Mine

6 Capítulo 06


Notas iniciais
Este capítulo possui forte influência do episódio 15 da sétima temporada de House M.D.

Capítulo 06

Hibari estava pontualmente às oito da manhã na frente do Hotel em que Dino se hospedava todas as vezes que visitava Namimori. O alto edifício se sobressaia no meio das residências de no máximo dois andares, tornando-se um ponto vulnerável entre as ruas.

Os passos na direção da recepção foram dados de maneira firme e precisa. Uma das recepcionistas — esta atendendo ao telefone — automaticamente parou o que fazia ao ver o moreno caminhando em sua direção. Todos em Namimori conheciam Hibari Kyouya.

Entretanto, não foi preciso que o Guardião da Nuvem tivesse de convencer nenhum dos funcionários. Assim que se aproximou o suficiente para ser notado, uma outra pessoa chamou sua atenção.

Romário lia tranquilamente um jornal enquanto degustava uma fumegante xícara de café quando viu Hibari adentrar ao Hotel. De inicio o braço direito dos Cavallone achou que seus olhos estivessem pregando-lhe uma peça, mas ao notar o pequeno alvoroço que se formava na recepção, o homem teve certeza de que não vira uma miragem.

- Bom Dia, Hibari. — Romário sorriu genuinamente ao vê-lo.

- Bom Dia. — O moreno sentiu-se levemente constrangido. Seu plano mental não envolvia encontros inusitados, apenas sangue, sangue e mais sangue.

- O que faz tão cedo fora da cama? — O braço direito dos Cavallone deu um gole na xícara de café.

O Guardião da Nuvem hesitou por um momento. Seu plano não teria o mesmo efeito se ele contasse para Romário quais eram suas reais intenções naquele momento. Porém, seria muito mais simples chegar até Dino com a ajuda de seu braço direito.

- Eu quero falar com seu Chefe. — O moreno foi direto. Só havia dois caminhos que aquela conversa poderia tomar, e ele faria o impossível para que o ponto de chegada fosse somente um: o quarto do italiano.

- O Chefe ainda está dormindo. — O braço direito dos Cavallone coçou o queixo — Ele ficou até tarde trabalhando, mas se quiser subir eu posso lhe dar a minha chave.

As sobrancelhas de Hibari juntaram-se momentaneamente. Aquilo estava muito fácil.

- Eu sei o que você está pensando. — Romário retirou a chave eletrônica do bolso e a jogou nas mãos do moreno. — Mas eu não sei o que aconteceu. A única ordem que recebi foi há duas semanas e apenas dizia para que eu não atendesse nenhuma ligação vinda do Templo. Não me leve a mal, Hibari, eu realmente não quero me envolver no que aconteceu, mas alguém precisa colocar um pouco de juízo na cabeça do Chefe, e eu não tenho mais idade para isso.

- Não me responsabilizo pelo que possa acontecer. Meu único intuito aqui é mordê-lo até a morte. — O Guardião da Nuvem segurou firme a chave em suas mãos.

- Faça o que quiser. Eu estarei aqui terminando minha leitura e degustando o meu café.

Hibari sentiu o rosto repuxar-se em um discreto meio sorriso enquanto afastava-se na direção dos elevadores. Era em momentos como esse que ele se lembrava porque Romário merecia o título de "braço direito" acima de qualquer outro homem.

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O caminho até o quarto 104 foi feito sem nenhum problema. Os corredores estavam vazios, os passos eram omitidos pelo grosso tapete que forrava todo o caminho, e quando finalmente a porta parou diante de seus olhos, o moreno não hesitou em passar a chave eletrônica, sentindo o coração bater mais rápido ao ouvir o click feito pela porta.

O quarto estava escuro, denunciando que as palavras de Romário eram verdadeiras. Até mesmo as cortinas da parte utilizada como escritório estavam fechadas, mostrando que pela quantidade de papéis e canetas espalhadas sobre a mesa, Dino teve uma noite trabalhosa.

O dono da suíte estava dormindo profundamente em sua cama. Havia um grosso edredom sobre seu corpo, mas como de costume, o italiano não dormia vestido. O braço descoberto fez Hibari revirar levemente os olhos, aproximando-se com passos vagarosos e parando na beirada da cama.

Por alguns minutos o Guardião da Nuvem não fez nada além de permanecer ali, vigilante e calado. Seus olhos negros observavam o louro dormir, ou pelo menos tentar observar. O rosto de Dino estava coberto por grande parte de seu cabelo, encobrindo muito mais do que seus belos e gentis traços.

A tentação de tocá-lo foi maior do que o moreno poderia supor.

Seu coração parecia estar pronto para pregar-lhe alguma peça, pois em certos momentos ele se viu tentado a entrar debaixo das cobertas e ali permanecer. Ele pertencia àquele pequeno espaço entre o ombro e o pescoço do louro. Seu corpo encaixava-se com perfeição no corpo do Chefe dos Cavallone, sem mencionar outros detalhes sórdidos que não vinham ao caso no momento.

Durante toda a sua vida o Guardião da Nuvem viu e ouviu relatos sobre sentimentos que sempre pareceram ilusórios e fantasiosos demais para serem reais. Porém, de um lugar que ele jamais esperou. Uma pessoa que ele jamais achou que conheceria na vida, tais sentimentos chegaram até ele com uma força e intensidade muito maiores do que as histórias contavam.

Dino o fazia sentir o que os autores escreviam em seus livros.

Por um tempo indefinido Hibari não fez nada além de sentar-se na beirada da cama e observar o italiano dormir. O louro tinha um sono geralmente pesado e movia-se pouco. Seu corpo estava no meio cama, sobrando espaço suficiente para que o moreno se sentasse sem medo de acordá-lo.

Não havia muito que o Guardião da Nuvem pudesse fazer. A ideia original de morder Dino até a morte parecia irrelevante, e quanto mais tempo permanecia ali, mais difícil era manter-se quieto. Uma série de pensamentos cruzou a mente do moreno, e foi somente quando o Chefe dos Cavallone moveu-se na cama que Hibari percebeu que era hora de fazer alguma coisa. Uma de suas mãos tocou os cabelos louros, sentindo os finos fios escorrerem por seus dedos, pousando novamente no macio travesseiro.

O Guardião da Nuvem ficou de pé, caminhando até a parte usada como escritório e abrindo levemente a cortina, o suficiente para que ele enxergasse a mesa. Sentando-se e puxando um pedaço de papel em branco, Hibari pôs-se a escrever por alguns minutos. Os olhos negros releram e revisaram a mensagem, deixando-a em baixo do tinteiro.

Dando uma última olhada no quarto, o moreno retirou-se e voltou a ganhar o corredor. Realmente era impossível para ele ter uma conversa direta com Dino.

Tudo o que ele esperava era que pelo menos suas intenções pudessem chegar até o coração do italiano de uma forma ou de outra.

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A resposta para a mensagem de Hibari não demorou a chegar, mas as proporções que ela teria jamais passaram por sua mente. E talvez se ele soubesse que os acontecimentos seguintes seriam inevitáveis, então o Guardião da Nuvem teria permanecido naquele quarto de Hotel até que o louro acordasse.

O almoço havia terminado, e o moreno degustava uma quente e deliciosa xícara de chá quando a porta de seu escritório foi arrastada. Os olhos negros ergueram-se no mesmo instante, e um misto de surpresa e ansiedade fez com que Hibari quase ficasse de pé para receber seu antigo-novo visitante. O Chefe dos Cavallone retirou os sapatos antes de entrar, mas assim que se aproximou, o moreno notou que havia algo errado. As sobrancelhas louras estavam cerradas, os olhos cor de mel não tinham o mesmo brilho, e não importasse de qual ângulo se olhasse Dino não parecia nem um pouco contente.

O italiano aproximou-se, mas não disse nada. Ao invés disso ele andou de um lado para o outro por alguns segundos, até finalmente parar na frente da pequenina mesa que o Guardião da Nuvem utilizava para trabalhar.

- Eu só vim para avisar que estou retornando para a Itália no fim da tarde.

- Você poderia ter telefonado. — Hibari pousou a xícara sobre a mesa. Por mais que sentisse saudades, ver Dino em pessoa também o lembrava da vontade que sentia de mordê-lo até a morte.

- Eu poderia... — O louro colocou a mão em um dos bolsos retirando um pedaço de papel — Mas eu queria entender o que significa isso.

O Guardião da Nuvem abaixou os olhos, tentando ignorar o familiar papel. Claro que ele sabia do que se tratava, mas sentir que suas palavras estavam diretamente na sua frente não era muito agradável. Depois de todo esse tempo o moreno tentou ao máximo ser claro ao deixar o bilhete, esperando que o italiano entendesse.

Aparentemente outro mal entendido havia começado.

- Eu não estava bravo por você estar trabalhando para a Guardiã da Névoa. — O Chefe dos Cavallone evitou que o silêncio se arrastasse — No final você ainda continua não entendendo do que eu estava falando, não é, Kyouya?

- Você disse claramente que o assunto era o meu trabalho. Não entendo o que quer dizer. — Hibari apertou os olhos. Agora aquilo estava confuso.

- Eu sei sobre o seu trabalho particular há algum tempo. Romário me comunicou em minha última visita ao Japão.

O moreno ergueu os olhos, sentindo as mãos tremerem de vontade de morder algum estrangeiro idiota até a morte.

Então todo o trabalho que ele teve de comunicar que estava agindo estritamente de maneira profissional foi inútil?

- Eu disse, não disse? — O Chefe dos Cavallone continuou — Que o trabalho sempre viria em primeiro lugar? Mas se você não tem ideia do motivo real pelo qual eu fiquei chateado, então não vou me prolongar mais. Como eu disse naquele dia, as coisas vão ser diferentes, Kyouya, e eu gostaria que você não tentasse entrar em contato comigo por um tempo. Preciso me focar na situação atual, e ficar entre os seus joguinhos não ajuda em nada.

Dino não passou as últimas semanas totalmente livre e desimpedido. Assim como o Guardião da Nuvem, os momentos de saudades e arrependimentos lhe visitaram com frequencia, mas por mais que quisesse esquecer o que aconteceu, havia uma parte no louro que sabia que se passasse uma borracha naquele instante, as coisas voltariam com o dobro de intensidade se uma situação similar acontecesse em um futuro próximo.

Eles não eram mais tão jovens. O relacionamento entre eles não era uma paixonite juvenil ou um impulso adolescente. O italiano sabia exatamente o que queria. Quem queria. Porém, quanto mais ele se aproximava de Hibari, mais afastado eles ficavam.

O Chefe dos Cavallone estava cansado de amar sozinho e ter de adivinhar sentimentos que poderiam ser claros e objetivos.

A reação de Hibari para mais um momento de sinceridade por parte de Dino não poderia ter sido diferente. Evitando somente esbarrar na mesinha e consequentemente derrubar sua preciosa xícara de chá, o Guardião da Nuvem retirou o par de tonfas de dentro do kimono e desferiu um certeiro e direto golpe. Se a pessoa em questão não fosse tão conhecedor de seu estilo de luta, provavelmente teria recebido o impacto sem ter chances de esquivar-se.

Entretanto, da mesma forma como o moreno atacou, o italiano defendeu-se com seu chicote. Os dois homens se entreolharam, e ao contrário das lutas anteriores, aquela não parecia ser um treino ou aquecimento.

Hibari realmente tinha a intenção de machucar.

- Por que não podemos apenas conversar, Kyouya? — Dino colocava mais força no pé que servia como apoio, sentindo que seu pupilo não estava brincando.

- Conversar com você é o mesmo que conversar com um cachorro ou um gato. — O Guardião da Nuvem trouxe um dos braços mais para perto, apenas para esticá-lo com o dobro de força, fazendo o louro sair de sua atual posição — Pode parecer bonito, mas no final não entendemos uma única palavra.

A comparação nada amigável só serviu para o Chefe dos Cavallone perceber que sua visita havia sido um grande erro.

- Eu não acho que você seja a melhor pessoa quando o assunto é conversa. — O italiano segurou firme a base do chicote.

Dino puxou o chicote com força, utilizando um dos braços para defender o golpe de Hibari. A dor o fez piscar, mas ao mesmo tempo serviu como catalisadora do golpe que colocaria um ponto final naquela ridícula e desnecessária disputa entre poderes e egos.

Um dos tonfas voou pelo escritório, e o outro foi segurado pela mão livre do italiano. O Chefe dos Cavallone olhou sério para seu pupilo, esperando que o moreno utilizasse o pouco de bom senso que ainda lhe restava para perceber que a luta havia acabado.

Bem, Hibari não usou.

O Guardião da Nuvem puxou seu único tonfa, colocando força no último movimento. O chicote de Dino acertou sua mão, fazendo-o soltar o tonfa. Seu corpo sentiu-se puxado e quando suas costas bateram em uma das paredes de madeira, Hibari soube que havia perdido novamente.

- Por que você não pode simplesmente aceitar que perdeu? Por que é tão difícil? Sou eu, Kyouya! Eu não sou um estranho. Eu não vou rir, eu não vou te julgar. Eu sou apenas eu para você. Por que isso não pode ser suficiente?

O louro disse tais palavras com a voz elevada.

O Guardião da Nuvem tinha as mãos presas pelo chicote no alto de sua cabeça, e foi impossível não sentir o coração bater mais rápido. Dino estava perigosamente próximo, e suas palavras soaram feridas e magoadas.

- Você sabe o quanto eu o amo, o quanto você significa para mim, mas no final nada disso parece importar. Eu não posso mais te amar sozinho. Você age como se todo meu amor apenas te atrapalhasse, mas eu não sei te amar de outra forma. — A voz do louro começou a falhar. Os olhos cor de mel tornaram-se levemente vermelhos — Eu não gosto de vê-lo com outras pessoas. Eu não quero pensar que você se encontra sozinho com ninguém além de mim. Se fosse possível eu gostaria de monopolizá-lo, de trancá-lo em uma caixa onde somente eu tivese acesso, mas eu não posso. Então por que você faz isso? Por que você me deixa inseguro? Uma frase, uma palavra, uma demonstração qualquer de carinho? Por que é tão difícil para você me fazer sentir um pouco amado?

As palavras do italiano cessaram.

O Chefe dos Cavallone abaixou o rosto e respirou fundo, soltando levemente o chicote do pulso do moreno. Seus olhos estavam úmidos quando voltaram a encarar Hibari, e os dois homens pareciam satisfeitos com o silêncio que seguiu.

Dino não se sentia inclinado a dizer mais nada. O Guardião da Nuvem ainda estava chocado com o que escutara para análises mais profundas.

- Eu não sou uma coisa. — O moreno moveu levemente os lábios. Saber de sua incapacidade em demonstrar sentimentos era diferente de ter alguém apontando tal falha diretamente — Eu não sou você, e achei que soubesse disso depois de todos esses anos.

- Eu também achei que soubesse, Kyouya. — O louro passou as mãos nos cabelos — Mas eu realmente não posso me preocupar com isso no momento. Desculpe por jogar tudo isso em cima de você. Eu gostaria de sentar e conversar sobre o assunto, mas como você disse, minha conversa é tão desinteressante quanto a de um cachorro. — Havia certa amargura nessa parte — É melhor eu ir agora.

O italiano bagunçou levemente os cabelos negros de Hibari antes de recomeçar a andar. Seus passos não chegaram até a porta aberta.

- Então o que faremos? Você sempre vai embora depois de dizer o que quer. Você fez isso naquele dia no terraço e está fazendo a mesma coisa agora. — O Guardião da Nuvem elevou um pouco mais a voz. Aquilo era ridículo. Seu coração batia tão rápido em seu peito que era difícil até mesmo respirar.

- Você não pode amar alguém sem oferecer um pouco de você mesmo. Compartilhar momentos e problemas faz parte do pacote que você não está disposto a aceitar. Eu não duvido ou questiono nenhuma das vezes em que você quis estar comigo durante todos esses anos, mas não é mais suficiente, Kyouya. Eu não sei se você quer ser mais do que isso.

Dino não se virou. Tudo o que Hibari viu foram as largas costas do italiano

- Você sempre se coloca em primeiro lugar, acima de qualquer outra pessoa. Sempre foi assim, não? Essa é a pessoa que você é, e eu de maneira alguma gostaria que você mudasse. Porém, eu preciso pensar em mim, no que eu quero e mais importante, no que eu preciso. Nesse tempo pense se você quer continuar o que temos. Não vou culpá-lo se você decidir que quer outra coisa, da mesma forma como espero que não me odeie se eu decidir que não quero mais permanecer nesse relacionamento. Eu disse, não? Meu amor sozinho não pode fazer nada. Então pense a respeito e cuide-se.

O Chefe dos Cavallone saiu, deixando o moreno com o escritório vazio e os tonfas espalhados.

Havia tantas coisas que precisavam ser digeridas daquela conversa, que por mais que Hibari achasse injusto o desenrolar daquele encontro, seria impossível para ele seguir Dino e tentar persuadi-lo de que tudo aquilo era completamente sem sentido.

O moreno apenas deixou o corpo escorregar pela parede, sentando-se e encarando o local vazio. A única imagem que povoava sua mente eram as costas do italiano e a maneira solitária que elas pareciam estar se sentindo.

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Era um fim de tarde como qualquer outro fim de tarde nublado de verão. O clima seco, o céu acinzentado, as ruas cobertas por folhas; causando a sensação de que a realidade possuía apenas três cores: o branco, o cinza e o marrom. O Sol não aparecia há dias. O azul do céu não era visto desde sábado passado.

Se Hibari Kyouya pensasse bem, o último encontro desastroso com Dino também fora no último sábado.

Eles brigaram, como sempre acontecia. O louro e suas cobranças absurdas que dessa vez envolviam níveis de sentimentos que o moreno não havia notado. O Guardião da Nuvem por sua vez, lutando intimamente para se fazer entender por alguém que sempre o compreendeu tão facilmente.

E era assim. Desde sempre. Desde o primeiro dia, e seria assim até o último. Ao menos era o que ele gostaria de acreditar ou ter acreditado.

Hibari estava encostado na varanda do Templo Namimori. Não havia brisa naquela tarde, e apesar do céu nublado a temperatura estava estranhamente elevada. A meteorologia dizia que era culpa do aquecimento global que se tornava cada vez pior. Aquele assunto era antigo. Desde os tempos de Colégio o Guardião da Nuvem escutava sobre as estações do ano perdendo o sentido enquanto o globo se transformava em uma sutil panela de pressão. O moreno não se importava desde que sua pacifica Namimori continuasse intacta.

Então aquele calor ou o frio excessivo não o aborreciam. O que o irritava era o barulho.

Um toque. Dois toques. Três toques. Quatro. Seis... O curto e amado silêncio, para novamente ouvir um toque. Dois toques. Três...

Quantas vezes aquele telefone tocaria? E quantas vezes Hibari ignoraria o barulho até que a pessoa do outro lado da linha desistisse de importuná-lo? A “pessoa” era muito vago. Ele tinha uma leve desconfiança de quem poderia ser. O que o acordou naquela manhã foi o celular que piscava o nome de Dino no visor. O italiano deve ter tentado ligar várias vezes, e pelo restante do dia, as tentativas de entrar em contato não cessaram. O Chefe dos Cavallone ligou durante toda a manhã, mas o moreno não atendeu. Sua irritação e frustração ainda eram fortes, e a última pessoa com que ele gostaria de falar ligava insistentemente naquele dia.

Sete anos. Por sete anos a vida do Guardião da Nuvem não foi nada além de aborrecimentos, chateações, brigas, discussões e muitas tentativas de morder até a morte. O louro não entrou na vida de Hibari. Ele a invadiu. Mudando-o e moldando-o com o passar do tempo a ponto do próprio moreno não se reconhecer em alguns momentos.

Aquele era mais um dos muitos pensamentos que cruzaram a mente do Guardião da Nuvem naquela última hora, e ele teria passado mais algum tempo exclusivo nesse assunto se sua atenção não fosse desviada para outro lugar, ou melhor, uma outra pessoa.

Com passos rápidos e afoitos, Kusakabe correu na direção de Hibari.

O barulho do telefone tocando abafou um pouco os passos do ex-vice-líder do Comitê Disciplinar. Kusakabe vestia um terno escuro, e ao aproximar-se do Guardião da Nuvem, seu rosto estava tão branco quanto a camisa que ele usava por baixo do terno. Em uma de suas mãos estava o aparelho celular desligado que o moreno deixou em algum lugar do Templo.

Os dois homens se entreolharam. Kusakabe respirava alto, aparentemente havia subido a longa escadaria as pressas. Aquele era o único motivo que explicaria seu estado. Hibari possuía uma expressão indiferente em seu rosto, os olhos negros pareciam aborrecidos, os lábios crispados em um inexistente sorriso, mas seu coração... Seu coração não estava apático. Ele batia. Rápido, forte e selvagem.

Hibari sabia.

O telefone voltou a tocar alto de alguma parte da casa. O braço direito do Guardião da Nuvem arregalou os olhos. Havia pânico e mais algum outro sentimento naquele olhar. Talvez descrença. Talvez medo.

- K-Kyo-sama, você ainda não atendeu ao telefone? — Kusakabe tinha a voz pesada e apressada. Suas mãos ligavam o aparelho celular.

O moreno apertou os olhos. Se Dino tinha entrado em contato com seu braço direito então aquilo estava indo longe demais. O italiano não tinha o direito de vomitar todas aquelas ofensas e querer entrar em contato quando bem entendesse, ainda mais utilizando outras pessoas.

- Você tem que atender ao telefone, Kyo-sama. — O braço direito insistiu — É importante.

- O que houve?

A voz de Hibari saiu impassível. O que quer que o louro estivesse tramando não daria certo. O Guardião da Nuvem estava disposto a mordê-lo até a morte por expor a relação deles e por criar estranhos sentimentos em seu peito.

Todas as ideias que o moreno tinha naquele momento pararam. Kusakabe engoliu seco e Hibari não gostou nada da maneira como o homem a sua frente passou a mão pelo pescoço. Aquela estranha sensação tornou-se ainda mais forte.

- O que aquele idiota quer? — O moreno foi direto. Tudo o que ele queria era que aquela sensação ruim desaparecesse.

- R-Romário ligou. Ele está tentando falar com você desde o começo da manhã. — A voz de Kusakabe soava clara, direta e extremamente alta. As seguintes palavras atingiram os ouvidos de Hibari como se tivessem sido ditas bem devagar, em uma velocidade absurdamente torturante — Dino foi atacado. Ele foi gravemente ferido no meio de uma missão. Romário queria avisá-lo sobre o Hospital em que ele está e seu estado. Insisto, Kyo-sama, atenda ao telefone.

O coração do Guardião da Nuvem parou.

Ele prometeu a si mesmo sete anos atrás que nada mudaria.

Ele disse a si mesmo que só permitiria que aquele homem entrasse em uma pequena e tímida parcela de sua vida.

Ele repetiu diversas vezes que tudo aquilo era passageiro. Que um dia cada um seguiria seu próprio caminho. Eles não eram "a longo prazo".

Ele negou veemente todas as confissões e declarações que recebeu.

Ele jurou que nunca mais se importaria com ninguém além de si mesmo.

Então por quê? Por que seu corpo moveu-se rápido na direção do escritório? Por que seus passos o levaram a fazer aquele caminho? Por que seus lábios proferiram a única pergunta cuja resposta importava mais do que qualquer outra coisa no mundo?

- Ele está vivo?

Não. Aquela não era uma pergunta.

Em seu peito aquela era uma afirmação. Uma busca por uma confirmação.

Diga que ele está vivo.

A voz do outro lado respondeu.

O moreno ouviu meia dúzia de palavras, anotou três. Cidade, Hospital, número do quarto.

O telefone foi desligado. O Guardião da Nuvem ficou de pé, deixando o escritório. A distância até seu quarto nunca pareceu tão longa. Seu terno estava no armário, seus sapatos do lado de fora, e Kusakabe já descia os degraus da longa escadaria, pronto para esperar seu Chefe próximo ao carro.

Trinta minutos até o aeroporto. Mais de vinte horas de vôo. E tudo o que Hibari conseguia pensar era no barulho incessante do telefone que tocou durante todo o dia, e nas palavras que Dino merecia ter ouvido na semana anterior.

Continua...