MinarFic
13 Pizza Está de Volta
Era a véspera de Natal mais silenciosa da vida de muitos ali. Por ordem de Nuck, o fórum continuava fechado. Vampiritico, naturalmente, consertara os problemas com suas máquinas, e instalara mais dez delas. -Não adianta — dissera ele, na Sala de Reuniões — Eu poderia fazer mil máquinas, mas não adiantaria nada se tem um espião aqui desativando-as. Por causa disso, ele era o único que conhecia as localizações exatas das armas, mas não que isso fizesse muita diferença. Thugles tinha suas próprias armas automáticas fixas, que só ele sabia onde ficavam, mas tambem foram desativadas. Assim como os navios. Eram controlados por computador, o que ia contra todas as suas tradições piratas, mas ele concordara em deixar uma esquadra de navios automáticos para defender o mar. Mas mesmo assim, eles haviam sido desativados, e Thugles era o único que conhecia o jeito que aqueles navios funcionavam.
-Tem que ter sido algué m de dentro, Nuck — Thugles insistiu — Desfizeram todos os códigos de ativação, desativaram todas as minhas armas. Não tem nenhum funcionário com acesso geral, tipo, alguma chave mestra que desligue tudo aqui? -Tem sim. Eu — respondeu Nuck, sombrio — Eu e vocês somos os únicos com poder aqui no fórum... — ele hesitou. Ainda havia um outro, que não era tutor(e nem era Davien), que ele decidiu não mencionar — Os outros, faxineiros, cozinheiros e trabalhadores, são apenas empregados. -Mas isso é impossível — Nick objetou — Isso significaria que o espião é um dos tutores. Thugles e Vampiritico arregalaram bem os olhos e olharam para todos em volta, como se tivessem ligado algum tipo de "Radar anti-espião" Davien se aprumou na cadeira. -Parem de bobeira. A situação aqui é bem séria. Se tem um espião aqui, algum covarde prejudicando o nosso fórum, nós precisamos descobrir. E eu realmente espero qu e não seja nenhum de vocês aqui. Ele tocou o cabo da polearm apoiada na mesa ao lado dele casualmente, mas seu olhar era severo. -O Arroiz é o mais novo aqui — disse Thugles — Mas como ele quase morreu naquele Wyvern, eu não acho que seja ele. E não sei... — ele olhou bem para o rosto franco do rapaz — Ele simplesmente não me parece alguém que poderia nos enganar assim. -Eles nunca parecem — tornou Vampiritico — Olha pra mim. Os Black Wings pensam que sou um rapaz completamente dedicado à causa deles, quando na verdade sou um espião que leva informações falsas a eles o tempo todo. Arroiz olhou para ele. -Você não poderia tentar descobrir quem é esse outro espião, quer dizer... tentar roubar alguma informação, ou... Mas o garoto já negava com a cabeça. -Nem pensar — ele disse firmemente — Se eu for pego tentando descobrir isso... não importa quem eu seja ou o que eu forneça a ele s, eles me matariam na mesma hora. -Não exatamente. Eles iriam te matar depois de arrancar sua pele... fazer você comer seus intestinos, serrar dedo por dedo... — disse Thugles, não concordando totalmente. -Mas sabem, eu não acho que seja alguém daqui dessa sala — Sheddeer propôs, falando pela primeira vez. Todos se viraram para olhar o arqueiro — Pensem bem, todos aqui sabemos que o Vampy é um espião nosso. Se tivesse mesmo um outro espião aqui, ele saberia disso e já teria denunciado o Vampy, não é? Todos ficaram pensativos, digerindo a informação. Fazia sentido. Mas Davien, como sempre, foi um dos primeiros a discordar. -Mas então como a pessoa teria acesso às armas, Shed? -Ela pode ter conseguido algum código, hackeado ou coisa assim. Vocês viram que ele conseguiu desativar as defesas do Thugles e do Vampy, que só eles conheciam. Talvez ele tenha conseguido algum meio de se infiltrar em todas as se ções. -Bom, eu duvido — discordou Davien — Quer dizer, as armas do Vampy sempre deram certo. Como que alguém iria descobrir a localização exata delas, e também as do Thug? -Se ele conseguiu os documentos dos tutores uma vez — disse Donnie, com um sorriso sombrio — Por que não conseguiria desativar equipamentos das seções? Davien não respondeu. Aquilo também fazia sentido. Mas ele acabou percebendo uma coisa a mais na frase. -Ele conseguiu os documentos de todos, disso eu lembro. Mas sabe... — ele colocou a mão no queixo e franziu as sombrancelhas, fingindo estar pensando — Eu sempre me perguntei por que você nunca precisou refazer a seleção pra Tutor Fanfic. E falando nisso, não me lembro de ter visto você aqui no dia que a gente assinou os documentos. Agora todos, exceto Nuck, estavam olhando para Donnie com um quê de desconfiança. Mas o rapaz apenas sorriu. -Eu sou o Tutor Fanfic — ele dis se apenas — De documentos, eu entendo. Acha mesmo que eu ia deixar o meu documento de Tutor espalhado por aí que nem você? Davien abriu a boca para discordar, mas Nuck ergueu a mão para interrompê-lo. A tensão na sala se desfez. Realmente, não era estranho que o Tutor Fanfic, responsável por praticamente tudo que envolvia papéis e escrita, tivesse sido o único a não perder seu documento de tutoria. E além disso, aquela pessoa era o Donnie. -O que importa agora — Nuck continuou, firme como sempre — É que isso tudo já passou. Fomos descuidados uma vez, é verdade. Mas agora, temos os tutores de novo... — ele olhou com tristeza para as duas cadeiras vazias — Exceto pelo de Beginner. Temos até um substituto temporário do Tutor Thief, mas eu logo vou ter que fazer uma nova seleção pra ele.
Ele hesitou um momento, e ficou aliviado ao ver que ninguém falar nada. Ele queria evitar perguntas sobre quem era o substituto do Tutor Thief . Por isso, fazia parecer que era apenas algum amigo aleatório, mas que logo teria a seleção oficial. A maioria ali já tinha ouvido falar de Kleber, e muitos acreditavam que ele havia sido responsável por várias coisas desagradáveis. E se alguém descobrisse... Davien. Principalmente Davien. Se o rapaz soubesse que o substituto the Thief era ele... -O que vamos fazer agora — continuou o líder — É ficar em alerta e nos preparar. Pode ser que eles tentem outra invasão, porque quase acabaram conosco... -Mas dessa vez, não vamos ter o Duh pra ajudar — lamentou Thugles — Eu queria ter visto ele em ação... mas sério, Nuck, você disse que a gente só ganhou por causa dele. E agora que ele está mal... -Vai ser diferente agora — Nuck o tranquilizou — Naquele dia, estávamos sem nossos dois melhores guerreiros, sem nosso melhor arqueiro e sem nosso pirata mais capacitado("Uhuuu!"). Agora temos mais uns cinquenta guerreiros, u ns vinte atiradores e toda a frota de navio do Thugles, pronta pra defender o fórum. Não tem eles darem com você aqui, tem? Ele já sabia a resposta, mas olhou para Thugles como se ainda tivesse certa dúvida. Como esperado, ele quase pulou de indignação. -Claro que não! Eu posso ativar tudo por controle manual, nem que eu tenha que entrar em cada um dos navios para desativá-los. Além disso, eu tenho o meu navio. Está duvidando da minha tripulação? -Claro que não — Nuck até conseguiu sorrir — E nem acho que vai ser preciso. Os Black Wings com certeza vão pensar duas vezes depois que viram Duh aqui. Eles não vão invadir, não tem como eles saberem que o Duh está incapacitado... ah. Ele fez uma careta, e a tensão tomou conta da sala. O espião certamente já teria informado aos Black Wings que o poderoso guerreiro não poderia ajudá-los. -Esse espião tá enchendo o saco já — Davien socou a mesa — Por que não posso separar a cabeça do corpo de todos vocês? Só pra garantir que não é ninguém daqui. -É, vai nessa, ô poderosão! Algumas risadas se fizeram ouvir, exceto Sheddeer, que era mais sério, e Donnie, que era... o Donnie. Mesmo assim, era bom que eles nunca ficavam inibidos com o medo. Sempre achavam um motivo pra rir ou fazer piada. Na hora da luta, não havia ninguém com o moral baixo. Mas claro que, por trás das risadas, ainda havia aquela cautela estranha, aquele medo de tudo dar errado, que toldava todos os demais pensamentos. Claro que Davien não tinha isso. Não era fácil encontrar alguma coisa que assustasse Davien Mascrash. E nem Thugles, de uma certa maneira. Sheddeer achou que era hora de acabar a brincadeira e fazer a pergunta que dominava a cabeça de todos. -E o que aconteceu com o Duh, Nuck? — ele perguntou, na sua voz firme e tranquila de sempre. Os outros se calaram imediatamente, curiosos. Nuck demorou alguns segundos para responder. -Eu... não sei — disse ele, por fim — Ele chegou aqui pedindo ajuda, e parecia bem fraco. Quase desmaiou na minha frente. Eu deixei ele na seção hospitalar e ele recobrou um pouco da força, mas quando ele nos ajudou... não sei — ele balançou a cabeça — Desmaiou e está desacordado até agora. -Eu não entendo — disse Nick — Duh, o cara que derrotou o HornTail sozinho, derrotou uma legião de milhões de monstros com uma só mão e tem as almas de cem mil dragões dentro dele... uns dez mil Taurinhos não deveriam ser coisa fácil? -Sempre soube que ele não era tão bom assim — disse Davien, indiferente. Nuck coçou o queixo. -Boa parte dessas histórias são lendas, Nick. Mas sim, ele é bastante poderoso, mas eu não sei. Nem minha magia adiantou pra curar ele, e ele está lá deitado, na cama da seção hospitalar. -Como se estivesse em coma? — sugeriu Nick. Nuck negou com a cabeça. -Não é isso. Ele respira normalmente, ele fica parado, mas... se fosse isso mesmo, eu saberia. Eu tenho algumas teorias, mas nada se encaixa, não consigo entender o que pode ser. Na verdade ele sabia exatamente o que estava acontecendo com Duh. Mas se os outros soubressem... O silêncio tomou conta do ambiente mais uma vez. Nuck suspirou e se levantou. -Acho melhor a gente encerrar por hoje, então? — os outros assentiram, mas Vampiritico discordou com a cabeça. -Ei, calma aí! — protestou ele — Já tem um tempão que a gente não come pizza. Davien, Thugles, Nick e Sheddeer ficaram repentinamente interessados. Nuck revirou os olhos. -E vamos ficar mais um tempinho — ele disse com firmeza — E se quer mesmo pizza, por que não vai ali na cantina do fórum comprar uma? -Aquilo não é pizza como a que a gente pede — ele suspirou — Pizza de verdade é aquela quentinha... gigante, com as bordas crocantes e com recheio de queijo... -Pare com isso — pediu Thugles — Sério, se o Nuck não vai pedir pizza, não fica me lembrando de como elas são gostosas. -E tem como esquecer? — disse Sheddeer, quando todos se levantavam para sair — Aquele sabor crocante... o recheio perfeitamente selecionado em cima da massa... ah, a massa... -Quase um centímetro de massa crocante coberta com os recheios que a gente quiser, o calor da massa recém-saída do forno, o cheiro que fica dentro das caixas de papelão termais pra conservar o calor... — Davien suspirou. -Eu concordo — acrescentou Arroiz — Realmente, essas pizzas que vocês compram são muito boas. Aonde vocês pedem elas? Por que vocês não contratam o pessoal dessa pizzaria pro fórum? Eles foram conversando e deixando a sala. Apenas Nuck ainda continuava lá. Quer di zer, não exatamente. -Receio de contar o que realmente anda acontecendo com o Duh, hein? — disse uma voz sarcástica. Nuck assentiu. -Ele me pediu pra não espalhar, Kleber. Eu confio neles, mas se soubessem o que deixou Duh incapacitado desse jeito, ficariam relutantes em treinar e melhora suas habilidades. Principalmente os magos, como Nick e Donnie. Kleber apareceu das sombras, usando apenas uma bermuda jeans preta e suas bandagens nos braços. E com o velho sorriso debochado no rosto. -O Nick, talvez. Mas não o Donnie... você sabe por que. Nuck assentiu vagamente. Ele era um dos únicos que sabiam da magia que lutava contra o tutor Fanfic. Ele não sabia muita coisa: Donnie lhe contara sobre uma força que lutava contra ele, mas aquilo era tudo. E ele sabia que Gui, o homem que gostava de vagar pelo Mercado Livre, sabia mais sobre essa magia. Mais até do que o próprio Donnie. A verdade sobre Du h estar inconsciente... se os outros soubessem, teriam medo de aprender novas técnicas e magias. O próprio Nuck era um dos bruxos mais poderosos da região, mas não tinha esse medo. Ele dominava perfeitamente sua magia. Não era como Duh. Duh, cuja magia não havia sido totalmente conquistada por treinamento próprio. Mas aquele era um segredo bem guardado. Se as pessoas soubessem da verdade sobre o lendário guerreiro Duh... -Consegui o que pediu — ele disse entediado, arrancando Nuck de seus pensamentos — Foi fácil, claro. Só deu um pouquinho de trabalho, e aqui está. Ele entregou ao amigo um pequeno frasco com um líquido vermelho e espesso. Nuck o pegou e o guardou no bolso. -Acha que isso vai dar certo? — quis saber Kleber, indiferente. Nuck o olhou. -Eu duvido. Só vai ajudar ele a não morrer, mas não sei mais o que fazer. Agora, falta pegar um pouco de sangue do Leviathan. Se quiser, posso selec ionar alguns da Guarda Real pra... -Não preciso disso — interrompeu o alto rapaz, dando de ombros — Pegar um pouco de sangue... ele nem vai perceber que eu estive lá. Antes que Nuck pudesse dizer alguma coisa, ele juntou os braços, girou e pareceu se desfazer em um tornado, embora o bruxo soubesse que era um truque de camuflagem. Segundos depois, Nuck viu a porta se abrindo aparentemente sozinha e se fechando. "Ele pode não saber teletransportar", suspirou Nuck, "Mas adora uma saída teatral". -------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Davien e os outros tutores andavam pelo fórum, de bobeira. -Acho que vou rever minhas armas — anunciou Vampiritico — Não que adiante, já revisei elas umas cem vezes, mas como ninguém tem nenhuma sugestão mais...
-Pizza — disse Thugles, estacando no chão de repente. -Não dá, Thug les — Davien resmungou — A pizza daqui do fórum é boa, mas tem que ser aquela pizza mesmo. E as coisas estão muito... -Não — o pirata interrompeu, apontando para frente — Pizza! Os outros olharam na direção que ele apontava, e o que viram quase os fez saltar de surpresa. No telhado de uma pequena casinha de madeira que servia como depósito, estava sentado um rapaz de camisa laranja, calça preta e cabelos escuros espetados na frente. Seus olhos eram grandes e ele olhava sonhadoramente para o céu, e balançava as pernas como uma criança que estivesse apenas aproveitando o tempo. -Pizza! — gritou Nick, correndo até ele. — Pizza, cara, você está... Pizza, me responde! -Ah, o bom e velho Pizza! — Thugles sorria, muito animado — Cara, você sumiu por um tempão... o Vampy até ficou com seu cargo de tutor! Onde você estava? O garoto não respondeu nenhum dos dois. Olhava par a o céu e cantarolava, feliz. -Pizza, estamos falando com você! — chamou Sheddeer, indignado — Onde você esteve? Responda! Mas o garoto continuava olhando para o céu, sem mostrar sinal de ter ouvido algum deles. -Ei, desce daí, idiota — Davien tentou, a voz ríspida, mas o rapaz pareceu nem notá-los. Então ele se virou para os outros — O que foi, qual é o problema com... Ele vacilou. Vampiritico olhava o rapaz com os olhos arregalados, sem acreditar. Seu rosto demonstrava confusão, tristeza e espanto. -Pizza... ah... P-Pizza... Ao ouvir a voz do garoto, Pizza reagiu. Olhou vagamente para ele, e sorriu. -Vampy — disse ele, com uma voz sonhadora e musical, como se ele estivesse muito, muito distante dali — Como vai, cara? Já tinha visto como é bonito aqui em cima? Sabe se os pássaros saem daqui pra nos visitar? Ao ouvir isso, Vampiritico quase caiu no chão. Os outros o seguraram. -Vampy! — gritou Thugles, sacudindo-o — O que aconteceu? O que foi? Mas o menino olhava Pizza com cara de idiota, parecendo que ia ter um colapso nervoso. Sua respiração começou a acelerar... -Leva ele pro Nuck! — gritou Nick, desesperado. Ele olhou, então, para Pizza. O garoto continuava sentado olhando para cima, sorrindo tolamente. -Está tudo bem — respondeu o garoto — O céu... ah, o céu. Tão lindo. Fazia tanto tempo que eu não o via... ah, mas aqui está ele. Azul, tão bonito... ---------------------------------------------------------------------------------------------------------- -Tem alguma coisa muito errada com ele, Nuck! Nick estava quase tão perplexo quanto Vampiritico. Eles estavam do lado de fora da seção hospitalar, olhando Pizza que andava ao redor deles. Ninguém entendia muito bem o que estava acontecendo. Pizza parecia bem, mas era como se estivesse um pouco fora do ar. Não falava coisa com coisa, e parecia estar estranhamente calmo, tranquilo e inabalável. Mas estava claro que havia alguma coisa errada com ele. Pizza não parecia mais capaz de levar nada a sério. Tudo ele desviava com comentários sobre a beleza da paisagem e outras coisas. E a estranhez dos fatos se confirmou quando Nuck tentou levá-lo a seção hospitalar para repousar um pouco. Assim que percebeu que iria entrar em um lugar fechado, a expressão de Pizza mudou. Ele arregalou os olhos e lutou contra Nuck, enquanto gritava, implorando para que não o prendessem, tentando socar a cara do clérigo. Finalmente, deixaram-no andar pelo fórum. Não parecia seguro, mas Pizza parecia inofesivo. Andava e corria como uma criança em um parquinho. E Vampiritico ficava cada vez mais estranho. Pizza havia sido o antigo Tutor Fanart, e tinha ensinado praticamente tudo o que o menino sabia. Ver o mentor daquela maneira certamente deveria ter sido demais para ele. -Eu sei disso — disse Nuck, respondendo à pergunta de Nick — Mas eu não entendo. Ele estava sumido há semanas, e agora aparece no topo de um depósito, quase na fronteira do fórum, parecendo perfeitamente bem! -Eu não diria bem — interpôs Donnie, olhando para o garoto que analisava uma folha de grama como se fosse a coisa mais fascinante que ele já havia visto. -Ele ficou meio mongo — acrescentou Thugles — Desculpe, Vampy. Mas sei lá... é estranho. Onde será que ele esteve todo esse tempo? Aquilo era algo que ninguém sabia responder. Eles haviam conseguido convencê-lo a descer do telhado, mas quando perguntaram onde ele estava, ele simplesmente mudava de assunto e voltava a falar sobre o céu lindo, sobre o sol brilhando no horizonte. Na verdade, ele não dava resposta direta sobre nada. Era como se estivesse sempre concentrado em outra coisa. Davien pigarreou. -Ele pode estar procurando inspiração pra algum desenho — sugeriu — Vocês sabem como o Pizza é, sempre olhando o céu e as montanhas, buscando inspiração... -Não é isso. Todos olharam para o pequeno garoto de roupas pretas. Vampiritico tinha um olhar triste e, ao mesmo tempo, desafiador. -Ele... eu já vi gente assim antes — ele disse, sem olhando tristemente para Pizza — Ele ficou esse tempo todo como prisioneiro dos Black Wings. Todos o olharam sem acreditar. Nick o encarou com a testa franzida. -Peraí, você... sabia que ele estava lá e não nos contou nada...? -Não sabia — disparou ele — Mas eu conheço os sintomas. Ele foi... torturado, e mantido em alguma cela isolada. Muitos que saem de celas assim, ficam desse jeito. É por isso que ele não quis entrar na seção hospitalar... — a voz dele vacilou — Duvido que vá querer entrar em algum lugar com paredes e teto outra vez na vida. A voz dele era de profunda amargura e tristeza, e seus olhos haviam ficado muito escuros. Não foi difícil entender o porquê. Vampiritico havia passado várias horas vendo prisioneiros serem torturados, e sabia bem o que acontecia com a maioria deles, se tivessem a sorte de serem soltos ou, por algum milagre, conseguissem escapar. Enlouqueciam. Perdiam grande parte da memória, ou nunca mais eram as mesmas pessoas. As torturas dos Black Wings eram cruéis, e muitas vezes deixavam sequelas mentais terríveis. Pizza não tinha nenhuma marca ou cicatriz visível, nem parecia estar machucado, mas, para Vampiritico, a maneira que ele estava agindo era algo inconfundível. E tudo fazia sentido. Se havia ficado trancado em algum lugar por todo aquele tempo, aquilo explicava por que Pizza não parava de olhar paro o céu e para o horizonte. Talvez aquela fosse a primeira vez que ele via a luz do sol em bastante tempo. Mas ainda assim, aquilo não explicava como ele aparecera sentado no topo de um telhado. -El e ainda é o Pizza que você conhece, Vampy — Nuck colocou a mão no ombro do garoto, paternalmente — Ele se lembrou de você. E não estranhou nenhum de nós, sabe, com o tempo, eu tenho certeza de que posso fazer ele melhorar. Vampiritico não disse nada. Nuck não gostava de mentir. Todos ali perceberam que o clérigo havia dito "melhorar", e não "curar totalmente". -Mas como ele conseguiu escapar? — sussurrou Nick — Como ele saiu de uma prisão dos Black Wings? Doido desse jeito, como ele conseguiria... -Por que essas carinhas preocupadas? — disse Pizza, sobressaltando a todos. O rapaz havia se aproximado sem que percebessem — Sorriam! Um rosto triste cria um quadro triste, mesmo com toda a beleza desse imenso fórum. Mas se seus rostos estiverem alegres, o quadro todo passa a sensação de felicidade! Por mais árida e deserta que seja a paisagem, a expressão é o que importa... Eles não conseguiram deixar de sorrir com aqu ilo, mesmo que um pouco abobados. Exceto Vampiritico. Para ele, aquilo foi como um soco no estômago. Era uma das lições que Pizza sempre ensinava a ele, e vê-lo falar daquele jeito... era como se o mentor realmente estivesse ali, só que muito distante. Pela primeira vez, Vampiritico considerou realmente a possibilidade de ele jamais se recuperar. Estranhamente, o sorriso de Pizza também sumiu. -Expressão — disse ele vagamente, a testa franzida — Eu me lembro das expressões tristes. Cansadas. Dor e sofrimento que pintava o pequeno espaço de cimento que tínhamos... e as barras frias eram a única conexão com o exterior, impossível de alcançar... Todos ficavam quietos, cientes de que Pizza descrevia a cela de uma prisão. -Pizza — Thugles o interrompeu, com calma — Que tal a gente dar uma volta por aqui? Você tem que ver o que eu fiz na Seção Pirate. Pudim coberto de chocolate e doce de manga com suco de canhão em cima de patos gigantes. Aquilo não tinha pé nem cabeça, mas Pizza ficou animado. -Está ótimo! — concordou ele — Pode ser agora? Eu estou doido pra andar por aí! -Eu sei, cara — Thugles deu um olhar triste para Vampiritico, então voltou a sorrir — Vamos lá. Ei, gente, vocês podiam vir também. Tem umas garrafas de rum bem tensas lá na seção Pirate, acho que o Vampy podia tomar algumas. O garoto nem se esforçou pra sorrir, mas todos sabiam que o pirata estava apenas tentando quebrar o gelo. Eles foram caminhando até a seção Pirate, com Pizza sempre fazendo comentários sobre o quão bonito eram o céu e a grama. Donnie havia sido o único que não os acompanhara. O rapaz estava na seção hospitalar, vazia exceto por ele e um guerreiro de armadura que ainda dormia de barriga para cima, ereto como um soldado. Um fio estava conectado à articulação do cotovelo esquerdo do homem, que transport ava um líquido vermelho para o corpo dele. "Sangue de dragão", pensou ele "Duvido que vá te restaurar completamente. Só vai te manter vivo". -Um guerreiro da luz — ele disse para o rosto sereno e adormecido abaixo dele — Você poderia me ajudar com essa magia negra dentro de mim. Sacanagem, você está desacordado. Ele pôs a mão na testa do homem e fechou os olhos. Passaram-se vários minutos até ele abrí-los novamente. -Não sinto nenhuma magia em você — disse ele, desapontado — E não faço idéia do que pode estar causando isso. É difícil acreditar que alguém do seu nível esteja caído assim, como se a magia tivesse simplesmente sumido de você. O homem não respondeu. Donnie suspirou. -Eu espero que você ainda acorde pra me ajudar com isso — ele disse, dando as costas para o corpo adormecido e saindo da seção hospitalar — Agora preciso ver meu velho amigo Pizza.----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- -Barco! — Pizza gritou assim que viu os navios da seção Pirate. -O que foi? — perguntou Nick, imediatamente alarmado — Cara, o que você... Mas o rapaz nem prestava atenção. Segurou os ombros de Vampiritico e olhou bem fundo nos olhos dele. -Precisamos ser rápidos! Você não entende... começarão daqui a duas semanas! Logo que... Ele fechou os olhos e fez uma careta, soltando Vampiritico que olhava pasmo para ele. Pizza tinha os olhos fechados e os dentes à mostra, como se sentisse muita dor... Então ele sucumbiu. Caiu no chão como se estivesse tendo um ataque epilético, gritava, babava e esperneava pelo chão, berrando feito um louco, Davien o imobilizou, segurando os braços dele para trás, mas ele chutava, os olhos muito abertos e arregalados. -NUCK, FAZ ALGUMA COISA! — o guerreiro berrou, tentandop evitar a baba que saía pra todo lado. Mas não foi Nuck quem segurou a testa de Pizza e olhou bem nos olhos dele. Foi Donnie. -Donnie, de onde você... Thugles e os outros olhavam a cena apreensivos. No instante em que Donnie pusera os olhos cor de violeta — que agora brilhavam com essa cor — no rapaz, ele parou de espernear. Encarava o tutor Fanfic com os olhos abertos numa expressão de indiferença, como se estivesse em transe. Em seguida caiu no chão, profundamente adormecido. Ele se virou para os demais. -Não deviam deixar ele andar por aí assim — censurou ele — Quem sabe o que ele viu naquela prisão Black Wing? -E o que você queria que a gente fizesse, deixasse ele preso? Ele fez a mesma coisa quando tentamos fazer ele entrar numa sala — gritou Nick, a voz muito estridente. -Ele disse alguma coisa sobre um ataque — lembrou Nuck. -Sim, como se nós já não soubéssemos disso — Davien retrucou com impaciência — Ele pode ter ouvido que eles vão nos atacar ano que vem, mas o Vampy já disse isso tudo pra gente. E foi quando se lembraram do tutor Fanart. Ele ainda olhava Pizza, extremamente abalado. -Vampy... — começou Thugles, mas o amigo se virou pra ele, com raiva. -Você viu como ele olhou pra mim. Viu que ele voltou ao normal, não viu? Pelo menos por um momento...
Ele olhou para cada um dos rostos ali, como se desafiasse alguém a discordar. Não que eles quisessem. Todos haviam percebido que Pizza havia saído de seu estado de loucura, quando se lembrou de alguma coisa... e então a lembrança o dominou e ele enlouqueceu novamente. Mas agora, todos tinham uma nova esperança do colega voltar ao normal. -Ele vai voltar, Vampy — garantiu Nuck — Você sabe que já curei loucuras assim antes. Os Black Wings são cruéis com as torturas, mas mesmo assim, o Pizza é forte. -Não é à toa que ele conseguiu escapar de lá — ajuntou Sheddeer. -Sim, também quero saber como ele fez isso — Thugles sorriu — Vai ser uma boa história pra ele nos contar quando voltar, não é? Nuck fez que sim com a cabeça, embora um pouco relutante. Ele sabia que não conseguiria fazer Pizza voltar completamente ao normal, mas não queria transparecer isso. Era bom manter o grupo sempre otimista. Ele se virou para o tutor Fanfic -Não podemos mesmo deixar ele solto por aí. Ele pode ver alguma coisa que o lembro do que ele passou com os Black Wings e enlouquecer outra vez... mas o que podemos fazer? Também não podemos deixá-lo preso. Isso é o que mais lhe traz lembranças sobre o que passou com os Black Wings. Donnie sorriu, um daqueles sorrisos onde apenas um lado da boca se curva. -Não se preocupe. Eu sei exatamente o que fazer com ele.
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