MinarFic

12 Surpresas


Era uma noite quente lá em Edelstein. Faltava pouco para a meia noite, por isso a cidade estaria praticamente deserta. O toque de recolher era às dez horas da noite.

A cidade era praticamente a sede dos Black Wings, por isso, era uma das poucas que não tinham um portal para o MinarForest. Por esse motivo, Thugles, Arroiz, Davien, Sheddeer e Vampiritico estavam indo de navio.

A viagem durava várias horas. Nuck havia dito "oito da noite" na Sala de Reuniões apenas como referência, e porque sabia que Kleber estava lá dentro ouvindo tudo. Ele confiava no amigo, mas sabia que quanto menos pessoas soubessem, melhor. Eles saíram logo após acabar a reunião, no navio favorito de Thugles, junto com uma tripulação de quarenta remadores. Fizeram uma parada em uma pequena vila na costa dos montes de El Nath após quase oito horas no navio, para descansar. Thugles era o único que parecia estar curtindo a viagem.

-Não sei como você aguenta — Davien tinha dito quando finalmente desceram nas geleiras, sacudindo o corpo molhado por causa das ondas que frequentemente encharcavam o navio — Água salgada, o navio balançando e esse cheiro desgraçado de homem suado.

-A gente se acostuma — respondera o pirata, firme e inabalável no leme do navio — E não é tão ruim assim. Navios geralmente levariam umas trinta horas pra chegar até aqui, e além disso, do que você está reclamando? Não falta comida, muito menos conforto, e temos rum suficiente pra você desmaiar.

Thugles não bebia, mas a maioria dos piratas sim. Davien apenas resmungara. A "comida" era boa — assados de carneiro com frutas e legumes — mas depois que isso acabava, o que sobrava era um biscoito duro, simples e nada atrativo. Quanto ao conforto, o navio era pequeno, e as bordas dos dois lados eram plataformas elevadas, onde ficavam os canhões. Logo abaixo deles, o navio tinha uma cavidade onde ficavam os remadores. O que tornava o navio rápido era que os remadores, além de ficar sentados remando, também usavam as pernas: o navio tinha um dispositivo de motores que eram como ventiladores, acionados por pedais. Por isso, os remadores remavam com os braços e pedalavam com as pernas. Isso praticamente dobrava a velocidade do navio.

Se entrasse algum remador gorducho ou fora de forma na tripulação de Thugles, ele não ficava assim por muito tempo.

Mas naquele dia, os remadores haviam sido poupados. O vento era bom e soprava a favor de onde queria ir, de forma que eles trabalhavam poucos minutos por vez. O centro do navio era apenas um espaço plano de madeira, com um alçapão que levava para os cômodos. Havia uma cozinha, uma despensa e uns seis quartos, cheios de camas para a tripulação e os visitantes, com janelas redondas de vidro para que se pudesse ver o mar. Não que o capitão tivesse um quarto próprio. Thugles dormia em uma das camas como todo o resto da tripulação.

Mas os cômodos ocupavam apenas uma pequena parte do navio. Abaixo deles, a parte que ficava abaixo da linha da água, era constituída de seis imensos compartimentos vazios, que ocupavam, mais ou menos, 80% do navio. Eram projetados em caso de inundação, e eram o que mantinha a embarcação flutuando e não o deixava afundar com as ondas. O navio conseguia flutuar com até dois deles completamente inundados por água.

Finalmente, chegaram a Edelstein. Pararam em uma praia, a poucos metros de pequena floresta de pinheiros. O plano era simples: atacar um pequeno posto de escuta Black Wing perto dali, passando pelas árvores. Quando começassem a revidar em massa, fugiriam.

O navio de Thugles, por ser pequeno e mais leve, conseguia flutuar perto da praia sem encalhar. Mesmo assim, todos pulariam e percorreriam os últimos metros até a praia em um bote, para poderem fugir rapidamente sem precisar estacionar a embarcação.

-Realmente não é o meu estilo de ataque — suspirou Davien, grato por descer do navio — Praticamente um dia inteiro num navio imundo("Ei, a gente limpa ele três vezes por mês", protestou Thugles"), depois lutar um pouquinho, fugir e voltar pro mesmo navio. Por que a gente não pode ficar aqui e destruir todos eles de uma vez?

-Estamos muito perto da base principal deles — lembrou Sheddeer, olhando o cume da Verne Mine, que era visível mesmo àquela distância — Só nós quatro, contra centenas de homens fortemente armados, sem falar nos robôs e nas armadilhas que, é claro, eles têm pra defender a base.

-Foi praticamente o que eu disse a uns escritores de fanfic — interpelou Thugles — Só que na história tinha metade dos adolescentes que temos aqui.

-E além disso, eu tenho que dizer exatamente onde vocês estão, para que eles não suspeitem de nada — completou Vampiritico — Você quer mesmo entrar num lugar fortemente guardado, sendo que eles sempre vão saber exatamente onde você está, e sem efeito surpresa? Porque eles sabem que estamos aqui.

Davien suspirou, mas cedeu. Ele sabia que seria imprudência atacar a principal base Black Wing com pouca gente. Na verdade, ele dizia isso porque passar mais de dez horas em um navio o deixava bem entediado.

-Seguimos o plano, então — disse Thugles. Então alteou a voz: — Ei, pessoal, podem sair!

Mais ou menos uns noventa alunos das seções Pirate e Warrior saíram do navio, ansiosos. Vinte deles eram aprendizes de Arroiz, o resto era a grande maioria da seção Pirate, que Thugles levara apenas para uma aula prática de navio. Também ajudariam a defender os outros caso algo saísse errado.

-Escutem — ele disse para a turma desorganizada de piratas — Vocês trabalharam bem, claro que eu ia dizer isso. Mas fiquem com armas a postos, pode ser que precisemos de ajuda. Quanto aos outros... — ele olhou para os corpulentos guerreiros de armadura e armas pesadas ali — Bem, não sou eu quem decide, então Davien... ah não, desculpa, Dave não é mais tutor, agora é o Arroiz.

-Vamos fazer um ataque falso — disse o Tutor Warrior calmamente, enquanto Davien fazia cara feia para Thugles — Atacaremos alguns monstros, e então, quando começarem a vir em maior número, recuaremos. Entenderam?

Alguns deles resmungaram. Era óbvio que a maioria ali partilhava da mesma opinião do antigo tutor Warrior. Recuar não era uma ação que eles gostavam de tomar. Isso fez Arroiz ter que repetir a última palavra, em um tom totalmente diferente. Os resmungos foram substituídos por "Sim, senhor!"

-Bem, então vamos nessa — disse Davien, ansioso para entrar em ação.

Não havia muito a dizer. Thugles, Davien, Arroiz e os vinte aprendizes se dirigiram ao posto mais próximo, que ficava bem perto das árvores onde estavam escondidos. Era uma construção do tamanho de uma casa de dois andares com antenas saindo do teto, enquanto Vampiritico ia atrás, informando as posições deles aos Black Wings. Assim que saíram das árvores e ficaram a pouco mais de vinte metros do local, o primeiro monstro chegou.

Era um Taurolança, mas eles esperavam isso. Um único golpe da imensa polearm de Davien bastou para desintegrá-lo.

Aquilo era apenas o começo. Saíram uns cinco Taurolanças e Tauromacis, bem como uns vinte robôs. Eles eram cilindros de metal com pernas e braços que carregavam espadas, mas as armas dos guerreiros conseguiam perfurá-los.

Bradando animados, eles atacaram. Um deles usava uma lança simples, e destruía vários robôs a uma certa distância. Outro levava uma espada longa, e a maioria dos outros usava uma espada comum e um escudo. Parecia não haver chance para os inimigos.

Entretanto, aquilo era apenas o começo. Como todo bom oponente, eles estavam enviando um grupo de reconhecimento primeiro — não que fosse necessário, pois tinham Vampiritico informando a quantidade exata de atacantes. Ele não podia mentir, pois descobririam facilmente.

Mas os guerreiros pareciam dispostos a continuar. Não importava quantos robôs apareciam, os aprendizes não desistiam. Então, Vampiritico arregalou os olhos ao receber uma informação nova do chefe, e imediatamente cutucou Thugles, que acertava os inimigos com sua longa e fina espada.

-Precisamos voltar — disse ele, com urgência. Davien, que estava próximo, despedaçou dois robôs e se virou para olhá-lo.

-Voltar? Está maluco? Pelo menos deixa a gente...

-Dave, nós temos que voltar, é foi uma armadilha!

-Claro que foi uma armadilha, sabíamos isso desde o...

-Tropas, recuar! — berrou Arroiz, que parara pra ouvir. Davien o olhou, incrédulo.

-Não, fiquem! — disse ele, no mesmo tom — Não vamos nos acovardar, não agora!

Os outros continuavam a lutar, mas sem saber qual lado seguir.

Vampiritico o olhava desesperado.

-Davien, precisamos voltar! Eles vão...

-Quem é o guerreiro aqui? Estes são guerreiros. E eu digo o que...

-Eu sou o Tutor Warrior — interrompeu Arroiz — E eu estou dizendo para meus alunos voltarem. Isso vale pra você também, Davien.

Os outros não hesitaram em obedecer. Davien franziu a testa para ele, mas o olhar de Arroiz era firme. Como todos estavam voltando, Davien não teve escolha senão seguí-los, embora não estivesse nem um pouco feliz com isso.

Enquanto corriam, puderam ouvir os gritos de triunfo e de desafio dos Black Wings na casa. Vampiritico dizia ao chefe que eles haviam decidido recuar imediatamente, e aparentemente recebeu ordem de ir com eles, porque foi um dos primeiros a entrar no bote.

-Não acredito que estamos voltando! — reclamou Davien assim que pisaram no navio — Como podemos... ei, o que você vai fazer?

Ele olhava para Sheddeer, que usava uma balestra com mira telescópica que não fazia nem de longe o tipo dele. O rapaz o ignorou, concentrado em mirar um ponto na praia. Ele disparou uma seta estranha — a ponta era um cilindro vermelho, feito aparentemente de vidro — depois recarregou, e disparou outra, e outra, e mais outra.

Ouviram gritos vindo da praia, e todos se viravam para olhar. Não dava pra ver o posto de escuta dali por causa das árvores, mas conseguiam ver a luz e a fumaça das chamas que queimavam alguma coisa.

O posto de escuta Black Wing.

-Achei que seria melhor termos algum progresso — ele disse simplesmente, guardando a balestra — Mas por que voltaram tão rápido?

Davien apontou para ele.

-É exatamente isso que eu estava perguntando! O Vampy deu chilique e quis que a gente voltasse de repente, sei la por...

-Foi tudo uma armadilha — disse o garoto, sombrio, assim que todos os aprendizes foram para o andar de baixo — E foi tudo minha culpa. Quando eu disse que viria com três tutores e mais um dos melhores guerreiros, eles aproveitaram a oportunidade. Estão enviando um ataque em massa contra o fórum.

Os outros arregalaram os olhos.

-Nunca vamos chegar lá a tempo! — exclamou Thugles.

-Eles saíram faz umas seis horas — tornou Vampiritico — Em navios muito mais pesados do que esse. Vão demorar um pouco mais, nós podemos alcançá-los!

Mas Thugles balançou a cabeça, pesaroso.

-Não, seis horas é uma vantagem muito grande, até mesmo pra este navio. Mas talvez possamos ir mais rápido.

Ele ordenou aos remadores que começassem a remar o mais rápido possível. Em seguida ele foi ao alçapão que levava aos andares inferiores, enquanto os remadores, que viajavam sentados em seus lugares mesmo quando não estavam trabalhando — o lugar dos remadores era bem espaçoso e confortável — pegaram os remos e começaram a remar e a pedalar. Logo depois, Thugles voltou com dez dos piratas mais fortes que estavam no navio.

-Trabalho pra vocês — ele disse — Tem uns pedais ali atrás, achem eles e pedalem.

Eles foram para a parte de trás do navio. Ali, havia duas imensas tampas de madeira, uma de cada lado, e foram necessários os esforços de cinco para levantar cada uma. Lá dentro, havia um buraco com exatamente isso: cinco aparelhos para pedais, em cada buraco. Eles desceram e pedalaram, e a velocidade do navio aumentou, embora fosse impossível de perceber.

-Motores extras — Thugles explicou — Queria que a gente tivesse trazido o Nick. Ele poderia conjurar uns ventos pra deixar ainda mais rápido. Desse jeito, vamos chegar lá pras nove na manhã.

Ele olhou para cima, triste. As imensas velas do navio estavam guardadas, pois o vento soprava para oeste.

-Por que eu mesmo não pedalo? Posso remar e pedalar ao mesmo tempo, seria bem mais rápido — sugeriu Davien. Thugles deu um sorrisinho.

-Não, é melhor os remadores. Não se trata apenas de força física, tem que ter toda uma coordenação pra remar no ângulo certo, e ainda pedalar. Além disso — ele continuou, mordaz — Vai ser melhor a gente poupar os lutadores.

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Eram seis horas da manhã quando o ataque começou.

-Eu estou dizendo — dizia o guerreiro de armadura estranha — Eu posso...

Mas Nuck negou veementemente.

-Não, você fica aqui. Não está em condições de fazer nada. Eu vou achar um jeito de te ajudar, espere por mim aqui.

O homem resmungara, mas aceitou a oferta. Naquela manhã, um guerreiro havia entrado no fórum, sem registro nem nada, pedindo ajuda. Nuck ouvira toda a história, e não era capaz de acreditar quem era o homem parado à sua frente...

Mas então, os alarmes soaram. Os radares diziam centenas, milhares de monstros se aproximando da fronteira do fórum, pelo mar e pelo norte. O estranho queria ajudar, mas era óbvio que não estava bem. Estava ligeiramente pálido e suado, e parecia bastante cansado. Parecia que estava apenas esgotado fisicamente, mas Nuck sabia que não era verdade. Aquele era o cansaço que se via ao usar muita magia.

Mas ele teria que pensar naquilo depois, por isso, ele deixou o homem na seção hospitalar, com uma pedra de cura que lhe ajudaria a recuperar a força. Então, foi para fora, junto com os tutores que estavam ali, analisar a situação.

Centenas de Wyverns cruzavam os céus, e as armas de Vampiritico não eram o suficiente. E Nuck não deixou de perceber que algumas delas não funcionavam como deveria. Mesmo assim, ele fizera um bom trabalho. Metade dos Wyverns paravam em pleno ar, e dessa vez, apenas um pequeno número de armas antiaéreas havia falhado.

Ainda assim, metade conseguia passar. E a situação só piorou quando centenas de navios começaram a chegar pelo mar, e somente então Nuck percebeu a imprudência — não, a burrice — que tinha sido enviar o único responsável pelo mar que tinha. Como ele não pensara nisso? E agora, estava sem seus dois melhores guerreiros, e sem seu melhor atirador.

E sem os tutores, não havia aula. Ou seja: não havia nenhum guerreiro, pirata ou arqueiro no MinarForest naquele momento.

-Fiquem todos juntos — disse ele, para os únicos tutores que restavam ali: Nick e Donnie. Os aprendizes da área de Magician também estavam ali, assim como alguns da área de Fanfics, que sabiam lutar.

Nuck agradeceu aos céus por ainda dar ouvidos a Kleber. A sugestão dele, que Nuck não gostara nem um pouco, tinha sido fechar o fórum durante todo o final do ano. A desculpa seria "fechamento para as festas de fim de ano", mas na verdade, seria para proteger os membros dos ataques. Nuck a princípio não concordara, mas sabia que seria o melhor a fazer, não poderia se arriscar a ter o fórum atacado com milhares de pessoas ali.

E Kleber estava certo, como sempre.

Mas Nuck não concordara totalmente. Ele decidiu deixar abertas as aulas, de modo que os aprendizes dos tutores que não haviam ido à Edelstein — Fanfic e Magician — estavam ali. Nick liberou os mais jovens e deixou apenas os maiores de dezesseis anos, sem contar ele próprio — e Milena.

Milena nunca obedeceria, por mais que ele mandasse.

-Fogo e raio juntos podem ser muito ruim — disse ela, indo na direção de Iskander. Prepararam duas Torres Temporárias: Elétrica e de Fogo. Eles atacariam sempre juntos, criando o "efeito backlash", que acontecia com fogo e raio juntos. Eletrocutar um inimigo pegando fogo. Mesmo assim, haviam muitos deles. E eles ainda tinham a Guarda Oficial. Trinta e cinco homens armados, não era muito, mas eram alguns dos melhores alunos de Arroiz.

As minas de Thugles se ativaram, entretanto. Ele não deixara o fórum completamente desprotegido. Mas isso apenas os atrasou um pouco, pois os Tauros — milhares deles — iam nadando enquanto os navios afundavam.

-Humanos — disse Donnie, em alerta — Vou checar os alarmes e ver se estão tentando nos surpreender pela floresta.

Ele pegou cinco dos guerreiros da Guarda, e se foi. Nuck assentiu, e ergueu-se no ar até ficar a trinta metros do chão.

Ele girou os dois braços, e círculos de energia roxa do tamanho de rodas-gigantes apareceram onde os braços dele giravam. Grunhindo, ele esticou o braço direito para atirar o primeiro círculo na direção da massa de Tauros que chegava pelo mar, em seguida atirou a outra. Os aprendizes de Magician gemeram, admirados.

Mas Nuck estava apenas se aquecendo. Ele juntou as mãos como se fizesse uma prece, e a figura de uma mulher apareceu ao redor dele, como se fosse um holograma. Perplexos, entenderam que ele estava convocando a próprio poder de uma deusa. Ela sumiu, mas o bruxo agora estava com uma aura dourada ao redor.

Ele colocou as duas mãos à frente, lançando um raio de luz verde tão poderoso que deixou marcas na terra onde atingiu. Os Tauros, já em terra, tentaram se desviar, em pânico, mas eram muitos e não havia como dezenas deles evitarem ser desintegrados pelo raio.

Veja bem, não é todo mago que consegue afastar uma invasão como aquela. Magia consome muito poder, e poucos conseguem fazer como Nuck, jogar todas aquelas magias ao mesmo tempo. Mesmo assim, havia milhares, dezenas de milhares de mosntros. E não eram apenas Tauromacis e Taurolanças que estavam ali. Dessa vez, eles haviam trazido os Córneos.

Aqueles ali eram Córneos Azuis. São répteis de cor azul-escuro desbotado, com a barriga branca e a mandíbula inferior também branca. As pernas eram grandes e tinham pés com três dedos que terminavam em garras grossas. A pele era dura, tinham uma cauda grossa e musculosa, assim como os braços, que carregavam longas lâminas duplas. A cabeça era achatada como a de uma cobra, e ele tinha longos chifres brancos inclinados para trás, que faziam uma curva suave como uma onda. No topo da cabeça, tinham três prouberâncias que mais pareciam pedras de rio incrustadas no crânio, mas que ajudavam na hora de dar cabeçadas. Os olhos eram verde-escuro, como de réptil. São encontrados em Leafre, e são muito inteligentes, embora geralmente sejam agressivos.

(No jogo, eles usam uma ombreira, não confunda)

-O que diabos é aquilo? — disse um dos guardas, sem acreditar no que via.

Havia um outro tipo de Córneo entre os atacantes. Eram idênticos aos outros, embora o cinza substituísse o azul. A cauda tinha protuberâncias, e no lugar das "pedras" na cabeça, ele tinha três espinhos longos e afiados. Os chifres eram mais curtos mais retos e cum apenas uma curvinha na ponta. Carregavam cimitarras, um tipo de espada curva, com várias pontas na lâmina, como uma faca serrilhada que estivessem faltando alguns dentes. Eles tinham pequenas asas de morcego nas costas, tão curtas que não pareciam capazes de erguê-los no ar.

E ainda tinha os olhos — brancos, sem pupila, sem nenhuma emoção.

-Aqueles não são Córneos naturais — comentou outro deles, com desprezo — São obra dos Black Wings.

Eles estavam a menos de quinhentos metros do fórum. Nuck tinha instalado o sistema de alarmes a dois quilômetros de distância, mas o MinarForest ficava perto do mar. Era o caminho mais curto até ele. Mas não costumava ser um problema, já que o mar estava geralmente cheio de minas e com uma esquadra de piratas armados com canhões. Havia centenas de navios do MinarForest, mas sem os piratas para comandá-los, eles eram inúteis. Só restavam as borrachas grudentas que apenas afundavam os navios inimigos.

Os monstros estavam ganhando terreno. Nuck esforçava-se ao máximo, mas não conseguia deter todos. Então, um raio flamejante saiu de um ponto atrás dele, explodindo ao cair na tropa de monstros, o que desintegrou vários deles. Em seguida, uma nuvem de gelo cobriu boa parte deles, e várias nuvens cobriram a tropa, lançando raios aleatórios nos monstros.

Os magos faziam o que podiam para retardar os monstros à distância, mas ainda tinham os Wyverns. Negros, Vermelhos e Azuis, todos eles, juntos, os que as armas de Vampiritico não eram capazes de impedir. Milena e Iskander resolveram voltar a atenção para eles, assim como as tropas de guerreiros, que estavam sem ação até aquele momento.

Os Wyverns voavam, tentando atacá-los com as bocas cheias de dentes. Raios saíam do mago mais velho, enquanto Milena atirava pedras flamejantes, que não davam tanto resultado porque os dragões se desviavam. Mas os raios de Iskander eram outra coisa. Poucos conseguiam desviar deles, mas ainda assim, eram muitos.

Os guerreiros tentavam atacar, os Wyverns voavam alto demais. Eles mergulhavam, tentando surpreendê-los, de forma que os guerreiros podiam apenas se defender. Os dragões evitavam atacar os que usavam lanças. Eram longas e podiam alcançá-los, por isso eles se concentravam nos que usavam espadas ou machados curtos.

-Se eu tivesse uma polearm que nem aquela do Davien — lamentou um dos guerreiros pulando e conseguindo fazer apenas um corte no pé de um Wyvern azul.

-Você não conseguiria nem levantá-la — grunhiu Amos em resposta, usando o machado para se proteger de um monstro vermelho.

Eles continuavam a se defender, mas sabiam que não poderiam continuar com aquilo pra sempre. Um dos Wyverns, um azul, havia mergulhado em direção a um aprendiz de Fanfic, que era também guerreiro. O rapaz havia sido lento demais, e o monstro abocanhara a cabeça dele em um piscar de olhos.

Ele voou para longe, mastigando satisfeito. O escudo e a pequena espada do rapaz caíram, em seguida o corpo, manchando o chão do fórum com sangue, enquanto os outros o olhavam horrorizados.

Era a primeira morte que a maioria tinha presenciado.

-Eu tive uma idéia! — gritou um dos adolescentes momentos depois, que tinha cabelos laranja despenteados — Sigam-me!

Ele correu para longe, e os outros o seguiram. Era isso ou continuar parados se defendendo dos ataques, como se fossem minhocas com escudo se protegendo dos passarinhos.

Ou então, acabar como o pequeno aprendiz de Tutor Fanfic.

Os Wyverns guincharam em desafio, e os outros foram atrás deles. Um dragão negro chegou perto do rapaz que dera a idéia, e estava pra pegá-lo por trás...

Repentinamente, o garoto fincou os pés no chão, e se virou, a lança estendida na direção do monstro. A lâmina azul se enterrando no corpo dele quase até o cabo. Subitamente, o Wyvern congelou. Literalmente.

O monstro não se desintegrou imediatamente, mas caiu no chão, quebrando-se em pedaços. Ele ficaria ali até o gelo derreter e ele se desintegrar.

Os outros monstros uivaram, e foram todos em direção ao menino. Os outros guerreiros gritavam, tentavam distraí-los, mas todos pareciam concentrados naquele rapaz. Wyverns gostavam de desafios, e aquele rapaz tinha ousado matar um deles. Não era como Milena ou Iskander, que eles não poderiam se aproximar. Aquele era um rapaz parado no meio da grama. com uma lança azul na mão.

O menino colocou a lança nas costas e desatou a correr. Os Wyverns guinchavam, seguindo-o, alguns poucos caíam pelos raios dos magos atrás dele, mas dezenas continuavam...

Os Wyverns estavam ainda a alguns metros de distância, quando chegaram perto demais da fronteira do fórum. Imediatamente, as armas de Vampiritico voltaram a funcionar.

Dezenas de tiros por segundo, nos que estavam perto demais. Os Wyverns tentaram recuar, mas era tarde demais. A maioria foi atingida pelas balas, os corpos imensos se desintegrando no ar. Uns cinco conseguiram recuar, mas apenas para serem estraçalhados pelos vinte e oito guerreiros que estavam logo atrás.

Não demorou até que a área estivesse limpa de dragões.

-Bom trabalho — disse um deles, dando tapinhas nas costas do rapaz — Não sei como ninguém mais pensou nisso.

-Obrigado — ele sorriu, cansado — Pensei que os dragões também não pensariam nisso. E aparentemente, deu certo.

Eles poderiam comemorar ali mesmo, mas aquela era apenas parte da invasão. O verdadeiro perigo estava nos milhares de monstros que se aproximavam pelo mar.

-Agora sim, vamos poder lutar de verdade — disse um homem negro, careca e de barba curta. Usava um imenso machado de duas lâminas, e foi um dos primeiros a voltar ao campo de batalha.

Nick e seus magos ficavam à distância, lançando todo tipo de magia que aparecia nas cabeças deles para conter o ataque. Muitos erravam, era óbvio que a maioria ali nunca tinha visto uma invasão tão grande, mas como não precisavam ficar muito perto dos inimigos, eles faziam o que podiam. E Nuck ficava sempre no ar, lançando bolas de energia, discos e raios, que matavam várias dezenas de uma vez. Sete anjos com espadas douradas voavam ao redor, retardando ainda mais a massa de Tauros e Córneos.

Isso impedia que eles se aproximassem do MinarForest. Mas claro que alguns conseguiam passar, e esses, os vinte e nove membros restantes da Guarda Oficial tratavam de destruir. Monstro atrás de monstro, Tauro ou Córneo, caía quando enfrentava toda a equipe.

Alguns deles saíam feridos, mas Nuck se teletransportava e o curava rapidamente. Desde a primeira invasão, quando Arroiz quase morrera, ele agora tinha um aparelho que, sempre que algum tutor ou alguém da Guarda precisasse de ajuda, ele chamava. Mas Nuck também não era tão milagroso. Alguns tinham que ser retirados do campo de batalha por ferimentos mais sérios, mas os outros continuavam a lutar. E a tropa de inimigos também, para cada um que caía, mais dois tomavam o seu lugar...

A luta continuou por várias horas. As tropas dos Black Wings continuavam chegando de navio, e pareciam infindáveis. Não teria como continuarem com aquilo. Vários magos haviam se retirado do local, pois estavam esgotados. Milena estava dormindo profundamente — desmaiara de cansaço. Nick e Iskander eram uns dos poucos magos, sem contar Nuck, que não parecia estar cansado, mas não conseguiria sozinho.

Eles estavam começando a perder. E os monstros Black Wings continuavam chegando.

Um homem que usava machado quase havia perdido o braço e teve o corpo perfurado pelas duas espadas de um Córneo alterado pelos Black Wings, e Nuck precisou levá-lo até a seção hospitalar, desfalcando ainda mais a Guarda Oficial, que agora só tinha doze homens de pé ainda lutando.

Nuck percebeu algo errado, quando o deixou na seção hospitalar repousando, mas não sabia o que era. Somente quando se lembrou que ele era guerreiro, foi que ele se deu conta que o homem de armadura não estava mais lá.

Nuck voltou para o campo de batalha, mas não havia sinal do homem. Ele suspirou. Talvez ele tivesse voltado para casa, depois de ter se recuperado. O bruxo pensou que ele iria para o campo de batalha, mas não o via em lugar nenhum.

Dez minutos depois, ele apareceu.

Seu corpo estava praticamente todo coberto por uma armadura prateada e cheia de detalhes dourados. Não usava capacete. Sua arma era uma lança ornamentada, a lâmina era prateada e em forma de folha, parecendo uma seta, com detalhes dourados onde a lâmina encontrava o cabo, mas ela brilhava como se fosse nova... não, como se fosse mágica. Ele gritou um desafio e começou a atacar.

Então, até os magos pararam quando reconheceram a figura. Era o lendário guerreiro de Leafre, que havia aprendido em Ereve com o próprio Mihile, o Cygnus guerreiro da Luz. Ele era conhecido apenas como Duh. Muitos não o viram havia vários anos. E ali estava ele, em pessoa, vestindo sua armadura e empunhando sua lança que começava a brilhar com uma luz muito intensa, e os inimigos recuavam, como se a própria presença do homem os intimidasse...

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Donnie estava certo em verificar. Cerca de cem Black Wings tentavam entrar pelo lado oposto de onde acontecia a luta.

Eram a maioria homens, mas também haviam mulheres. Todos usavam casacos e calças pretas com botões dourados, e os chapéus Black Wings. O Tutor Fanfic olhou com desprezo para aqueles chapéus, inevitavelmente se lembrando de um que vira anos atrás, aos pés da estátua de uma deusa em Orbis...

E todos eles estavam armados, e agora que viam que teriam que enfrentar seis homens, um deles um rapaz, não puderam deixar de sorrir.

Donnie se virou para os cinco homens perto dele.

-Vocês sabem porque chamei exatamente vocês aqui? — ele olhou para cada um deles. Todos usavam espadas curtas e escudos, mas não era essa a semelhança entre eles. Todos eles eram veteranos de alguma guerra, e as cicatrizes em seus rostos lhes dava uma aparência um pouco mais durona.

Ainda assim, não era esse o motivo de Donnie tê-los chamado.

-Não hesitamos — disse um deles, um alto de barba curta e cabelos em estilo militar — Estamos prontos para lutar, não é, homens?

Os outros bradaram em concordância. O homem que falara havia sido um general da guarda de Warrior antes de decidir ir para o MinarForest, mesmo que aquilo significasse recomeçar como recruta.

Donnie deu um sorriso maldoso. Escolhera-os, principalmente, por esse motivo. Não estavam apenas prontos para lutar, mas sim, porque não hesitariam em matar.

-Então vamos.

Eles se viraram e se preparam para atacar. Ou melhor, defender. Quando a tropa de Black Wings saiu correndo na direção deles, Donnie agiu.

Ele juntou as mãos em uma prece, da mesma forma que Nuck havia feito, só que conjurando um anjo. Estranhamente, não era tão angelical quanto o do líder. O de Donnie era uma mulher dourada, com uma espada um pouco mais longa, mas as asas eram finas e pareciam mais asas de dragão. E os olhos também não eram nada angelicais.

O "anjo" foi até os Black Wings, golpeando e dilacerando com a espada. Arrancava cabeças, perfurava corpos, cortava membros e dilacerava tudo o que atacava. Dez Black Wings foram mortos dessa maneira antes do anjo finalmente ser dominado e destruído.

Aproveitando a distração, os outros atacaram. Defendiam-se com os escudos e procuravam brechas na defesa dos inimigos com as espadas curtas, enquanto Donnie estava um pouco mais longe. Ele conjurava flechas douradas que desapareciam alguns segundos depois de se cravarem nos oponentes.

A luta continuou, com o MinarForest no controle. Podia parecer estranho, seis contra quase cem, mas aqueles guerreiros tinham crescido em Perion, todos eles. Tinham uma ensinamento muito simples: "Você acha mesmo que vai entrar na batalha e matar apenas uma pessoa? Quantos você espera matar, no mínimo?"

A maioria sempre pensava em uns cinco ou seis. Pensando dessa forma, se cada um ali matasse cinco, seriam vinte e cinco Black Wings mortos. Mas aqueles eram a elite. Donnie, como Tutor Fanfic, sabia de cada documento, cada medalha que eles haviam merecido, e sabia que estava com cinco dos melhores membros da Guarda Oficial do MinarForest.

E ainda tinha o próprio Donnie. Atirando flechas e convocando novos anjos, sempre salvando o máximo de energia possível. E sempre que ele matava um, um sentimento de poder aumentava em seu peito. Ele não sabia bem o que era, mas estava se divertindo... ver as flechas se enterrando nos corações dos inimigos, ouvir os gritos e ver o sangue escorrendo das vidas que ele tirava, era algo...

Ele balançou a cabeça. Uma voz em sua mente lhe dizia para parar, mas ele não queria... precisava continuar, precisava lutar...

Ele viu quando um dos guerreiros caiu, uma espada enfiada bem no braço direito. Mais dois Black Wings se preparavam para atacá-lo, mas o general o havia salvado. Matou os dois Black Wings, mas outros foram revidar.

Donnie foi mais rápido. Flechou os que estavam próximos dos dois, e imediatamente se aproximou do homem ferido. Segurou o braço dele com força, e o ferimento se cicatrizou em poucos segundos.

Curar o homem, entretanto, o havia ajudado a recuperar o controle. Como pudera sentir toda aquela vontade de matar? Ele percebeu que não estava mais fazendo aquilo apenas para defender o fórum. Estava matando por prazer.

Era como se a magia negra dentro dele estivesse lutando mais uma vez...

"Preciso me controlar", pensou ele. Mas não tinha como evitar o que fazia. Os inimigos lutavam, e Donnie decidiu que era hora de parar de ficar à distância. Ele arranhava o ar com o cajado, mas sempre que fazia isso, três raios de luz circulares surgiam do lado do outro, e acertavam o inimigo como se fossem garras.

-Garra Arcana — disse o homem que estivera ferido, já recuperado e lutando — Nada mal!

-Donnie, você está bem? — perguntou o general, olhando para ele. O Tutor Fanfic suava e ofegava, mas não parecia nada com os sintomas de uma batalha.

-Sim — ele respondeu apenas, embora estivesse com a mente meio entorpecida. Donnie atacava, usando o cajado para criar garras. Então, ele mudou a forma de atacar. Começava a encostar os cajado nos inimigos, e se movia cada vez mais rapidamente, sempre batendo o cajado nos inimigos, até que ele começou a brilhar com uma luz roxa. "Tão fácil..." pensava ele. Ele decidiu contar: quantos segundos levaria para matar dez homens? Ele começou a contar em sua mente, enquanto os acertava...

Porém, depois que o oitavo Black Wing estava caído no chão, ele não encontrou um nono. Olhou em volta, e tudo o que viu foi o fórum, a floresta e os cinco guerreiros estacados no chão com olhar de espanto, cercados pelos corpos de cem Black Wings espalhados pelo chão.

-Como... como você...?

Donnie ergueu o cajado, preparando-se para atacar. Os homens, assustados, ergueram as armas. O garoto os olhava com indiferença, mas então sua expressão foi ficando cada vez mais maligna, mais sádica, mais raivosa...

Mas então, alguma coisa despertou no fundo de sua mente. Aqueles homens à sua frente... ele se sentia mal por matá-los. Não, algo lhe dizia que matá-los não seria bom, porque... Por que?

Ele estava lutando contra a magia outra vez. E por fim, venceu. E Donnie vencer significava desmaiar onde estava, deixando os cinco veteranos muito perplexos, embora vivos.

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O navio de Thugles chegou duas horas depois do final da batalha.

Eles desceram do navio com urgência deixando os aprendizes piratas e guerreiros livres pra circular por ali, embora Thugles estivesse um tanto aliviado.

-Não invadiram o fórum — deduziu ele, contente, observando os navios da seção Pirate, todos parados e intactos — Pelo menos, não pelo mar.

Vampiritico sacudiu a cabeça, confuso.

-Não pode ser. Os Black Wings me disseram claramente que esse seria o plano...

-Não pode ser mesmo — Davien disparou, jogando um saco de arroz vazio na cabeça do garoto — Eu não acredito que viemos aqui pra nada. Eu disse que deveríamo ter continuado!

Vampiritico se livrou do saco de arroz, ainda confuso. O fórum parecia estar vazio, mas Nuck o tinha fechado havia dois dias. Ele parecia intocado, do jeito que esperavam que estivesse.

Então, qual teria sido o problema?

-Acho que eles se perderam ou coisa assim — sugeriu Davien.

Não era o que as imensas manchas de grama queimada no solo diziam.

-Quem sabe? Eles podem...

-Que bom que estão aqui — disse Nuck, materializando-se diante deles e fazendo todos, exceto Sheddeer, pularem de susto.

-Cara, você podia nos avisar quando vai fazer isso! — Vampiritico reclamou, e Nuck olhou sério para ele.

-Fomos invadidos — ele disse, simplesmente — E vocês não vão acreditar. Venham dar uma olhada.

Ele segurou o braço de Thugles e Sheddeer, que se seguraram nos outros três. Ele então se teletransportou.

Foram parar na seção hospitalar. Horrorizados, viram que ali se encontrava mais da metade da Guarda Oficial, assim como alguns outros alunos da seção Fanfic e alguns magos, incluindo o próprio Nick, e Donnie em outra.

-Eles invadiram hoje bem cedo — Nuck contou — Milhares deles. Não paravam de vir, e quase nos liquidaram. Felizmente, tivemos uma ajuda...

Ele apontou para uma cama isolada das demais. Ali, estava um homem de uns trinta e poucos anos, sem barba, de armadura e tudo. A lança estava deitada ao lado da cama, como que sofrendo junto com seu dono.

-Duh — Thugles conseguiu dizer, o que soou bem idiota. Estava completamente abobado — Ma...mas ele...

-O próprio — completou Sheddeer — O lendário guerreiro, o domador de dragões, o Dragão da Luz. São tantos títulos que eu nem sei listar todos.

-Eu acho que "O homem que derrotou HornTail" é o suficiente — comentou Thugles, os olhos fixos na lança do guerreiro. A Lança de Minar.

Até Davien o olhava impressionado.

-Mas... como foi que ele...

-Ele chegou aqui pedindo ajuda — Nuck explicou — Disse que seu poder estava acabando. Eu não acreditei que era ele, mas não havia dúvidas. Ainda mais depois do que ele fez mais cedo.

Duh havia atacado os milhares de monstros praticamente sozinho. Sua lança cortava e perfurava, e espadas de luz surgiam de todos os lados, atacando os inimigos mais próximos.

Houve um momento em que ele atingiu o chão com a lança, criando uma barreira de luz que envolveu centenas de monstros. Então, a barreira se revelou um portal, e milhares de guerreiros, todos feitos de luz, saíram e começaram a atacar. E Duh continuava com sua lança, que agora parecia um círculo, por causa da luz que a envolvia. Ele era rápido, mais do que qualquer outro guerreiro já visto. Aquele era Duh, o Dragão da Luz.

Poucos tiveram a sorte de presenciar o que ele fez em seguida. Ficou parado, e pareceu respirar fundo, para dar um rugido que soou mais alto do que qualquer megafone anunciando reuniões na Sala dos Tutores. A imagem de um imenso dragão surgiu em torno dele, e o som se propagou como um vento que varreu boa parte dos monstros que estavam de pé.

Dizia-se que ele tinha as almas de cem mil dragões, que ele havia matado em suas viagens, dentro dele.

Mas ele havia procurado o MinarForest por um motivo. Ele estava fraco. Por algum motivo, estava perdendo os poderes. Mas Nuck o ajudara a se recuperar um pouco, e seu coração jamais enfraqueceria. Ele usou suas últimas forças para atacar, e matou milhares de Tauros e Córneos, antes de cair no chão, desmaiado.

Ainda havia uns mil monstros, mas Nuck ainda tinha uma carta na manga. Usando seu clássico teletransporte, ele tirou Duh dali, assim como todos os magos que ainda estavam perto. Então, subiu novamente no ar, deixou os monstros se aproximarem um pouco mais do fórum — se afastarem da seção Pirate — para agir.

Ele estava esperando o momento certo. Não iria usar no começo, porque aquela era uma magia antiga e muito poderosa, que consumia muita energia. Se tivesse usado antes, os monstros simplesmente continuariam a chegar, e ele teria que enfrentá-los enfraquecido. Mas agora, os monstros finalmente haviam parado de chegar, por isso, ele se concentrou.

Nuck ficou ereto, as pernas juntas, as palmas das mãos encostadas umas nas outras. Ele abriu os olhos, que brilhavam com uma luz dourado. Mais de trinta nuvens da mesma cor surgiram da mesma altura que Nuck estava, e pareceram se abrir quando jogaram raios de luz em direção ao chão.

A habilidade mais destrutiva de um bispo, Genesis. Ninguém sabia porque tinha esse nome, já que ela trazia muito mais destruição do que origem. Raios de luz, que pareciam imensos pilares de luz dourada, surgiram das nuvens e atingiram o chão. Eles brilhavam com uma luz cegante, e onde ela atingia os monstros, eles gritavam e queimavam. E mais nuvens surgiam, mas pilares apareciam e desapareciam. Por fim, Nuck quase despencou no chão quando todos os monstros sumiram.

Aquela magia realmente consumia muita força. E já fazia bastante tempo que ele não a praticava. Mesmo fraco, ele estava ali na seção hospitalar, ajudando os que haviam se ferido. Não haviam tido mais mortes depois da do aluno da seção Fanfic.

Nuck levou Davien e os tutores, exceto Nick e Donnie que continuavam dormindo.

-Nós precisamos conversar — continuou o líder, olhando sério para eles. Ele explixou tudo, desde o primeiro ataque, os Wyverns, até o Genesis. Exceto Arroiz, que não conhecia muito Nuck, todos os outros(até mesmo Sheddeer) ficaram desapontados por não terem visto o Genesis de Nuck. Então ele continuou — Esse espião aqui no fórum agiu novamente. Foram quase meio milhão de inimigos...

-Mas eles sabiam que nós estaríamos fora! — interrompeu Davien. Nuck o olhou com tanta ferocidade que ele recuou.

-Não estou falando disso — ele então olhou para Vampiritico — Suas armas, Vampy. Elas funcionaram, mas nem todas. Tenho certeza de que, se todas tivessem funcionado, teriam deixado passar menos de um quarto dos Wyverns que passaram.

-Isso é impossível! — discordou o Tutor Fanart — Eu verifiquei todas as armas antes de sair, e...

-Mas eles conseguiram — cortou Nuck — Mas mesmo se suas armas não tivessem funcionado, não acho que teria adiantado muita coisa. Uns Black Wings tentaram a mesma coisa da primeira vez, entraram por um lugar longe da luta, mas Donnie e uns guerreiros da Guarda cuidaram deles. Mas a verdadeira invasão veio pelo mar, e Thugles, você precisa desenvolver um sistema de defesa efeitivo, precisamos...

Mas foi a vez de Thugles olhar para ele, perplexo.

-Nuck... isso não é possível — começou ele.

-Claro que é possível! — explodiu o líder — Não foi você quem quase morreu enfrentando centenas de milhares de monstros, eu estava lutando enquanto você...

-Não é isso! — Thugles gritou. Então baixou a voz — Nuck... aqueles navios parados, são parte do sistema de defesa. Qualquer navio não-autorizado que chegasse a cem metros daqui, eles iriam destruir com canhões, sem falar nas armas fixas da seção Pirate que eu mesmo construí. Por isso eu achei que não haviam invadido pelo mar, porque meus navios continuavam parados no mesmo lugar!

Ele parou de falar, ofegante. Estava assustado. Não que os outros estivessem menos preocupados.

O espião desconhecido havia feito seu trabalho com sucesso outra vez.