MinarFic
27 Cap42
A tarde chegou em El Nath, mas parecia passar muito rapidamente para Giu. Ela se deu conta de que era a primeira vez que se divertia tanto assim fora de Ellinia.
De início, ficou com medo de que a tribo a culpasse pela morte de dois(ou melhor, três, contando o que ela matara) dos homens da neve. Mas os Kerkagar eram uma tribo antiga e, de várias formas, estranha. Eles não declaravam luto oficial quando alguém importante morria. Em vez disso, festejavam com muita alegria, comida e principalmente, como ela logo descobriu, bebida.
Ela não achou justo que celebrassem a morte de um conselheiro importante como Agramungrad, mas quando perguntou isso a Tony, o rapaz ergueu as sombrancelhas.
—Que sentido há em ficar triste e de cabeça baixa com a morte de alguém? — ele tinha dito — É muito melhor festa e comida. A passagem de um homem para o reino dos deuses, que morreu por uma causa nobre — você — é uma ocasião a ser celebrada, e prefiro que seja com festa e bebida. E garotas bonitas.
Ele deu uma piscadela, que Giu se esforçou ao máximo para não notar.
O resto do dia foi, realmente, uma grande festa. Grandes animais de quatro patas eram assados em espetos girando sobre fogueiras, com pele e tudo, temperados por uma espécie de vassoura mergulhada em baldes. Não parecia muito higiênico, mas o cheiro era incrível com meia dúzia desses animais. E como ela logo foi descobrir, o gosto fazia jus ao cheiro.
Enquanto a maior parte dos adultos bebia e contava histórias alegremente, Tony guiou Giu para conhecer a aldeia. Não era um lugar muito grande, havia umas poucas casas de pedra dispostas num círculo ao redor da praça central, sendo que a maior delas era a Grande Casa onde os Barbas Velhas tinham se reunido. Uma pequena montanha de uns dez metros de altura no formato de meia ferradura tinha uma das extremidades logo aos fundos da Grande Casa e contornava parte do círculo de construções. Atrás dela ficava uma minúscula vila de umas trinta casinhas menores de pedra, onde moravam os demais membros. Havia ali uma ferraria, destacando-se pela forja que parecia um poço circular raso com uma chaminé cinzenta. Outros locais importantes incluíam um curtume, o açougue, artesãos e uma grande biblioteca, e foi onde o passeio teve uma pequena pausa — enquanto Tony Renner abastecia-se com comida lá na praça, ela ficou lendo alguns exemplares da história dos Kerkagar.
A maioria dos livros eram novos, escritos em papel resistente e tendo capas de couro de animal muito resistentes, mas também havia outros exemplares muito antigos. Ela leu sobre eles, sobre os ancestrais de séculos atrás, suas inúmeras vitórias em guerras, uma dezena de batalhas cujos nomes eram antecedidos pela palavra "Grande" e também achou vários exemplares falando sobre métodos de ferraria e esfolamento de animais, que ela descartou rapidamente.
Em um dos livros, viu algo sobre uma magia que nunca tinha visto antes — antes de Ragnak usar nela, quer dizer — e sua curiosidade despertou. Aparentemente, era um tipo de magia em que se usava o poder das próprias palavras, e ela se lembrou que, antigamente, os Kerkagar valorizavam mais a força do que a sabedoria das palavras. Aparentemente, aquela magia misturava as duas coisas.
—Ang... Ka Mal! — ela gritou, mas nenhum brilho se fez surgir de sua boca, nenhuma magia especial saiu dela.
—Está tendo problemas com lobos? — riu uma voz atrás dela — Não posso nem te deixar sozinha que já se mete em perigo?
Giu virou-se na cadeira. Tony aproximava-se rindo, a camisa branca com uma mancha de gordura de carne.
—O quê?
—Lobos — repetiu Tony — Esse é o Grito da Desfúria. Usamos para acalmar lobos furiosos quando queremos evitá-los.
—Oh. Não usei de propósito. Não existe um que espante garotos inconvenientes?
—Hum... Acho que não — Tony respondeu pensativo, sem captar a referência da menina — Você poderia tentar o do Medo, mas mesmo assim... Por que a pergunta? — ele voltou a exibir os dentes brancos — Essa magia é secreta, sabe? É preciso anos pra aprender a usá-la. Eu poderia ensiná-la — e sorriu.
—Mas não leva anos?
—Leva! E você seria minha aluna! Legal, né?
O sorriso dele era mais e mais largo. Giu suspirou e sacudiu a cabeça, alegando fome. Tony a levou para junto dos demais.
Depois de comer carne(não havia praticamente nada para beber que não tivesse álcool ou ervas de gosto ruim, então Giu tomou água) e ser saudada por Frogrand, um dos dois Kerkagar que tinham falado com ela quando acordara, Grania veio com uma turma de amiguinhos. Giu se perguntou o que as crianças dali faziam no tempo livre — por um segundo temeu que bebessem ou armassem lutas, mas elas tinham idéias de diversão muito diferentes: pega-pega.
Era aparentemente a brincadeira favorita das crianças, principalmente pelo fato de que todas as crianças da tribo brincavam ao mesmo tempo, o que daria pelo menos umas vinte. Giu não se saía bem, ainda não estava acostumada a correr no frio — mesmo com a magia curativa protegendo seu corpo, o frio ainda lhe roubava um pouco das energias. Ela preferiu esconde-esconde, o que era muito divertido com toda aquela neve.
E mesmo entre as crianças, havia o natural espírito guerreiro da tribo — foram para um ponto mais afastado onde a neve era mais profunda, e começaram a construir fortificações com ela e grandes bolas de neve. O objetivo era destruir as fortificações inimigas usando as bolas como artilharia e acertar os defensores das mesmas. Dividiram-se em cinco times que formavam alianças, pactos de não-agressão e declaravam guerra uns contra os outros. Depois de ser humilhada no pega-pega e sofrer alguma desvantagem no esconde-esconde, Giu não teve rodeios em usar seu martelo para causar alguns pequenos terremotos. Pedaços de pequenos castelos caíam como minúsculas cascatas e arrastavam crianças, o que deu a vitória para o time de Giu.
—Salve Giu, mestre guerreiro! — exclamavam os membros de seu grupo. A menina teria sorrido, mas não gostou nada do título masculino. Mas gostou da brincadeira, e logo estavam construindo mais muros e fortificações ainda maiores. Precisavam, no entanto, esperar um tempo para que a neve derretida endurecesse com os tijolos ao redor, formando algo tão resistente quanto cimento.
—Enquanto esperamos — sugeriu Vilod, um garotinho — Que tal mostramos a entrada proibida pra Giu?
A sugestão foi recebida com vivas. Grania explicou que a entrada proibida era uma espécie de caverna amaldiçoada perto dali, e que ninguém tinha permissão para entrar. Mas não havia perigo se só chegassem perto. Naturalmente, os adultos não permitiriam se soubessem, mas a proibição que haviam recebido só os impedia de entrar, tecnicamente, não de visitar [i]a entrada[/i]. As crianças iam para lá sempre que tinham uma chance — e todos os adultos reclamões da cidade bebendo era uma ótima chance. Giu deu de ombros e aceitou. Se aquelas crianças não tinham medo, ela também não teria — pois Giu não era criança, de jeito nenhum.
Perto dali, escondido sobre um monte de neve, uma figura silenciosa os observava. E não era um adulto Kerkagar prestes a dar uma bronca em criancinhas levadas. Era um lutador, um espião treinado para matar.
Remexeu no bolso e procurou uma pena e um papel. Aquela era uma excelente oportunidade para sofrerem um ataque.
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No dia seguinte, no MinarForest, a Sala de Reuniões estava mais uma fez fazendo jus ao seu nome. O espaço de tamanho de um pequeno depósito, a mesa triangular no centro ocupando a maior parte dela, logo abaixo da lâmpada que deixava na penumbra os espalos entre os armários de aço ao redor. Várias cadeiras estavam vazias: Davien, Nick e Arroiz eram os únicos ocupantes além de Nuck, sentado em sua cadeira vermelha, e do convidado especial, de pé ao lado dele, pele negra magra e coberta por uma túnica azul estrelada.
—...e a magia do portal me revelou isso hoje. Felizmente, cheguei antes do Nuck reiniciar a seção Magician... Senão jamais poderíamos ter tido essa pista... Mas felizmente, agora tenho certeza de que ela se encontra nas geleiras...
—Grande ajuda — Davien resmungou de sua cadeira, na extremidade quebrada onde deveria estar a ponta do triângulo — Sempre soubemos que ela estava em El Nath. Já posso voltar à seção Warrior? Tenho trabalho a fazer.
Aphanyus o estudou com seus olhos profundos.
—Perdão — disse ele, calmamente — Mas em algum momento eu disse "El Nath?"
Davien engasgou, aturdido. Alguns dos tutores riram.
—Ela está nas geleiras — Aphanyus continuou antes que o guerreiro pudesse responder — Sempre soubemos disso... Mas algo sempre me intrigou, e descobri a resposta quando fui analisar o código-fonte da seção Magician. O portal, se não se lembram. E então eu vi... Como a agulha de uma bússola que sempre aponta para a mesma região, sem erro, esta apontou para Giu, novamente, sem erro algum...
Nick tossiu, pouco á vontade.
—Hã... Ótimo... E isso em língua franca significa que...
—Sempre me perguntei por que eu não conseguia identificar o menor traço de Giu em El Nath — Aphanyus continuou — Então eu me lembrei que isso acontece porque não tenho poder de rastrear as pessoas. [i]Depois[/i] eu me perguntei se havia algum motivo pra acharmos que ela estava em El Nath... Donnie tinha dito que sonhou com Giu num monte de gelo, vocês falaram algo sobre Kerkagar estar conectado a isso tudo, mas ainda assim...
O olhar de Nuck e de Arroiz se encontrou. Havia mais: supostamente, um menino de olhos dourados chamado Fpkforhero aparecia para Donnie às vezes com informações proféticas e coisas do gênero, e uma delas indicava que o único que sabia da misteriosa magia de Duh era Kerkagar. Então Giu desapareceu subitamente, no que eles deduziram que ela tinha sido enviada até El Nath com o propósito de encontrar o tal Kerkagar.
—E os sinais que restaram da seção Magician apontaram para nordeste, na direção de El Nath — completou Nuck — Sim. Por isso faz todo o sentido que ela esteja lá.
—Eu também — Davien falou com amargura. Nuck suspirou.
—Seja como for, se Giu está ligada à magia do Duh... Bem, Kerkagar está em El Nath, até onde sabemos. Há gelo em El Nath... E o resto de magia da Seção Magician foi, como você disse, a agulha de uma bússola que apontava para nordeste. Bem na direção de El Nath — ele franziu a testa, sem entender onde o homem queria chegar — Tudo se encaixa perfeitamente.
[align=center][img]http://img593.imageshack.us/img593/1344/o28x.png[/img][/align]
—Talvez... — disse Aphanyus, distraído em pensamentos — Será que temos mesmo certeza? Andei pensando... Talvez tenhamos olhado por [i]detrás[/i] da agulha, e não de frente, como acreditamos. É como um espelho, que sempre nos mostra a imagem invertida, não uma representação fiel da imagem.
—Como assim? — Nick perguntou sem entender. Arroiz bateu de leve na mesa.
—Eu acho... que estou entendendo. Pense numa agulha que aponta para cima e para a direita, numa diagonal. Isso é nordeste, não é? Mas se nós estivermos olhando ela pelo lado de trás, ou através de um espelho...
—Então seria noroeste — Nuck completou, compreendendo o raciocínio. De repente sua expressão se desanuviou — As Montanhas Congeladas! Ficam a noroeste daqui... Gelo...
Nick sufocou um suspiro.
—Então é por isso que parecia estranho a Giu ter sido mandada pra tão longe. Ela foi mandada pras Montanhas Geladas, mais próximas! — exclamou.
—Esperem — Davien opinou incrédulo — E quanto áquele negócio da magia do Duh? Você, Nuck, não disse que isso tudo tem a ver com Kerkagar? E se ele está em El Nath...
—Sabemos que houve uma tribo que usava a magia do Duh no passado — lembrou Nick — Sabemos também que eles foram dizimados em El Nath, mas isso não significa que Kerkagar esteja lá. Mesmo assim, o que as Montanhas Geladas teriam a ver?
—A caverna do Horntail fica nas Montanhas — Arroiz disse lentamente — E foi Duh quem o derrotou. Segundo se diz, Duh absorveu a magia dele... Isso também torna o lugar como algo que tem a ver com a magia do Duh.
—Sim — Aphanyus assentiu animado — O arqueiro, Sheddeer, está procurando no lugar errado agora. O verdadeiro lugar é as Montanhas Congeladas. Estamos procurando algo relacionado a dragões, e dragões vivem na floresta Minar e nas Montanhas. Não vi nenhum dragão em El Nath todo o tempo que faço pesquisa lá, e Kerkagar talvez esteja na caverna do Horntail... Agora que não tem mais Horntail lá...
Nuck levantou-se de sua cadeira, as mãos na mesa.
—Pois agora, Davien, você finalmente entende [i]por que[/i] eu o mantive aqui no MinarForest. Era exatamente pro caso de uma situação como [i]essa[/i] surgir. Você e Nick podem ir com Arroiz até lá. Aphanyus, se quiser ir com eles...
—Todos os quatro? — espantou-se Arroiz — Mas se o fórum for atacado...
Nuck mostrou a leve sombra de um sorriso.
—Deixe isso comigo. Enquanto reconstruíamos o fórum, passei um bom tempo trabalhando em magias de proteção, e agora o fórum está seguro. Desde que eu esteja aqui para mantê-las ativas, não precisamos nos preocupar com ataques, ainda mais agora que os Black Wings estão com exércitos reduzidos. Além disso, temos a Guarda Oficial de serviço.
Seu tom soava decidido e determinado, mas foi como se a luz tivesse tremeluzido um pouco. Davien e os dois tutores se lembravam da pedra que os Black Wings possuíam, aquela que podia dar vida a coisas inanimadas. Se eles conseguissem usá-la para criar um exército, então as magias de proteção com que Nuck contava realmente seriam postas à prova.
Davien se levantou, flexionando os músculos. Finalmente, o período de inatividade tinha acabado.
—Então vamos logo com isso. Não aguento mais essa história de Giu desaparecida. Vou mandá-la pessoalmente de volta para Ellinia quando a trouxermos.
—Talvez ela possa perguntar se seu capacete Zakum está pronto — brincou Arroiz. Davien não achou graça.
—Eu vou se você me emprestar sua armadura de Manon — rosnou, e o tutor Warrior repentinamente ficou sério e se levantou também.
—Muito bem, Nuck, Davien tem razão. Devemos partir imediatamente. Tem certeza de que não há problema? O fórum estará mesmo seguro?
Já havia passado o tempo em que ele relutaria em perguntar se Nuck era capaz de garantir a segurança do próprio fórum. O administrador assentiu e eles deixaram a Sala de Reuniões, Aphanyus indo para a reformada seção Magician.
Nuck se viu de pé diante do Prédio Principal, e ergueu a coluna. Sentia-se alegre, como se um peso tivesse sido retirado de suas costas. Estavam finalmente procurando na direção certa, depois de tanto tempo olhando para o lado errado. Foi a primeira vez que ele notou que pássaros cantavam nas árvores, que pareciam muito mais bonitas do que quando ele as olhava com a ameaça dos Black Wings pairando à sua volta. Agora, só precisavam avisar a Sheddeer para que voltasse.
Nuck não se deu conta de que contemplava o fórum em pensamentos havia quase duas horas até um pássaro passar por cima dele, jogando-lhe uma carta. Ele riu com o acaso: era de Sheddeer, reconhecia a caligrafia complicada do rapaz — difícil de ler, de uma forma que somente ele e os tutores, acostumados com aquelas letras, conseguiriam identificar a mensagem facilmente, enquanto um inimigo que por acaso interceptasse a mensagem teria muito mais dificuldade. Ele abriu o envelope e leu a mensagem escrita com uma pena.
"[i]Encontrei-a. Ela está bem e brinca com uma tribo local em clima de amizade, não parece haver o que temer deles. Mas há uma tribo inimiga que vai se aproveitar das festas e vai tentar invadir, e tenho certeza que Kerkagar está na tribo amiga. Preciso que você envie Davien, Arroiz e, se possível, Aphanyus para cá o mais rápido possível ou não teremos chance. Posso esfriar a situação por alguns dias até que eles cheguem, mas não por muito tempo.
Não se preocupe com ela, farei o possível para protegê-la.[/i]"
Nuck ergueu os olhos da carta e olhou para o oeste, na direção da Floresta Vermelha, que ficava entre o MinarForest e as Montanhas. A essa altura, Davien e os demais já teriam entrado nos desfiladeiros. Levaria dias até uma equipe de busca encontrá-los, isso se o fizessem — não, teria que esperar até que os três voltassem.
E Davien era determinado. Não voltaria enquanto não achasse Giu.
—Não... não...
As árvores perderam o brilho e os pássaros silenciaram novamente. Nuck caiu de joelhos, enterrando o rosto nas mãos.
[spoiler]
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