MinarFic

11 O Homem Com a Venda



Para a maioria dos usuários, o MinarForest estava como sempre tinha sido antes.

Para um seleto grupo de membros mais confiáveis, aquilo havia mudado completamente.

Tudo começou logo no dia seguinte ao ataque de Tauros e Wyverns. A imprensa tentou de tudo para entrevistar os tutores — agora tutores de verdade, pois Nuck finalmente os fizera assinar os Documentos Oficiais. Vários membros haviam tirado fotos ou filmado as lutas, mas Nuck frustrou qualquer chance de entrevista. Ele deixou Donnie cuidar deles. O rapaz simplesmente apresentara uma versão resumida: um grupo de pessoas que conspiravam contra o fórum, isso era normal em estabelecimentos como aquele, e que tentaram um ataque, mais nada além disso. E não havia ninguém muito inclinado a tentar arrancar mais informações do misterioso rapaz dos olhos cor de violeta.

Depois de se livrarem dos repórteres, Nuck ordenara uma reforma geral na segurança. Vampiritico precisou trabalhar durante uma semana inteira para instalar nada menos que setenta armas antiaéreas, já que não podiam confiar em mecânicos, por enquanto.

O mecânico que tinha feito a revisão das armas no dia da invasão nunca mais havia comparecido ao fórum, e eles não conseguiram encontrá-lo.

Canhões anti-tanques, metralhadoras fixas e vários outros armamentos, ocultos em pontos na fronteira do fórum. Havia vinte só ao redor do Prédio Principal, e mais algumas perto de seções importantes, pro caso de algum inimigo conseguir penetrar as defesas. E agora tinham vinte telescópios fixos que permitiam enxergar a uma distância de doze quilômetros, sugeridos por Sheddeer.

Thugles também colocara um complicado sistema de minas aquáticas no litoral, ao norte. Ainda era seguro ter banhistas nas praias, porque as "minas" nada mais eram do que bolas pretas de borracha, que colavam nos navios que se aproximassem demais sem autorização, paralisando-os em dois minutos.

Depois explodiam, se Thugles apertasse um detonador por controle remoto.

O resto dos tutores trabalhava nas aulas, ensinando os novatos e outros interessados. A maiori dos alunos já tinha alguma experiência — por exemplo, chefe Balrog, o lendário instrutor de Warriors, recomendava pessoalmente aos seus alunos que treinassem ali no fórum — embora tivessem alguns novatos, principalmente nas áreas de Thief e Magician. Era difícil para o Dark Lord ensinar à imensa quantidade de novatos, então alguns iam para o MinarForest. E muitos aspirantes a bruxo simplesmente não aguentavam um mago velho — embora extremamente sábio — como Grendel. Em vez disso, pareciam preferir Nick, que ainda era uma criança.

Ele ensinava tudo o que sabia, e é claro que muitos se surpreendiam. Ele não era apenas novo: era pequeno e tinha uma aparência muito frágil e delicada, mas conseguia congelar uma fileira inteira de Tauromacis monstro ou fritar um dragão sem dificuldade. A seção Magician ficava bem perto do centro do fórum, e tinha várias salas do tamanho de Igrejas com os diversos tipos de materiais: água, gelo, areia, terra, pedras, lava, álccol, para todos os elementos e magias. Milena era a mais entusiasmada na classe.

Para surpresa deles, Iskander, o mago que havia competido com Nick e a garota ruiva, estava nas aulas. Era estranho ver o experiente homem, já de certa idade, sentado de pernas cruzadas enquanto Nick falava. Mas ele se oferecera para ajudar, e ele era o melhor dali — melhor que o próprio Tutor Magician — quando se tratava de magias elétricas. Mas ver os dois ensinando era demais pra Milena.

-Ei, eu também quero ajudar, eu fui a segunda colocada, não é justo!- protestava ela, lembrando-se de que Iskander tinha sido derrotado antes dela.

Então, acabou que os três eram os responsáveis por ensinar: Nick era bom com todas as magias em certo ponto, e sabia liderar bem a classe. Iskander era como um professor de "Eletricidade Avançada", e Milena era uma das melhores com magias de fogo. E se alguém quisesse aprender magias de cura — eram raros esses — Nuck tirava uma ou duas horas para ensiná-los.

E não era só a seção Magician que aceitava ajuda. Davien e Arroiz faziam uma dupla perfeita de professores. Enquanto um tinha técnicas mas "brutas", que se aplicavam melhor contra uma tropa inteira de inimigos, o outro era mais "individual". A seção Warrior era a mais simples de todas: uma arena circular de areia, imensa, com paredes e teto. Como todas as outras seções, tinha uma magia que evitava que os golpes fossem fatais(embora a da seção Warrior tivesse, digamos, uma força extra só para garantir). Nos primeiros dias, Arroiz ensinara apenas rolamentos e esquivas sem armas, e até mesmo Davien não pôde deixar de aprender umas técnicas novas. Depois disso, foi a vez do ex-tutor Warrior ensinar como sobreviver sozinho contra vários oponentes de uma vez, enquanto o tutor atual era mais tático e ensinava mais a parte de estratégia e combate individual. Ambos os guerreiros eram cruciais para o ensinamento.

E Amos, o rapaz que tinha causado problemas antes da seleção nocauteando Nick, era um dos mais dedicados do fórum.

A seção Beginner estava vazia, por isso os novatos indecisos que geralmente iriam para essa seção, apareciam para falar um pouco com cada tutor, tentando escolher a classe que mais se adaptavam. No final, iam principalmente para Thief ou Warrior. Nuck havia dito que conseguira um substituto temporário para a seção de Thief, até ele decidir o que fazer.

-Claro que ele vai ter que fazer uma seleção nova pra eles — comentara Thugles.

As seções de Fanart e Fanfic eram "seções extras", porque não eram exatamente "classes" como Warrior, Magician, Archer, Thief ou Pirate. A maioria dos alunos de uma dessas seções também era aluno de outra seção. Havia uma menina que participava ao mesmo tempo das aulas das seções de Fanart, Fanfic e Magician.

A seção de Fanart, uma sala coberta de desenhos, cheia de computadores e televisões, também tinha vários alunos. A maioria eram pessoas franzinas, de óculos, mas não havia nenhum que não soubesse desenhar. Apenas um garoto de oito anos, cujos pais sempre o acompanhavam até lá, mas ele aprendia rápido. A seção Fanfic era uma das mais silenciosas, o que não era novidade. Mas isso não era pela falta de pessoas. Havia uns trinta interessados ali, o que não era muito comparado aos mais de noventa alunos da seção Thief. Mas Donnie ensinava a eles várias maneiras de escrever, relatar fatos, descrever cenas, basicamente ensinava seus alunos a serem escritores.

Estranhamente, os alunos da seção Fanfic quase sempre tinham porte físico bem saudável, ou eram altos e cheios de energia. O que não era ruim, pois Donnie não ensinava apenas a escrever e contar poemas. Ele também levava seus alunos para viagens, para que pudessem se aventurar e escrever eles próprios suas histórias e relatos.

-Como será que ele ensina a essa gente se está sempre viajando? — era uma pergunta que Nick sempre fazia, e que ninguém nunca sabia responder.

A seção Pirate era a mais isolada. Era basicamente um pequeno estaleiro, na praia ao norte do fórum, cheia de guindastes para levantar cargas, e era capaz de comportar uns cinquenta navios, embora isso não fosse exatamente uma quantidade grande. Também havia várias salas cheias de equipamentos de pesca, balas de canhão e outras coisas.

Embora não houvessem muitos candidatos a Tutor Pirate, gente interessada nas aulas era o que não faltava. Mais de cinquenta pessoas, a maioria adolescentes encrenqueiros, estavam ali para agitar o lugar. Mas Thugles era tão bagunceiro quanto eles, sabia bem como lidar com aquilo. E os Piratas não eram exatamente uma massa barulhenta da garotos e garotas desmiolados e ansiosos por baderna, como muitos achavam.

Ser pirata não era apenas pilotar um navio e roubar. Os navios dos Pirates não são gigantes do mar como os outros. São menores, feitos para passar por cima das ondas, ao invés de enfrentá-las. São feitos para poder serem manejados por uma só pessoa, se necessário — embora todo bom pirata tenha uns vinte marujos à disposição. Também é preciso saber se orientar com ou sem uma bússola, usando o céu ou o movimento das ondas. Saber instalar uma vela, desmontar e montar uma pistola, carregá-la rapidamente com os diferentes tipos de bala, e como usar uma espada para combates corpo a corpo. E carregar doze canhões de cada lado do navio, não era exatamente uma coisa fácil. Uma das partes mais difíceis de se pilotar um navio não é enfrentar as imensas ondas que podem vir a derrubá-lo, mas sim estacioná-lo. A grande maioria das empresas de negócios marítimos contratava uma pessoa treinada especialmente para essa função — muitos capitães tinham dificuldades na hora de estacionar o navo. E claro que a maioria dos piratas adorava uma boa bagunça. E havia, além dessas tarefas, várias outras coisas e tarefas bem difíceis, uma delas era saber o que fazer quando acabasse o rum.

Mas, enquanto os outros tutores muitas vezes tinham vários novatos sem nenhuma experiência, a seção Archer era a única que nunca tinha esse problema. Era grande como as outras, e ficava ao sul, mais perto das florestas. Tinha várias arenas que simulavam os diferentes tipos de terreno: cidade, planície, savana, e outros. Eles também usavam as montanhas a sudoeste do fórum como campo de treinamento. Era uma das que tinha poucos membros, também. Ser atirador não era uma coisa fácil. Apareceram uns cem no primeiro dia — todos esperando sair dali sendo capazes de acertar uma maçã a quinhentos metros de distância — mas eram poucos os que compreendiam a verdadeira natureza dos arqueiros e balestreiros. A importância de saber localizar um possível alvo à distância, a capacidade de tomar decisões difíceis, a destreza necessária para colocar uma corda em um arco e acertar um inimigo sem ser reconhecido, a lógica envolvida em se orientar usando constelações ou a posição do sol no horizonte, a perspicácia em saber decifrar códigos, se comunicar sem alertar o inimigo. Eram necessários anos de treinamento e dedicação, sem falar no esforço físico que era quase sempre exaustivo. No final da primeira semana, Sheddeer tinha que lidar com menos de quarenta alunos.

A maioria ali já tinha mais de vinte anos, porque ser arqueiro ou balestreiro consumia vários anos de aprendizagem, e praticamente todos ali começaram desde pequenos. Não se aprende a atirar aos oito anos de idade, não normalmente. Sheddeer podia ser menor de idade e mesmo assim ser um dos melhores, mas Sheddeer era o Sheddeer.

As aulas continuaram assim, normalmente. Uma semana antes do Natal, os Black Wings atacaram novamente.

Havia sido outro ataque rápido de Taurolanças e Tauromacis, e três vezes mais Wyverns. E dessa vez, tinham dos Wyverns negros: maiores que os azuis e vermelhos, com dois chifres na testa e muito mais fortes. Chegaram a oeste, provavelmente passando por Leafre.

Entretanto, não havia sobrado nenhum para eles combaterem. As armas fixas de Vampiritico, dessa vez, funcionaram todas sem problema, perfurando os monstros sem piedade.

Davien e os tutores poderiam facilmente acabar com a invasão, mas decidiram que uma aula prática seria melhor aos novos recrutas. Cada um juntou uns vinte alunos — exceto os de Fanart e Fanfic, por razões óbvias — para ajudar na luta.

Iskander atacava de sua torre elétrica temporária, enquanto os outros atiravam fogo, rochas gigantes e disparavam raios contra os monstros. Thieves surgiam repentinamente de todo lado, encontrando pontos fracos nas armaduras dos monstros e se desviando das lanças, maças e raios. Os piratas lutava com espadas e pistolas, enquanto metade da seção Warrior atacava na linha de frente, cortando, perfurando e dando gritos de guerra. E os arqueiros e balestreiros de Sheddeer, ocultos em pontos altos e seguros do fórum, atirando e informando posições.

Não que isso elas fossem necessárias. Os Tauros estavam concentrados em um só lugar, e dessa vez, não havia espiões ou grupos tentando roubar qualquer coisa. Menos de dez minutos depois, a luta terminou.

Nuck parabenizara todos os que lutaram, depois desapareceu, apressado. O líder do MinarForest, embora não tivesse nenhuma obrigação com ensino de alunos — somente duas ou três horas, duas vezes por semana para ensinar magia de cura -, parecia bem mais atarefado. Havia quem dissesse que ele estava dormindo menos de quatro horas por dia. O que não era exatamente mentira.

A luta contra os Tauros e Wyverns, dessa vez, tinha sido bem longe do MinarForest. Desde o primeiro ataque, Nuck ordenara que colocassem alarmes fazendo um círculo a dois quilômetros de distância do fórum. Dessa forma, quando inimigos chegassem, poderiam lutar contra eles a uma distância segura do fórum, para evitar prejudicar as milhares de pessoas que circulam por ele todos os dias. As armas fixas de Vampiritico, centenas delas, ficavam espalhadas por todo esse espaço de dois quilômetros de terra em volta do fórum, para impedir ataques aéreos de chegarem até lá.

Outra providência que Nuck tomara, foi criar a Guarda Oficial do MinarForest. Um grupo de homens treinados(nenhuma mulher se inscreveu para o cargo) que deveriam cuidar da segurança do fórum, e receberiam dispositivos para poder se teleportarem para torres de segurança — pilares de metal preto de um metro de altura dispostos em vários lugares do fórum. Cada um dos guardas teria um relógio que o levaria para qualquer uma dessas torres que eles quisessem, para poder se teleportar com facilidade para os locais onde tivesse algum problema. Em uma semana, Nuck tinha em torno de quarenta homens. A grande maioria com vinte e poucos anos, embora houvessem alguns poucos adolescentes entre eles, tão mortais e capazes quanto os outros.

Entre os adolescentes, três deles eram alunos de Arroiz. Amos era um deles. Os outros dois eram um garoto alto e musculoso, trajando uma espada de duas mãos, e o terceiro, um rapaz de cabelos desgrenhados que carregava uma curiosa lança azul, com ponta espinhosa e lâmina quase do tamanho do cabo.

Tinha até um sistema de patentes na Guarda Oficial. Todos ali eram recrutas, naturalmente, e os títulos serviam como posições oficiais, como se fosse um exército particular do MinarForest. Nuck estava mesmo pensando em criar um, mas tinham centenas de alunos na seção Warrior, não milhares. Por isso, ficaria apenas com a Guarda Oficial.

-Official Minar Forest Guard — comentou Thugles, olhando para os trinta e cinco guardas enfileirados em posição de sentido, enquanto Nuck colocava em cada um deles um par de ombreiras simples com um risquinho, o símbolo dos recrutas — OMFG.

-Claro que esse não é o nome oficial da Guarda Oficial — disse Vampiritico ao seu lado.

-Eles definitivamente me fazem sentir muito mais seguro — disse Davien com sarcasmo — Um bando de homens com ombreiras, e título de guardas. Que diferença isso faz?

-Os relógios deles — retrucou Vampiritico, olhando para os pulsos dele com inveja — Teleporte instantâneo para qualquer uma dessas torrinhas pretas. Por que será que o Nuck não deu um desses pra gente?

Davien bufou.

-Certamente ele acha que, se ele não precisa de um, nós também não precisamos.

-Não é justo — rebateu Thugles — Ele sabe se teletransportar, enquanto a gente tem que andar.

Três dias antes do Natal, Nuck convocara outra reunião na Sala de Reuniões. Todos se sentaram nos mesmos lugares da mesa triangular, que ainda tinha as cadeiras de Thief e Beginner vazias.

-Escutem — disse ele, sem rodeios — Acho que chegou a hora de fazermos alguma coisa.

Os outros ficaram quietos, esperando, mas Thugles, claro, não iria deixar de ser inconveniente.

-Também acho. A mesa deveria voltar a ser retangular como era antes, Nuck. Sério, ela triangular desse jeito... ninguém gosta dela assim. Meu espaço aqui é pequeno, já que estou na ponta, ainda mais com o Dave ocupando um pedaço — ele indicou o guerreiro com a cabeça, sentado no lugar novo que tinha criado dias antes, com uma expressão de total inocência — Sério, Nuck, você quem teve essa ídeia?

-Fui eu — respondeu Davien — Eu acho melhor desse jeito.

-Eu não — discordou Vampiritico — E cara, não é justo. Você me colocou no lugar mais longe possível do Thugles... foi de propósito isso?

-Ah, com isso aí eu concordo — disse Donnie. Ouviram-se alguns murmúrios de concordância. Thugles e Vampiritico se olharam.

-Não sei o que vocês vêem de errado em me colocar do lado do Vampy — disse Thugles, sem entender.

Donnie fungou.

-Não é nada pessoal com vocês dois. É que a gente não esqueceu que vocês fizeram aquele burrito explosivo debaixo da mesa, e passaram entre a gente...

-E aquele pato venenoso gripado — ajuntou Nick — Que levou dias pra descobrir de onde tinha vindo...

-E o cachorro invisível que eles ficavam passando debaixo da mesa, no dia que o inspetor de Mu Lung veio visitar a gente — lembrou Sheddeer, e Davien fez uma careta ao se lembrar do dia.

-E aquela vez que eles colocaram condimentos de sanduíche com pó de urtiga nas cadeiras? Tive que jogar minha cueca favorita no lixo. Nunca mais pude usar ela sem ter coceira no...

-Não estamos aqui pra discutir sua coceira, Davien — cortou Nuck, impaciente. O rapaz pareceu indignado.

-Mas eles que começaram! Eu só estava lembrando das coisas que...

-Não estamos aqui para discutir nada disso, e nem o formato da mesa! — trovejou Nuck, e todos se calaram — Mas agora, pessoal, é sério. Vocês sabem que pouca gente deve vir aqui no Domingo de Natal.

-Já estão parando de vir — disse Vampiritico na mesma hora — Tivemos quase menos da metade do pessoal que vêm aqui geralmente.

-Certamente eles têm coisas mais divertidas do que passar o Natal aqui no fórum — Davien concluiu com amargura. Nuck olhou bem para ele.

-Seja como for, pessoal, eu estou pensando em organizar um pequeno ataque contra os Black Wings.

-Eu concordo! — Davien aprovou — Já está na hora desses vilõezinhos pagarem por esses ataques toscos aí.

O silêncio durou vários momentos. Ninguém mais sabia o que responder. Exceto por Davien, ninguém mais parecia tão disposto assim.

-Não uma invasão, exatamente — Nuck continuou — Mas um ataque relâmpago, como esses dois que recebemos. Apenas pra mostrar que nós não somos tão fracos assim.

Fez-se silêncio novamente, enquanto todos analisavam. Sheddeer foi o primeiro a discordar.

-Não acho que a gente esteja parecendo fraco, Nuck. Na verdade, é até uma boa idéia. Eles acham que nós estamos aqui, com medo de enfrentá-los, quando na verdade estamos nos preparando. Inimigos confiantes demais podem acabam cometendo erros.

Donnie e Arroiz assentiram, em concordância. Davien socou o tampo da mesa, de leve.

-Ah, qual é! Eles estão invadindo nosso fórum. Precisamos mostrar a eles que não somos um fórum fraco como aqueles outros. Nós cuidamos de nossos membros, e aniquilamos aqueles que tentam nos destruir!

-Estranho você dizer isso, sendo que até hoje não me aniquilou por aquele seu porquinho de dinheiro que eu destruí — disse Vampiritico.

Os olhos de Davien se estreitaram.

-Foi você quem...

-A questão, Davien — Sheddeer o interrompeu — É que os Black Wings vão começar a pensar que estamos fracos. Isso pode ser muito bom pra nós. Deixamos eles nos subestimarem, e então, quando tivermos centenas de lutadores treinados e prontos para o combate, nós mostramos a eles.

-Principalmente se eu disser a eles que vocês quase não deram conta da última invasão — comentou Vampiritico com um sorriso de desdém — Eu posso falar que vocês quase morreram, e que estão com tanto medo... e que o Davien quase se borrou quando viu os primeiros Wyverns no céu.

Thugles, Nick e Donnie acharam graça, mas Arroiz o olhou com a testa franzida.

-Como assim, "dizer a eles"? — ele indagou, desconfiado — Você vai entrar na base deles e falar pro general?

Davien e os outros tutores arregalaram os olhos. Esqueceram-se de que Arroiz era novo ali... seria prudente ele saber sobre a função secreta do Tutor Fanart?

-É o trabalho dele, Arroiz — disse Nuck, ao ver as expressões tensas dos outros — Está tudo bem. O Arroiz agora é um tutor, e ele tem o direito de saber, e espero que vocês confiem nele como um dos nossos. Mas isso que vou dizer — ele se inclinou para a cadeira do Tutor Warrior à esquerda — Não deve ser comentado com mais ninguém.

O rapaz assentiu, e os outros relaxaram um pouco, embora ainda estivessem um tanto relutantes. Mas Arroiz tinha lutado ao lado deles para defender o fórum dos Black Wings, e quase perdera a vida ao fazer isso. Ele merecia saber.

-O Vampiritico é um espião — Nuck contou — Ele nos fornece informações sobre planos, ataques e missões dos Black Wings. Cerca de três vezes por mês, ele vai até a base, perto de Edelstein, relatar tudo o que conseguiu sobre o fórum.

-Ou, pelo menos, é o que eles pensam — continuou Vampiritico — Eu dou a eles todo o tipo de informações falsas, e fico sabendo da maioria dos planos deles. E sou um membro bastante confiável do conselho Black Wing — acrescentou, com um sorriso de modéstia.

-Mas como eles ainda confiam em você, quer dizer, eles não desconfiam que as informações que você passa são falsas?

Nuck se adiantou.

-Nem todas são falsas, Arroiz. Algumas vezes, eu mesmo crio algumas informações. Por exemplo, eu mando um robô que supostamente deveria espionar a base dos Black Wings. Então o Vampy avisa a eles sobre isso, e aí eles destróem o robô. Dessa forma, eles pensam que o Vampy está ajudando eles, e ficam ainda mais confiantes em relação a ele.

Arroiz assentiu, pensativo.

-Então aquela conversa sobre ter um espião... não havia nenhum? Quer dizer, era você, o tempo todo?

Mas o menino de preto já balançava a cabeça, assim como Nick.

-Tem sim, mas não é o Vampy. Acreditamos que eles tenham um segundo espião aqui, pro caso de...

-De eu ser pego e vocês tentarem me fazer falar — Vampiritico terminou por ele — É por isso que cada espião Black Wing tem um chefe. Nenhum chefe sabe quem é o espião de outro chefe, assim como nenhum espião sabe quem são os outros espiões.

-Inteligente — comentou Arroiz — Eles têm dois espiões aqui. Se um deles for pego, não importa o quanto ele seja torturado, ele nunca vai poder revelar quem é o outro, porque não sabe.

-Exatamente — Thugles concordou -E esse segundo espião é realmente um Black Wing, ou seja, não dá planos falsos nem espiona tudo errado que nem o Vampy.

-Ou seja, não adianta nada termos um espião amigo aqui, porque tem um outro espião deles pra fazer esse trabalho — disse Davien. Thugles balançou a cabeça com veemência.

-Não é verdade. É graças ao Vampy que sabemos que os Black Wings pretendem atacar apenas ano que vem, e que essas invasões são apenas ataques rápidos e sem muita força.

-Se não soubéssemos disso, ficaríamos acordados a noite toda esperando que cada ataque seja uma invasão forte — ajuntou Sheddeer — Mas com as informações do Vampy, podemos ficar relativamente despreocupados, pelo menos até o ano que vem.

-Que é daqui a menos de duas semanas — Nuck concordou — Por isso que eu queria fazer uma pequena invasão a eles. Deixá-los com a pulga atrás da orelha, fazê-los pensar duas vezes antes de atacar de novo.

-Eu podia falar desse ataque pros Black Wings — sugeriu Vampiritico — Aumentaria ainda mais a confiança que eles têm em mim.

Arroiz franziu a testa.

-Mas se eles souberem onde vamos atacar, as pessoas que mandarmos vão estar em perigo, não?

Vampiritico sorriu satisfeito para ele.

-Não se olharmos o outro lado da moeda. Da mesma forma que eles vão saber exatamente onde vocês vão estar, eu vou saber exatamente onde eles vão colocar as armadilhas e tropas pra impedir vocês. É só eu falar com o Sheddeer por celular, e ele orienta vocês a ter cuidado, e aí, quando os Black Wings chegarem, vocês fogem no navio do Thugles.

-Me parece um bom plano — Sheddeer disse, com a mão no queixo — Embora eu ache que devêssemos esperar mais um pouco, essa idéia também tem seu outro lado. É exatamente o tipo de coisa que fracotes desesperados fariam: atacar o inimigo de surpresa, aparentemente sem um plano.

-Nós atacamos, eles revidam, então fugimos e os deixamos achando que estamos com medo — concluiu Arroiz, e Sheddeer assentiu.

Nuck continuava sério, mas teve vontade de sorrir. As reuniões podiam ser sempre bagunçadas e confusas, mas seus tutores(e Davien) sabiam levar as coisas a sério na hora certa. Ele só sugeriu um ataque, e os outros já formulavam um plano, sem que ele tivesse dito mais nada.

Ele achou que era hora de organizar as idéias.

-Então — ele resumiu — Vamos embarcar em um navio do Thugles, e simular um ataque aos Black Wings. Vampy nos diz onde estão as armadilhas, e nós as evitamos ao máximo, e lutamos um pouco contra as possíveis tropas que chegarem. Vampy vai nos informando onde eles estão e, depois disso, batemos em retirada, como se tivéssemos nos acovardado.

-Se acovardado — repetiu Davien — Não é bem o tipo de coisa que eu faria, mas...

-É exatamente o tipo de coisa que você faria, desistir no meio da missão — retrucou Thugles com certo desprezo. Donnie e Vampiritico sorriram.

-Então, está decidido — disse Nuck, por fim — Thugles, deixe um navio preparado pra amanhã às oito horas da noite. Você, Davien, Arroiz e Sheddeer vão lá amanhã, e Vampy, avise-os hoje mesmo.

-Agora mesmo — respondeu Vampiritico, tirando um celular preto com do bolso.

-Ah, Nuck, falando nisso — lembrou Sheddeer — Você esqueceu do Tutor Thief.

-É verdade — concordou Nick — Você disse que tinha arrumado um substituto, mas quem é?

-É um amigo pessoal meu que entende da classe — respondeu Nuck, em um tom que sugeria para não fazerem mais perguntas. Para alívio do líder, Vampiritico ergueu a mão, pedindo silêncio.

-Chefe? — disse ele, baixinho, para o telefone — Eu sei, mas não se preocupe. Não tem ninguém aqui comigo, eles acham que estou ligando pra minha mãe.

Silêncio total na sala. A voz do outro lado da linha aparentemente disse pra ele continuar, porque ele deu um sorriso.

-Eles pretendem invadir amanhã às oito da noite — disse ele, com clareza — Shooter, Cakeman, Willy Molhado e Arregator — ele fez uma pausa — Como assim, se vão sozinhos?

Ele olhou para Nuck esperando que entendesse. O líder ergueu o polegar.

-Ah, certo... sim, só esses quatro. Eles vão... eu? Mas por... ah, não se preocupe. Eles confiam plenamente em mim.

Ele fez uma longa pausa, certamente ouvindo mais instruções. Então, pareceu desapontado.

-Não posso nem colocar uma faca nas costas do Thugles?

Quem quer que estivesse do outro lado respondeu algo que fez Vampitico suspirar, desanimado.

-Tudo bem, então. Sim, eu entendi. Vou fazer o que puder pra...

-Ei, Vampy, vamos logo! — Thugles gritou de repente, colocando as mãos ao redor da boca pra parecer que estava falando de longe.

-Rapidinho! — gritou ele de volta. Então baixou a voz para o telefone — A reunião já vai começar, querem que eu os ajude com os preparativos. Devo... ah, certo. Sim, senhor — então alteou um pouco a voz — Tchau mãe, te amo.

Ele desligou o celular. Os outros relaxaram imediatamente.

-Cara, da próxima vez, seja menos amoroso com sua mãe — disse Thugles, revirando os olhos para cima.

-Já desliguei, não precisa mais fingir.

-Ah, é. Então... Cara, da próxima vez, seja menos amoroso com seu namorado.

-Você está com um celular que comunica com os Black Wings? — perguntou Arroiz, tentando ver o dispositivo que Vampiritico guardava no bolso — Não é perigoso você carregar ele durante as reuniões?

Ele sorriu.

-Cara, de máquinas como essa eu entendo. Não se preocupe, não tem nenhum sistema de escuta aqui, e esse celular é um modelo comum, não tem nada de especial nele. Não é um dispositivo ultra-secreto dos Black Wings, eles não têm como escutar nada depois que eu desligo... mesmo porque eu nunca desligo ele, eu tiro a bateria.

Ele ergueu o celular no ar, exibindo o buraco onde ela deveria estar.

-E o que eram aqueles nomes? — perguntou Arroiz, curioso.

-São os codenames que os Black Wings usam pra se referir a vocês — explicou ele — Eles têm dossiês sobre cada um dos tutores aqui, mas essa parte é... bem, com o outro espião. Mas nós sempre nos referimos a vocês usando esses nomes, para que, no caso de alguém interceptar uma ligação, não descobrirem do que estamos falando.

-E o que era aquilo de "eu?" — Sheddeer, sempre atento, quis saber.

-Meu chefe quer que eu vá com vocês — respondeu ele — Ele quer que eu arrume uma desculpa pra vocês se separarem, e então, ele me diz onde estarão as tropas, pra eu evitá-las.

-E ele não tem medo que pensemos que você está nos atraindo para uma armadilha?

-Ele não espera que vocês saiam vivos dessa, Sheddeer — tornou Vampiritico, com um sorriso zombeteiro.

-Ah, isso me anima muito! — suspirou Nick — Bem, Nuck, está quase na hora das aulas. Podemos...?

-Sim, podem ir para as aulas — Nuck assentiu — E como o Vampy disse... você, Sheddeer e Arroiz escolham uns cinco aprendizes para ir com vocês até lá.

-Só não diga a eles o que o Vampy disse pro Sheddeer — zombou Thugles.

Eles se levataram, e minutos depois o fórum estava vazio. Nuck suspirou e girou a cadeira para trás, olhando para um espaço escuro entre um dos cantos da parede e um armário de madeira.

-Eu sei que você está aí — disse, para a escuridão. Nenhum barulho. Nuck suspirou novamente.

-Kleber, pare de...

-Calma, Nuck, eu estou aqui — riu uma voz debochada e fria atrás dele. Nuck se virou sem se abalar.

Sentado em cima da mesa, estava um rapaz alto e magro, de corpo esguio, pele morena e cabelos pretos desalinhados. Tinha bandagens brancas nos dois antebraços, como se ele tivesse pego faixas de linho brancas e as enrolado nos braços. Seus olhos eram negros e frios, mas com um certo humor sarcástico e debochado que Nuck conhecia tão bem.

-Você sabe que não tem permissão pra ficar aqui nos horários de reuniões, Kleber.

O rapaz chamado Kleber apenas sorriu.

-Você sabe que não adianta tentar me impedir — respondeu ele, o sorriso ainda no rosto. A voz dele era jovem e clara, embora fosse também desdenhosa e um tanto arrogante — Além disso, Davien pode entrar aqui e não é tutor, não é mesmo? E aquele Vampiritico... eu lembro dele aqui na Sala de Reuniões durante as reuniões de tutores, na época em que ele não era tutor.

Nuck não respondeu. Não adiantava discutir com ele.

-Vejo que você fez o que sugeri — continuou ele, balançando as pernas — Não se preocupe, Nuck. Eu sei que você não queria isso, mas...

-Eu tenho certeza que não é a hora de invadir os Black Wings assim, Kleber — disse Nuck, olhando bem para ele.

-E desde quando você é o estrategista? — riu Kleber — Alguma vez meus planos falharam, Nuck?

-Não me provoque — respondeu Nuck — Você sabe que isso não é bem verdade.

Kleber fechou a cara, levantando-se da mesa. Era realmente muito alto para um rapaz tão jovem.

-Você ainda acredita no Davien — afirmou ele — Acha mesmo que fui eu quem...

-Isso não importa mais — Nuck o interrompeu — O PokeStory já era, Kleber. Agora olha o MinarForest, o sucesso que ele está se tornando! Novos patrocinadores, pessoas pra bancar o que precisamos...

-Patrocinadores que eu consegui — Kleber lembrou — Pessoas com dinheiro que eu recomendei pra pagar o fórum. Você sabe que eu sempre quis ajudar.

-Nunca duvidei disso — Nuck replicou, sincero.

-No entanto, você não me dá um cargo decente — lamentou ele — Não me deixa nem me registrar no fórum.

-Você sabe exatamente o por quê disso — retorquiu Nuck — E eu te deixei como substituto temporário do Tutor Thief, lembra?

-É verdade — Kleber respondeu — Mas...

-O que você quer aqui? — perguntou Nuck. Kleber pareceu desapontado.

-Que isso, Nuck, não posso nem visitar um velho amigo...

-Kleber, você é um dos meus melhores amigos — disse Nuck — E sabe o quanto eu estou ocupado aqui, com toda essa correria e os Black Wings ameaçando invadir a cada segundo.

O rapaz deu um sorriso cansado.

-É, eu sei bem disso. Na verdade, eu acho que tenho uma solução pra isso. Uma coisa que... — ele deixou a frase no ar, sorrindo abertamente.

-Uma coisa que eu não vou gostar — deduziu Nuck, suspirando. Kleber assentiu.

-Exatamente! Às vezes eu realmente acho que você sabe ler mentes. Mas não se preocupe. Eu era o estrategista do PokeStory, não era?

Agora, Nuck teve que rir.

-O melhor que eu já encontrei, sem dúvida — disse ele. Kleber também deu uma risadinha — Ah, tudo bem então, senta aí — ele balançou a cabeça em um gesto de derrota, embora ainda sorrisse — Conta logo esse seu plano, antes que eu mude de idéia.

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Era quase madugada no MinarForest. O movimento, que já era pouco de dia, agora estava muito mais tranquilo. Havia em torno de apenas duzentos membros no fórum. Por "membros" não se incluem os faxineiros e trabalhadores, embora eles também sejam membros.

A maioria dos tutores estavam em casa, àquela hora da noite. Thugles também estava na sua, por assim, dizer, casa. Ele tinha casinhas em vários lugares pelo mundo, e a do MinarForest era uma delas. Uma pequenina casa de madeira com três cômodos: quarto, banheiro e um terceiro que servia como sala de estar e cozinha. Naquele momento, estava no primeiro cômodo, dormindo a sono solto.

Havia apenas um tutor acordado no MinarForest àquela hora. E ele estava em uma das áreas mais centrais do fórum, o Mercado Livre.

O lugar era uma das coisas que mais davam prestígio ao fórum. O Mercado Livre era um lugar onde você pode trocar coisas com praticamente qualquer pessoa do mundo. Era uma planície de grama, mas com várias plataformas flutuantes, onde ficavam portais. Cada um deles tinha um número e levava a algum outro lugar, onde tinham estandes com todo o tipo de coisas à venda: armas, frutas, roupas, celulares. As pessoas que queriam vender coisas usadas quase sempre iam até lá.

Os outros também tem números, mas esses são os que aparecem aqui: Mostrar


Ninguém sabia onde o Mercado Livre ficava exatamente, se é que ele realmente existia. Para entrar nele, pegava-se um portal em qualquer uma das cidades principais do mundo. Se você entrasse no mercado livre por Perion, por exemplo, quando você pegasse o portal para sair, você reapareceria em Perion. Por isso, não é possível viajar entre as diferentes cidades usando o Mercado, porque quando você sair dele, o portal te leva para a cidade pelo qual você entrou. O mesmo vale pra qualquer outra cidade — e pro MinarForest.

O fato de o MinarForest ter um portal próprio para o Mercado Livre era uma das coisas que o tornava tão famoso.

Dentro dos portais, as pessoas podem vender e comprar, ou alugar um estande robô para vender seus itens, enquanto os donos estiverem fora. Mas isso apenas dentro dos portais. A planície em si ficava sempre deserta.

Ou quase sempre. Dizia-se que um misterioso homem sempre perambulava por ele, sem nunca entrar nos portais. E naquele dia, um rapaz usando calça preta de moletom, camiseta branca surrada de gola "V", meias brancas em sapatos também brancos e chapéu preto com orelhas procurava por ele.

E ele o encontrou. O rapaz reconheceu o homem facilmente, mesmo àquela distância. Era noite no ocidente, mas ali no Mercado Livre era sempre dia, com céu sempre limpo, e nunca era possível enxergar o sol.

-Donnie — disse o homem, quando o Tutor Fanfic se aproximou. Estava recostado ao portal com o número "6", que ficava em um pequeno pedaço de terra flutuando a uns cinco metros de altura. Ele usava roupas simples, uma camisa vermelha nova e uma calça jeans azul um pouco grande demais. Tinha uma barba preta curta, que cobria praticamente todos os lugares do rosto onde se poderia ter barba. Os cabelos eram longos e da mesma cor da barna, e o mais estranho era que ele usava uma tarja vermelha cobrindo os olhos, o que dava ao homem uma aparência engraçada de alguém que estivesse brincando de cabra-cega.

Aquele homem, porém, estava longe de estar brincando. Muito menos o garoto mais novo parado vários metros abaixo dele.

-Você me prometeu respostas — disse Donnie, olhando fixamente para a faixa vermelha — Disse que encontraria o que preciso se voltasse aqui.

-E não encontrou? — questionou o homem, sem se alterar — Sem você aqui, o que acha que teria mudado?

-Aqueles Black Wings do primeiro ataque teriam conseguido roubar o que quer que tenham vindo roubar. Eu sei, Gui, mas...

O homem mais velho se endireitou, e se teletransportou para o chão à frente de Donnie. O Mercado Livre era um lugar antigo e cheio de magia, onde qualquer um poderia se teletransportar para a plataforma que quisessem, ou para o chão. Ele então olhou fixamente para o rapaz à sua frente. Ou assim parecia — era difícil dizer com aquela faixa.

-Mas você acha que não encontrou nada sobre seu passado — afirmou Gui. Donnie assentiu.

-Você pode me dizer do que você se lembra?

-Já te disse — Donnie respondeu, impaciente — A voz doce... a prisão, a magia negra que... eu...

Gui se aproximou.

-Os Bandidos de Areia. Orbis, os Black Wings. Mate a todos. Termine.

Pareciam apenas palavras aleatórias, mas ao ouví-las, Donnie arregalou os olhos, a respiração ficou acelerada até ele começar a ofegar. Ele olhava fixamente para o chão, mas sem vê-lo. Agora ele via claramente uma pequena casa na areia. Depois, a imagem mudou para a torre de Orbis. E uma deusa, linda como nenhuma mulher que ele jamais conhecera, ofuscada pelo som do tropel de passos de centenas de pessoas de uniformes pretos marchando, com chapéus decorados com uma asa preta e dourada...

Subitamente, ele voltou a si. Percebeu que estava apoiado na borda do portal 5. Ele levou alguns segundos para se recobrar, então virou-se o olhou para Gui.

Se não estivesse vendado, o homem provavelmente teria sido um dos únicos a encontrar Donnie Nirvana com aquela expressão. Susto, olhos violeta arregalados e escuros, numa careta de total espanto que misturava estado de alerta, cansaço e ansiedade. Ele ainda ofegava, e parecia um animal assustado que acabara de reencontrar um predador.

Gui colocou uma mão no ombro do garoto delicadamente.

-Do que você se lembra? — perguntou, a voz firme e calma como antes.

-Minha casa — respondeu Donnie — Eu vi minha casa em Ariant... a deusa Minerva, os Black Wings... e também... — ele arregalou ainda mais os olhos — Espera, você... você sabe! Você conhece coisas sobre meu passado... você sabia de tudo o tempo todo!

-Não exatamente — Gui respondeu, o rosto pacientemente virado para Donnie, que estava furioso — Eu tenho alguns lampejos, assim como você. Mas acho que eu sei um pouco mais do que você sabe agora...

-Então me conte! — Donnie gritou — Vamos, diga-me, em vez de me enviar nessas missões inúteis que não me ajudam em nada.

Gui assentiu, paciente, sem tirar a mão do ombro do rapaz.

-Eu bem que gostaria — disse ele — Mas não posso. E eu não conheço muitas coisas, apenas tenho informações. E eu sei que tudo isso, Donnie, é muito importante. Não sei por que, mas eu sinto... tenho certeza disso. Eu tenho visões, visões sobre lugares distantes, alguns que poucos conhecem, e é por isso que eu o mando para esses lugares. Eu sei que são onde você vai descobrir mais sobre sue passado. Você não sente nenhuma mudança, quando viaja para qualquer uma das regiões que eu te envio?

Donnie assentiu, acalmando-se um pouco. Sempre que ia para algum lugar que Gui o mandava, ele escrevia histórias e procurava relatos para colocar na seção Fanfic do MinarForest. Mas o que ele fazia realmente, era procurar informações sobre seu passado. E sempre que ele ia para algum desses lugares, ele se sentia estranho, como se partes de sua memória — fragmentos minúsculos apenas — lhe fossem devolvidos.

-Sinto — disse ele, por fim — Mas tudo o que tenho são vislumbres. Estou cansado disso, Gui. Quero saber quem realmente sou. E estou começando a achar que você não sabe de nada.

-Cuidado — advertiu Gui, soltando-o — Você sabe que isso não é verdade. Se realmente acreditasse nisso, não me procuraria nem iria para onde eu te envio.

-É porque não tenho mais nenhuma alternativa!

-Você tem — rebateu Gui — Pode se sentar e esperar essa magia negra dominar seu corpo. Esperar com que ela o envolva, exatamente como fez naquele dia, e roubar sua essência, seu corpo, até sua alma murchar e desaparecer.

Donnie se endireitou, repentinamente alerta.

-Como você...

-Eu sei — disse Gui — Sei da magia que luta contra você, e acredite, estou fazendo o possível para encontrar uma solução. Mas o que você pode fazer, é aprender a lutar contra ela, como está fazendo. Eu tenho minhas fontes de informações.

-E você não pode me contar quais são — concluiu Donnie. Gui apertou os lábios.

-Não — confirmou ele — É para o seu próprio bem.

-Que nem nos Meso Rangers — suspirou Donnie — Mas eu acredito em você, Gui. Eu só... não aguento mais isso. Queria muito saber o que aconteceu com meu pai, porque ele deixou minha mãe, e onde ela está agora. Não ter nenhuma lembrança... acho que é pior do que ter lembranças ruins.

Gui apenas assentiu, esperando.

-E pra onde você acha que devo ir agora? — perguntou. Pela primeira vez, Gui sorriu.

-Lugar nenhum — disse ele — Você é mais necessário aqui no fórum, Donnie. Minhas visões... você não precisa delas pra saber o que está por vir, não é?

Donnie assentiu, lentamente. Ele mesmo tinha sensações estranhas — talvez fosse a outra magia que ele carregava — que o deixavam nervoso. Ele sabia que os Black Wings estavam tramando algo. O desaparecimento de Pizza, Mulukou... ele tinha certeza que era obra deles. E sabia que algo estaria por vir.

-Então eu devo ficar aqui e ajudar, e nada sobre meu passado — Donnie concluiu com tristeza.

-Não exatamente — tornou Gui — Você vai acabar descobrindo que as respostas para suas perguntas, muitas vezes, então bem debaixo do nosso nariz.

Donnie balançou a cabeça. Muitas vezes não entendia os ensinamentos de Gui, mas já vira muitos filmes onde um aprendiz impulsivo achava que seu mestre era um idiota, e no final, descobria que os ensinamentos dele estavam corretos o tempo todo. Era um clichê de livros muito comum, mas havia motivos para Donnie ser o responsável pela seção de livros e documentos. Ele sabia que Gui era um excelente mago, e que seus ensinamentos estavam quase sempre corretos. Não era alguém que falava do que não sabia.

Donnie simplesmente assentiu, e percebendo que Gui não falaria mais nada, foi embora. Depois de alguns minutos, o homem voltou à plataforma com o portal 6, e sentou-se de pernas cruzadas.

Ele respirava lenta e tranquilamente, flutuando a alguns centímetros do chão.Provavelmente estava com os olhos fechados, por trás da venda. Mas ele enxergava claramente. Estava flutuando na escuridão, um meio de nada completamente preto, se não fosse pela figura de uma mulher, flutuando no ar à sua frente.

Era uma linda mulher, de cabelos dourados longos, que circundavam todo o corpo dela. Usava uma túnica branca, segurava um cajado com um par de asas na ponta, e uma esfera roxa na outra. Suas feições eram delicadas, e seus olhos mostravam firmeza e capacidade de uma líder, embora também fossem gentis. Cada uma de suas asas era duas vezes maior do que ela.

-Senhora Minerva — disse Gui. Todo o corpo da deusa brilhava, como se ambos estivessem no meio de uma bolha de luz no meio de um mar de escuridão — Mais uma vez, fiz como me mandou.

Ele estava diante dela, embora soubesse que ela estava muito longe dali, aprisionada na forma de uma estátua na Torre de Orbis.

-É fiel, Gui — disse a deusa, sorrindo docemente — Mas não se preocupe. Se ele continuar assim, em breve encontrará as respostas que procura.

-Por que me proíbe de contar a ele o que sei? — o tom de Gui tinha uma certa amargura — Certamente, seria melhor pra ele se soubesse.

-Exatamente o contrário — retrucou a deusa — Se ele souber, iria tentar de tirar da forma desta prisão. A mente dele ficaria instável demais, e ele poderia ser facilmente dominado pela magia. Ele precisa saber de tudo na hora certa, no tempo certo.

-Como a morte da mãe dele — murmurou Gui.

-Exatamente — disse a deusa, com tristeza — Mas isso é algo que ele precisará descobrir sozinho. Quanto ao pai dele... eu não imagino onde ele esteja. Não consigo localizá-lo, tenho certeza que isso acontece por causa dessa maldita prisão.

-Eu posso juntar os tutores pra libertá-la, senhora — ofereceu Gui, mas a deusa apenas sorriu.

-Você sabe que isso não é possível, Gui. O Papa Pixie ainda é muito forte por aqui, o máximo que consigo é me comunicar com você, mesmo assim, por poucos momentos. Sabe que vir até aqui agora não seria prudente. Mas chegará o dia em que finalmente será seguro tentar alguma coisa...

-O eclipse — sussurrou Gui.

-O momento em que todos os duendes ficam mais fracos. Exatamente. Mas ainda falta muito pra esse momento, e mesmo durante o eclipse, os duende não são fracos. Não, Gui. Enquanto eu estiver nessa forma de estátua, você deverá instruir Donnie, para que ele aprenda a controlar a magia que habita dentro dele. É uma grande magia que ele precisa dominar, ou ele o dominará. Um dia, ele será o líder da missão que irá me resgatar... ou me destruir de um vez por todas.

Gui assentiu. Sentia necessidade de fazer mais perguntas à deusa, mas lembrou-se de que ele próprio dizia a Donnie para que esperasse o momento certo. Contentou-se com o que sabia, a magia misteriosa e maligna que vivia dentro do corpo do Tutor Fanfic. Passaram-se alguns minutos de silêncio, e Gui sentiu as pernas cruzadas tocarem a grama verde do Mercado Livre.