois que eu a expulsei da minha casa e da minha vida. Mas mesmo assim... Mesmo assim... – Raiden parou sua fala por um momento, era difícil para ele admitir. – Você insistiu em ficar comigo, me jurou seu amor. Depois foi embora e quando retornou tratou-me como se eu não fosse nada, mas ainda assim Akiyo, eu nunca poderia me enganar. Eu senti sua falta todos os dias. Eu pensei em você todos os dias. Eu te amei todos os dias. – Ele aproximou o rosto da jovem. – Se eu dissesse que quero que volte para mim, você acordaria? Será que se eu dissesse que quero seu perdão por todas as coisas que lhe fiz, você voltaria para mim? Será que se eu dissesse que estou disposto a esquecer o que se passou só para que você viva, você me daria qualquer sinal de vida? Será que se eu dissesse que ainda te amo, você me aceitaria?
Nenhuma das respostas de Raiden poderia ser dada. Aquela que podia respondê-la estava li apenas de corpo. Sua alma estava muito longe. O youkai sofreu mais um pouco. Estava chegando ao fim o momento em que teria a oportunidade de vê-la e tocá-la. Dali para frente seriam só lembranças. Ele aproximou ainda mais seu rosto ao dela e selou seus lábios. Ficou assim por bastante tempo e depois a mirou outra vez.
– Saiba que cumprirei a promessa que lhe fiz: amarei a você por todos os dias da minha existência.
As garras das mãos de Raiden que estavam sobre a marca de Akiyo se alongaram e ele estava pronto para perfurá-la. Depois de observá-la por mais alguns segundos o youkai cravou suas unhas em seu ombro. Quando finalmente estava pronto para remover a marca, os olhos de Akiyo se abriram.
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