Notas iniciais
Olá leitores!
Tudo bem?
Enfim, estamos todos vivos, o mundo não acabou, então aqui está mais um capítulo!
Espero que gostem ^^
Eu juro que pensei num especial de Natal, mas... .... ... fica pra próxima :c kkkkk
Leiam, comentem, e um feliz Natal pra todos vocês!!!
Boa leitura!

— Sério que você já conversou com o Freud? – Marcy perguntou, com uma carinha de surpresa.

— Ah, pode me chamar de maluco, mas já conversei sim – respondi.

Estávamos sentados na grama, naquele mesmo lugar, há um bom tempo, conversando sobre um monte de coisas que tínhamos em comum. Marcy era uma boa ouvinte, mas falava bastante também. Ria muito e era... Maluca. Mas quem sou eu pra chamar alguém de louco.

— Que nada, eu já conversei com o Al Capone sabia? Com o Nietzsche também. Ele tinha vergonha de conversar comigo, o Nit.

— Nit é?

— Sim, ele era bem legal, um SuperHomem. Me falou um monte de coisas sobre cerveja, música, escrivaninhas e... Deuses.

Ficamos em silêncio um pouco, nos olhamos, e em seguida rimos juntos.

— Você acredita em Deus? – perguntei, depois que paramos de rir.

— Eu acredito no semáforo – ela disse, e começou a olhar pro céu – Nit disse que Deus está morto, todos os deuses estão mortos. E fomos nós que os matamos.

— Que pena não é? Eu nem fui ao enterro – disse, observando-a. Ela deu um risinho.

— Eu disse pra ele depilar o bigode dele, mas ele disse que a mulher dele gostava assim.

— Depilar o bigode? Não se depila o bigode, se... Barbeia.

— “Barbeia” é para barba, não? Ele não tem barba, só bigode.

— Então... Se “bigodeia” – falei, colocando fim naquele assunto.

A conversa girava assim. Falávamos sobre tudo isso e mais um pouco.

— Aquele cara – Marcy apontou para um cara gordo e de óculos escuros, sentado naquela grande mesa – sabe por que ele está aqui?

— Por quê?

— Por isso – ela tirou algo do bolso, e me entregou.

Era um pedaço de uma embalagem de palitos de dentes, de uma caixinha. Estava sublinhado com marcador um pequeno texto da caixinha. “Insira com cuidado o palito entre os dentes, e gire-o ou faça movimentos leves com ele em cada dente”.

— Eu... Não entendi – falei, devolvendo a caixinha pra ela.

— Ele disse que não suporta mais viver num mundo onde as pessoas precisam de instruções para usar um simples palito de dente. Tentou se suicidar 42 vezes, antes de trazerem ele pra cá. Dizem que ele ainda tenta. Aliás, sabe por que não deixam a gente usar tênis aqui?

— Por quê?

— Porque tênis têm cadarços. E podemos usar eles pra nos matar. Eu pessoalmente, não pensaria nisso.

Pela primeira vez, reparei que todos usavam chinelos, sandálias, e alguns poucos, pantufas. E também pela primeira vez, vi como Marcy era bonita. Seu sorriso era contagiante, tinha um belo corpo e seios pequenos, mas adequados para ela.

— Ninguém usa as quadras de esporte? – perguntei, olhando para as quadras vazias.

— Não, ninguém aqui se interessa por isso. Um dia trouxeram um professor de educação física pra cá. Ele começou a ensinar uns alongamentos e tudo mais, mas ninguém queria e então... Jogamos ervilhas nele. E ele foi embora.

— Uau.

Olhei para a grande mesa novamente, onde todos estavam sentados. Havia bastante gente ali, de todos os tipos. Pela primeira vez, reparei num velho que escutava um rádio velho, mas que produzia um bom som.

— Ele só escuta rock and roll dos anos 50/60 naquele rádio sabia?

— Hum, pelo menos as pessoas daqui tem um bom gosto musical – falei.

Um sinal soou de repente. Parece que o intervalo tinha acabado, ou algo assim. Só sei que os guardas conduziram os poucos que estavam de pé para a grande mesa, para que todos se sentassem. Eu e Marcy também fomos nos sentar. Sentei num lugar não muito diferente do outro que eu havia sentado primeiramente, perto da mulher-tarada.

Uma moça morena, de uns 30 anos e sem uniforme de hospício apareceu e ficou na ponta da mesa. Ela trazia uma bolsa, que deixou ali por cima.

— Bem alunos, hoje vamos aprender a famosa arte do origami – ela falou, pegando um papel e o dobrando – o origami se originou no...

Só sei que eu não prestei atenção em nada do que ela disse. Estava ocupado dando algumas risadas com Marcy. Com certeza, já tinha uma amiga ali, e meus dias não seriam tão chatos. Talvez, mais que uma amiga.

***

Dormi muito bem, no meu novo quarto. Depois que a aula de origami terminou, fomos para os quartos. O meu era pequenininho, mas confortável. As paredes eram cinzas, a cama tinha lençóis brancos, e havia por ali uma cômoda, um armário pequeno, uma mesa com uma cadeira e uma janela com grades.

Depois de uma noite curta, pois dormi feito uma pedra, um guarda me trouxe alguns remédios e um café da manhã. Uma xícara de Nescau com um sanduíche de presunto e queijo. Tomei os remédios e comi aquela refeição. Não era o melhor sanduíche que eu já tinha comido, mas era bom.

Fiquei um bom tempo ali no quarto, sem fazer nada. O que será que estava acontecendo lá fora, na cidade, no mundo? E... Claire? É, acho que eu não ia esquecer aquela garota tão fácil assim.

As paredes do quarto estavam diferentes, estavam azuis. Provavelmente, não importa quanto tempo eu ficasse aqui, não seria curado da minha loucura. Com certeza, não. Daqui a pouco eu já estaria vendo galinhas soltas por aí, de novo.

Abriram a porta e saí do quarto. No corredor, havia uma fila de “pacientes” (não, não vou chamá-los de loucos), esperando que todos se ajeitassem na fila. Enquanto alguns guardas tiravam outros pacientes de seus quartos, outros guardas vigiavam a fila já formada. Um passou do meu lado com um cassetete, e sussurrou no meu ouvido:

— Se quiser fugir, fale comigo as 19 horas.

Disse isso e continuou andando, vigiando a fila.

Fugir? Ok, eu tinha pensado nisso, mas um guarda com certeza não me ajudaria. Ou ajudaria? Se não ajudasse, porque tinha dito aquilo? Eu nem tinha relógio ali, não sabia que horas são. Mas tentaria falar com ele do mesmo jeito.

Quando a fila estava completa, andamos devagar até lá fora, no mesmo espaço aberto de ontem. O céu estava fechado, com nuvens negras pra todos os lados. Mas mesmo assim, dava pra ver o Sol.

Todos os pacientes estavam de pé ali no gramado, esperando alguma coisa. Procurei Marcy mas não a encontrei. Devia estar no quarto ainda, ou qualquer bobagem. De repente, uma mulher loira, bastante atraente e não muito velha apareceu, e começou a ensinar alguns alongamentos. Isso tava parecendo mais uma colônia de férias.

Todos se alongavam. Uns tinham dificuldade, mas a professora os ajudava. Na hora de tocar os pés com as mãos, sem dobrar os joelhos, pedi ajuda para ela. De algum jeito misterioso, ela conseguiu fazer eu encostar as mãos lá.

Depois de uma longa sessão de alongamento, todos ficaram por ali de bobeira, a maioria conversando. Procurei Marcy. Todos os de ontem estavam ali, a mulher tarada, o velho que gostava de rock, o que pensava que era Maquiavel, etc., mas nada da menina.

Até que vi ela, parada, sozinha, olhando para o céu. Fui até a garota. Pela primeira vez, percebi que os cabelos dela tinham umas mechas azuis.

— Olá – falei, encostando no ombro dela.

Ela se virou e me olhou estranho. Até olhou pra trás pra ver se eu não estava falando com outra pessoa.

— É... Oi – ela falou, como se eu fosse um estranho.

— Que faz por aqui? – perguntei, com um sorriso.

— Com licença, mas... Eu te conheço? – ela perguntou, com uma cara esquisita.

Como assim “eu te conheço”? Tínhamos conversado bastante ontem, ficamos bastante amigos. E hoje ela não me conhece?

— É... Sim, conversamos um montão ontem – falei, tentando ser simpático.

— Desculpa, eu não lembro não.

Ficamos em silêncio um pouco. Senti a sensação de perder a única amiga que eu tinha aqui.

— Mas não fica assim não amigo – ela falou, batendo no meu ombro – eu tenho problema de memória sabia? Não lembro direito de quase nada. Dizem que eu to há muito tempo aqui, mas pra mim, parece que passaram só uns 2 dias, sei lá.

— Problema de memória é?

— Hn... É sim, desde criança tenho isso. Antes era mais grave. Por exemplo, eu almoçava e esquecia que tinha almoçado, então ia comer mais e mais. Isso ia virando uma bola de neve, e eu engordei muito. Mas hoje já estou melhor, um pouco pelo menos.

— Ah sim... Claro – falei, compreendendo.

— Como é o seu nome?

— Fred – falei, apertando a mão dela.

— Muito prazer, sou Marcy. Desculpa por não lembrar de ti.

Então, seria no esquema de “Como Se Fosse a Primeira Vez”? Ok, muito bom.

Conversamos bastante novamente, sobre um monte de assuntos. Felizmente, assuntos diferentes dos de ontem. Mas ela mencionou Nietzsche de novo.

Olhava em volta, via todas aquelas pessoas loucas vestidas com uniformes iguais e me perguntava a quanto tempo elas estavam ali. Só sei que era esquisito, todo mundo se vestir igual. Como se fosse uma escola. Sempre fui contra a utilização de uniformes em escolas ou em qualquer lugar do tipo. As escolas faziam os alunos pensarem igual, e querem fazer os mesmos se vestirem igual também?

Só sei que, a primeira vez que vi algo sobre uniformes, não consegui ler direito, porque o documento era dos anos 40 e estava em um campo de concentração alemão.