Minefield
5 Capítulo 5. Victória
Notas iniciais
Pronto, lá estava eu com várias pessoas desconhecidas, sozinha numa construção abandonada, Aaron tinha me deixado lá, sem nem ter ideia de como voltaria para casa. Olhei ao meu redor e para todas aquelas pessoas bêbadas com quem eu havia falado pela primeira vez há alguns minutos e senti um calafrio. Parte da minha mente recusava a acreditar que Aaron realmente havia me largado e mandado eu simplesmente me virar. E agora? olhei para Derek bêbado, deitado no chão rindo que nem um idiota e fiquei preocupada. Como eu faria pra voltar pra casa? Já passavam das três da madrugada e eu não ligaria para os pais de Aaron, eu nem mesmo sabia onde eu estava ou como cheguei lá. Eu estava com vontade de chorar.
Tentei aproximar-me de Derek, pedir ajuda para voltar pra casa, mas ele se quer levantou do lugar, só riu e pediu para que ficássemos lá. Nenhum dos amigos dele me ajudou, isso mesmo, ninguém fez nada, disseram que não sabiam o caminho de volta para a casa do Aaron, se negaram emprestar uma droga de um celular, e que estavam chapados demais para levantar e até fingiram não entender o que eu estava perguntando. Então eu atravessei a construção e comecei a andar pelas ruas, seguindo minha intuição ridícula.
Andei durante vinte minutos sem nem mesmo entender onde eu estava, fazia muito frio e meu celular agora alertava dez porcento de bateria. Eu não podia usar internet porque não estava na Filadélfia tempo o bastante para ter um chip americano, eu sabia a rua e o número da minha casa, mas não tinha ninguém nas ruas para que eu pudesse pedir informação. Nenhum posto, nenhuma loja aberta, nada, nada. O subúrbio começou a me assustar e agora era oficial, eu estava perdida.
Percebi então uma casa acesa no fim da rua, de onde saíam várias pessoas, aparentemente uma festa já no final. Foi então que um carro parou do meu lado, haviam três pessoas dentro do mesmo, uma menina de cabelo preto e olhos puxados dirigia.
"Oi, menina!" ela disse.
"Oi."
"Você não mora aqui, mora?"
"Não eu, estou ficando na casa de conhecidos, eu não sou daqui. Eu sou perdida." falei rápido demais demonstrando um desespero exacerbado. Ela sorriu para mim como se me entendesse.
"Eu sou Anna Lee, estes são Leo e Jason. Pode ficar calma, eu vou ajudar você."
"Ah, muito-muito obrigada." gaguejei. Anna Lee fez um sinal para que Jason fosse para o banco de trás, que obedeceu de imediato. Ela saiu do carro e abriu a porta para que eu entrasse. Sim, eu estava entrando no carro de uma estranha, mas que opção eu tinha?
Quando falei meu endereço para Anna Lee, ela disse que eu estava perto, coisa de dois quarterões e que conhecia o endereço, perguntou um pouco sobre mim e descobri que eles estudavam na mesma escola que eu estudaria. Os três foram muito simpáticos comigo e me deixaram em casa.
"Muito obrigada, gente!" me despedi saindo do carro.
"Disponha" Ana Lee disse.
"A gente se vê por aí." Leo acenou e eu assisti o carro seguir rua abaixo.
Quando eu entrei no hall de casa, estava tudo escuro,eu subi para o meu quarto e me joguei na cama sem nem mesmo tomar banho, por medo de acordar Richard e Alysha. Eram quatro horas da manhã e eu finalmente estava em segurança numa cama quentinha com meu pijama macio. Não demorou muito para que eu pegasse no sono.
"Victória, querida?" Alysha bateu na porta do meu quarto fazendo eu acordar de supetão.
"Ahn, ah. Oi?" sentei- me na cama. "Entra."
"São nove horas da manhã, Richard e eu vamos no centro comprar umas coisas, você precisa de algo?"
"Ah, não. Muito obrigada!"
"Vic, só mais uma coisa. Como você voltou para casa ontem a noite?" Eu senti vontade de descarregar tudo no Aaron naquele momento, falar o que ele fez e transformar a situação num drama muito maior que poderia ser, mas achei melhor esperar, de certa forma eu já sabia que ele levaria a Senhora Bronca quando chegasse.
"Voltei com o Derek, ele me trouxe até aqui." menti.
"E Aaron?"
"Não sei, acho que ele ficou por lá mesmo…" menti de novo.
"Certo.Desculpe acordar você, meu bem. Até mais."
"Até." ela sorriu e fechou a porta do quarto.
Eu tinha a casa só para mim, aproveitei para tomar um banho e descer para fazer meu próprio café da manha, com pão, frutas e tudo que eu tivesse vontade de comer. Eu estava feliz por ficar sozinha, mas ao mesmo tempo sentia saudades do Brasil. Como tudo o que é bom dura pouco, a porta bateu e a figura repugnante de Aaron em segundos estava parada na minha frente. Me encarando. Limitei-me a olhar para baixo e fingir que ele se quer estava lá.
"Parece que alguém infelizmente achou o caminho pra casa."
"Parece que sim." respondi com um sorriso sínico.
"Que pena."ele disse sentando na minha frente e pegando um pedaço de melão do meu prato. Olhei feio para ele que tinha os cabelos emaranhados e um sorriso extremamente sarcástico no rosto. "O que foi, vic?" a voz de Aaron ecoou na minha cabeça, senti meu rosto esquentar, cerrei os punhos.
"Não me chama de vic, não sou sua amiga." eu disse entre os dentes e ele pegou mais um pedaço de melão do meu prato.
"Você não vai comer isso aí, vai?" ele pegou meu prato e saiu em direção as escadas.
"Aaron, me devolve isso!" gritei em vão, pude escutar a porta do quarto dele bater. Eu odiava ele, mais que tudo, mais do que eu já odiei alguém nessa vida. Eu não entendia o porquê ele me tratava desse jeito, se nem me conhecer ele conhecia, não fazia sentido algum. Será que ele não percebia o quanto era importante para mim ser aceita? Eu não conhecia aquele lugar, mal conseguia falar inglês sem soar "aportuguesada".
Quando Alysha e Richard chegaram, eu estava no meu quarto, desenhando e ouvindo música. Pensei em descer para oferecer ajuda com as compras, mas Alysha já subira as escadas e estava parada na frente da porta do quarto de Aaron esmurrando-a. Rapidamente, grudei meu ouvido na porta do meu quarto.
"Aaron! Saia já desse quarto!" ela rugiu. Pude ouvi-lo abrir a porta ríspido
"O que você quer?"
"Você deixou Victoria voltar sozinha com Derek ontem? Você sabe muito bem que ela precisa de ajuda para sentir-se confortável e você largou ela com seu amigo? Será que não percebe a gravidade da situação?" sua voz estava esganiçada a porta do meu quarto não era suficiente para abafar.
"Ahh, não enche. Ela foi porque quis."
"Olha aqui, pega o seu desaforo e…"
"Deixe-me conversar com ele, meu bem." Richard interrompeu com uma voz calorosa e pontual. E pude ouvir que ele fechou a porta do quarto de Aaron. Afastei rapidamente da porta do meu quarto e sentei-me na cama, como se nada tivesse acontecido.
"Victória?" Alysha bateu na porta.
"Entre." eu disse na maior cara de pau.
"Me desculpe por isso…"
"Não, imagine. Não se desculpe, por favor." pedi. Eu já estava morando na casa dela, exigir qualquer tipo de comportamento era demais da minha parte.
"Vou descer para fazer o almoço, acho que precisarei de ajuda."
"Claro, desço em um minuto."
Quando saí do meu quarto não consegui evitar de bisbilhotar a conversa que Richard tinha com Aaron, me aproximei lentamente da porta e por um segundo até respirei de forma mais discreta para poder ouvir melhor.
"Você é muito maior que isso tudo não é mesmo? Bebe até as quatro horas da manhã, enfrenta a sua mãe, larga uma menina que mal fala a sua língua sozinha…"
"Essa ideia de trazer uma brasileira pra cá não foi minha!" Aaron gritou.
"Realmente, Aaron. Você é muito maturo, me impressiona sua atitude." Richard não alterava se quer a intonação de sua voz. "Até acredito que isso tudo seja medíocre demais para você. Por isso vou te dar um emprego."
"O quê?"
"Posso ver que está com tempo de sobra para encher a cara nos fins de semana, então a partir da semana que vêm você trabalha em tempo integral nos sábados..."
"Você tem problema!" Aaron estava completamente descontrolado.
"E nas férias também."
"Você não liga pra nada disso não é? Pra mim, ou para o que eu acho, ou o que sinto, pra nada! Você simplesmente não está nem aí." Aaron gritava num tom melancólico. Eu quase me senti mal por ele.
"Acredito que estamos entendidos então. Você começa semana que vem."
"Tenho certeza que não se importava com Suzie também."
"Não se atreva a citar Suzie!" Richard rugiu e eu estremeci.
"Victoria!" Alysha chamou.
"Estou descendo!" corri escada abaixo. Estava ofegante e com medo. Com medo por Aaron, por mais que eu o odiasse, a frieza de Richard me assustou. Alysha estava evidentemente nervosa quando cheguei na cozinha, começamos a conversar e a cozinhar juntas, o que fez com que ela se acalmasse.
Durante o almoço, tudo estava no seu devido lugar; Alysha e Richard faziam piadas, eu ria com elas e Aaron mantinha seus comentários desprezíveis, mas eu sabia que algo estava errado, minha mente repetia as palavras de Richard como um loop; o modo em que ele se transformou quando foi mencionado Suzie… Suzie? Quem será que era Suzie?
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